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quinta-feira, 11 de junho de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (142)

Homero
Voltemos ao prof. Vítor Manuel de Aguiar e Silva no ponto em que o abandonamos temporariamente, ou seja, nos gêneros literários nas poéticas de Platão e Aristóteles.

"Se se tomar em consideração a variedade dos objectos da mimese poética, isto é, dos 'homens em acção', os géneros literários diversificar-se-ão conforme esses homens, sob o ponto de vista moral, forem superiores, inferiores ou semelhantes à média humana. Os poemas épicos de Homero representam os homens melhores, as obras de Cleofonte figuram-nos semelhantes e as paródias de Hegemão de Taso imitam-nos piores. A tragédia tende a imitar os homens melhores do que  os homens reais e a comédia tende a imitá-los piores; a epopeia assemelha-se à tragédia por ser uma 'imitação dos homens superiores'.
Finalmente, da diversidade dos modos por que se processa a imitação procedem importantes diferenciações, já que o poeta pode imitar os mesmos objectos e utilizar idênticos meios, mas adoptar modos distintos de mimese. Aristóteles contrapõe o modo narrativo, a imitação narrativa, ao modo dramático, em que o poeta apresenta 'todos os imitados como operantes e actuantes'. No modo narrativo, é necessário discriminar dois submodos: o poeta narrador pode converter-se 'até certo ponto em outro', como acontece com Homero, narrando através de uma personagem, ou pode narrar directamente, por si mesmo e sem mudar.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (136)

Na postagem anterior introduzimos as considerações de Platão a respeito dos gêneros.

"Segundo Aristóteles, a matriz e o fundamento da poesia consistem na imitação: 'Parece haver, em geral, duas causas, e duas causas naturais, na génese da Poesia. Uma é que imitar é uma qualidade congénita nos homens, desde a infância (e nisso diferem dos outros animais, em serem os mais dados à imitação e em adquirirem, por  meio dela, os seus primeiros conhecimentos); a outra, que todos apreciam as imitações.'  A mimese poética, que não é uma literal e passiva cópia da realidade, uma vez que apreende o geral presente nos seres e nos eventos particulares - e, por isso mesmo a poesia se aparenta com a filosofia -, incide sobre 'os homens em acção', sobre os seus caracteres (ethe), as syas oauxões (pathe) e as suas acções (praxeis). A imitação constitui, por conseguinte, o princípio unificador subjacente a todos os textos poéticos, mas representa também o princípio diferenciador destes mesmos textos, visto que se consubstancia com meios diversos, se ocupa de objectos diversos e se realiza segundo modos diversos.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (134)

A questão dos gêneros literários

Pelo menos desde Platão a questão dos gêneros literários tem provocado polêmicas. É o caso da Gerusalemme liberata de Torquato Tasso, a briga em torno do Cid de Corneille e a batalha envolvendo o Hernani de Victor Hugo, para citar apenas alguns casos.
O problema dos gêneros literários não se restringe a questões da teoria da literatura, estendendo-se para envolvimentos ontológicos e epistemológicos. A natureza de universais, a correlação entre o particular e o geral, a interação de fatores lógico invariantes e de fatores histórico-sociais, os fundamentos das operações classificativas, etc.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (133)

Marcuse
Para encerrar o capítulo sobre a comunicação literária, transcrevamos os três parágrafos finais:
"A concepção prometaica da comunicação literária, que se desenvolveu na teoria e na praxis sobretudo com o romantismo e, mais acentuadamente, com as literaturas de vanguarda, consubstancia-se paradigmaticamente em textos literários que instituem uma ruptura declarada e violenta com os códigos linguísticos, retórico-estilísticos e semântico-pragmáticos dominantes numa determinada comunidade sociocultural e encontrou a sua teorização mais radical e mais consistente na chamada 'estética da negatividade', defendida por pensadores como Adorno e Marcuse: o texto literário não reflecte nem justifica conformistamente o real estabelecido, mas corrói e anula, pelo seu poder de negatividade, esse mesmo real, manifestando no seu mundo de Schein, de ilusão, a 'verdade subversiva' questionadora da ideologia dominante e antecipando, no plano da utopia, um horizonte de libertação. O efeito social de muitos textos literários de ruptura pode ser intenso, mas relativamente transitório, porque as próprias transformações eventualmente ocorridas na sociedade, ao modificarem o circunstancialismo da recepção literária, determinam a sua exaustão e o seu gradual desaparecimento.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (132)



Novalis
Quando o texto é muito denso, extrair a ideia principal é mutilar algo impossível de ser parafraseado. Portanto, e para não mutilar o pensamento do Dr. Vítor Manuel de Aguiar e Silva, continuemos transcrevendo o capítulo 3.13, na página 333 do livro que estamos estudando.

"Semelhante problemática da comunicação literária permite reequacionar, em termos novos, a questão da literatura como meio específico de conhecimento - uma questão já debatida na filosofia platónica e na Poética de Aristóteles e que adquiriu uma importância fundamental com o romantismo e com a literatura e a poética pós-românticas (simbolismo, surrealismo, formalismo russo, etc.). No seu extremo limite, a concepção da literatura como conhecimento tende para uma concepção órfica da comunicação literária (mais particular e restritivamente, da comunicação poética): o escritor, ao emitir o seu texto, não só transfigura o real nomeado ou aludido, mas reinventa e instaura o próprio real, o real absoluto - Die Poesie ist das echt absolut Reelle, nas palavras de Novalis -, com a urdidura encantatória do seu discurso.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (129)

Roman Ingarden
Para conclusão do assunto leitor X texto, mais um parágrafo transcrito. Pág. 329:
"A 'liberdade semiótica' do leitor, se em parte está condicionada e configurada pela sua competência comunicativa, depende também em parte de certos predicados ontológicos e funcionais do próprio texto literário e, especialmente, daqueles caracteres do texto literário que Roman Ingarden designou como pontos de indeterminação (...) ou lacunas (...) e que constituem fenômenos resultantes quer da natureza da linguagem verbal, quer da inevitável selectividade da arte literária, quer de uma intenção estética.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (128)

 Novamente a melhor solução é a transcrição de dois parágrafos do livro que estamos estudando.

Pág. 327/328  "O texto literário, como sequência de lexemas, de enunciados, de frases, de microestruturas estilísticas e de mircoestruturas semânticas, de macroestruturas formais e macroestruturas semântico-pragmáticas, constitui um objecto semiótico que orienta e controla parcialmente o leitor, mas que permite e exige também a este, em grau variável, o exercício de uma 'liberdade semiótica' que se funda na interacção das próprias estruturas textuais com os instrumentos, os meio e os processos de decodificação utilizados pelo receptor.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (127)

Roman Ingarden
Neste ponto do que estamos vendo, a leitura, é útil que se transcreva um parágrafo das páginas 318/319 do  livro Teoria da Literatura do prof. Dr. Vítor Manuel de Aguiar e Silva.

"Da heterogeneidade sincrónica e diacrónica da competência literária dos leitores empíricos resulta que um texto literário, permanecendo imutável como 'artefacto', pode ser concretizado em diversos 'objectos estéticos', embora a diversidade das concretizações de um texto literário não dependa apenas da heterogeneidade dos seus receptores. O conceito de concretização foi proposto por Roman Ingarden para designar o modo como um leitor, através de múltiplos actos cognitivos, através de complexas operações subjectivas e vivências, realiza a apreensão da obra literária. A concretização, na perspectiva de Ingarden, tem como fundamentos ônticos os actos cognitivos do leitor e as estruturas da obra literária, de modo que, por um lado, a concretização não se dissolve numa tessitura de viências alheias às objectividades ontologicamente heterónomas constituídas pelas estruturas textuais e, por outra parte, a obra literária permanece 'essencialmente distinta' de cada uma das suas plurímodas e sucessivas concretizações (se há concretizações que desvelam e iluminam o ser da obra literária, ocorrem outras que ocultam e obliteram esse mesmo ser).
(continua)


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (126)

Ainda a questão da leitura. Trando-se da legibilidade:

a) Sendo por alguma razão reduzida a área de intersecção dos policódigos (do texto e do leitor), a legibilidade se verá reduzida, ou mesmo anular-se.

b) O distanciamento dos policódigos (do texto e do receptor) no plano sincrônico, por exemplo, a recepção de textos vanguardistas por receptores não familiarizados com o experimentalismo; mas também ocorre no plano diacrônico com leitores historicamente distanciados do momento da enunciação.

c) Quanto mais distantes no tempo estiverem emissor (e seu texto) e os receptores, tanto mais numerosos e profundos serão os desencontros entre os policódigos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (124)

Wolfgang Iser

Receptor, destinatário, leitor


Para empregar-se relativo rigor, não se devem confundir receptor e destinatário, sendo que aquele pode ser aproximado do leitor (entidade empírica com capacidade para decodificar a mensagem, quando o faz). 
Todo autor, no momento da enunciação, tem em mira um destinatário ideal. "Flaubert confessa que escreveu em parte L'education sentimentale para Sante-Beuve, paradigma do leitor inteligente; Mallarmé exclui a hipótese de os seus textos poéticos se dirigirem a um público de massas; Valéry aconselha a escrever apenas para o leitor "inteligente" e insusceptível de ser dominado por qualquer modalidade de manipulação; Fernando Pessoa/Alberto Caeiro pensa num leitor que saiba ler pacientemente e com espírito pronto, etc. Este leitor assim configurado é um leitor ideal ou um leitor modelo, uma entidade teórica construída por um escritor."

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (121)

A mensagem

Diferentemente do sentido usual da palavra, o uso vulgar, em semiótica o texto é o encadeamento de signos (palavras) linguísticos de forma a que sua sucessão tenha coerência comunicacional.
Pode-se então dizer que a mensagem é o texto, a tecitura formada por palavras e outros sinais diacríticos (acentos, pontos e outros recursos).
Ocorre que se trata, em nosso caso, de descrever não a mensagem em geral, senão a mensagem literária. Ou seja, levando-se em conta o conceito já exposto de linguagem como sistema modelizante, é necessário que nos atenhamos então ao sistema modelizante secundário, que é o sistema em que se constrói o texto literário.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (120)

McLuhan
3.8.1. - A "Galáxia de Gutenberg" e a comunicação literária.

É bem pouco o que desse capítulo nos interessa para a questão da estética. Mesmo assim, transcrevo a seguir alguns trechos que nos ajudam no entendimento da questão.
O autor faz inicialmente a distinção entre a literatura escrita a mão, na Idade Média, e o advento da impressão. Surgem, segundo ele, outros atores do processo, antes inexistentes, como: o impressor, o editor, e o livreiro. E o resultado, muito mais sociológico do que estético, é a imensa ampliação do público leitor.
E outros fenômenos, então, vêm germinando e crescendo até os dias atuais.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (118)

Popper
Estabilidade e mudança no sistema literário

O sistema literário não surge do nada, não é reinventado ao gosto de cada autor/emissor. Ele tem sua memória, e existe diacronicamente, numa espécie de sequência de vários momentos (sua extensão sincrônica) diferentes entre si, mas que mantêm uma linha de invariância a que os autores devem obedecer.
Transcrevo um parágrafo do livro que vimos acompanhando, em sua página 270:
"A homeostase do sistema semiótico literário representa uma condição indispensável da comunicação literária, pois que sem ela, tornar-se-ia radicalmente aleatória a produção literária, desapareceria o fundamento da intersecção parcial dos códigos dos emissores e dos receptores, careceria de sentido o ensino da literatura, etc. Sem homeostase, em rigor, dissolver-se-ia o próprio sistema semiótico literário."

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (113)

Wayne Booth
 Pág. 247 - "Não é estranhável que, no meio de tantos e tão duros ataques ao emissor/autor, se tenham erguido vozes em sua defesa explícita. Colocando-se no domiínio da problemática hermenêutica, E. D. Hirsch, Jr., iniciou a sua importante obra Validity in interpretation  (1967) com um capítulo polemicamente intitulado 'In defense of the author' e, muito recentemente, Wayne Booth relembrava a verdade óbvia de que, sem autor, não existem texto, nem leitor... E o próprio Foucault, embora sublinhando conexões e dependências do conceito de autor em relação a determinados sistemas jurídicos e institucionais e embora salientando o seu relativismo nas diversas épocas e formas de civilização, acaba por reconhecer a impossibilidade de se fazer tábua rasa do autor e, mais rigorosamente, da função-autor, que não representa uma simples construção teórica, mas é antes uma realidade inscrita no próprio texto.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (112)



Jean-Louis Baudry
Pág. 245 - "A eliminação radical do emissor/autor proclamada por Jean-Louis Baudry representa uma manifestação específica de um processo filosófico e ideológico mais amplo e profundo que atingiu o seu zénite exactamente na década de sessenta do século actual (passado).  A crise do sujeito e, mais particularmente, a crise e a destruição do sujeito cartesiano, racionalista e individual, sob as suas diversas formulações filosóficas e jurídico-ideológicas e nos vários domínios da teoria e da acção. Múltiplos vectores, por vezes antagónicos ou alheios entre si, quer pela sua matriz e pela sua fundamentação, quer pelas suas consequências teóricas e práticas, confluíram neste processo de destruição ou, pelo menos, de questionamento e de corrosão do sujeito: o taedium historiae, ou seja, a desvalorização e a negação da história, acompanhadas de uma crescente relevância conferida aos métodos e operações de análise formal e lógico-matemática, manifestou-se na filosofia, na estética, na linguística e noutras ciências humanas desde o início do século XX, revelando-se esta crise da consciência histórica como indissociável do enfraquecimento e da desagregação do conceito de sujeito histórico e do próprio conceito do 'eu';

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (111)

Jacques Derrida



  Pág. 242 - "3.6.5. A supressão do emissor/autor na poética contemporânea
O princípio formalista da transcendência do texto literário em relação ao seu autor, com a sua força polémica contra o biografismo e o psicologismo de raiz romântica, continua a exercer uma ponderosa influência na poética contemporânea, mesmo quando, como no caso do ensaio 'The intentional fallacy' de Wimsatt e Beardsley, a sua fundamentação racional e científica é manifestamente débil e vaga. É este princípio que justifica, para um pensador da estatura de H.-G. Gadamer, que a hermenêutica do texto literário deva deixar à margem, como irrelevante, a problemática do autor: 'O que é literatura adquiriu uma simultaneidade de um género adequado a qualquer presente. Compreendê-la não significa principalmente retroceder a uma vida passada, mas representa uma participação presente no que é dito. Não se trata propriamente de uma relação entre pessoas, por exemplo entre o leitor e o autor (que é talvez inteiramente desconhecido), mas de uma participação no que é comunicado pelo texto. É aí que nós compreendemos, o sentido do que é dito está aí, independentemente do facto de que possamos ou não, por intermédio da tradição, ter uma ideia do autor [...]'

terça-feira, 26 de agosto de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (109)


Yurij Tynianov

Pág, 237  "O formalismo russo, ao definir a literariedade mediante a função poética da linguagem e ao colocar no centro das suas preocupações metodológicas a análise descritiva e sincrónica dos textos literários, desvaloriza logicamente o emissor/autor. A atitude antibiografista do formalismo russo não dimana de uma simples relação polémica com a história literária positivista e académica, mas de uma concepção radicalmente anti-romântica do fenómeno da produção literária. Para os formalistas russos, a literatura é convenção, artifício, 'procedimento' (priëm)   técnico-formal e semântico e não efusão confessional, imagem ou tradução de uma vivência, como se entre a realidade psíquica e a ficção poética  existisse um nexo de causalidade mecânica. Tynjanov formula em termos explícitos uma poética antibiografista e, sob certos aspectos, mesmo anti-autoral, ao defender o princípio de que a 'personalidade literária' e o 'protagonismo do autor' não reflectem um fenómeno psico-biográfico, mas representam uma consequência da 'orientação linguística da literatura' em determinadas épocas: não é a vida real que se projecta na literatura, mas, inversamente, a literatura que se expande na vida, em conformidade com as normas linguísticas e estilísticas dominantes num dado sistema literário (estas normas consubstanciam de modo privilegiado as (p.238) inter-relações do sistema literário com as convenções sociais, pois a linguagem verbal constitui o elemento mediador fundamental entre a literatura e a sociedade. Se o sistema condiciona assim a produção do texto literário, a 'intenção criadora do autor' deve ser considerada apenas como um fermento e a 'liberdade criadora' como um optimista estereótipo verbal:  trabalhando com um material literário específico, submetido às constrições da chamada 'função construtiva', as quais defluem da orientação geral do sistema, o autor não usufrui de 'liberdade criadora', ficando antes sujeito a uma 'necessidade criadora'.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (108)


Mallarmé

(Pág. 235) "3.6.4. O emissor e a poética formalista
Toda a teoria formalista da literatura tende a abolir o pólo da comunicação literária constituído pelo emissor, em nome da autonomia e da autotelicidade do texto literário e, consequentemente, em nome da análise estritamente imanente que este texto, concebido como ens causa sui, obviamente requer.
Na literatura contemporânea, como ficou dito, Mallarmé é o primeiro grande responsável pela entrada em crise e pela subsequente desvalorização - ou mesmo aniquilamento, pelo menos em sede teórica - da função do emissor/autor. Segundo Mallarmé, o texto literário - o 'Livro' -, uma vez desligado do autor, volve-se em puro ser, em entidade autónoma e transcendente que nem de leitor necessita: 'Impersonnifié, le volume, autant qu'on s'en separe comme auteur, ne reclame approche de lecteur. Tel, sache, entre les accessoires humains, il a lieu tout seul: fait, étant.' Se o dizer do poeta, 'sonho e canto', instaura orficamente a presença da ausência, o texto poético puro requer a ausência do seu enunciador a fim de que a sua presença não perturbe a harmoniosa plenitude encantatória da linguagem: 'L'oeuvre pure implique la disparition (p. 236) élocutoire du poète, qui cede l'initiative aux mots [...]'. O trabalho aparentemente pessoal do poeta é na verdade um trabalho anónimo e impessoal e o 'Texto', ente absoluto, fala por si próprio e 'sem voz de autor'.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (107)


Arthur Rimbaud

Pág. 233 - "Se o barroco, com o seu senso da modernidade e sua crença na criatividade humana, potencia, sob o aspecto teórico, a já relevante função conferida ao emissor/autor pelo humanismo renascentista, por outra parte, com o seu carácter de arte de massas em que o kitsch proliferou ao serviço de determinadas estruturas ideológicas, tanto de natureza religiosa como de natureza político-social, dilui consideravelmente aquela mesma função. Pensamos, por exemplo, que não é apenas fruto do descaso humano, dos acidentes ocasionados pela transmissão manuscrita e do temor suscitado pela censura, o anonimato de boa parte da produção poética barroca hispânica. Neste domínio, como (p. 234) em tantos outros, a literatura barroca apresenta um dualismo antitético bem marcado: nos textos em que predomina uma complexidade e um refinamento semânticos e técnico-estilísticos que se aproximam do hermetismo, privilegia-se a 'gramática' do emissor; nos textos que, pelas suas características sémicas e formais, podem ser classificados como 'literatura popular' ou mesmo como 'literatura de massas' , privilegia-se a 'gramática' do receptor. Quer dizer, uma das tensões mais fecundas e fascinantes da literatura barroca consiste na coexistência conflituante, no âmbito do seu policódigo, de dois modelos de comunicação: um modelo orientado para o emissor e um modelo orientado para o receptor.
A teoria e a prática literárias do chamado classicismo francês e do neoclassicismo europeu, em geral, tendem a diminuir a importância do emissor no processo da comunicação literária, quer porque submetem a sua capacidade produtiva e inovadora a um código rigorosamente articulado e possuidor de forte imperatividade, quer porque esbatem, quando não anulam, as marcas textuais da subjectividade do enunciador (predomínio da razão, busca da universalidade, anticonfessionalismo, etc.).

terça-feira, 29 de julho de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (106)

Pág. 231 - 3.6.3. Variabilidade diacrónica da relevância do emissor

Numa perspectiva diacrónica, a relevância do emissor no processo da comunicação literária apresenta-se como bastante variável, em estreita conexão com os códigos culturais e, mais particularmente, com o código literário prevalecente nos diversos períodos históricos.

Na literatura medieval, sobretudo na literatura anterior ao século XII, o emissor usufrui de uma débil relevância e a própria noção de autor, como observa Paul Zumthor, parece, por vezes, diluir-se, ou até perder-se, num processo de produção literária em que a tradição funciona como 'verdadeiro a priori da realidade poética' e em que a impositividade do código literário apaga as marcas da origem da enunciação, constituindo-se os textos como realizações sucessivas de um 'modelo nuclear' ou de um 'número limitado de modelos' e privilegiando-se assim um continuum técnico-formal, sémico (p.232) e ideológico.