Mostrando postagens com marcador Sempre aos pares. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sempre aos pares. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

SEMPRE AOS PARES
(Wagner Coriolano)

Dizer poesia não é o mesmo que dizer poema. Contudo, os poetas anunciam seus versos como poesia, antecipando a solenidade que o leitor há de encontrar e, ao mesmo tempo, dando força a um costume imemorial, de ter a poesia na melhor conta, digamos que ofício de poucos.

João Claudio Arendt segue a tradição dos poetas soleníssimos, dando-nos um livro inteiro de poemas, última produção de uma lavoura que cultiva faz mais de vinte anos. Ainda nos umbrais da Universidade, e depois nos entretempos da jornada de Letras e da vida, João Claudio limava os versos e às vezes os submetia aos pares, exercícios poéticos que entendemos como antecedentes deste Plural da ausência, recentemente publicado em Caxias do Sul (2009).

Às vésperas de fazer quarenta anos, o poeta vem nos colocar frente à leitura de duas vertentes da literatura: o romantismo e o modernismo da fase contemporânea. Como leitor experiente, João Claudio nos submete aos versos de Junqueira Freire e Castro Alves, por um lado, e de Ferreira Gullar, por outro, preparando o terreno da poética que lida com temas recorrentes da condição humana: o vazio como niilismo, a morte como inexorável, o desejo como o encontro dos corpos.

Caímos na expressão sempre aos pares por uma série de indícios: o poeta utiliza dois substantivos no título Plural da ausência; divide a obra em duas partes, sendo que cada uma tem subtítulo com expressão hifenizada (Desejo-erosão; Tempo-corrosão); estabelece um diálogo com o sistema literário, retomando dois períodos e fincando marcas de outros fazeres poéticos. Enfim, ele cultiva pares, paralelismos e oposições.

Será que os poemas do passado, os perdidos nos desvãos do tempo, podem ameaçar esses novos versos na praça?

Temos ainda que aprender dos poetas. Nos livros de poesia, encontramos uma lição silenciosa de diálogo e uma convocação ao trabalho de decifrar a Esfinge. Os dicionários nos lembram a figura
assombrosa desta senhora: monstro fabuloso com corpo, garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de águia e unhas de harpia, que propunha enigmas aos viandantes e devorava quem não conseguia decifrá-los. Como admiro os dicionaristas, que conseguem nos dizer com poucas palavras sobre um mundo imaginário da Grécia. Como admiramos teus versos, João Claudio, que trazem novamente os mitos antigos: “Fui até o lago e ele estava deserto/ No espelho das águas cintilava apenas o teu rosto de esfinge/ Devorei tua imagem para decifrar o enigma”.

Os poetas dialogam na distância dos tempos. Os versos que escrevem e as imagens que inventam, depois de um tempo, reaparecem na obra dos novos, refundindo sentidos. Querem uma prova? Uma imagem do João, a cinza das manhãs, remete a Manuel Bandeira, que estreou com A cinza das horas, e também escreveu os poemas de Estrela da manhã. Um poeta se procura em outro poeta, o João Claudio se procura na tradição: “Sentes a solidão que a cinza das manhãs deságua sobre ti?/ Sentes o abandono que o basalto das tardes estende sobre ti?/ Sentes o desamparo que o chumbo das noites arroja sobre ti?/ É minha ausência que deságua, que se estende que se aloja em ti”. Com isso, apontamos um rastro, mas devemos esperar por mais crítica que possa desvendar este Plural da ausência.

A leitura de poesia pode auxiliar em outros trabalhos com a palavra, como é o caso, por exemplo, de quem faz reportagem, ensaio de cultura e composição de letra musical. Quanto à proximidade en-
tre poesia e música, se torna pertinente recordarmos as palavras de Pedro Lyra, tecendo comentário sobre a relação entre o poema e a letra de música. Lyra registra que “o poema é uma forma de expressão que se sustenta por si mesma, por ter seu próprio ritmo; a letra de música só se sustenta pela melodia e, portanto, tem um ritmo externo” (O real no poético).

A poesia de Plural da ausência prepara a palavra pelo desafio que lança ao leitor. Ensina-nos que no ato de leitura é preciso perceber e apreciar cada detalhe, como nas minuciosas explorações de ritmos pelo emprego de paralelismo. O poeta ora cria uma imagem cíclica – “Apago do meu corpo os vestígios do teu/ Resistem na pele os fluidos impressos inscritos nos pêlos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu/Tatuados na pele os humores secretos conservam apelos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu”, ora inventa uma surpresa – “Este amor qual quebra-cabeças com peças repetidas e faltantes/ este amor que capitula mas ao exílio condena os seus amantes/ este amor que se nutre de migalhas que erra os caminhos e a cada entrega é ausência constante/ este amor é obra de um cupido cego e sem asas, artimanha do diabo ou ilusão de um poeta que nunca nunca amou antes”.

Outro aspecto significativo da obra tem a ver com a criação dos subtítulos desejo-erosão e tempo-corrosão. Bem no começo, o poeta lança o curto poema “O amor/ é a erosão da ausência” – que ilustra a relação desejo-erosão – como carro-chefe de longa série de poemas, onde predomina a relação intersubjetiva dos amantes, embora raros poemas escapem ao registro do pronome pessoal. Na segunda parte do livro, ele nos propõe o conflito da corrosão do tempo, por meio da metáfora do humano como pássaro. Recorrentes são as imagens em que pássaros ilustram situações humanas, o desgaste que vem com o tempo: “Por que não colhes o fruto antes dos pássaros e da corrosão do açúcar?”. Aqui, também, alguns poemas fogem da regra, registrando a corrosão do tempo com outras imagens: “De onde tira o mar timbre pra cantar?/ De onde tira o mar ginga pra dançar?/ De onde
tira o mar o sal pra adoçar?”

Com este Plural da ausência, João Claudio Arendt nos enriquece pela poesia e pela redescoberta do espanto como concernente ao humano.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


POETIZAR O COTIDIANO
(Wagner Coriolano)

O escritor Oneide Bobsin afirmou, no texto Religiões em romances (2002), que na boca de uma pluralidade de personagens é difícil perceber os limites entre a realidade e a ficção. E, ainda mais especificamente, sintetizou com As fronteiras entre as versões dos fatos históricos e as suas recriações literárias são tênues. Na ocasião, o Oneide estava às voltas com os romances A viagem de Théo, de Catherine Clément, O rei, o sábio e o bufão, de Shafique Keshavjee e O livro das religiões, que Jostein Gaarder assina junto com Victor Hellern e Henry Notaker.

Se não bastasse examinar as recriações literárias ou ficcionais da religião, o Oneide retorna à cena literária e empreende um exercício de proferir, pela voz da crônica, uma série de textos onde trata do cotidiano pela perspectiva luterana. Intitulou de Histórias para quem gosta de aprender (2009). Na apresentação, que antepõe às trinta e uma histórias, diz que os textos foram escritos em momentos específicos e com objetivo de problematizar assuntos concretos. Não faz menção à tênue fronteira entre o fato histórico e a versão literária.

São crônicas de fundo religioso e bíblico, assim o provam as diversas citações entremeadas nos textos, mas também aparecidas nos títulos, como em A família de Jesus, Lutero em Cuba e Bush,
Saddam e Lutero. Contudo extrapolam a leitura estritamente teológica, avançando por uma voz fundada em aporte intercultural, quando o autor retoma o acúmulo do pensamento ocidental e oriental como estratégia de leitura das coisas novas. As crônicas circularam, em primeira mão, pelo jornal da comunidade evangélica, da IECLB, e foram caprichosamente editadas pela Oikos Editora.

Em Folhas de figueiras, encontramos um excelente exemplo de crônica literária, calcada entre o fato e a ficção. Como homem que trabalha a teologia, Oneide Bobsin se revela aqui um cuidadoso leitor, visto que é impossível separar a teologia do gosto pelos livros. O ponto de partida da crônica é o livro Auto-engano (1999), do filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca. Tocado pela frase mentimos para nós mesmos o tempo todo e nos vemos bem melhor do que somos, Oneide recupera uma pequena história do auto-engano através dos tempos, nos levando ao Paraíso, com a famosa folha que velou o corpo da mulher.

Sob o ponto de vista literário, ao entrelaçar o relato bíblico de Adão e Eva com o registro jornalístico de acidente no Aeroporto de Congonhas, o autor destaca que neles o homem incorre em produzir
mentiras para esconder os próprios erros. A camuflagem daquela folha bíblica permanece sendo o nosso expediente por meio de outras folhas. A fronteira, portanto, começa a ser colocada quando percebemos a poetização (ou politização) deste título Folhas de figueiras.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

PEQUENA CONTRIBUIÇÃO

(Wagner Coriolano)

Uma pequena contribuição para aumentar nossa paixão pela literatura. Assim escreve Sérgio Farina de próprio punho no Estatuto poético (1996), meu exemplar marcado desde o pórtico com sua letra e na confirmação da dedicatória impressa “aos meus alunos”. De 1997, data do autógrafo, a 2007, data do lançamento do Prêmio Literário Sérgio Farina, nosso campo de estudos expandiu suas fronteiras, mas a lição do amigo permanece com força e atualidade.

Nas cinco primeiras páginas, o Estatuto poético dá uma imagem do que foi o exercício do magistério de uma vida. Nesse sentido, vale a pena observar que se trata de uma proposta de leitura analítica e interpretativa, conforme destaca o autor no subtítulo do livro. Leitura do texto antes, durante e depois da aula, visto que o texto literário nos leva além de si mesmo. Nessa introdução, Farina questiona o ensino da literatura, a fim de abrir horizontes de investigação, bem como de buscar a essência pela crítica, enriquecendo a obra com os múltiplos sentidos que a atualidade acrescenta ao tecido ficcional, seja em verso, seja em prosa.

O trabalho com a arte, na proposta do estatuto, acompanha o interesse didático. Cabe ao professor investigar um método que satisfaça a visibilidade da mensagem da obra literária, de preferência com a participação do leitor. Para tanto, após examinar as posições teóricas e o leque de opções de ensino, afirma que o conhecimento da literatura se faz via experiência e importa verificar os rumos da teoria literária aplicada aos textos escolhidos.

Dentre as metas contidas no ABC de Farina, duas disparam na frente: como ler o texto poético e como produzir sentidos. No coração dessas perguntas, encontram-se o reconhecimento da consciência de finitude humana, da necessidade de um ato interpretativo perante a escritura e, ainda, do fato de que o leitor não tem o sentido original ou verdadeiro das palavras. Como leitor privilegiado, ele dizia que no mais recôndito passado, há o mito, canal com o mistério que somos.

As etapas de seu método abarcam quatro procedimentos relacionados à obra literária. Em primeiro lugar, a procura por tudo o que envolve o tempo em que a obra foi escrita; segundo, o exame do texto a partir das noções de teoria da literatura; terceiro, o exercício da leitura extensiva através dos códigos de sentido e, por último, o ensaio de uma leitura profunda que visa estabelecer o signo texto. Em contato com as idéias de Sérgio Farina, podemos aprimorar a tarefa de docência da literatura.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


OS AMORES TURVOS

(Wagner Coriolano)

Com Historia de un amor turbio (1908), Horacio Quiroga apresenta a personagem Luis Rohán e suas viagens. A edição brasileira, publicada em 1998, traz um posfácio de Pablo Rocca, crítico uruguaio, que assim sintetiza o enredo: “a ação transcorre basicamente em Lomas de Zamora e, em menor medida, em Buenos Aires, com alusões a uma distante estância, de onde Rohán vem para a capital, por uma temporada – e aqui começa o romance – e para onde ele volta ao final”.

Na capital argentina, Rohán inicia o curso de Engenharia, mas logo desiste da formação acadêmica. Consegue um emprego no Ministério de Obras Públicas, como desenhista, e permanece na cidade, levando uma vida independente, embora a contragosto do pai. Após um ano, se aproxima das irmãs Lola e Mercedes, e posteriormente passa a freqüentar a casa da família, em localidade distante a vinte e cinco minutos em transporte ferroviário.

Pouco tempo depois, recebe uma carta do pai, ordenando que viaje à Europa, a fim de que encontre uma vocação: “acho que voltarás mais inútil ainda, mas sempre me restará o consolo de ter feito o possível por ti”. Apesar dos laços que o jovem Rohán estreita com a família Elizalde, em especial com Mercedes e a pequena Eglé, de nove anos, segue para Paris. Na temporada francesa, frequenta museus e ateliês “com a tenaz assiduidade de quem tenta convencer-se de um amor que não sente muito”. Ao final do terceiro ano de França, decide pela fotogravura, outra escolha que malogrará perante os sofismas pessoais. Com oito anos de andança, retorna para o Cone Sul.

De volta a Buenos Aires, Rohán reingressa no Ministério como subchefe de divisão e retoma a amizade com a família de Lomas. Aos poucos, vence as barreiras que o separam de Eglé, agora mais bonita, tangível e desejável, porém distante e indiferente. O narrador observa que “uma noite, observando-a em silêncio, deplorou até o fundo da alma não poder voltar ao passado”.

Nas sucessivas visitas, Rohán desfruta da música ao piano, da conversa íntima com Mercedes e das primeiras aproximações com Eglé. Passeiam pela estação de trem, onde caminham pela gare do sul, menos tumultuada que a gare do norte. Visitam a quinta, onde finalmente principia o namoro. “Rohán ergueu o rosto dela e a beijou na boca. Foi um beijo tão longo, tão apertado, que Eglé saiu dele fatigada, rendida àquele amor que acabava de confessar”.

A história de Rohán e Eglé dura apenas alguns meses. Ele tem muito a fazer na cidade e, com o passar das semanas, reduz o tempo de ficar com a namorada. Ela entende como esmorecimento do amor. A razão do desenlace, contudo, tem a ver com a obsessiva preocupação de Rohán com um passado relacionamento de Eglé. Ele vai morar numa estância à distância de dois dias, ela permanece em Lomas.


Na tradução de Sérgio Faraco, a novela de Quiroga recebe o título de História de um amor louco. O câmbio da palavra – talvez pela melhor correspondência – reduz os sentidos desta narrativa uru-
guaia, que também trata da travessia da personagem Rohán, entre caminhos e descaminhos.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O TEMPO E A MEMÓRIA


(Wagner Coriolano)

É preciso dar aos contemporâneos a oportunidade de conhecer as obras que marcaram a cultura ocidental como, por exemplo, a leitura de Em busca do tempo perdido, do escritor francês Marcel Proust. A caudalosa narrativa reúne sete romances que traçam o panorama da vida de Marcel, o narrador.

Com exceção do capítulo Um amor de Swann, narrado em terceira pessoa, os livros (um pouco menos de três mil páginas na tradução brasileira) expõem o ponto de vista do narrador a respeito de sua própria vida e de como a memória reteve o tempo passado e o sentimento de transformação de todas as coisas.

A leitura do romance exige tempo e muita observação. A relação entre leitura e memória é inevitável, e a ruptura com o ato de ler uniforme se torna uma exigência permanente. Daí a pergunta: como fazer uma leitura do romance e não se perder ou não reagir com tédio?

A estratégia do texto mostra que a intenção de envolver o leitor se deu pela intermitência do enredo, quando o escritor enxerta episódios significativos na grande estrutura narrativa. Segundo o tradutor 
Fernando Py, “o que importa não são os encadeamentos narrativos e episódicos e sim a análise psicológica, as conexões estabelecidas e, acima de tudo, aquela transcendental peleja do espírito criador, que luta para se afirmar e deixar a marca de sua genialidade”.

A linguagem rica em poesia, com que é apresentada a recordação da infância – cheia de detalhes que remetem à época (como certos costumes e hierarquia rígida), à cultura arquitetônica (casa com jardim, portão de ferro com ruído ferruginoso) e aos costumes (jeito de falar em casa) –, revela a trajetória da personagem pelo mundo nobre. Desse modo, entendemos a aproximação entre o passado distante da infância e um passado mais próximo do tempo em que narra, situado no mundo aristocrático da duquesa, no jantar dos Guermantes.

Marcel recorda as visitas de Swann filho a seus familiares, a recepção e a mentalidade da família de Swann quanto a seu casamento com mulher de outra posição social. “Ele já não vivia na sociedade que sua família freqüentava”, registra o narrador. Charles de Swann, homem reservado e de vida ambígua, é ingênuo a respeito da vida movimentada de Odete de Crecy com quem se casa. A diferença entre a postura do filho mundano e do velho Swann aristocrático só é possível de estabelecer quando se conhece o desenrolar dos episódios narrados no romance, onde encontramos a descrição de outras personagens que foram formadas na educação aristocrática, como a Senhora de Luxemburgo, mas que mudaram de lugar social.

O crítico alemão Wolfgang Iser afirma que a obra literária existe quando se constitui como texto na consciência do leitor, quando leitor e autor participam conjuntamente de um jogo de fantasia, para o
qual não há espaço para algo mais do que regras de jogo. De modo excepcional, Proust soube realizar uma jornada pelos caminhos entre o real e o imaginário, nos comunicando o mundo da sociedade francesa da passagem entre os séculos XIX e XX, ao mesmo tempo em que nos conduzindo através da invenção de uma infância encantada, trazida do tempo perdido.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O LUGAR DE SÉRGIO FARINA


(Wagner Coriolano)


A revista Letras de Hoje, dezembro de 1970, guarda um texto exemplar de Sérgio Farina, verdadeiro exercício didático de análise literária de um poema moderno. Com sua habitual clareza, o autor deixa as pegadas de um trabalho calcado sob o princípio de simpatia, de paciência e do conselho de leitura, elementos que, no seu entender, dariam um caminho para a participação na experiência vital do poeta, transfigurada em obra de arte.

O ensaio de Farina reúne dois campos através dos quais palmilhou a vida universitária: as letras e a metodologia científica. Ainda nos anos 80, a segunda área de atuação profissional ofuscava o fino leitor e o cronista discreto, haja vista o número de edições do livro Apresentação de trabalhos escolares, realizado em parceria com os professores
Fernando Becker e Urbano Scheid. Como se não bastasse àquela presença, em diversas áreas da academia, outros apontamentos de como produzir textos técnicos despontaram, em série, nas páginas da revista Entrelinhas, de outubro de 2000 a março de 2003, na edição impressa.

De tão singular ofício de crítico e de pesquisador, uma história trintenária, vieram as crônicas jornalísticas dos anos 90, no jornal Vale dos Sinos. Farina fez um movimento da academia para o chão da cidade. Como os poetas de sua admiração, transitou da cultura letrada para uma ênfase maior da linguagem cotidiana. As crônicas revelam o escritor que soube colher as circunstâncias escalenas da cultura regional. Em depoimento recolhido no livro Histórias de vida nos 31 anos da Unisinos, organizado pelo poeta Lauro Dick, afirma que, com o mestrado concluído em 1977, sua visão acadêmica foi se alterando também. Apanhei o crachá, aquele mesmo que recebi ao ingressar, e, no verso da face que dizia ensino, escrevi pesquisa. Iniciei, acompanhado por alguns colegas, a dar mais importância à pesquisa, em minhas aulas, como forma de redimir a graduação.

Quando escreveu que o pesquisador é o criador de seu próprio conhecimento, o leitor contumaz Sérgio Farina sabia o que estava dizendo. As janelas da casa defronte à rua padre Nóbrega é que o digam. Entre livros e revistas, praticava o antigo exercício de recortar textos e novamente costurá-los com seu traço saboroso.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

O ESCRITOR DAS CRIANÇAS


(Wagner Coriolano)

A poucos dias de completar 60 anos sem o escritor Monteiro Lobato, falecido em julho de 1948, ainda ecoa no Brasil das crianças o efeito de suas criativas personagens. E, muitos brasileiros, lembramos a boneca Emília e o lendário Saci Pererê, quando fazemos referência ao universo da literatura para o público infanto-juvenil ou enfatizamos o esforço de Lobato pela emancipação intelectual das futuras gerações.

Antes de iniciar a série de personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, José Bento Monteiro Lobato – batizado José Renato não José Bento – aparece com a criação de Jeca Tatu, a representação literária do homem atrasado, que vivia nas cidades mortas do interior de São Paulo, onde prosperaram antigas fazendas de café no século 19.

Após se formar em Ciências Sociais e Jurídicas, na capital do Estado, em 1904, o escritor volta para a cidade natal, Taubaté, no Vale do Paraíba, e pouco tempo depois segue para Areias, pequena cidade morta (“vivia das áureas lembranças do passado”, segundo Cassiano Nunes), a fim de assumir o cargo de promotor público da comarca.

De 1908 a 1921, ano em que inicia a escrita de história para crianças, Monteiro Lobato se casa com Maria Pureza e se torna pai de Marta, Edgard, Guilherme e Ruth. Herdeiro da fazenda Buquira, do avô materno Visconde de Tremembé, deixa a promotoria e abraça a vida de fazendeiro. Como os negócios não prosperam como deseja, em 1917 vende a fazenda e, em 1918, compra a Revista do Brasil, uma publicação de intelectuais ligados ao jornal O Estado de São Paulo, propriedade da família Mesquita. Não pára nesse negócio. Em 1919, abre a firma Monteiro Lobato & Cia, concretizando o antigo sonho de editar livros.

A editora de Monteiro Lobato, por sete anos, populariza o livro por diversas regiões do país e edita um sem número de autores novos. Desse modo, torna possível a realização do desejo de leitura de um público que contava com inexpressiva publicação nacional, pagando caro pelas edições vindas de Portugal e pelas edições vindas de Portugal e pelas edições importadas em língua estrangeira. Com a proposta de baratear o livro, Lobato ainda uma vez enfrenta dificuldades de seguir com a empresa, pelo custo elevado do papel brasileiro e pela impossibilidade de importá-lo, devido às altas taxas.

Dos altos e baixos da vida, o escritor herdou uma riqueza sem precedentes, com as quais soube rechear o repertório dos trabalhos intelectuais, no campo das Letras, e em outros campos, com livros sobre saúde pública, petróleo, folclore, imprensa, energia, ciências, vida literária e inúmeras cartas. A sua literatura para crianças e jovens registra este amplo conhecimento, em linguagem acessível, mas não empobrecida de palavras e sentidos. A leitura de qualquer de uma das 32 histórias originais de Lobato acenderá o sentimento de identidade com as coisas do Brasil e, mesmo a leitura das sete adaptações de clássicos, fortalecerá o desejo de boas escolas e editoras que valorizem a cultura do livro.


sábado, 28 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O DESAPARECIMENTO DE TEODORA

(Wagner Coriolano)

A peça As núpcias de Teodora representa o teatro da maturidade de Ivo Bender, juntamente com Colheita de cinzas e A ronda do lobo, as três peças que fundam a Trilogia perversa. Arguto escritor de arte dramática nesta cultura no sul do mundo, o dramaturgo cruza o imaginário da colônia alemã, no século 19, com o universo dos antigos mitos gregos. “Fui professor de Teatro Grego, na Universidade Federal, por muito tempo. Nas aulas, além dos textos, eu trabalhava com mitologia. Resolvi aproveitar esses mitos e fazer uma transposição, fazer as personagens míticas serem imigrantes alemães”.

A personagem Teodora aparece na primeira cena da peça, em diálogo com sua mãe Cordélia. Após perder o sono, informa que teve um pesadelo, onde vê o pai com muito sangue na cabeça. Na última cena do primeiro ato, na mesma sala da casa, reaparece, lê um trecho da carta que um mensageiro trouxera, e declara que “não queria casar assim, tão de repente”. Nas cenas do segundo e último ato, Teodora é constantemente mencionada, sobretudo como filha de Hagemann, como nossa filha (o pai), como minha filha (a mãe), em relação ao noivo (o caminho de Teodora e Antônio) e na expressão “leva as mãos de Teodora para a face” (a mãe).


Teodora, que ao final desaparece, descobre a sentença de morte proferida por Jacobina Maurer e tenta a fuga. Recapturada, ainda uma vez, apela à mãe que permaneça com ela, pois precisa de coragem. Entretanto, de nada adianta o apelo de Cordélia em face da ordem fatal da líder dos Muckers, ensandecida contra a iminente descrença de seu principal chefe. Sem a filha, tempos depois, recebe em casa outro mensageiro com notícias do marido, sobrevivente do embate entre os colonos da montanha e as forças do governo e com uma ferida na cabeça. O mensageiro segue seu caminho e ela fecha a última cena: “Eu te espero, Cristóvão Hagemann. Cedo ou tarde retornarás. E nesse dia não escaparás do meu olhar. Nem da minha mão”.

A jovem instaura o lado bom do humano. Teodora, neologismo, de Teo, Deus, com dora, presente. Desta junção de elementos gregos, vem o possível sentido de “dádiva de Deus”. O ataque contra Teodora confirma, pela segunda vez, a tendência cruel do ato de Jacobina. A falsa demente antes não respeitara a integridade do texto bíblico, a fim de melhor persuadir o traidor. No episódio do sacrifício de Abraão, no livro de Gênesis, o anjo diz “Não estenda a mão contra o menino! Não lhe faça nenhum mal!”. Ordens de Deus. Ao imolar Teodora, a líder instaura a vingança, enlaça pelo sangue aquele que esteve a seu lado, e, como outros colonos, percebeu a causa perdida. Ordens de Jacobina.

A noção de tragédia, em Ivo Bender, conserva um sentido mais amplo, sob o ponto de vista do conflito de valores no seio da família Hagemann. Se o pai entrega a filha, a mãe não a abandona. Cordélia, assim, nos recorda a invenção poética de Manuel Bandeira, no poema Neologismo, de 1947: Teadoro, Teodora.



quinta-feira, 19 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

O CORPO DE CARMÉLIA

(Wagner Coriolano)

Próximo da casa dos oitenta anos, Antonio Carlos Resende escreve o romance da paixão de um homem branco por uma mulher negra, através do qual convida o leitor ao tema da diversidade cultural. “Minha maior preocupação era mesmo a questão do racismo, não tanto a das drogas nem a do amor. A história, aliás, vem me acompanhando desde que eu era guri, em Cachoeira do Sul”, declara o escritor, na edição 90 da Revista Aplauso.

Nomeado com a expressão A obra-prima do teu corpo, o livro escrito e publicado em 2007 amplia as letras gaúchas com a escrita do espaço entre o morro e a cidade, na imaginária Capital. O narrador e protagonista José Bauermann Cardoso, maitre de restaurante e leitor que freqüenta sebos na cidade, encontra-se com a moradora do morro, Carmélia da Silva, que trabalha no candomblé. “Sua avó e sua mãe foram ialorixás. A mãe desencarnou por causa de uma bala perdida numa batida feroz da Brigada, faz dez anos” (p.60). Ela também é iniciada ialorixá, após a viagem ao Cairo.

Desde o dia em que vê Carmélia no boteco do seu Antero, no morro Maria da Conceição, quando ela comprava pão da tarde, até o dia em que a recebe no restaurante, acompanhada do avô, e nos posteriores encontros, José comunica um sentimento de entrega amorosa. Entretanto, do ponto de vista do enfrentamento que estabelece com os líderes do morro – devido à resistência contra o narcotráfico – a personagem perde em coerência, ainda que as cenas imaginosas de seqüestro e ameaças sejam determinantes no texto e no liame dos capítulos.

José tem requintes de poeta. Diante da beleza e elegância da moça negra, magra e de cabelo corte zero, ele aproxima o corpo feminino da noção de obra-prima. No curso do romance, a expressão aparece depois de outras marcas que indicam a sua relação com as palavras: José lê livros na cama (p.15), cita o romance O viúvo, de Oswaldo França Júnior, comprado num sebo (p.22) e alguns contos de Rubem Fonseca (p.43). Ao final de uma cena constrangedora, perante o traficante Jerônimo e seus aliados, declara a Carmélia que “só a obra-prima do teu corpo para atenuar minha vergonha” (p.72). A personagem ainda cita a leitura de Um fuzil na mão um poema no bolso, livro do escritor congolês Emmanuel Dongala, publicado na década de 70, com edição da Nova Fronteira.

As leituras da personagem José diretamente apontam os temas do romancista: a representação da violência, a perspectiva pessoal de futuro e o nome de Carmélia. Tanto o escritor brasileiro Rubem Fonseca como o africano Emmanuel Dongala trabalham a realidade do conflito urbano contemporâneo através da palavra ficcional. Resende esboça o futuro de José colocando-o como postulante ao curso de Direito, bem como independente frente aos interesses da sociedade constituída em torno do restaurante. No nome da negra de cor azulada, o escritor aproxima a magia do poema e a expressão generosa da cultura afrobrasileira.

quinta-feira, 12 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


NATAL E LITERATURA


(Wagner Coriolano de Abreu)


A premissa básica da conversa sobre Natal através da literatura reside na aceitação do Cristo que foi feito como homem. Nesse sentido, o tema proposto exige uma compreensão da História. Sob os auspícios do Império Romano, o historiador Flávio Josefo escreveu sobre os hebreus e deu notícias do nascimento do menino cuja estrela se tornaria sinal de presença divina e promessa de reconciliação.

A história do evento natalino, portanto, inscreve-se para a posteridade não apenas através da escrita apostólica, mas também pela escrita oficial representada pelo soldado que serviu aos romanos. No século XX, o escritor norte-americano Gore Vidal se notabilizou por tratar do tema da inserção do cristianismo na história romana em seu romance intitulado Juliano.

Em face da história do Natal, a palavra literatura pode ser entendida em pelo menos dois sentidos.
Em sentido geral, são os escritos que fazem referência ao evento, a Bíblia, a história, o folclore e os registros da arte. A literatura natalina inclui os escritos dos profetas que antecederam ao episódio, no curso do tempo. José Schiavo, em seu dicionário de personagens bíblicos, diz que Isaías proclama que o menino nasceria de uma virgem, Amós diz que sairia de uma tribo de Davi, Miquéias anuncia que nasceria em Belém, Naum diz que faria a pregação evangélica, Jeremias previa a infidelidade para com Ele e seu sacrifício, assim como fala das dores e da encarnação, Baruc celebra seu aparecimento entre os homens, Daniel utiliza a expressão filho do homem, Ageu prediz sua entrada no templo, enfim, Malaquias fala no precursor que lhe prepararia os caminhos. O poeta e professor gaúcho Armindo Trevisan, recentemente, fez publicar o seu estudo minucioso sobre o filho do homem no livro O rosto de Cristo.

Em sentido estrito, como se fala atualmente na escola, a literatura reúne os escritos com arte, a poesia, o teatro e, sobretudo, a narrativa ficcional. A respeito desta produção em prosa, e para ficar no exemplo brasileiro, temos que lembrar o conto Missa do galo, de Machado de Assis. O grande escritor foi matriz de vários escritores modernos que a seu conto fizeram referência. No Sul, o conto O menininho do presépio, de João Simões Lopes Neto, é famoso. Contudo, a diversidade prevaleceu e a literatura brasileira tornou-se um mar de histórias natalinas.

A literatura, sem dúvida, anunciou o acontecimento Natal entre nós e deixou um rastro dessa história como uma biblioteca aberta ao público. Outras narrativas literárias podem ser encontradas nas antologias de contos intituladas A palavra é Natal e Contos para um Natal brasileiro. A literatura pode ser o nosso perene advento. Então é Natal.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

MODOS DE DIZER CAMUS


(Wagner Coriolano de Abreu)

Para o nosso tempo, de visualidade e rapidez, um bom começo pode ser uma frase. Albert Camus, no ensaio Herman Melville (1952), afirma: “o escritor de talento recria a vida, ao passo que o gênio, além disso, a coroa com mitos”. Outro bom começo acontece através de um traço do perfil literário. Susan Sontag, no ensaio Os cadernos, de Camus (1963), descreve: “sob  muitos aspectos é um rosto quase ideal, o rosto de menino, bonito mas não muito, magro, forte, a expressão ao mesmo tempo intensa e modesta”.

Tanto nas palavras de Camus sobre Melville quanto na descrição que Susan Sontag faz do próprio Camus, sobressaem elementos que se relacionam a esse homem franco-argelino, mais conhecido como autor da novela literária O Estrangeiro. Camus torna-se notável pela ponte que estabelece entre o mito grego e a expressão intensa e modesta das crises do pensar no mundo contemporâneo, expondo em seus ensaios O mito de Sísifo (1942) e O homem revoltado (1951), entre outros, a problemática da filosofia do absurdo. Neste sentido, podemos dizer que literatura e filosofia correm pari passu na escritura.

Uma terceira via de acesso ao pensamento de Camus encontra-se na explanação Albert Camus, sentimento espontâneo e crise do pensar, do alemão Jürgen Hengelbrock, publicado pela Nova Harmonia em 2006. De acordo com o editor, Hengelbrock oferece uma imagem do filósofo que não se esgota numa queixa contra o absurdo da existência, pois representa uma mundividência coerente e orientada segundo a tradição antiga do ceticismo filosófico.

Hengelbrock não se detém na biografia do escritor, nascido na periferia européia às vésperas da Primeira Guerra e falecido em 1960, mas sinaliza a formação intelectual, informando-nos do leitor atento dos pensadores Edmund Husserl e Friedrich Nietzsche. O professor da Ruhruniversität de Bochum, Alemanha, baliza seu estudo pela hipótese de que, para Camus, a interrogação filosófica só tem valor se der significado ao sentimento espontâneo e elementar da vida.

A parte maior do Albert Camus, de Hengelbrock, examina o ensaio O mito de Sísifo. O professor procura demonstrar o embate entre lógica do pensamento e lógica da vida, o sentimento do absurdo e o caminho intermédio “onde a inteligência pode permanecer clara”.

No mito grego, a personagem Sísifo permanece presa ao castigo após desafiar Zeus; na releitura do mito, Camus oferece diferente perspectiva de existência, quando coloca a decisão de viver acima da decisão de deixar de viver. Assim, revela-se um leitor de Nietzsche, como bem observa o professor de Bochum.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Excepcionalmente, a coluna CRÍTICA LITERÁRIA será postada esta semana na terça-feira.


LECIONANDO SONHOS
(Wagner Coriolano)

Quis Sérgio Farina se apresentar perante os leitores da coluna Literariedades, nos idos de maio de 2004, jornal Vale dos Sinos, com o seu ofício de professor, que ele trocava em miúdos pela expressão lecionando sonhos. Naquele momento, o professor retornava ao campo da literatura lendo crônicas, completando roteiros de análise, discutindo aspectos pelo viés da crítica e orientando caminhos de ensino.

Foram muitas semanas que se seguiram iluminadas por aquela crônica de domingo.Tomando um ou outro título da série, encontramos o registro do tema de casa realizado com esmero, mostrando a cultura literária do mestre, que, a bem da verdade, foi doutor em Letras. As crônicas são textos que mostram a dimensão literária e crítica do leitor Farina.

Com a crônica A deusa Grécia fez harmoniosa síntese da contribuição dos gregos, apontando-os como a fonte do pensamento contemporâneo. Com o texto Entre hoje e amanhã, mostra que não apenas conhecia os pensadores, citando, por exemplo, Alvin Toffler e Heráclito, como também inaugurava reflexões: o tempo está sempre colado a nós como pele luminosa ou sombra assustadora e não sabemos o que pode acontecer entre hoje e amanhã. Com as duas crônicas intituladas Quando começa o ensino de literatura relembra o papel dos pais na formação literária dos filhos, antes mesmo do tempo escolar, quando contam histórias como uma forma de se fazer família, convivendo
momentos mais íntimos. Farina nos brinda com outra reflexão bem a seu estilo: a literatura são desperdícios da imaginação.

Pouco identificado como especialista, o nosso cronista encareceu tanto a leitura cultural quanto a leitura literária. No campo específico das Letras, tomou do lingüista Roman Jakobson a palavra
literariedade, calcada do termo russo literaturnost, para indicar o conjunto de características específicas que permitem considerar um texto como literário. Na baliza do pensador Jakobson, o cronista encontrou um meio de dizer a importância da teoria, como farol para iluminar nossa peregrinação pelos caminhos da literatura e do cotidiano.

Revendo outros textos de Sérgio Farina, ora na revista Palavra Comovida, ora no prefácio aos poemas de Lauro Dick, no livro Poesia de quatro idades, é que percebemos o alto nível de pensamentos que levou ao leitor de jornal, semanalmente mesclando o momento vivido com a perspectiva de civilização, a nossa relação com o chão do inconsciente coletivo da humanidade, como aponta ao tratar da deusa Grécia. E olha que Farina escreveu estas literariedades na hora em que viajava pela canoinha da aposentadoria, como tão bem registrou, pensando em Guimarães Rosa.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro do ano passado, reúne críticas literárias. As primeiras postagens contêm textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

JOÃO ANTÔNIO RELATIVAMENTE POPULAR

(Wagner Coriolano de Abreu)



A narrativa de João Antônio, cuja publicação cobre o período de 1963 a 1996, apresenta-se marcada em geral pelo rótulo de “literatura dos marginais”, embora a produção englobe textos literários e jornalísticos que tratam de outras temáticas, como conflitos amorosos e perfil de gente renomada na cultura brasileira. A crítica realmente não enfatiza o caráter elegante de sua escrita.

Em Malagueta, Perus e Bacanaço, livro de estréia, o autor reúne não apenas narrativas sobre o mundo do jogo da sinuca, mas também narrativas cujo conteúdo expressa a infância do narrador, a solidão de rapaz e sua vivência amorosa. Já no segundo livro, Leão-de-chácara, restringe-se apenas aos personagens que na sua estréia motivaram a fama de “clássico velhaco”, expressão que Marques Rebelo utilizou quando de sua crítica aos contos. A partir de Casa de loucos, sua prosa se abre a várias possibilidades de leitura, inclusive a que mostra o escritor de fino trato e bom ouvinte da música brasileira e clássica.

A passagem de escritor de marginais para bacanaço indica uma mutação de sentido, a fim de dar voz ao próprio escritor quando diz “às vezes eu fico meio chateado com esse clichê de escritor dos mar-
ginais” (Jornal Muito +, janeiro de 2000).

A emergência da sociedade de rua, com mais evidência a partir dos anos 60, fez surgir uma literatura com interesse pela representação do morador de rua, da viração (termo empregado coloquialmente para designar o ato de conquistar recursos para a sobrevivência, conforme a antropóloga Maria Filomena Gregori), do urbano como espaço de conflito, da disseminação do medo e ainda do debate em torno dos excluídos da cidadania.

A plataforma literária de João Antônio, nesse sentido, calcou-se desde o início pelo universo da patuléia ou das gentes de rua, de modo que a crítica acompanha a trajetória de sua produção, dando
ênfase ao caráter popular presente na maioria de seus textos. Assim, outros escritos como Fujie, Meus tempos de menino e Antes que o poeta fizesse oitenta anos ficaram à margem do horizonte de leitura, fora do raio de alcance da crítica. Esta outra face da obra aponta para um patamar mais amplo e abrangente no qual seu fazer poético encontra guarida.

Quanto a excelência da escrita, o lingüista Sírio Possenti destaca a presença de estruturas cultas na escrita de João Antônio. Após empreender uma análise da oralidade e das construções sintáticas 
presentes na prosa do escritor, o professor da Universidade de Campinas verifica que, pelo uso de construções cultas, a escrita de João Antônio é relativamente popular.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro do ano passado, reúne críticas literárias. As primeiras postagens contêm textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


ERICO VERISSIMO 2005

(Wagner Coriolano de Abreu)

O verso de Drummond – Por isso gosto tanto de me contar –, do poema Mundo grande, cabe perfeitamente no retrato falado de Érico 
Verissimo, este contador de histórias do Rio Grande do Sul, autor de frases que não raro reaparecem nas nossas conversas, como “mundo velho sem porteira” e “era uma noite de lua cheia”, mormente nas lembranças em comum.

O ano 2005 marca o centenário do nascimento de Erico Verissimo, em Cruz Alta, e o trintenário do falecimento, em Porto Alegre.


Destes setenta anos de vida, boa parte foi dedicada aos livros, a começar pelo período cruz-altense, quando, nos intervalos de balconista de farmácia, rabiscava seus textos e croquis, pois aliava ao estilo verbal o gosto pelo desenho, e posterior período porto-alegrense, quando desenvolve intensa atividade junto à Editora Globo, conforme traduções bastante conhecidas e o livro Um certo Henrique Bertaso, indispensável ao leitor curioso pela indústria livreira no Brasil.


As fotos que compõem o calendário 2005, do Banco do Estado, apresentam elementos recorrentes na vida do escritor. Na modalidade calendário de mesa, ele aparece em quatro situações exemplares: escrevendo manualmente, escrevendo na máquina Royal, caminhando por uma alameda e abraçado com Mafalda. De fato, a luminosidade das fotos em preto e branco põe em destaque certo magnetismo pessoal. Não bastasse a boa qualidade iconográfica do calendário, acrescenta-se ainda no verso uma breve notícia referente ao visualizado. É nessa hora que se vê o trabalho cuidadoso e imprescindível do Acervo Literário Erico Veríssimo (ALEV).


Erico lê a inscrição Arquipélago e escreve ideias para seu lançamento. Estava chegando ao final de sua trilogia O tempo e o vento, início dos anos sessenta, onde narra a trajetória da família Terra-Cambará e reconstitui a história do Rio Grande do Sul, da colonização até o fim da Era Vargas. Flávio Loureiro Chaves observa que o romance, embora seja longa narrativa, amarra o primeiro parágrafo de O Continente com o último parágrafo de O Arquipélago com a mesma redação: Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia 

um cemitério abandonado. Assim, a compreensão da obra prende-se à leitura da série como um todo.

A festa do Centenário colocará em destaque seu nome em feiras, ruas e universidades. As máquinas modernas imprimirão seus textos revisados e bem encadernados. A leitura destes livros, entretanto, precisa ser encarecida e incentivada. As crianças precisam conhecer A vida do elefante Basílio, os jovens, O diário de Sílvia. E outro verso de Drummond – Meu coração também pode crescer –, anuncia um sentimento de leitor que viaja pela narrativa de Erico.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

DOIS CONTISTAS NA SINUCA

(Wagner Coriolano de Abreu)

João Antônio e Sérgio Faraco pertencem à geração do conto contemporâneo, cuja produção inicia nos anos 60, século 20. A narrativa destes escritores desenha um retrato imaginário do Brasil, por meio de excelente carpintaria textual, abastecida na leitura dos clássicos modernos. Em 1997, Faraco reflete sobre seu silêncio nas letras e afirma que nunca publicara um conto que tivesse custado menos de um ano de suor e desespero.

Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), o primeiro livro de João Antônio, reúne nove narrativas, entre as quais o conto homônimo que dá título ao volume, e trata da vida de três jogadores de sinuca, na noite paulistana, se bem que a temática extrapola o contexto daquela cidade, pois se refere a uma realidade nacional e popular. A história destes contos de João Antônio tem a ver com a declaração de Faraco, pois os originais que seriam enviados à editora queimaram no incêndio da casa onde morava, de modo que os reescreve a partir dos esboços que enviava nas cartas e através da memória.

O segundo livro de contos de Sérgio Faraco, Depois da primeira morte (1974), presta homenagem a Mario Quintana, que escreveu Da vez primeira que me assassinaram/ Perdi um jeito de sorrir que eu
tinha.../ Depois, de cada vez que me mataram,/ Foram levando qualquer coisa minha... Estes versos também aparecem no perfil de Quintana traçado por João Antônio, na década de 80, antes que o poeta fizesse oitenta anos.

À parte as duas aproximações – o jogo da sinuca e a poesia de Quintana –, estes contistas estiveram unidos pela tarefa de uma leitura literária do cotidiano brasileiro. Tanto Faraco como João Antônio
se colocam como representantes de uma gente que não é muito ouvida ou percebida pelas autoridades. Nesse sentido, o homem se encontra no epicentro da produção artística. Quando declara que a arte tem dívida com a realidade, poucos meses antes da morte, João Antônio se refere à realidade humana, amor, solidão, inveja, ciúme, necessidade de carinho e aventura humana.

O conto Saloon, de Sérgio Faraco, publicado em 2000, apresenta uma partida de sinuca que é uma aposta, o jogo vida, o joguinho mais ladrão de quantos há na sinuca. O negro Gorila ganha do velho
de tez azeitonada e ainda bate em sua perna com um joelhaço. Em seguida, um rapaz de rabo-de-cavalo, que assiste ao jogo e à cena, desafia o ganhador e o vence. O negro tenta impedí-lo de levar o
dinheiro, mas é barrado por uma faca que o moço traz guardada sob o colete. Já na rua, na volta da esquina, o rapaz se encontra com o velho numa lanchonete e saem para comer uma pizza.

Sob o ponto de vista de João Antônio, Faraco realiza a tarefa de intérprete da vida brasileira e se aproxima da vida real, cuja dinâmica abrange o universo dos que não têm voz, os que vivem do jogo e da sorte. Através de Malagueta, Perus e Bacanaço e Saloon é possível entender a linguagem que é própria dos ambientes de salão de sinuca, síntese do patético da vida, como registra João Antônio na saudosa Revista Realidade, outubro de 1967.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

COM VOCÊS, IVO BENDER


(Wagner Coriolano de Abreu)

Antes de estar em evidência escritores enquanto marketing, bem antes, final dos anos 80, Ivo Bender visitou o curso de Letras da nossa Universidade, em São Leopoldo. Antes do bate-papo com os acadêmicos, esteve no bar da Comunicação ou do Direto, não sei mais a quem pertencia, para um cafezinho. Naquela altura, já consagrado pelas peças O macaco e a velha e O cabaré de Maria Elefante, entre outras, desfrutava o ambiente na mais discreta presença.

Tempos depois, final dos anos 90, reencontro Ivo Bender a palmilhar, com seus ares de omem de teatro, um corredor de outra Universidade, na Capital. Naquela ocasião, ele doutor, tradutor, com carreira de professor no Instituto de Artes da UFRGS, passava tranquilamente pelos estudantes e pares das Letras, sempre atencioso na sua reserva. Relembrar estas cenas parece fundamental diante da surpresa de descobrir, em meio a suas peças, ainda pouco conhecidas fora dos espaços de realização das artes cênicas, a construção de uma expressiva dramaturgia.

O professor e escritor Ivo Bender, natural de São Leopoldo, ocupou os palcos de Porto Alegre com mais de uma dezena de espetáculos, desde a estreia em 1961, com a peça As cartas marcadas.
Em 2003, o público assistiu extasiado à montagem de A ronda do lobo, uma das três peças que compõem sua famosa trilogia, de 1988, na qual desenvolve elementos da cultura grega, a partir de situações  relacionadas ao contexto da imigração alemã no Rio Grande do Sul.

Como professor, lecionou Literatura Dramática no Instituto de Artes, ministrou cursos e proferiu palestras em outras Universidades. Leitor atento dos clássicos, escreveu ensaios sobre a tragédia grega de Sófocles e de Eurípedes, traduziu o francês Jean Racine, o inglês Harold Pinter e a poeta norte-americana Emily Dickinson. Como dramaturgo, escreveu peças para crianças e adultos, atuou como ator e diretor teatral.

À parte esta breve notícia literária, síntese de uma vida que extrapola as convenções mas não perde o fio, é preciso reconhecer a persistência de Ivo Bender em face dos campos difíceis de sua escolha: o magistério e o teatro ou vice-versa. No mesmo ritmo, o ensino caminha com a invenção teatral, e lentamente constituiu o estabelecimento de uma história do tablado entre nós. Nesse sentido, o seu trabalho se torna exemplar em face da luta pela preservação da memória cultural.

Tanto nas tragédias da Trilogia perversa como na comédia  O boi dos chifres de ouro, o escritor demonstra o domínio de técnicas de ação dramática com as quais esteve lidando em sala de aula, no esforço de recuperar a lição grega da arte nos palcos. Não foram poucas as vezes a insistir que nos faltava um conhecimento acerca da ação no texto de teatro, algumas vezes até convidando as novas gerações a um passeio pelo texto de Aristóteles. “E o que é ação teatral em última instância? Poderia ser definida como a luta de alguém para alcançar alguma coisa, num determinado tempo, num determinado lugar e de uma certa maneira. Isto é ação dramática, o resto é bobagem”. Assim falou Ivo Bender.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

CAMINHOS DE LEITURA EM MOACYR SCLIAR

Ainda bem que o escritor Moacyr Scliar publicou contos no jornal O Estado de São Paulo, nos anos oitenta, do século passado. O encarte Cultura, tablóide encartado na volumosa edição de domingo, reunia o texto de destacados intelectuais, ensaístas nas diversas áreas do conhecimento – política, cultura, arte, economia, educação, filosofia, entre outras – e fechava na contracapa com um texto ficcional. Li o magnífico O homem da ampulheta, que depois foi publicado em livro, na coleção 10, da Editora Horizonte, em parceria com o Instituto Nacional do Livro.

Encontrei os 10 Contos Escolhidos muito tempo depois, na estante de uma biblioteca pública. À época do conto, em papel jornal, morava na cidade de São Paulo e pouco circulava por bibliotecas, quando muito catava leituras na banca de jornal e alguma livraria. Ainda desconhecia que Moacyr Scliar era médico porto-alegrense e já houvera publicado alguns clássicos da contemporânea narrativa brasileira. O conto O homem da ampulheta é criação posterior aos livros O carnaval dos animais, Mês de cães danados e O centauro no jardim. Agora sei que minha descoberta tem a ver com a discreta elegância escritor. Em agosto de 2010, o Ignácio de Loyola Brandão abriu o debate Roda Viva, da tevê Cultura, afirmando desconhecer que Scliar tinha um Jaime em seu nome. Moacyr Jaime Scliar.

Leitor assíduo dos jornais, Scliar popularizou um exercício produtivo de leitura literária, quando semanalmente escrevia um texto de ficção baseado em notícia da Folha de São Paulo. Como colunista de jornal, manteve uma coluna às segundas-feiras na Folha e outra aos sábados, cena médica, na Zero Hora de Porto Alegre.

Há muito tempo vivendo no Rio Grande do Sul, retornei à obra do Scliar pela porta da literatura dita juvenil, lendo Iniciação à prática amorosa. Esta novela literária, escrita em 1988, efetivamente abre um diálogo de gerações. Em seguida, o gosto pela história de médicos que escrevem, ou são matéria de escritor, me levou ao romance Sonhos tropicais (1992), baseado na vida de Oswaldo Cruz, ao ensaio A paixão transformada (1996), reunião de textos que publicou na imprensa, quando esteve lecionando nos Estados Unidos, e ao romance A majestade do Xingu (1997), onde recria a vida do médico russo Noel Nutels, que veio ao Brasil e trabalhou com comunidades indígenas.

Agora retorno à leitura do famoso conto. Faz quase trinta anosque o homem da ampulheta bateu à porta do meu imaginário. De lá pra cá, tivemos uma vida e uma história. O narrador do Scliar, contudo, continua a provocar com a manha fictícia, com aquele homem fechado diante de uma convenção, dizendo que a ninguém mostrava a ampulheta. Como máquina de produzir sentido, o conto recoloca a questão do homem e seu destino.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias.


A ÉTICA DO REI DO CONGO

(Wagner Coriolano de Abreu)

A arte e magia do desfile do Rio de Janeiro, apreciado internacionalmente, relembra a história e ética de um povo admirável. Quando se fala em Carnaval no Brasil entende-se que é a manifestação de pelo menos três modalidades de evento: desfile de escolas, baile de clubes e bloco ou trio nas ruas.

O Carnaval das escolas cariocas corresponde ao maior espetáculo coreográfico do mundo, como bem registrou a Enciclopédia Ilustrada Folha. Realmente, a festa das escolas traz para o público uma senhora representação teatral.

Em homenagem ao Estado de Minas Gerais, a escola Estação Primeira de Mangueira encenou, em 2004, a redescoberta da Estrada Real, cujo caminho representa a história de Minas e do Brasil, à época da colonização e domínio de Portugal. Como não poderia faltar, uma ala apresentou o episódio da escravidão negra e da emblemática figura do rei do Congo, herói da resistência e libertação dos escravos.

A cota dos africanos na consolidação da cultura mineira, segundo o embaixador Alberto da Costa e Silva, estudioso da história da África, foi vital em determinados aspectos da nossa cultura. Em entrevista recente, lembrou que sem os minas não teríamos uma mineração como a que tivemos no Brasil. A maioria dos portugueses que veio não conhecia esse processo, ao passo que a África era a maior produtora de ouro do mundo, desde o século XI, e seu conhecimento técnico nesta área era

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias.

A CULTURA QUE VEM DOS GREGOS

(Wagner Coriolano de Abreu)

O escritor Urbano Zilles, na obra Teoria do conhecimento, denomina de fundamentos da cultura ocidental ao período que sucede o surgimento de Sócrates, com as assembléias populares e tribunais da razão em Atenas, e o legado da obra de Aristóteles, o fundador de uma escola do método experimental e responsável pela enorme empresa de reunir o conhecimento filosófico que chegou até ele.

Até o aparecimento dos sofistas, predominaram na filosofia as questões referentes à natureza. Os filósofos se ocupavam basicamente da physis grega. A partir deles, o homem passa a ser o centro das
atenções, o que aparece explicitamente no texto do sofista Protágoras: O homem é a medida de todas as coisas. Os critérios de avaliação das coisas deveriam ser norteados pelas necessidades do homem.

Sócrates surge neste contexto contrariando, a princípio, a prática destes filósofos sabichões. Ele falava nas praças, a toda gente, não fazendo acepção de interlocutores, aplicando um estranho méto-
do de parto das ideias. Nada deixou escrito e tudo que sabemos a seu respeito se encontra nos diálogos de Platão, que foi seu discípulo, e alguma coisa nas obras de Aristófanes e Xenofonte.

Antes de expor o que foi seu método tão arrojado como simples, examino sua atitude frente ao conhecimento, dado que esta conduta foi inauguradora e ousada em relação às circunstâncias do
debate filosófico. Sócrates se negou a cobrar pelo conhecimento produzido junto, contrariando os sofistas, que cobravam pelo discurso filosófico a seus ouvintes. Afirmava que a atividade do filósofo se assemelha ao trabalho da parteira. Não se considerava o dono das ideias que surgiam entre ele e os

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias.

A CULTURA DO LIVRO E OUTRAS*

(Wagner Coriolano de Abreu)

De acordo com as normas de documentação da ABNT e organismos internacionais, o livro é publicação com mais de 48 páginas, além da capa. É nesse sentido que se diz os livros de Vianna Moog têm edição do Instituto Estadual do Livro, li todos os livros de Mário Sérgio Cortella, os livros da biblioteca de José Mindlin foram doados para a Universidade de São Paulo. Em homenagem a Mindlin, recentemente falecido, a televisão veiculou uma reportagem sobre os sebos. A dona de uma grande livraria afirmou que o livro, ao ficar velho, não deve ser destruído, pois ainda servirá a algum leitor e não é certo que terá outra edição.

Com exatamente 48 páginas, tenho em mãos o Plano Nacional do Livro e Leitura, impresso pelo Ministério da Cultura e Ministério da Educação, em formato de livro e datado de 2007. Além do Plano e seus quatro eixos, o leitor encontra no mesmo volume o artigo O PNLL e a dimensão cultural da leitura, de Gilberto Gil, e o artigo O livro, a escola e a leitura, de Fernando Haddad. Salta aos olhos a quantidade de vezes em que aparece no documento o termo livro.

Outro documento recente, não impresso, mas em versão digital, o Texto-Base da Conferência Nacional de Cultura, de 2010, cujo tema geral trata de Cultura, Diversidade, Cidadania e Desenvolvimento, alarga a possibilidade de pensarmos o livro, não mais como publicação ou objeto de um plano de ação, mas como produção simbólica e instrumento da diversidade cultural. Nesse sentido, a cadeia econômica do livro (criação, produção, distribuição, consumo e fruição do bem