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quinta-feira, 28 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

SEMPRE AOS PARES
(Wagner Coriolano)

Dizer poesia não é o mesmo que dizer poema. Contudo, os poetas anunciam seus versos como poesia, antecipando a solenidade que o leitor há de encontrar e, ao mesmo tempo, dando força a um costume imemorial, de ter a poesia na melhor conta, digamos que ofício de poucos.

João Claudio Arendt segue a tradição dos poetas soleníssimos, dando-nos um livro inteiro de poemas, última produção de uma lavoura que cultiva faz mais de vinte anos. Ainda nos umbrais da Universidade, e depois nos entretempos da jornada de Letras e da vida, João Claudio limava os versos e às vezes os submetia aos pares, exercícios poéticos que entendemos como antecedentes deste Plural da ausência, recentemente publicado em Caxias do Sul (2009).

Às vésperas de fazer quarenta anos, o poeta vem nos colocar frente à leitura de duas vertentes da literatura: o romantismo e o modernismo da fase contemporânea. Como leitor experiente, João Claudio nos submete aos versos de Junqueira Freire e Castro Alves, por um lado, e de Ferreira Gullar, por outro, preparando o terreno da poética que lida com temas recorrentes da condição humana: o vazio como niilismo, a morte como inexorável, o desejo como o encontro dos corpos.

Caímos na expressão sempre aos pares por uma série de indícios: o poeta utiliza dois substantivos no título Plural da ausência; divide a obra em duas partes, sendo que cada uma tem subtítulo com expressão hifenizada (Desejo-erosão; Tempo-corrosão); estabelece um diálogo com o sistema literário, retomando dois períodos e fincando marcas de outros fazeres poéticos. Enfim, ele cultiva pares, paralelismos e oposições.

Será que os poemas do passado, os perdidos nos desvãos do tempo, podem ameaçar esses novos versos na praça?

Temos ainda que aprender dos poetas. Nos livros de poesia, encontramos uma lição silenciosa de diálogo e uma convocação ao trabalho de decifrar a Esfinge. Os dicionários nos lembram a figura
assombrosa desta senhora: monstro fabuloso com corpo, garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de águia e unhas de harpia, que propunha enigmas aos viandantes e devorava quem não conseguia decifrá-los. Como admiro os dicionaristas, que conseguem nos dizer com poucas palavras sobre um mundo imaginário da Grécia. Como admiramos teus versos, João Claudio, que trazem novamente os mitos antigos: “Fui até o lago e ele estava deserto/ No espelho das águas cintilava apenas o teu rosto de esfinge/ Devorei tua imagem para decifrar o enigma”.

Os poetas dialogam na distância dos tempos. Os versos que escrevem e as imagens que inventam, depois de um tempo, reaparecem na obra dos novos, refundindo sentidos. Querem uma prova? Uma imagem do João, a cinza das manhãs, remete a Manuel Bandeira, que estreou com A cinza das horas, e também escreveu os poemas de Estrela da manhã. Um poeta se procura em outro poeta, o João Claudio se procura na tradição: “Sentes a solidão que a cinza das manhãs deságua sobre ti?/ Sentes o abandono que o basalto das tardes estende sobre ti?/ Sentes o desamparo que o chumbo das noites arroja sobre ti?/ É minha ausência que deságua, que se estende que se aloja em ti”. Com isso, apontamos um rastro, mas devemos esperar por mais crítica que possa desvendar este Plural da ausência.

A leitura de poesia pode auxiliar em outros trabalhos com a palavra, como é o caso, por exemplo, de quem faz reportagem, ensaio de cultura e composição de letra musical. Quanto à proximidade en-
tre poesia e música, se torna pertinente recordarmos as palavras de Pedro Lyra, tecendo comentário sobre a relação entre o poema e a letra de música. Lyra registra que “o poema é uma forma de expressão que se sustenta por si mesma, por ter seu próprio ritmo; a letra de música só se sustenta pela melodia e, portanto, tem um ritmo externo” (O real no poético).

A poesia de Plural da ausência prepara a palavra pelo desafio que lança ao leitor. Ensina-nos que no ato de leitura é preciso perceber e apreciar cada detalhe, como nas minuciosas explorações de ritmos pelo emprego de paralelismo. O poeta ora cria uma imagem cíclica – “Apago do meu corpo os vestígios do teu/ Resistem na pele os fluidos impressos inscritos nos pêlos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu/Tatuados na pele os humores secretos conservam apelos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu”, ora inventa uma surpresa – “Este amor qual quebra-cabeças com peças repetidas e faltantes/ este amor que capitula mas ao exílio condena os seus amantes/ este amor que se nutre de migalhas que erra os caminhos e a cada entrega é ausência constante/ este amor é obra de um cupido cego e sem asas, artimanha do diabo ou ilusão de um poeta que nunca nunca amou antes”.

Outro aspecto significativo da obra tem a ver com a criação dos subtítulos desejo-erosão e tempo-corrosão. Bem no começo, o poeta lança o curto poema “O amor/ é a erosão da ausência” – que ilustra a relação desejo-erosão – como carro-chefe de longa série de poemas, onde predomina a relação intersubjetiva dos amantes, embora raros poemas escapem ao registro do pronome pessoal. Na segunda parte do livro, ele nos propõe o conflito da corrosão do tempo, por meio da metáfora do humano como pássaro. Recorrentes são as imagens em que pássaros ilustram situações humanas, o desgaste que vem com o tempo: “Por que não colhes o fruto antes dos pássaros e da corrosão do açúcar?”. Aqui, também, alguns poemas fogem da regra, registrando a corrosão do tempo com outras imagens: “De onde tira o mar timbre pra cantar?/ De onde tira o mar ginga pra dançar?/ De onde
tira o mar o sal pra adoçar?”

Com este Plural da ausência, João Claudio Arendt nos enriquece pela poesia e pela redescoberta do espanto como concernente ao humano.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


POETIZAR O COTIDIANO
(Wagner Coriolano)

O escritor Oneide Bobsin afirmou, no texto Religiões em romances (2002), que na boca de uma pluralidade de personagens é difícil perceber os limites entre a realidade e a ficção. E, ainda mais especificamente, sintetizou com As fronteiras entre as versões dos fatos históricos e as suas recriações literárias são tênues. Na ocasião, o Oneide estava às voltas com os romances A viagem de Théo, de Catherine Clément, O rei, o sábio e o bufão, de Shafique Keshavjee e O livro das religiões, que Jostein Gaarder assina junto com Victor Hellern e Henry Notaker.

Se não bastasse examinar as recriações literárias ou ficcionais da religião, o Oneide retorna à cena literária e empreende um exercício de proferir, pela voz da crônica, uma série de textos onde trata do cotidiano pela perspectiva luterana. Intitulou de Histórias para quem gosta de aprender (2009). Na apresentação, que antepõe às trinta e uma histórias, diz que os textos foram escritos em momentos específicos e com objetivo de problematizar assuntos concretos. Não faz menção à tênue fronteira entre o fato histórico e a versão literária.

São crônicas de fundo religioso e bíblico, assim o provam as diversas citações entremeadas nos textos, mas também aparecidas nos títulos, como em A família de Jesus, Lutero em Cuba e Bush,
Saddam e Lutero. Contudo extrapolam a leitura estritamente teológica, avançando por uma voz fundada em aporte intercultural, quando o autor retoma o acúmulo do pensamento ocidental e oriental como estratégia de leitura das coisas novas. As crônicas circularam, em primeira mão, pelo jornal da comunidade evangélica, da IECLB, e foram caprichosamente editadas pela Oikos Editora.

Em Folhas de figueiras, encontramos um excelente exemplo de crônica literária, calcada entre o fato e a ficção. Como homem que trabalha a teologia, Oneide Bobsin se revela aqui um cuidadoso leitor, visto que é impossível separar a teologia do gosto pelos livros. O ponto de partida da crônica é o livro Auto-engano (1999), do filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca. Tocado pela frase mentimos para nós mesmos o tempo todo e nos vemos bem melhor do que somos, Oneide recupera uma pequena história do auto-engano através dos tempos, nos levando ao Paraíso, com a famosa folha que velou o corpo da mulher.

Sob o ponto de vista literário, ao entrelaçar o relato bíblico de Adão e Eva com o registro jornalístico de acidente no Aeroporto de Congonhas, o autor destaca que neles o homem incorre em produzir
mentiras para esconder os próprios erros. A camuflagem daquela folha bíblica permanece sendo o nosso expediente por meio de outras folhas. A fronteira, portanto, começa a ser colocada quando percebemos a poetização (ou politização) deste título Folhas de figueiras.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

PEQUENA CONTRIBUIÇÃO

(Wagner Coriolano)

Uma pequena contribuição para aumentar nossa paixão pela literatura. Assim escreve Sérgio Farina de próprio punho no Estatuto poético (1996), meu exemplar marcado desde o pórtico com sua letra e na confirmação da dedicatória impressa “aos meus alunos”. De 1997, data do autógrafo, a 2007, data do lançamento do Prêmio Literário Sérgio Farina, nosso campo de estudos expandiu suas fronteiras, mas a lição do amigo permanece com força e atualidade.

Nas cinco primeiras páginas, o Estatuto poético dá uma imagem do que foi o exercício do magistério de uma vida. Nesse sentido, vale a pena observar que se trata de uma proposta de leitura analítica e interpretativa, conforme destaca o autor no subtítulo do livro. Leitura do texto antes, durante e depois da aula, visto que o texto literário nos leva além de si mesmo. Nessa introdução, Farina questiona o ensino da literatura, a fim de abrir horizontes de investigação, bem como de buscar a essência pela crítica, enriquecendo a obra com os múltiplos sentidos que a atualidade acrescenta ao tecido ficcional, seja em verso, seja em prosa.

O trabalho com a arte, na proposta do estatuto, acompanha o interesse didático. Cabe ao professor investigar um método que satisfaça a visibilidade da mensagem da obra literária, de preferência com a participação do leitor. Para tanto, após examinar as posições teóricas e o leque de opções de ensino, afirma que o conhecimento da literatura se faz via experiência e importa verificar os rumos da teoria literária aplicada aos textos escolhidos.

Dentre as metas contidas no ABC de Farina, duas disparam na frente: como ler o texto poético e como produzir sentidos. No coração dessas perguntas, encontram-se o reconhecimento da consciência de finitude humana, da necessidade de um ato interpretativo perante a escritura e, ainda, do fato de que o leitor não tem o sentido original ou verdadeiro das palavras. Como leitor privilegiado, ele dizia que no mais recôndito passado, há o mito, canal com o mistério que somos.

As etapas de seu método abarcam quatro procedimentos relacionados à obra literária. Em primeiro lugar, a procura por tudo o que envolve o tempo em que a obra foi escrita; segundo, o exame do texto a partir das noções de teoria da literatura; terceiro, o exercício da leitura extensiva através dos códigos de sentido e, por último, o ensaio de uma leitura profunda que visa estabelecer o signo texto. Em contato com as idéias de Sérgio Farina, podemos aprimorar a tarefa de docência da literatura.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


OS INSTANTES DE ERNANI MÜGGE

(Wagner Coriolano)

Há muitos anos Ernani Mügge mora em Dois Irmãos, cidade fortemente marcada pela cultura alemã, e ali exerce seu magistério, participando de uma política de incentivo à leitura e escrita, no município e arredores. A experiência com a palavra, todavia, é anterior a esta prática, no mínimo recuando aos tempos de formação secundária e aos dias do curso de Letras Português – Alemão.

Ainda nos anos 1990, cursa uma especialização em lingüística do texto, e na virada do milênio estreia com o livro de contos Percalços, editado em 2000, cuja temática explora a ambivalência do termo percalço, passando da compreensão de um incômodo inerente para a acepção de um benefício que se obtém por meio de alguma atividade. No conto O segredo, por exemplo, a personagem Pedro abandona uma intenção ruim após descobrir que está sendo observado por uma mulher e, em seguida, por outros passageiros do ônibus.

Em 2004, após o mestrado em teoria da literatura, Ernani Mügge retorna à cena literária com catorze contos, enfeixados sob o título Instantes, publicado pela Oikos Editora. A capa do livro revela uma escolha de imagens que correspondem apenas a cinco contos, entre os quais, O concerto e O Aerowillis novo. O ilustrador Marco Liesenfeld, desse modo, sugere uma estratégia de leitura do livro: o desenho e o ato de selecionar.

Ao inscrever estes instantes na obra ficcional, o contista faz lembrar as palavras de Cecília Meireles, “canto porque o instante existe”, bem como se aproxima do pensamento que entende a vida como um instante imenso, no constante retorno do mesmo. Separo quatro instantes em primeira pessoa, após a leitura dos demais contos narrados em terceira pessoa, a fim de pôr em relevo a voz de menino narrador que vê o mundo com curiosidade.

Em O passeio, o narrador menino conta o esquisito passeio que faz a um velório. As marcas do “proibido” são muito frágeis, transparecem na linguagem e na incerteza das regras. O menino tem
uma irmã, chamada Margarete, a quem explica coisas. “Minha irmã também não sabia que as velas acesas eram para iluminar a alma do morto. Que tonta! Por cima ainda perguntou o que era alma. Eu disse que sabia só que não achava as palavras para explicar certo. / – Tu também é um burro! – irritou-se”.

O narrador menino de A hora certa de dizer as coisas a um filho nos apresenta o dia em que os pais socorreram a vizinha, cujo sogro se enforcou. Demoraram na casa dos Herzel, mas o menino sabe que ordem do pai era para cumprir. Sem saber como os pais decidiram contar-lhe o ocorrido, ele conjectura sobre o complicado de saber a hora certa.

Em Sabedoria, o menino narra a vez que seguiu o avô para  observá-lo na pescaria. Queria saber como adivinhava o dia certo do peixe cair no anzol. Constata, finalmente, que o avô sabia o que
estava fazendo. E, por último, em O concerto, o menino conta da aproximação com o casal de músicos tão diferentes dele. Aproximase devagarzinho, ouvindo os ensaios de longe, até que um dia o músico os convidou, a ele e a seus amigos, a entrarem na casa e assistir a uma apresentação.

Os instantes de Ernani Mügge entretecem o cotidiano, ora dando voz aos protagonistas, ora por meio de um olhar de fora. Nos quatro contos, predomina o questionamento da norma, o menino não aceita simplesmente o certo. Em alguns contos em terceira pessoa aparece a criança que se cala frente à determinação adulta, como em O lugar proibido e Decepção.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


OS AMORES TURVOS

(Wagner Coriolano)

Com Historia de un amor turbio (1908), Horacio Quiroga apresenta a personagem Luis Rohán e suas viagens. A edição brasileira, publicada em 1998, traz um posfácio de Pablo Rocca, crítico uruguaio, que assim sintetiza o enredo: “a ação transcorre basicamente em Lomas de Zamora e, em menor medida, em Buenos Aires, com alusões a uma distante estância, de onde Rohán vem para a capital, por uma temporada – e aqui começa o romance – e para onde ele volta ao final”.

Na capital argentina, Rohán inicia o curso de Engenharia, mas logo desiste da formação acadêmica. Consegue um emprego no Ministério de Obras Públicas, como desenhista, e permanece na cidade, levando uma vida independente, embora a contragosto do pai. Após um ano, se aproxima das irmãs Lola e Mercedes, e posteriormente passa a freqüentar a casa da família, em localidade distante a vinte e cinco minutos em transporte ferroviário.

Pouco tempo depois, recebe uma carta do pai, ordenando que viaje à Europa, a fim de que encontre uma vocação: “acho que voltarás mais inútil ainda, mas sempre me restará o consolo de ter feito o possível por ti”. Apesar dos laços que o jovem Rohán estreita com a família Elizalde, em especial com Mercedes e a pequena Eglé, de nove anos, segue para Paris. Na temporada francesa, frequenta museus e ateliês “com a tenaz assiduidade de quem tenta convencer-se de um amor que não sente muito”. Ao final do terceiro ano de França, decide pela fotogravura, outra escolha que malogrará perante os sofismas pessoais. Com oito anos de andança, retorna para o Cone Sul.

De volta a Buenos Aires, Rohán reingressa no Ministério como subchefe de divisão e retoma a amizade com a família de Lomas. Aos poucos, vence as barreiras que o separam de Eglé, agora mais bonita, tangível e desejável, porém distante e indiferente. O narrador observa que “uma noite, observando-a em silêncio, deplorou até o fundo da alma não poder voltar ao passado”.

Nas sucessivas visitas, Rohán desfruta da música ao piano, da conversa íntima com Mercedes e das primeiras aproximações com Eglé. Passeiam pela estação de trem, onde caminham pela gare do sul, menos tumultuada que a gare do norte. Visitam a quinta, onde finalmente principia o namoro. “Rohán ergueu o rosto dela e a beijou na boca. Foi um beijo tão longo, tão apertado, que Eglé saiu dele fatigada, rendida àquele amor que acabava de confessar”.

A história de Rohán e Eglé dura apenas alguns meses. Ele tem muito a fazer na cidade e, com o passar das semanas, reduz o tempo de ficar com a namorada. Ela entende como esmorecimento do amor. A razão do desenlace, contudo, tem a ver com a obsessiva preocupação de Rohán com um passado relacionamento de Eglé. Ele vai morar numa estância à distância de dois dias, ela permanece em Lomas.


Na tradução de Sérgio Faraco, a novela de Quiroga recebe o título de História de um amor louco. O câmbio da palavra – talvez pela melhor correspondência – reduz os sentidos desta narrativa uru-
guaia, que também trata da travessia da personagem Rohán, entre caminhos e descaminhos.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O TEMPO E A MEMÓRIA


(Wagner Coriolano)

É preciso dar aos contemporâneos a oportunidade de conhecer as obras que marcaram a cultura ocidental como, por exemplo, a leitura de Em busca do tempo perdido, do escritor francês Marcel Proust. A caudalosa narrativa reúne sete romances que traçam o panorama da vida de Marcel, o narrador.

Com exceção do capítulo Um amor de Swann, narrado em terceira pessoa, os livros (um pouco menos de três mil páginas na tradução brasileira) expõem o ponto de vista do narrador a respeito de sua própria vida e de como a memória reteve o tempo passado e o sentimento de transformação de todas as coisas.

A leitura do romance exige tempo e muita observação. A relação entre leitura e memória é inevitável, e a ruptura com o ato de ler uniforme se torna uma exigência permanente. Daí a pergunta: como fazer uma leitura do romance e não se perder ou não reagir com tédio?

A estratégia do texto mostra que a intenção de envolver o leitor se deu pela intermitência do enredo, quando o escritor enxerta episódios significativos na grande estrutura narrativa. Segundo o tradutor 
Fernando Py, “o que importa não são os encadeamentos narrativos e episódicos e sim a análise psicológica, as conexões estabelecidas e, acima de tudo, aquela transcendental peleja do espírito criador, que luta para se afirmar e deixar a marca de sua genialidade”.

A linguagem rica em poesia, com que é apresentada a recordação da infância – cheia de detalhes que remetem à época (como certos costumes e hierarquia rígida), à cultura arquitetônica (casa com jardim, portão de ferro com ruído ferruginoso) e aos costumes (jeito de falar em casa) –, revela a trajetória da personagem pelo mundo nobre. Desse modo, entendemos a aproximação entre o passado distante da infância e um passado mais próximo do tempo em que narra, situado no mundo aristocrático da duquesa, no jantar dos Guermantes.

Marcel recorda as visitas de Swann filho a seus familiares, a recepção e a mentalidade da família de Swann quanto a seu casamento com mulher de outra posição social. “Ele já não vivia na sociedade que sua família freqüentava”, registra o narrador. Charles de Swann, homem reservado e de vida ambígua, é ingênuo a respeito da vida movimentada de Odete de Crecy com quem se casa. A diferença entre a postura do filho mundano e do velho Swann aristocrático só é possível de estabelecer quando se conhece o desenrolar dos episódios narrados no romance, onde encontramos a descrição de outras personagens que foram formadas na educação aristocrática, como a Senhora de Luxemburgo, mas que mudaram de lugar social.

O crítico alemão Wolfgang Iser afirma que a obra literária existe quando se constitui como texto na consciência do leitor, quando leitor e autor participam conjuntamente de um jogo de fantasia, para o
qual não há espaço para algo mais do que regras de jogo. De modo excepcional, Proust soube realizar uma jornada pelos caminhos entre o real e o imaginário, nos comunicando o mundo da sociedade francesa da passagem entre os séculos XIX e XX, ao mesmo tempo em que nos conduzindo através da invenção de uma infância encantada, trazida do tempo perdido.

quinta-feira, 12 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


NATAL E LITERATURA


(Wagner Coriolano de Abreu)


A premissa básica da conversa sobre Natal através da literatura reside na aceitação do Cristo que foi feito como homem. Nesse sentido, o tema proposto exige uma compreensão da História. Sob os auspícios do Império Romano, o historiador Flávio Josefo escreveu sobre os hebreus e deu notícias do nascimento do menino cuja estrela se tornaria sinal de presença divina e promessa de reconciliação.

A história do evento natalino, portanto, inscreve-se para a posteridade não apenas através da escrita apostólica, mas também pela escrita oficial representada pelo soldado que serviu aos romanos. No século XX, o escritor norte-americano Gore Vidal se notabilizou por tratar do tema da inserção do cristianismo na história romana em seu romance intitulado Juliano.

Em face da história do Natal, a palavra literatura pode ser entendida em pelo menos dois sentidos.
Em sentido geral, são os escritos que fazem referência ao evento, a Bíblia, a história, o folclore e os registros da arte. A literatura natalina inclui os escritos dos profetas que antecederam ao episódio, no curso do tempo. José Schiavo, em seu dicionário de personagens bíblicos, diz que Isaías proclama que o menino nasceria de uma virgem, Amós diz que sairia de uma tribo de Davi, Miquéias anuncia que nasceria em Belém, Naum diz que faria a pregação evangélica, Jeremias previa a infidelidade para com Ele e seu sacrifício, assim como fala das dores e da encarnação, Baruc celebra seu aparecimento entre os homens, Daniel utiliza a expressão filho do homem, Ageu prediz sua entrada no templo, enfim, Malaquias fala no precursor que lhe prepararia os caminhos. O poeta e professor gaúcho Armindo Trevisan, recentemente, fez publicar o seu estudo minucioso sobre o filho do homem no livro O rosto de Cristo.

Em sentido estrito, como se fala atualmente na escola, a literatura reúne os escritos com arte, a poesia, o teatro e, sobretudo, a narrativa ficcional. A respeito desta produção em prosa, e para ficar no exemplo brasileiro, temos que lembrar o conto Missa do galo, de Machado de Assis. O grande escritor foi matriz de vários escritores modernos que a seu conto fizeram referência. No Sul, o conto O menininho do presépio, de João Simões Lopes Neto, é famoso. Contudo, a diversidade prevaleceu e a literatura brasileira tornou-se um mar de histórias natalinas.

A literatura, sem dúvida, anunciou o acontecimento Natal entre nós e deixou um rastro dessa história como uma biblioteca aberta ao público. Outras narrativas literárias podem ser encontradas nas antologias de contos intituladas A palavra é Natal e Contos para um Natal brasileiro. A literatura pode ser o nosso perene advento. Então é Natal.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

MODOS DE DIZER CAMUS


(Wagner Coriolano de Abreu)

Para o nosso tempo, de visualidade e rapidez, um bom começo pode ser uma frase. Albert Camus, no ensaio Herman Melville (1952), afirma: “o escritor de talento recria a vida, ao passo que o gênio, além disso, a coroa com mitos”. Outro bom começo acontece através de um traço do perfil literário. Susan Sontag, no ensaio Os cadernos, de Camus (1963), descreve: “sob  muitos aspectos é um rosto quase ideal, o rosto de menino, bonito mas não muito, magro, forte, a expressão ao mesmo tempo intensa e modesta”.

Tanto nas palavras de Camus sobre Melville quanto na descrição que Susan Sontag faz do próprio Camus, sobressaem elementos que se relacionam a esse homem franco-argelino, mais conhecido como autor da novela literária O Estrangeiro. Camus torna-se notável pela ponte que estabelece entre o mito grego e a expressão intensa e modesta das crises do pensar no mundo contemporâneo, expondo em seus ensaios O mito de Sísifo (1942) e O homem revoltado (1951), entre outros, a problemática da filosofia do absurdo. Neste sentido, podemos dizer que literatura e filosofia correm pari passu na escritura.

Uma terceira via de acesso ao pensamento de Camus encontra-se na explanação Albert Camus, sentimento espontâneo e crise do pensar, do alemão Jürgen Hengelbrock, publicado pela Nova Harmonia em 2006. De acordo com o editor, Hengelbrock oferece uma imagem do filósofo que não se esgota numa queixa contra o absurdo da existência, pois representa uma mundividência coerente e orientada segundo a tradição antiga do ceticismo filosófico.

Hengelbrock não se detém na biografia do escritor, nascido na periferia européia às vésperas da Primeira Guerra e falecido em 1960, mas sinaliza a formação intelectual, informando-nos do leitor atento dos pensadores Edmund Husserl e Friedrich Nietzsche. O professor da Ruhruniversität de Bochum, Alemanha, baliza seu estudo pela hipótese de que, para Camus, a interrogação filosófica só tem valor se der significado ao sentimento espontâneo e elementar da vida.

A parte maior do Albert Camus, de Hengelbrock, examina o ensaio O mito de Sísifo. O professor procura demonstrar o embate entre lógica do pensamento e lógica da vida, o sentimento do absurdo e o caminho intermédio “onde a inteligência pode permanecer clara”.

No mito grego, a personagem Sísifo permanece presa ao castigo após desafiar Zeus; na releitura do mito, Camus oferece diferente perspectiva de existência, quando coloca a decisão de viver acima da decisão de deixar de viver. Assim, revela-se um leitor de Nietzsche, como bem observa o professor de Bochum.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

MÊS DO MENINO

(Wagner Coriolano de Abreu)

Os leitores brasileiros, que nos últimos anos descobriram a poesia de Fernando Pessoa, se lembrarão da heteronímia presente na obra poética, em verso e prosa, deste português de Lisboa, cuja vida transcorreu entre 1888 a 1935. Dentre os muitos nomes imaginários que Fernando Pessoa identifica como autor de suas obras, Alberto Caeiro compõe com Álvaro de Campos e Ricardo Reis uma tríade singular de poetas homônimos, aos quais apenas se junta com a mesma força o ortônimo Fernando Pessoa, autor de Mensagem, ele mesmo.

Alberto Caeiro escreveu o longo O guardador de rebanhos, uma reunião de quarenta e nove poemas, entre os quais, a narrativa de um sonho, no qual o menino Jesus foge do céu e vem morar entre os homens, no mundo. Este menino conta como funciona o céu e as relações com a família eterna. Finalmente, passa a morar no íntimo do poeta. São cento e sessenta e um versos para ninguém botar defeito.

À primeira vista, lido ou ouvido na voz do ator Paulo Autran, o poema revela ao leitor ou ouvinte uma diferente abordagem, em face deste tema envolto geralmente em reverência (Fernando Pessoa por Paulo Autran, Coleção Poesia Falada, Luz da Cidade Produções Artísticas). Não é para menos. O heterônimo Alberto Caeiro, homem de vida rural e ligado à natureza, faz uma severa crítica ao ideário do cristianismo e da instituição católica, que insiste em apresentar um retrato convencional desta pessoa de enorme sensibilidade humana.

58 SEMPRE AOS PARES


Passado o susto do relato, com sua blasfêmia infantil e seu antiespiritualismo absoluto, é possível sentir que o permanente reside na vida que se leva sem mistério, mas com a descoberta de que tudo vale a pena.

A leitura do poema, certamente, é rico exercício de paciência, na tentativa de superação de  preconceitos morais, àqueles que esperam ainda sentir, no mês do menino, a riqueza da sua mensagem. Às avessas, Caeiro nos dá outro rosto de Cristo, em meio a tantos que marcaram nosso imaginário, através da arte cristã, como bem ilustra Armindo Trevisan, em O rosto de Cristo: a formação do imaginário e da arte cristã. Aqui, se observa que as artes ampliam o horizonte de
conhecimento e remexem a sensibilidade, pois nos renovam a verdade.

O poema de Alberto Caeiro anuncia o fim de uma interpretação de história oficial. Em diálogo com outros poetas da natureza, por exemplo, com o autor de Cântico do sol e Cântico das criaturas, ele
polemiza para mostrar como é difícil aceitar a figura de Jesus Cristo, embora não consiga libertar-se dela: era nosso demais, diz o verso. Ao construir sua poesia em oposição aos cânticos de Francisco de Assis, Caeiro se aparta da concepção de mundo cristã e tenta colocá-la em questão. A simplicidade alcançada pelo pobrezinho, todavia, tornou-se uma obsessão de Caeiro, pois deu-se conta da impossibilidade de alcançá-la. Talvez, aí esteja o motivo de Álvaro de Campos chamá-lo
de “uma espécie de São Francisco de Assis sem fé”.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

MAS O AMOR SABE UM SEGREDO
(Wagner Coriolano de Abreu)

A capa do livro Olhos azuis, coração vermelho, de Jane Tutikian, mostra a imagem de duas meninas, uma maior e outra pequena, unidas por um coração vermelho. Editado pela Artes e Ofícios, 2005, em Porto Alegre, esta novela pertence à coleção Grilos e trata de dois movimentos interiores da personagem: a paixão amorosa e o convívio com a diferença. A escritora, no caderno Autores Gaúchos, do Instituto Estadual do Livro, afirma que a sua literatura para jovens surge meio por acaso. “Tinha dentro de mim uma menina, seus amigos, seu mundo, enfim, e sentei para escrever sem pensar que o resultado seria infanto-juvenil.”

Com treze anos, Julia tem a primeira cólica e passa a narrar a história daqueles dias, em companhia dos pais, do irmão mais velho e da irmã pequena. Quando recebe o abraço de seu pai, a narradora diz que “há coisas que se dizem sozinhas, eu me dei conta, mesmo sem falar nem nada”. À tarde, recebe no apartamento a visita de Adri, Suzi, Cau e Tuca, amigas e colegas de escola, que exigem saber tudo a respeito do. E para comemorar, decidem fazer a Festa do Segredo.

O enredo revela que os acontecimentos estão fora da ordem natural. Julia volta no tempo, à cena em que os pais comunicam a ela e ao irmão Cauê que teriam uma irmã. Constata que “as coisas mudaram” em casa, pois os pais passaram a dar maior atenção à criança de olhos azuis puxados, lenta nas ações, “a dona do meu pai e da minha mãe”. Um pouco sem jeito, ela confessa que não gosta da
irmã.

Na escola, Julia combina com as meninas a lista de convidados, incluindo o pessoal do terceiro ano, sabendo que a presença deles garantiria um registro no jornal da escola. Reflete sobre as paixões entre as amigas e os meninos, destacando que Tuca é a mais madura das meninas, apesar da dificuldade financeira com que dona Maria a educa. Em seguida, fala de seu sentimento por Bronco, amigo de Cauê, e do dia em que Titi contou a ele, que por sorte não ouviu. Tuca escreve um requerimento à direção da escola, pedindo o espaço para a festa.

As meninas começam a enfeitar o salão, os meninos afinam os instrumentos e repassam a música. Cauê e alguns amigos formam a banda “Os Q-não comem”. As meninas ficam perto da Banda, mas
Julia não se aproxima do grupo e de Bronco. Sua mãe passa por ali e deixa Titi para eles tomarem conta. Ao final dos preparativos, a turma toda faz uma guerra de purpurina e Titi fica cheia de brilho até na língua. A direção aprova o arranjo final.

Ela vai para casa e se enche de dúvidas. “Por que será que eu era assim, se podia ter nascido de outro jeito? E se eu fosse de outro jeito, seria outra pessoa?”. Pensa em perguntar para Titi, que assiste
de pijama rosa, com que roupa irá à festa, mas desiste. Corre para o apartamento de Suzi, no mesmo edifício, para se arrumar e colocar a maquiagem.

Na festa, as meninas começam a circular para o lado dos meninos, mas Julia fica no banco. Ela tem questionamentos de identidade e pensa com ternura em Titi e seu jeito diferente de ser. Em outro canto, e também sentado, se encontra Bronco. Quando a professora conselheira e o professor de Educação Física vão para a pista de dança, os pares se formam. Bronco tira Julia para a dança. Colam o corpo e pouco depois ele se declara para ela. Segue breve silêncio e Bronco pergunta se fez bobagem. Julia então toma coragem de revelar seu sentimento e mais adiante eles se beijam.

As meninas voltam acompanhadas da festa e vão para o apartamento de Suzi, onde juntas se reúnem no acolchoado no chão. Houve uma pequena discussão entre Suzi e Tuca, envolvidas com Cauê. Julia conta como foi a noite e conversam sobre os ideais a respeito de namoro. Cau recorda o amor de seus avôs que eram hippies, nos anos 60. Tecem especulações sobre a identidade dos pais, mas não querem outros. “Ficamos um tempão discutindo os nossos pais e, o mais engraçado é que, por mais que tenhamos posto defeito neles, e a gente botou uma montanha!, por mais que a gente quisesse que eles fossem ou fizessem coisas diferentes, nenhuma de nós queria outra mãe ou outro pai”. A narradora vê o dia clarear e se surpreende com a descoberta do amor como um novo sentido para a vida.

Pela manhã, a mãe de Suzi acorda as meninas e as convida para o almoço. Julia agradece o almoço e vai para o apartamento dos pais, que a recebem com abraço afetuoso e aprovação do namoro. Entre brabeza e vergonha, segue para o quarto, acompanhada do irmão. Conta da briga entre as meninas e diz que Tuca tinha tentado de tudo para esquecê-lo, mas não teve jeito. Cauê diz que Titi chorou
na sua ausência. Julia se questiona a respeito de Deus e dos caminhos da doença. Queria que não precisasse ser assim.

Julia recebe as meninas em casa, na mesma hora em que tira o telefone do gancho para atender Bronco. Seus sentimentos se misturam, não sabe o que dizer. “Tinha que dizer aquelas coisas que as pessoas dizem: meu bem, meu querido, meu amor? Não saberia. Não que não sentisse vontade, apenas não sabia”. A mãe pede que leve Titi ao Colégio, pois tem um chá para as crianças. Julia se
irrita e Adri toma conta de Titi, contando uma história e levando-a pela mão.

Ao chegar à escola, Julia se dá conta de que há muitas crianças com Síndrome de Down e todos eles têm a fala e o jeito da Titi. Eles apresentam alguns números de música. Ao final, as crianças descem
do palco e entregam um cartão vermelho a alguém de sua escolha. Titi entrega o seu para Julia, que se desmancha em choro. Júlia encerra a história, dizendo que “como uma ventania, tudo o que havia vivido nesta semana me mostrava, finalmente, me mostrava que estava perto de todas as pessoas que amava e, com elas, eu começava a descobrir a vida no que ela tem de recomeço”.

Na trilha de Jane Tutikian, cujo texto está recheado da mais recente canção brasileira, procurei também uma canção que aproximasse as diversas personagens por uma idéia. E a encontrei em Vinícius de Moraes e Tom Jobim, quando afirmam que o amor sabe (tem sabor de) um segredo.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro do ano passado, reúne críticas literárias. As primeiras postagens contêm textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

JOÃO ANTÔNIO RELATIVAMENTE POPULAR

(Wagner Coriolano de Abreu)



A narrativa de João Antônio, cuja publicação cobre o período de 1963 a 1996, apresenta-se marcada em geral pelo rótulo de “literatura dos marginais”, embora a produção englobe textos literários e jornalísticos que tratam de outras temáticas, como conflitos amorosos e perfil de gente renomada na cultura brasileira. A crítica realmente não enfatiza o caráter elegante de sua escrita.

Em Malagueta, Perus e Bacanaço, livro de estréia, o autor reúne não apenas narrativas sobre o mundo do jogo da sinuca, mas também narrativas cujo conteúdo expressa a infância do narrador, a solidão de rapaz e sua vivência amorosa. Já no segundo livro, Leão-de-chácara, restringe-se apenas aos personagens que na sua estréia motivaram a fama de “clássico velhaco”, expressão que Marques Rebelo utilizou quando de sua crítica aos contos. A partir de Casa de loucos, sua prosa se abre a várias possibilidades de leitura, inclusive a que mostra o escritor de fino trato e bom ouvinte da música brasileira e clássica.

A passagem de escritor de marginais para bacanaço indica uma mutação de sentido, a fim de dar voz ao próprio escritor quando diz “às vezes eu fico meio chateado com esse clichê de escritor dos mar-
ginais” (Jornal Muito +, janeiro de 2000).

A emergência da sociedade de rua, com mais evidência a partir dos anos 60, fez surgir uma literatura com interesse pela representação do morador de rua, da viração (termo empregado coloquialmente para designar o ato de conquistar recursos para a sobrevivência, conforme a antropóloga Maria Filomena Gregori), do urbano como espaço de conflito, da disseminação do medo e ainda do debate em torno dos excluídos da cidadania.

A plataforma literária de João Antônio, nesse sentido, calcou-se desde o início pelo universo da patuléia ou das gentes de rua, de modo que a crítica acompanha a trajetória de sua produção, dando
ênfase ao caráter popular presente na maioria de seus textos. Assim, outros escritos como Fujie, Meus tempos de menino e Antes que o poeta fizesse oitenta anos ficaram à margem do horizonte de leitura, fora do raio de alcance da crítica. Esta outra face da obra aponta para um patamar mais amplo e abrangente no qual seu fazer poético encontra guarida.

Quanto a excelência da escrita, o lingüista Sírio Possenti destaca a presença de estruturas cultas na escrita de João Antônio. Após empreender uma análise da oralidade e das construções sintáticas 
presentes na prosa do escritor, o professor da Universidade de Campinas verifica que, pelo uso de construções cultas, a escrita de João Antônio é relativamente popular.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro do ano passado, reúne críticas literárias. As primeiras postagens contêm textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


ERICO VERISSIMO 2005

(Wagner Coriolano de Abreu)

O verso de Drummond – Por isso gosto tanto de me contar –, do poema Mundo grande, cabe perfeitamente no retrato falado de Érico 
Verissimo, este contador de histórias do Rio Grande do Sul, autor de frases que não raro reaparecem nas nossas conversas, como “mundo velho sem porteira” e “era uma noite de lua cheia”, mormente nas lembranças em comum.

O ano 2005 marca o centenário do nascimento de Erico Verissimo, em Cruz Alta, e o trintenário do falecimento, em Porto Alegre.


Destes setenta anos de vida, boa parte foi dedicada aos livros, a começar pelo período cruz-altense, quando, nos intervalos de balconista de farmácia, rabiscava seus textos e croquis, pois aliava ao estilo verbal o gosto pelo desenho, e posterior período porto-alegrense, quando desenvolve intensa atividade junto à Editora Globo, conforme traduções bastante conhecidas e o livro Um certo Henrique Bertaso, indispensável ao leitor curioso pela indústria livreira no Brasil.


As fotos que compõem o calendário 2005, do Banco do Estado, apresentam elementos recorrentes na vida do escritor. Na modalidade calendário de mesa, ele aparece em quatro situações exemplares: escrevendo manualmente, escrevendo na máquina Royal, caminhando por uma alameda e abraçado com Mafalda. De fato, a luminosidade das fotos em preto e branco põe em destaque certo magnetismo pessoal. Não bastasse a boa qualidade iconográfica do calendário, acrescenta-se ainda no verso uma breve notícia referente ao visualizado. É nessa hora que se vê o trabalho cuidadoso e imprescindível do Acervo Literário Erico Veríssimo (ALEV).


Erico lê a inscrição Arquipélago e escreve ideias para seu lançamento. Estava chegando ao final de sua trilogia O tempo e o vento, início dos anos sessenta, onde narra a trajetória da família Terra-Cambará e reconstitui a história do Rio Grande do Sul, da colonização até o fim da Era Vargas. Flávio Loureiro Chaves observa que o romance, embora seja longa narrativa, amarra o primeiro parágrafo de O Continente com o último parágrafo de O Arquipélago com a mesma redação: Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia 

um cemitério abandonado. Assim, a compreensão da obra prende-se à leitura da série como um todo.

A festa do Centenário colocará em destaque seu nome em feiras, ruas e universidades. As máquinas modernas imprimirão seus textos revisados e bem encadernados. A leitura destes livros, entretanto, precisa ser encarecida e incentivada. As crianças precisam conhecer A vida do elefante Basílio, os jovens, O diário de Sílvia. E outro verso de Drummond – Meu coração também pode crescer –, anuncia um sentimento de leitor que viaja pela narrativa de Erico.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

DOIS CONTISTAS NA SINUCA

(Wagner Coriolano de Abreu)

João Antônio e Sérgio Faraco pertencem à geração do conto contemporâneo, cuja produção inicia nos anos 60, século 20. A narrativa destes escritores desenha um retrato imaginário do Brasil, por meio de excelente carpintaria textual, abastecida na leitura dos clássicos modernos. Em 1997, Faraco reflete sobre seu silêncio nas letras e afirma que nunca publicara um conto que tivesse custado menos de um ano de suor e desespero.

Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), o primeiro livro de João Antônio, reúne nove narrativas, entre as quais o conto homônimo que dá título ao volume, e trata da vida de três jogadores de sinuca, na noite paulistana, se bem que a temática extrapola o contexto daquela cidade, pois se refere a uma realidade nacional e popular. A história destes contos de João Antônio tem a ver com a declaração de Faraco, pois os originais que seriam enviados à editora queimaram no incêndio da casa onde morava, de modo que os reescreve a partir dos esboços que enviava nas cartas e através da memória.

O segundo livro de contos de Sérgio Faraco, Depois da primeira morte (1974), presta homenagem a Mario Quintana, que escreveu Da vez primeira que me assassinaram/ Perdi um jeito de sorrir que eu
tinha.../ Depois, de cada vez que me mataram,/ Foram levando qualquer coisa minha... Estes versos também aparecem no perfil de Quintana traçado por João Antônio, na década de 80, antes que o poeta fizesse oitenta anos.

À parte as duas aproximações – o jogo da sinuca e a poesia de Quintana –, estes contistas estiveram unidos pela tarefa de uma leitura literária do cotidiano brasileiro. Tanto Faraco como João Antônio
se colocam como representantes de uma gente que não é muito ouvida ou percebida pelas autoridades. Nesse sentido, o homem se encontra no epicentro da produção artística. Quando declara que a arte tem dívida com a realidade, poucos meses antes da morte, João Antônio se refere à realidade humana, amor, solidão, inveja, ciúme, necessidade de carinho e aventura humana.

O conto Saloon, de Sérgio Faraco, publicado em 2000, apresenta uma partida de sinuca que é uma aposta, o jogo vida, o joguinho mais ladrão de quantos há na sinuca. O negro Gorila ganha do velho
de tez azeitonada e ainda bate em sua perna com um joelhaço. Em seguida, um rapaz de rabo-de-cavalo, que assiste ao jogo e à cena, desafia o ganhador e o vence. O negro tenta impedí-lo de levar o
dinheiro, mas é barrado por uma faca que o moço traz guardada sob o colete. Já na rua, na volta da esquina, o rapaz se encontra com o velho numa lanchonete e saem para comer uma pizza.

Sob o ponto de vista de João Antônio, Faraco realiza a tarefa de intérprete da vida brasileira e se aproxima da vida real, cuja dinâmica abrange o universo dos que não têm voz, os que vivem do jogo e da sorte. Através de Malagueta, Perus e Bacanaço e Saloon é possível entender a linguagem que é própria dos ambientes de salão de sinuca, síntese do patético da vida, como registra João Antônio na saudosa Revista Realidade, outubro de 1967.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

COM VOCÊS, IVO BENDER


(Wagner Coriolano de Abreu)

Antes de estar em evidência escritores enquanto marketing, bem antes, final dos anos 80, Ivo Bender visitou o curso de Letras da nossa Universidade, em São Leopoldo. Antes do bate-papo com os acadêmicos, esteve no bar da Comunicação ou do Direto, não sei mais a quem pertencia, para um cafezinho. Naquela altura, já consagrado pelas peças O macaco e a velha e O cabaré de Maria Elefante, entre outras, desfrutava o ambiente na mais discreta presença.

Tempos depois, final dos anos 90, reencontro Ivo Bender a palmilhar, com seus ares de omem de teatro, um corredor de outra Universidade, na Capital. Naquela ocasião, ele doutor, tradutor, com carreira de professor no Instituto de Artes da UFRGS, passava tranquilamente pelos estudantes e pares das Letras, sempre atencioso na sua reserva. Relembrar estas cenas parece fundamental diante da surpresa de descobrir, em meio a suas peças, ainda pouco conhecidas fora dos espaços de realização das artes cênicas, a construção de uma expressiva dramaturgia.

O professor e escritor Ivo Bender, natural de São Leopoldo, ocupou os palcos de Porto Alegre com mais de uma dezena de espetáculos, desde a estreia em 1961, com a peça As cartas marcadas.
Em 2003, o público assistiu extasiado à montagem de A ronda do lobo, uma das três peças que compõem sua famosa trilogia, de 1988, na qual desenvolve elementos da cultura grega, a partir de situações  relacionadas ao contexto da imigração alemã no Rio Grande do Sul.

Como professor, lecionou Literatura Dramática no Instituto de Artes, ministrou cursos e proferiu palestras em outras Universidades. Leitor atento dos clássicos, escreveu ensaios sobre a tragédia grega de Sófocles e de Eurípedes, traduziu o francês Jean Racine, o inglês Harold Pinter e a poeta norte-americana Emily Dickinson. Como dramaturgo, escreveu peças para crianças e adultos, atuou como ator e diretor teatral.

À parte esta breve notícia literária, síntese de uma vida que extrapola as convenções mas não perde o fio, é preciso reconhecer a persistência de Ivo Bender em face dos campos difíceis de sua escolha: o magistério e o teatro ou vice-versa. No mesmo ritmo, o ensino caminha com a invenção teatral, e lentamente constituiu o estabelecimento de uma história do tablado entre nós. Nesse sentido, o seu trabalho se torna exemplar em face da luta pela preservação da memória cultural.

Tanto nas tragédias da Trilogia perversa como na comédia  O boi dos chifres de ouro, o escritor demonstra o domínio de técnicas de ação dramática com as quais esteve lidando em sala de aula, no esforço de recuperar a lição grega da arte nos palcos. Não foram poucas as vezes a insistir que nos faltava um conhecimento acerca da ação no texto de teatro, algumas vezes até convidando as novas gerações a um passeio pelo texto de Aristóteles. “E o que é ação teatral em última instância? Poderia ser definida como a luta de alguém para alcançar alguma coisa, num determinado tempo, num determinado lugar e de uma certa maneira. Isto é ação dramática, o resto é bobagem”. Assim falou Ivo Bender.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


Caio Fernando Abreu na crônica


Caio Fernando Abreu se inscreve na literatura brasileira através de seus livros de contos, publicados a partir dos anos 70, embora o mais festejado seja o volume Morangos mofados, de 1982. Entretanto, o escritor pode ser lembrado também pela atividade de jornalista, iniciada ao final dos anos 60, quando é selecionado para redator da revista Veja e deixa os pagos do Rio Grande do Sul em busca da paixão pelo mundo e pelo tempo.

Tanto os contos quanto a crônica revelam um Caio poético, senhor de um intimismo que imbrica o passado gaúcho com a vivência de geografias pelas quais cruzou e anotou nos textos. Sobre a crônica, o livro Pequenas epifanias reúne as diversas que publicou em jornais, durante uma década.

Compensa repassar uma ou outra destas composições, quando se quer ilustrar o gênero brasileiríssimo de juntar o coloquial com a poesia. O escritor se mostra por inteiro em As primeiras azaléias. De seu apartamento, na cidade de São Paulo, meados dos anos 80, vê pela janela um casal de jovens, que estão tomados em torno de algum sentimento, pois a moça chora. Caio estica o instante e cria a atmosfera da paixão humana e seu mistério. O cronista que há nele não pode deixar de ver e registrar o desenlace da cena.

De uma viagem a Paris, na crônica Existe sempre alguma coisa ausente, anota o verso de Camille Claudel – existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta – escrito na placa defronte à casa em que ela viveu a paixão por Rodin. Pelo título escolhido, deixa entrever o processo de amalgamar a citação a novas leituras e o faz pela genealogia das palavras e sentimentos, quando alguns anos depois retoma o verso, aproveitando-o como epígrafe de um conto.

Antes de comentar uma terceira crônica, recordo ainda que a antecedem outras três, intituladas de primeira, segunda e última carta, nas quais expõe a experiência pessoal com a doença que provocou

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


AS BARBAS E A DITADURA

(Wagner Coriolano de Abreu)

No Brasil dos anos setenta, o cidadão que usasse barbas longas tornava-se um suspeito perante as autoridades e era procurado para esclarecimentos de ordem política, social e profissional. O barbudo que ficasse a fumar seu cigarro na esquina, por exemplo, já se enrolava junto aos donos do poder e seu órgão de informações.


Foi o tempo da ditadura militar, período em que o país ficou nas mãos de apenas um chefe e seus homens que, por vias da força, fecharam os espaços de participação política, a começar pelo Con-

gresso Nacional, estendendo-se às reuniões em praça pública. A censura que impuseram atingiu as raias da loucura, através de atos absurdos, não só contra quem não fosse a favor da ideologia e se
opusesse cara a cara, mas também contra as pessoas inocentes, os lazeres populares e as manifestações artísticas.

Os homens barbudos foram tomados como partidários do comunismo, embora nem todos o fossem. A ditadura usou o expediente capcioso de rotular os adversários como comunistas, para melhor 

atingir objetivos de controle social e estabelecer a ordem imperialista ditada pelos Estados Unidos. Pode-se dizer que a ditadura fez muito mal aos rapazes que apenas cofiavam suas barbas com outros interesses e estavam alienados dos rumos do país.

Esta época, contudo, deixou também, como legado para as novas gerações, atos de coragem, que merecem ser relembrados. É o 36 SEMPRE AOS PARES caso da obra literária Sombras de reis barbudos, de José Jacinto Veiga, que veio a lume na pior hora do regime, bem no início dos anos setenta.


O livro trata da história do menino Lucas e sua gente, numa cidade invadida por uma Companhia de Melhoramentos, que piorava a vida de todos, através de proibições. Em linguagem culta e descontraída, a história logo se tornou motivo de alusões nos meios intelectualizados e uma espécie de senha para a resistência nacional. Mesmo que os estudiosos tenham criado o conceito de fantástico ou realismo mágico, a fim de explicarem algumas referências daquele momento, nem tudo ficou bem explicado e é preciso continuar na militância da memória. A leitura dos anos de chumbo, como se dizia, abre-se em novas conotações neste texto do escritor goiano, conhecido também pelo livro A hora dos ruminantes e pelo fato de ser leitor de Erico Verissimo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna iniciada há cerca de um mês, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


AVENTURA FUGITIVA

(Wagner Coriolano de Abreu)

A personagem Otávio Augusto cruza pela Costa Doce do Rio Grande – trecho entre a Capital e o Chuí – movida pelo medo. Não viaja a passeio, mas em busca da fronteira, de cruzar urgentemente para o lado uruguaio, a fim de ordenar as idéias e decidir o que fazer. Ela reconhece apenas a brusca variação na sistemática rotina do seu planejado dia, após acertar a menina e o garoto que atravessam na frente do carro. 


Em Contramão (Bertrand Brasil, 2007), de Henrique Schneider, Otávio Augusto perde o controle da própria vida entre dois instantes: no começo, quando atropela os estudantes numa Avenida de Porto Alegre, e na cena final, quando atravessa a rua sem olhar, em direção a uma cabana de pescadores, na Praia Punta del Diablo. Os demais incidentes, na parte que entremeia as pontas, ilustram as tentativas da personagem para retomar o domínio da Situação.


No quarto do hotel, encorajado pela força do vinho e do sexo, Otávio Augusto decide por contar à muambeira a verdadeira história. As palavras do narrador sintetizam o longo trecho da narrativa: “Contou tudo, sem esconder qualquer detalhe: como havia atropelado as crianças (não falou do olhar de morte da menina), furado a barreira policial embalado pela fumaça esgazeada do cigarro, roubado um carro e se livrado do antigo dono, as placas, o caminho todo construindo a fuga, o enguiço do Passat na imensidão do Taim, a espera pelo ônibus, o encontro com Valdete e o nascimento impensado de Jeison Pontes. Por isso estava indo ao Uruguai, afirmou: para pensar bem no que fazer”.


A terceira parte do romance abre com uma interpelação de grande efeito, proferida pelo narrador: “E agora?”. Famosa pergunta que aparece na poesia de Carlos Drummond de Andrade, no verso “E agora, José?”, do conhecido poema José. A marca de Drummond, o poeta que canta o sentimento do mundo, se faz presente na prosa de Henrique Schneider. Mais do que uma recorrência linguística, o romancista dialoga com a perspicácia do poeta. Se o poema Congresso internacional do medo (1940) inicia com (Provisoriamente) não cantaremos o amor, e se encaminha ao final com cantaremos o medo da 

morte (e o medo de depois da morte), o romance também acompanha esta metamorfose.

De um dia para o outro, a rotina de Otávio Augusto rumo ao triunfo e à vida matrimonial muda, em direção ao destino cego e à possível repetição de morte. Diante do imprevisto, as noções de Administração de Empresas do executivo ambicioso começam a produzir um efeito destrutivo, tornando-o cego às belezas que o cercam na paisagem ao longo da estrada (ele a vê como área de negócios). A contramão anunciada pelo título se refere à vida da personagem. A palavra na capa, portanto, assume um sentido figurado, à medida que rompe com o convencionado sinal de trânsito. Por se tratar de narrativa Ficcional, o sentido trafega melhor quando o leitor passa a epígrafe e avança páginas adentro.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, recém-iniciada, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


A EXPRESSÃO AFÁVEL


(Wagner Coriolano)

Os setenta e um anos que separam o leitor dos primeiros milhares de leitores de Um rio imita o Reno, de Clodomir Vianna Moog  (1906-1988), não corroeram a fertilidade do romance e do debate temático que o autor inseriu na narrativa. Publicado em 1939, este livro representa a estreia do autor na ficção literária, depois de consagrado como ensaísta.


A primeira edição do romance, de cinco mil exemplares, esgota em três semanas, segundo informa o Instituto Estadual do Livro.


Este fato nos leva a perguntar sobre a comunidade leitora da época, bem como acerca da recepção da obra e seu impacto naqueles leitores de então.


A história do encontro amoroso entre o engenheiro, que chega às margens do rio, e a descendente de imigrantes alemães, que vive na cidade com sua família, constitui o cenário de um acervo cultural, em condições de revelar novos traços decorrentes da imigração. Nesse sentido, Vianna Moog soube lidar muito bem com a expressão de sentimentos fortes, decorrentes dos contatos entre imigrantes e brasileiros, e a argumentação de teses relevantes naquele momento histórico. A leitura da narrativa não se esgota na polêmica do isolacionismo dos grupos germânicos ou da crítica ao conflito racional, visto que pode reabastecer o debate contemporâneo da imigração com outras

linhas de pesquisa.


Salta aos olhos de quem conhece a região do Vale do Rio dos Sinos a alusão entre realidade e invenção, presente no desenho da cidade e da torre da Igreja do Relógio, na exposição do conflito dos Muckers, na reprodução textual de estrofes de

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias.


A ÉTICA DO REI DO CONGO

(Wagner Coriolano de Abreu)

A arte e magia do desfile do Rio de Janeiro, apreciado internacionalmente, relembra a história e ética de um povo admirável. Quando se fala em Carnaval no Brasil entende-se que é a manifestação de pelo menos três modalidades de evento: desfile de escolas, baile de clubes e bloco ou trio nas ruas.

O Carnaval das escolas cariocas corresponde ao maior espetáculo coreográfico do mundo, como bem registrou a Enciclopédia Ilustrada Folha. Realmente, a festa das escolas traz para o público uma senhora representação teatral.

Em homenagem ao Estado de Minas Gerais, a escola Estação Primeira de Mangueira encenou, em 2004, a redescoberta da Estrada Real, cujo caminho representa a história de Minas e do Brasil, à época da colonização e domínio de Portugal. Como não poderia faltar, uma ala apresentou o episódio da escravidão negra e da emblemática figura do rei do Congo, herói da resistência e libertação dos escravos.

A cota dos africanos na consolidação da cultura mineira, segundo o embaixador Alberto da Costa e Silva, estudioso da história da África, foi vital em determinados aspectos da nossa cultura. Em entrevista recente, lembrou que sem os minas não teríamos uma mineração como a que tivemos no Brasil. A maioria dos portugueses que veio não conhecia esse processo, ao passo que a África era a maior produtora de ouro do mundo, desde o século XI, e seu conhecimento técnico nesta área era

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias.

A CULTURA QUE VEM DOS GREGOS

(Wagner Coriolano de Abreu)

O escritor Urbano Zilles, na obra Teoria do conhecimento, denomina de fundamentos da cultura ocidental ao período que sucede o surgimento de Sócrates, com as assembléias populares e tribunais da razão em Atenas, e o legado da obra de Aristóteles, o fundador de uma escola do método experimental e responsável pela enorme empresa de reunir o conhecimento filosófico que chegou até ele.

Até o aparecimento dos sofistas, predominaram na filosofia as questões referentes à natureza. Os filósofos se ocupavam basicamente da physis grega. A partir deles, o homem passa a ser o centro das
atenções, o que aparece explicitamente no texto do sofista Protágoras: O homem é a medida de todas as coisas. Os critérios de avaliação das coisas deveriam ser norteados pelas necessidades do homem.

Sócrates surge neste contexto contrariando, a princípio, a prática destes filósofos sabichões. Ele falava nas praças, a toda gente, não fazendo acepção de interlocutores, aplicando um estranho méto-
do de parto das ideias. Nada deixou escrito e tudo que sabemos a seu respeito se encontra nos diálogos de Platão, que foi seu discípulo, e alguma coisa nas obras de Aristófanes e Xenofonte.

Antes de expor o que foi seu método tão arrojado como simples, examino sua atitude frente ao conhecimento, dado que esta conduta foi inauguradora e ousada em relação às circunstâncias do
debate filosófico. Sócrates se negou a cobrar pelo conhecimento produzido junto, contrariando os sofistas, que cobravam pelo discurso filosófico a seus ouvintes. Afirmava que a atividade do filósofo se assemelha ao trabalho da parteira. Não se considerava o dono das ideias que surgiam entre ele e os