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sábado, 11 de abril de 2020

UMA DEGUSTAÇÃO DO NOVO ROMANCE DE MENALTON BRAFF

Para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer o romance "Além do Rio dos Sinos", de Menalton Braff, aqui vai um fragmento do texto.


Boa leitura!

Além do Rio dos Sinos  (fragmento)

O vento, de repente, dá uma rabanada na mudança de direção, e a mulher tem de enxugar com a palma da mão os respingos do rosto. O marido, ocupado na condução dos bois de volta ao meio da estrada, olha de viés para Florinda e supõe que ela esteja mais uma vez chorando. A mulher intui a irritação do marido, seu rosto duro, pois sente-se ele provavelmente acusado pelo que considera as lágrimas da esposa. A decisão de vir morar no alto do morro do Caipora tinha sido tomada depois de muita briga, muito choro, diversas ameaças. Fora uma decisão arrancada com alguma violência. Que outra solução, hein? Houve momentos em que os berros de Florinda diziam que ela preferia morrer a se mudar para aquela beirada de inferno, apenas suposto e às vezes descrito por Nicanor, nunca, porém, imaginado tão feio como agora podia ver.
E ele, com voz muito áspera:
− Tu vai começar tudo de novo?!


PRIMEIRA PARTE

Difícil reconhecer na cara triste do dia o ponto, o tanto, o quanto dele resta. Por causa do chuvisqueiro em que haviam penetrado manhã a meio e que parece ainda agora a dissolução do céu que, renitente, se asperge sobre a terra. Principalmente por cima dos morros em cujos cumes jazem as nuvens. Morros montanhas, escuros, tenebrosos.
Uma pata larga resvala coisa de oitenta centímetros: sulco longo, o mundo marcado. O boi brasino, sem outro nome além do pelo, se ajoelha e arrasta uma braça o hosco seu companheiro, que, pescoço torto a ponto de um gemido, se firma nas quatro patas cravadas no barro e bufa querendo saber, aquele peso, a carreta chacoalha e um dos meninos resmunga. É a hora que Florinda desce os olhos pela vertente do morro mais próximo e examina o interior escuro da carreta. Só olha e pouco vê debaixo da tolda. O chuvisqueiro arranca brilhos escuros das folhas das árvores mais próximas e molha aquelas encostas por onde se vai ao céu. O chuvisqueiro.
Ao virar a cabeça outra vez para a frente, para o mais claro, e encarar a tamanha altura, sente medo de que o alto cume se despenhe por cima da carreta, e reage subitamente encolhendo-se um pouco e mantendo os músculos retesados. O medo. É com raiva que volta a olhar para o alto. Com toda sua raiva. Olha com sentimento de desafio. Então vê uma testa enrugada, as sobrancelhas erguidas, a carantonha aterradora do morro. Uma coisa grandiosa a espreita e ameaça. Desvia os olhos para a estrada a sua frente, as mãos suadas. A antipatia nascida das palavras de Nicanor agora cresce ilimitada com a visão aguada dos morros.
Há muito tinham deixado o Angico para trás, encolhido pelo chuvisco. Debaixo. Percorreram os três quilômetros de casas esparsas na beira da estrada sem uma única palavra. Foi aqui, ela pensou. O passado chegando em forma de notícia. Expulsos da roça pelo chuvisqueiro, homens debaixo de seus chapéus vêm à porta das bodegas com os cálices na mão para se interrogarem sobre uma carreta toldada, quem é que é?, quem é que pode ser?

[...]

− Tu vai começar tudo de novo?!
Em sua voz trovejam ameaças de quem tem o futuro preso entre os dedos, senhor dos destinos. Florinda demora-se um pouco para responder. “Tudo”, uma palavra tão ampla quanto vazia, ela agora vai preenchendo com as brigas do casal, sua recusa de sair aventurando-se por aí para seguir um marido, suas várias recusas, todas muito enfáticas, de se mudar para o alto de um morro apenas conhecido pelas descrições de Nicanor, imaginado como um inferno rente ao céu pela dureza das palavras com que o marido se referia ao lugar onde tinha nascido. Ela sente raiva na pergunta do marido e lhe devolve em ressentimento, além de uma vontade imensa de agredi-lo, sua resposta. Começar o quê? A sensação de estar sendo arrastada por esta mão bruta pelo barro da estrada lodosa sem qualquer possibilidade de retorno, como uma praga, um castigo, com destino marcado, essa sensação, desde a morte do pai, jamais deixara de sentir. Se estava pagando por atos passados, continuaria a pagar até a última gota de vida. Para tanto estava com o coração petrificado.
− E a pior coisa é essa asnice de achar que eu estou chorando. Já chorei tudo que tinha de chorar. Deixei minhas lágrimas na terra que foi do meu pai. Agora a fonte secou. Nunca mais tu vai ver lágrima descendo pelo meu rosto. Então não vê que foi a chuva que me molhou? Por que tanta asnice assim?
A voz de Florinda sobe como do estômago por canal apertado e áspero e não sai pela boca, mas da boca vai caindo aos pedaços.
Zuleide, acomodada sobre um pelego entre dois sacos, solta o berreiro da fome e a mãe, muito brusca, abandona o banco e engatinha por cima de objetos e filhos até a criança. Ainda bem, pensa a mãe enquanto descobre o peito. Ainda bem, porque Nicanor dava sinais de querer continuar a discussão.
A boquinha aberta, a cabeça agitada, não há necessidade de luz para que a menina encontre o mamilo para sugar-lhe a seiva. Percebendo a proximidade da mãe, Breno, o filho de seis anos com voz chorosa, se queixa de fome. Espera tua vez, meu filho. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo. O embalo de ritmo irregular da carreta prossegue e o menino dá a impressão de ter adormecido.
Da posição em que se pôs para amamentar a filha, Florinda pode atravessar com os olhos uma fresta na tolda que protege a traseira da carreta e divisa o cavalo baio que, preso pelo cabresto, segue a passo moroso o andamento dos bois. Seu lombo molhado, as orelhas murchas. Ele, esse cavalo, fez parte dos acertos de contas, somado a outras coisas, umas migalhas, e algum dinheiro. Pouco dinheiro. Um velhaco ganancioso, aquele seu irmão. Que sua vida seja para sempre um inferno. A mãe se esforça por não se irritar ainda mais com aquilo, pois leite de mãe irritada causa dor de barriga na criança. Não é assim? Prefere olhar para cima, procurando furos na lona da tolda. Mas depois de descobrir uns dois ou três sem tamanho que preocupe, ela se cansa e se volta para a filha, que parece insaciável. Por fim, vencida pela impaciência, e com voz abafada que mal chega aos ouvidos de Nicanor:
− Ainda falta muito, Nicanor? As crianças não aguentam mais.


Gostou do texto?
Caso tenha interesse, você pode adquirir o seu exemplar na loja virtual da Editora Reformatório.  Basta clicar.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

UMA DEGUSTAÇÃO DO NOVO ROMANCE DE BRAFF

Falta pouco para a lançamento do novo romance de Menaton Braff, "Além do Rio dos Sinos" pela Editora Reformatório. 

Para você ter uma ideia do que vem por aí, postamos, a seguir, um pequeno fragmento. Boa degustação!

Além do Rio dos Sinos  (fragmento)




O vento, de repente, dá uma rabanada na mudança de direção, e a mulher tem de enxugar com a palma da mão os respingos do rosto. O marido, ocupado na condução dos bois de volta ao meio da estrada, olha de viés para Florinda e supõe que ela esteja mais uma vez chorando. A mulher intui a irritação do marido, seu rosto duro, pois sente-se ele provavelmente acusado pelo que considera as lágrimas da esposa. A decisão de vir morar no alto do morro do Caipora tinha sido tomada depois de muita briga, muito choro, diversas ameaças. Fora uma decisão arrancada com alguma violência. Que outra solução, hein? Houve momentos em que os berros de Florinda diziam que ela preferia morrer a se mudar para aquela beirada de inferno, apenas suposto e às vezes descrito por Nicanor, nunca, porém, imaginado tão feio como agora podia ver.
E ele, com voz muito áspera:
− Tu vai começar tudo de novo?!


PRIMEIRA PARTE

Difícil reconhecer na cara triste do dia o ponto, o tanto, o quanto dele resta. Por causa do chuvisqueiro em que haviam penetrado manhã a meio e que parece ainda agora a dissolução do céu que, renitente, se asperge sobre a terra. Principalmente por cima dos morros em cujos cumes jazem as nuvens. Morros montanhas, escuros, tenebrosos.
Uma pata larga resvala coisa de oitenta centímetros: sulco longo, o mundo marcado. O boi brasino, sem outro nome além do pelo, se ajoelha e arrasta uma braça o hosco seu companheiro, que, pescoço torto a ponto de um gemido, se firma nas quatro patas cravadas no barro e bufa querendo saber, aquele peso, a carreta chacoalha e um dos meninos resmunga. É a hora que Florinda desce os olhos pela vertente do morro mais próximo e examina o interior escuro da carreta. Só olha e pouco vê debaixo da tolda. O chuvisqueiro arranca brilhos escuros das folhas das árvores mais próximas e molha aquelas encostas por onde se vai ao céu. O chuvisqueiro.
Ao virar a cabeça outra vez para a frente, para o mais claro, e encarar a tamanha altura, sente medo de que o alto cume se despenhe por cima da carreta, e reage subitamente encolhendo-se um pouco e mantendo os músculos retesados. O medo. É com raiva que volta a olhar para o alto. Com toda sua raiva. Olha com sentimento de desafio. Então vê uma testa enrugada, as sobrancelhas erguidas, a carantonha aterradora do morro. Uma coisa grandiosa a espreita e ameaça. Desvia os olhos para a estrada a sua frente, as mãos suadas. A antipatia nascida das palavras de Nicanor agora cresce ilimitada com a visão aguada dos morros.
Há muito tinham deixado o Angico para trás, encolhido pelo chuvisco. Debaixo. Percorreram os três quilômetros de casas esparsas na beira da estrada sem uma única palavra. Foi aqui, ela pensou. O passado chegando em forma de notícia. Expulsos da roça pelo chuvisqueiro, homens debaixo de seus chapéus vêm à porta das bodegas com os cálices na mão para se interrogarem sobre uma carreta toldada, quem é que é?, quem é que pode ser?

[...]

− Tu vai começar tudo de novo?!
Em sua voz trovejam ameaças de quem tem o futuro preso entre os dedos, senhor dos destinos. Florinda demora-se um pouco para responder. “Tudo”, uma palavra tão ampla quanto vazia, ela agora vai preenchendo com as brigas do casal, sua recusa de sair aventurando-se por aí para seguir um marido, suas várias recusas, todas muito enfáticas, de se mudar para o alto de um morro apenas conhecido pelas descrições de Nicanor, imaginado como um inferno rente ao céu pela dureza das palavras com que o marido se referia ao lugar onde tinha nascido. Ela sente raiva na pergunta do marido e lhe devolve em ressentimento, além de uma vontade imensa de agredi-lo, sua resposta. Começar o quê? A sensação de estar sendo arrastada por esta mão bruta pelo barro da estrada lodosa sem qualquer possibilidade de retorno, como uma praga, um castigo, com destino marcado, essa sensação, desde a morte do pai, jamais deixara de sentir. Se estava pagando por atos passados, continuaria a pagar até a última gota de vida. Para tanto estava com o coração petrificado.
− E a pior coisa é essa asnice de achar que eu estou chorando. Já chorei tudo que tinha de chorar. Deixei minhas lágrimas na terra que foi do meu pai. Agora a fonte secou. Nunca mais tu vai ver lágrima descendo pelo meu rosto. Então não vê que foi a chuva que me molhou? Por que tanta asnice assim?
A voz de Florinda sobe como do estômago por canal apertado e áspero e não sai pela boca, mas da boca vai caindo aos pedaços.
Zuleide, acomodada sobre um pelego entre dois sacos, solta o berreiro da fome e a mãe, muito brusca, abandona o banco e engatinha por cima de objetos e filhos até a criança. Ainda bem, pensa a mãe enquanto descobre o peito. Ainda bem, porque Nicanor dava sinais de querer continuar a discussão.
A boquinha aberta, a cabeça agitada, não há necessidade de luz para que a menina encontre o mamilo para sugar-lhe a seiva. Percebendo a proximidade da mãe, Breno, o filho de seis anos com voz chorosa, se queixa de fome. Espera tua vez, meu filho. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo. O embalo de ritmo irregular da carreta prossegue e o menino dá a impressão de ter adormecido.
Da posição em que se pôs para amamentar a filha, Florinda pode atravessar com os olhos uma fresta na tolda que protege a traseira da carreta e divisa o cavalo baio que, preso pelo cabresto, segue a passo moroso o andamento dos bois. Seu lombo molhado, as orelhas murchas. Ele, esse cavalo, fez parte dos acertos de contas, somado a outras coisas, umas migalhas, e algum dinheiro. Pouco dinheiro. Um velhaco ganancioso, aquele seu irmão. Que sua vida seja para sempre um inferno. A mãe se esforça por não se irritar ainda mais com aquilo, pois leite de mãe irritada causa dor de barriga na criança. Não é assim? Prefere olhar para cima, procurando furos na lona da tolda. Mas depois de descobrir uns dois ou três sem tamanho que preocupe, ela se cansa e se volta para a filha, que parece insaciável. Por fim, vencida pela impaciência, e com voz abafada que mal chega aos ouvidos de Nicanor:
− Ainda falta muito, Nicanor? As crianças não aguentam mais.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 20 – A ESPERANÇA POR UM FIO


Com o pai morrendo no hospital e as contas atrasadas, Artur entra em desespero. De onde tirar forças para enfrentar o mundo, arrumar emprego, continuar estudando e declarar seu amor por Marília, seu único apoio?

A sinopse acima é do livro A ESPERANÇA POR UM FIO, editado em 2003, pela Ática. Publicamos, a seguir, o primeiro capítulo da novela juvenil.


Para saber mais, acessse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.

A esperança por um fio – Menalton Braff

E agora?

Faz mais de duas horas que estou aqui sentado, nesta sala abafada e deserta. Sem movimento algum, parado em mim, embrutecido, com esta minha cara de palerma me latejando. Desde hoje cedo submergi num pesadelo de que não consigo acordar. Faz mais de duas horas que respiro este ar insuportável que me arranha a pele e o esôfago, com aquela raiva doentia que só medra em recintos de horror. A mancha de sol que encontrei estatelada aí ao lado da mesinha já se arrastou pelos tacos do assoalho e escalou a parede, sumiu. Eu sinto que a sala me estranha, cheia de hostilidade, mas não consigo sair daqui.

– Esteja preparado, Artur, seu pai está muito mal. Amanhã vamos saber melhor qual o verdadeiro estado dele.

Desde que saímos do hospital, minha mãe não me dissera mais nada. Só isso. No táxi, ela enfiou os olhos pela janela de seu lado e assim ficou: tesa, metálica. Mal pusemos os pés dentro de casa, ela me

domingo, 10 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 19 – COPO VAZIO

"O protagonista deste romance é um adolescente que desobedece, não é nada ingênuo, comporta-se mal, não gosta de estudar e comete algumas incoerências....Júlio pode ter vários defeitos, mas seu coração é do tamanho do mundo...."

O primeiro capítulo de COPO VAZIO, está publicado a seguir. O romance juvenil foi publicado em 2010, pela FTD.

Para saber mais, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.

Copo vazio   Menalton Braff

Capítulo 1

Ramo perigoso

Deste jeito não consigo dormir. Preciso jogar uma água no rosto e nos braços, e isso com muito silêncio, porque a coroa, quando sã, tem sono leve. Se ela me pergunta o que faço aqui no banheiro, me lavando, a uma hora destas, o que é que eu posso responder? Acho que já passa da meia-noite. Me embarrei todo procurando um mocó ajeitado, mas acabei achando.

Não, a descarga é muito barulhenta: vai ficar assim. Qualquer mancha de barro na toalha, amanhã a coroa vai querer saber o que aconteceu. Até agora tudo nos conformes. Cara, estou orgulhoso de você: tarefa cumprida. A dona Alzira diz que este meu sorriso é cínico. Cínico coisa nenhuma. Meu sorriso é igual ao dela. Agora é tomar um copo de leite quente

sábado, 9 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 18 – COMO PEIXE NO AQUÁRIO

"Rita comete uma falta grave para conseguir igualar-se às amigas e sente-se então como peixe no aquário, prisioneira das consequências do seu ato.

Gostou desse enredo? Veja como começa a história no primeiro capítulo do livro COMO PEIXE NO AQUÁRIO, lançado em 2004, pela SM, que publicamos a seguir.

Para mais informações, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.


Menalton Braff. Como peixe no aquário

Capítulo 1

No fundo do baú

Aquele seu medo que já dura quase cinco meses mais parece uma gravidez redonda e latejante a lhe esticar a pele, um esforço pesado, uma espécie de rancor latente. Mesmo nos momentos em que a mente deveria estar distraída com as futilidades da vida, lá está seu medo, como um tumor agachado no canto escuro, espiando. Pode não tê-lo na frente dos olhos, pode até esquecê-lo por causa do costume, não pode, entretanto, desfazer-se da pele esticada. A fadiga já lhe rouba o gosto da vida: ainda bem que vai chegando a hora de resolver seu destino. O dinheiro está de

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 17 − NO FUNDO DO QUINTAL

Uma aventura no quinal da casa para onde acabaram de se mudar. É o que vivem os irmãos Eugênio e Fernanda nesse romance juvenil que apresentamos hoje na série Degustação.

A seguir, o primeiro capítulo de NO FUNDO DO QUINTAL, lançado em 2010, pela FTD.

Saiba mais, na página do livro, aqui no BLOG DO MENALTON.

Menalton Braff. No fundo do quintal

Um barulho estranho

Então eu paro, teso pensante, parado olhando. Olho pra trás e pra frente. Nossa trilha não progrediu grande coisa, mas agora o mato é mais ralo e menos grosso, acho que vamos abrir mais rápido. Nas árvores, estas troncudas aí, não mexo, elas ficam como estão. O que preciso derrubar são estas varetas de canela fina e arrancar o mato rasteiro pra deixar uma trilha de terra. A Fernanda me diz que estou brilhando, o rosto e o peito suados. O sol não dá folga e aqui o ar não se mexe de tão velho que é o lugar. A Fernanda está sequinha porque não faz força. Às vezes eu brigo com a Fernanda, principalmente quando não entende o que eu quero e me parece que não entende porque não quer. Minha irmã. Muito minha irmã. Não preciso de companheira melhor do que ela. Pois minha irmã vem me ajudando bastante. Os arbustos que derrubo e a relva que arranco com a enxada é ela quem recolhe e leva pra um monte lá perto do muro da direita, depois daqueles cacos de telha. Assim a trilha já vai ficando limpa.

Hoje foi nosso primeiro dia de aula e fiquei conhecendo um pouco os colegas, e quatro professores. A Beatriz freqüenta a mesma escola, mas a gente só se encontrou no recreio. Nós três ficamos

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 16 – CASTELO DE AREIA

Dois garotos se conhecem na escola e do convívio nasce um sentimento que ultrapassa a amizade. Mas um deles já sente atração por uma menina desde criança. Este é o enredo do livro CASTELO DE AREIA.

Trata-se do último romance juvenil de Menalton Braff, editado em 2014 pela Moderna. Para obter mais informações, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.


Castelo de Areia – Menalton Braff


Ricardo           

1 - Seu nome completo

Com um tempo destes, o melhor seria ficar na cama, curtindo o frio de agosto. As sombras da cidade fugindo nervosas, o Sol com preguiça de nascer. Como aqui é tudo estranho. A iluminação pública se dilui no céu, num serviço inútil. Não clareia coisa nenhuma. Que será que vou ter de enfrentar hoje? Não conheço ninguém, e isso me deixa um pouco ansioso. Minha mãe diz que é medo e não ansiedade. Medo não é. Já encarei situação pior. E este sono, o que

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 15 – A MURALHA DE ADRIANO

O livro escolhido para a Degustação de hoje foi editado pela Bertrand Brasil em 2007 e posteriormente ganhou versão digital da editora Cintra.

Publicamos, a seguir, o primeiro capítulo do romance A MURALHA DE ADRIANO.

Saiba mais, na página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.


Menalton Braff  – A muralha de Adriano

Estátua de sal

Capítulo I

Sinto meu corpo preso a esta superfície lisa e plana, onde deslizo meu silêncio, sem a penetrar, porque é rasa, nem dela me descolo, pois é minha única realidade. De repente percebo que o tempo deixou de fluir. Como foto antiga em preto e branco. Desde hoje cedo, só o presente existe. Um presente cinza, o mundo descorado. Minha vida em black-out fechado, total. Nada além deste momento sem história ou futuro. Tento me envolver dos acontecimentos como se fossem o foco de minha perspectiva, mas não há massa por onde atravessar: estou vazia. Nem memória, tampouco imaginação. A realidade é uma lâmina fina que lateja em minhas têmporas. Ao receber a notícia, senti que o tempo se propagava em ondas concêntricas, sem progressão. Não sofri uma perda particular, mas, de repente, era uma peça

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 14 − ANTES DA MEIA-NOITE


ANTES DA MEIA-NOITE é um livro para jovens, mas interessa também aos adultos porque retrata o drama de muitas famílias na atualidade. Aline é uma adolescente que perde o ano na escola porque passa as madrugadas no computador.

Publicamos, a seguir, o primeiro capítulo dessa novela juvenil editada pela Ática, em 2007.

Para saber mais sobre a obra, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.


Menalton Braff . Antes da meia-noite

Capítulo 1

A Megera me chama

A Carol continua me olhando sem entender meu cochicho. Então, repito um pouco mais alto que o risco de sol em cima da minha carteira me deixa cega.

− Vem mais pra cá – ela diz, invadindo um pouco o corredor.

Inicio a manobra de fuga daquele risco incômodo de sol, mas a dona Carla vira-se para a classe e nos flagra:

− Então, dona Aline, algum problema?

Dona Carla foi uma das professoras que, no ano passado, votaram por minha reprovação. Sempre senti que ela não vai com a minha cara. E não é que eu desgoste dela, mas esses nomes da Biologia

domingo, 3 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 13 – GAMBITO

Hoje a Degustação é para as crianças. Publicamos, a seguir, o primeiro capítulo da primeira obra infantil de Menalton Braff, intitulada GAMBITO e editada pela Edições SM, em 2005.

Para saber mais, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON
 

Menalton Braff  Gambito

Capítulo 1

Às vezes me parece que gosto dele, mas isso não é sempre. Muitas coisas em meu irmão me irritam muito. Quando ele sai, por exemplo, faz questão de sair sozinho. E me chama de pirralho, o que me dá muita raiva. Pensando bem, acho que nem conheço o Maurício direito. A gente nunca está junto. Principalmente agora, que ele terminou a quinta série. De manhã, fica na escola até o meio-dia. À tarde, ele tem judô, inglês, natação e não sei mais o quê. De noite, que a gente podia conversar um pouquinho, ele faz os deveres da escola e quando termina já está na hora de dormir. Nós dormimos no mesmo quarto como se cada um morasse num país diferente. Eu, além da escola, não faço mais nada. Quer dizer, faço minhas lições, assisto a algum programa na televisão, escovo os dentes, tomo banho, troco de roupa e como. Gosto muito de comer.

Era nossa última semana de férias e eu já tinha certeza de que nunca tinha comido tanto na minha vida. Além disso, que tornava nossas férias o melhor período do ano, o Maurício passava os dias inteiros

sábado, 2 de janeiro de 2016

DEGUSTAÇÃO 12 – CASTELOS DE PAPEL

A Degustação de hoje apresenta um romance que foi editado em 2002, pela Nova Fronteira. Segundo o escritor Deonísio Silva, "É romance que nos entretém, faz pensar e cultiva nossa vida interior."

Para saber mais, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.


Menalton Braff.  Castelos de papel

        Capítulo I

Levantou os olhos do jornal e inundou a cidade num indiferente olhar azul, seu olhar vidrado, quase aborrecido. De uma forma vagarosa e distraída, como quem  já não tem mais pressa de chegar, porque já não tinha mais pressa de chegar. Nem aonde. Ecoava ainda no interior de seus ouvidos o desconforto de um chamado ou sua impressão, e era impossível ter certeza. Tentando concentrar-se para descobrir que apelo poderia ser aquele, seu pensamento perdeu-se por alguns instantes em coisas miúdas que lhe entulhavam os olhos, como o motorista manobrando o carro para ocupar uma vaga menor do que o carro, seu modo brusco de gesticular, o avião que passou e se escondeu atrás de uns edifícios, a felicidade do cachorro ao voltar com o bastão entre os dentes. Não chegou a formular uma síntese do que via ou sentia. Não eram propriamente pensamentos, mas sucessão de imagens descosidas: o instante. Estivera lendo, bem sabia, e a prova disso eram as palavras que ainda boiavam

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

DEGUSTAÇÃO 9 - NA TEIA DO SOL

As emoções de um militante político durante a ditadura militar no Brasil. Este é o tema da obra NA TEIA DO SOL, cujo primeiro capítulo publicamos hoje na série Degustação.

O romance foi editado em 2004, pela Editora Planeta do Brasil.

Para mais informações, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.

Menalton Braff. Na teia do sol

Capítulo 1

Acordo tarde, atordoado, o sol um pé fincado na parede, bem ali, na frente, e outro, fulgurante, cravado na minha cara, torturador, que de onde conhece ele, seu sacana, de onde, responde! Uma bola de fogo presa na garganta: Quem? Você sabe, seu sacana, de onde, responde! Uma brasa cospe o hematoma no olho esquerdo: Quem? Escondo os olhos, de repente cegos, no côncavo da mão. Não me lembro! Responde! Não me lembro! Viro o corpo e o cotovelo afunda na cama-de-vento. Só isso: não me lembro. Sobe e desce a palavra que me dilacera as entranhas. Não sei: nada mais. O Vilmar entregou o primeiro, o Vilmar, pensando que se livraria. Não parou mais de apanhar até entregar tudo o que sabia. Queriam mais: você sabe mais. Apesar do suor, é um direito meu, este desfrute,  minha recompensa: tanto tempo esquecido o gozo da segurança. Mais um minuto. Me viro para o lado, em fuga: inundação de luz sobre mim, iluminando o cobertor rasgado e sujo. Depois a gente vê se traz coisa melhor. Móveis e utensílios, onde e como, sementes e ferramentas: sua herança. Mão áspera e grossa abraça a minha,

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

DEGUSTAÇÃO 8 - O CASARÃO DA RUA DO ROSÁRIO

A obra de hoje é um dos últimos romances de Menalton Braff e foi lançada pela Bertrand Brasil, em 2012. Publicamos, a seguir, o primeiro capítulo de O CASARÃO DA RUA DO ROSÁRIO.

Para conhecer os detalhes, visite a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.

O casarão da rua do Rosário. Menalton Braff

Capítulo I

Este cansaço, agora, me sobe dos pés inchados, me invade pelos olhos e ouvidos; e as narinas, por mais que se esforçassem, não evitaram que eu fosse inundado por aquele cheiro nauseante de flores murchas misturado a fumaça de velas. E sua imagem de cera a ferir com cinza e areia meus olhos, a visão embaçada. Preciso descansar, com urgência, para pôr pensamentos e emoções em ordem.  É maio e faz o frio de maio, minhas pernas encolhidas estão mudas à espreita, mas não creio que ousem qualquer movimento. Cruzo os braços no peito, fechando-me ao frio, cerro os olhos machucados como algo que sangra.

Reclino ao máximo a poltrona e me ajeito melhor com vontade de dormir, precisando muito de sono, morte provisória que me faça renascer inteiro. Um pensamento, entretanto, espanta-me o sono. Quando me lembro de que amanhã às dez devo fazer parte de uma banca e que venho descansando muito pouco nestes últimos dias, fecho os olhos, pestanas apertadas, consciente de que há urgência

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

DEGUSTAÇÃO 7 - A COLEIRA NO PESCOÇO

A obra de hoje na sessão Degustação é A COLEIRA NO PESCOÇO, editada pela Bertrand Brasil, em 2006.  Publicamos, a seguir, o primeiro conto, que leva o mesmo título da coletânea.

Para mais informações, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor. 
                         (Carlos Drummond de Andrade)

A coleira no pescoço

Nenhum dos dois conseguia disfarçar os danos da velhice, que suportavam em silenciosas e mútuas acusações. O velho parecia fazer um esforço muito grande para puxar o cão ladeira acima. A sola seca de seus sapatos esfolava o ladrilho da calçada arrancando-lhe um ruído ríspido, áspero, como de alguma coisa que se arrasta, e isso irritava o cão, cuja cabeça se mantinha o tempo todo virada para fora, o focinho apontando para o lado da rua. Seu corpo todo era uma recusa tensa e escura e ele tinha o olhar aborrecido de quem não pode esperar mais nada da vida além daquela coleira no pescoço, na ponta de uma corrente. 

Uma língua de vento gelado passou rente ao chão, levantando em revoada, vida efêmera,  folhas mortas de magnólia e de plátano, que se misturavam a outros detritos da rua. Com seu grosso boné de lã na mão direita, o velho cobriu o rosto e pensou que uma das maneiras de se morrer pode ser assim

domingo, 27 de dezembro de 2015

DEGUSTAÇÃO 6 − O FANTASMA DA SEGUNDONA

A postagem de hoje é dedicada aos jovens. Publicamos, a seguir, o primeiro capítulo do romance juvenil O FANTASMA DA SEGUNDONA, editado pela FTD, em 2014.

Para obter mais informações sobre a obra, acesse a página do livro  aqui no BLOG DO MENALTON.

Boa leitura!

O fantasma da segundona. Menalton Braff

1. Enfim, o resultado

Peço a minha mãe que não conte nada a ninguém. Ela faz uma careta de deboche, me baba uma porção de beijos nas bochechas, mas promete. Não pode me tirar o prazer da surpresa. A notícia é minha e vou divulgar para quem e quando eu quiser.

Estava lá, com todas as letras do meu nome. Maurício Andrade da Silveira. É impossível um xará de nome inteiro. Abro a porta e me lembro de que deixei a carteira em cima da cama. Volto correndo e a apanho. Estou com pressa, porque a cambada já deve estar no restaurante. Não conferi todos os nomes, por absoluta falta de tempo. Tenho a impressão, contudo, de que todos da minha turminha passaram. Pelo modo como aceitaram meu convite: dúvida nenhuma. O

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

DEGUSTAÇÃO 3 - MIRINDA

                          Feliz Natal!

Como hoje é véspera de Natal, vamos dedicar a nossa postagem às crianças. A obra da vez será Mirinda, editada pela Moderna.

Para mais informações, acesse a página do livro aqui no Blog do Menalton.


Mirinda, Menalton Braff

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Por fora nenhum sinal particular

A história toda começou numa tarde que transcorria sossegada, até o momento em que a terra tremeu ao som de pancadas potentes e compassadas, que se ouviam lá no fundo do formigueiro. As formigas jovens se alvoroçaram, correndo para todos os lados, com olhos de desespero. Uma formiga mais velha explicou:

- Calma, isso é a passagem de um homem. Vocês nunca viram, mas eles já foram comuns por estas bandas. Eles são descomunais, gigantescos mesmo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

DEGUSTAÇÃO 1 - POUSO DO SOSSEGO

Menalton está de férias e vamos aproveitar esse período para oferecer a vocês uma farta degustação: o primeiro capítulo de cada um de seus livros.

O título de hoje é POUSO DO SOSSEGO, editado pela Global. Para mais informações, acesse a página do livro aqui no Blog do Menalton.


Pouso do Sossego, Menalton Braff

Capítulo 1

Quase uma hora sem qualquer som humano reconhecível, som de garganta, nossos ouvidos há várias horas viajando cheios do ronco monótono do carro, torpor ameno, me assusto quando papai se vira para trás e com voz colorida avisa, Olha o posto! Ele quase pula no banco para que não deixemos de ver o posto. O posto, o último antes de Pouso do Sossego. Mas por que sua alegria repentina, quais lembranças podem estar nascendo deste cenário? Ele nada diz, contentando-se em expor no rosto uma alegria que não entendo. O mundo, então, é a consciência que temos dele? Olho o posto e o que vejo são carros e caminhões, tratores