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terça-feira, 9 de junho de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta semana, excepcionalmente, estamos publicando a Crítica Literária na terça e não na quinta como de costume.

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

UMA AMOSTRA DA LITERATURA CATALÃ

(Wagner Coriolano)

12 Poetas Catalães: seleção, apresentação e notas de Josep Domènech Ponsatí. O livro reúne parte da poesia que se fez na Catalunya, dos anos sessenta aos nossos dias. Dos doze poetas, o mais novo é Jordi Cornudella, nascido em 1962. O mais velho é de 1942, Narcís Comadira, natural da cidade de Girona. Comadira também comparece no livro com a pintura que gerou a ilustração, em preto e branco, reproduzida na capa.

Além dos poemas selecionados por Josep Domènech, e traduzidos em parceria com Ronald Polito (São Paulo: Lumme Editor, 2006), o volume traz uma apresentação bastante elucidativa sobre a situa-
ção dos estudos da poesia catalã, acompanhada de juízo crítico para cada um dos poetas, e acrescenta, ao final, uma síntese biobibliográfica, com referência às edições que serviram para a transcrição dos poemas, em edição bilíngüe.

A Catalunya representa um dos governos autônomos na Espanha, cuja circunscrição enquanto país europeu abrange Valência, Aragão, Navarra, Províncias Bascas, Castela Velha, Castela Nova, Extremadura, Murcia, Andaluzia, Galícia, Astúrias e Leão. Fora da fronteira, no Mediterrâneo, o país tem a posse das Ilhas Baleares. A maioria dos poetas escolhidos tem naturalidade catalã, de cidades
próximas de Barcelona, embora haja no grupo dois que são de outras partes de Espanha: Enric Sòria (1958), de Oliva, localizada na Valência, e Andreu Vidal (1959-1998), de Palma de Mallorca, uma das Ilhas Baleares.

Mesmo de posse desta geografia, ainda permanece a pergunta sobre a origem do poeta. Vários poemas colocam o leitor no centro do debate do fazer poético, quando lidam com a descoberta da palavra. Comadira considera que o “poema, como o edifício, como o quadro, como uma peixada, começa e acaba nele mesmo, no seu próprio sistema de proporções e ressonâncias; segundo o seu projeto será a sua projeção, segundo a sua ascendência a sua transcendência”.

Constante na literatura catalã, as manifestações psíquicas do desejo revelam a sintonia dos poetas com a tradição e com os desafios do verso na atualidade. Enric Sòria, juntando elementos de dois
campos de sua atuação, a história e a poesia, nos revela uma sintonia lapidar com esse movimento: Mètode (A Eduard Verger)/ “Perquè el poema siga/ tan sobri com convé,/ cal beure fora mida./ Perquè siga tan pur/ com és llegut, cal fer/ uns altres sacrificis,/ més obscurs./ Puc dir que és uma llàstima”. [Método/ Para que o poema seja/ tão sóbrio como convém,/ é preciso encher a cara./ Para que seja tão puro/ como é lícito, é preciso fazer/ uns outros sacrifícios,/ mais obscuros./ Posso
dizer que é uma lástima.].

A poesia catalã se revela uma ótima via de acesso ao riquíssimo patrimônio cultural e humano da Catalunya, terra de Gaudí, das festas populares e da autonomia política.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

TODOS SE VÃO

(Wagner Coriolano)

Santiago, Guantânamo, Camagüey, Cienfuegos, Cárdenas, Havana e Pinar del Rio são sete nomes de uma Ilha que não se encerra na capital. Cuba nos chega de todos os lados através da música, do cinema e da literatura, nas artes, assim como do atletismo e da medicina. Em Todos se van (2006), de Wendy Guerra, parte da narrativa se passa fora da cidade de Havana, em Cienfuegos e arredores, embora na tradução a ênfase recaia sobre a capital cubana. A edição brasileira da Editora Âmbar, de Minas Gerais, altera o título para Diários de Havana (2007).

O romance se divide em três partes: o prólogo, o diário de infância e o diário de adolescência. A escritora aproveita páginas dos Diários de Nieve Guerra na construção da estrutura da obra, que acompanha a passagem do tempo na vida da narradora. Um fragmento de Anna Frank antecipa, com palavras preliminares, as palavras e registros de Nieve: “Poderíamos fechar os olhos perante toda esta miséria, porém pensamos naqueles que nos são queridos, e para os quais tememos o pior, sem poder socorrê-los” (Diário 19 nov. 1942). Nieve escreve para reunir os pedaços de vida em território pessoal.

O diário de infância anuncia o período entre 1978 e 1980, quando morava em Cienfuegos, ora com a mãe e Fausto, ora com o pai, por ordem judicial, sofrendo com a falta de comida e maus tratos. “Cienfuegos, a cidade de minha infância, me intimida: o expediente de minha mãe, os dias de julgamento por obter minha custódia, meu próprio expediente” (p.10). A página do diário – com dia da semana, mês e ano – funciona como capítulo do romance. Nieve fala da relação com os pais, da escola, das amigas e do próprio fazer poético e das leituras que realiza, “mi madre me trajo varios libros” (p.67). O tema da saída de cubanos da Ilha e das cidades do interior, em direção à capital, já aparece neste primeiro diário, quando registra que Elena se vai para Havana com seus pais.

O diário de adolescência, cujas páginas abrangem o período de 1986 a 1990, inicia com palavras do escritor cubano Eliseo Diego, onde o poeta fala da passagem dos anos do adolescente como andar sobre brasas. Nieve se torna mais consistente, sua prosa enriquece de elementos geopolíticos e literários, ainda que fortemente carregada de sentimentos e densidade existencial. “Não quero ser hippie como minha mãe, não quero Paz e Amor. Quero ser eu. Nenhum estado de ebriedade me parece necessário. Tenho quinze anos” (p.142). Algumas páginas do diário perdem a marcação de mês e ano e recebem um pequeno título. Em La casa de Osvaldo, El cuarto de Osvaldo e El deseo y el dolor, o leitor encontra uma fina expressão feminina da intimidade no encontro dos corpos.

Mais ao final do romance, a narradora insere a expressão “todos se van” pela primeira vez no texto: “Quase não há gente conhecida na cidade. Todos se vão. Me deixam só” (p.242). Neste momento, as diversas situações de despedida, de fuga, de pessoas e de meios de expressão que estiveram proibidas assumem um sentido maior do que a crítica ao regime.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

SEMPRE AOS PARES
(Wagner Coriolano)

Dizer poesia não é o mesmo que dizer poema. Contudo, os poetas anunciam seus versos como poesia, antecipando a solenidade que o leitor há de encontrar e, ao mesmo tempo, dando força a um costume imemorial, de ter a poesia na melhor conta, digamos que ofício de poucos.

João Claudio Arendt segue a tradição dos poetas soleníssimos, dando-nos um livro inteiro de poemas, última produção de uma lavoura que cultiva faz mais de vinte anos. Ainda nos umbrais da Universidade, e depois nos entretempos da jornada de Letras e da vida, João Claudio limava os versos e às vezes os submetia aos pares, exercícios poéticos que entendemos como antecedentes deste Plural da ausência, recentemente publicado em Caxias do Sul (2009).

Às vésperas de fazer quarenta anos, o poeta vem nos colocar frente à leitura de duas vertentes da literatura: o romantismo e o modernismo da fase contemporânea. Como leitor experiente, João Claudio nos submete aos versos de Junqueira Freire e Castro Alves, por um lado, e de Ferreira Gullar, por outro, preparando o terreno da poética que lida com temas recorrentes da condição humana: o vazio como niilismo, a morte como inexorável, o desejo como o encontro dos corpos.

Caímos na expressão sempre aos pares por uma série de indícios: o poeta utiliza dois substantivos no título Plural da ausência; divide a obra em duas partes, sendo que cada uma tem subtítulo com expressão hifenizada (Desejo-erosão; Tempo-corrosão); estabelece um diálogo com o sistema literário, retomando dois períodos e fincando marcas de outros fazeres poéticos. Enfim, ele cultiva pares, paralelismos e oposições.

Será que os poemas do passado, os perdidos nos desvãos do tempo, podem ameaçar esses novos versos na praça?

Temos ainda que aprender dos poetas. Nos livros de poesia, encontramos uma lição silenciosa de diálogo e uma convocação ao trabalho de decifrar a Esfinge. Os dicionários nos lembram a figura
assombrosa desta senhora: monstro fabuloso com corpo, garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de águia e unhas de harpia, que propunha enigmas aos viandantes e devorava quem não conseguia decifrá-los. Como admiro os dicionaristas, que conseguem nos dizer com poucas palavras sobre um mundo imaginário da Grécia. Como admiramos teus versos, João Claudio, que trazem novamente os mitos antigos: “Fui até o lago e ele estava deserto/ No espelho das águas cintilava apenas o teu rosto de esfinge/ Devorei tua imagem para decifrar o enigma”.

Os poetas dialogam na distância dos tempos. Os versos que escrevem e as imagens que inventam, depois de um tempo, reaparecem na obra dos novos, refundindo sentidos. Querem uma prova? Uma imagem do João, a cinza das manhãs, remete a Manuel Bandeira, que estreou com A cinza das horas, e também escreveu os poemas de Estrela da manhã. Um poeta se procura em outro poeta, o João Claudio se procura na tradição: “Sentes a solidão que a cinza das manhãs deságua sobre ti?/ Sentes o abandono que o basalto das tardes estende sobre ti?/ Sentes o desamparo que o chumbo das noites arroja sobre ti?/ É minha ausência que deságua, que se estende que se aloja em ti”. Com isso, apontamos um rastro, mas devemos esperar por mais crítica que possa desvendar este Plural da ausência.

A leitura de poesia pode auxiliar em outros trabalhos com a palavra, como é o caso, por exemplo, de quem faz reportagem, ensaio de cultura e composição de letra musical. Quanto à proximidade en-
tre poesia e música, se torna pertinente recordarmos as palavras de Pedro Lyra, tecendo comentário sobre a relação entre o poema e a letra de música. Lyra registra que “o poema é uma forma de expressão que se sustenta por si mesma, por ter seu próprio ritmo; a letra de música só se sustenta pela melodia e, portanto, tem um ritmo externo” (O real no poético).

A poesia de Plural da ausência prepara a palavra pelo desafio que lança ao leitor. Ensina-nos que no ato de leitura é preciso perceber e apreciar cada detalhe, como nas minuciosas explorações de ritmos pelo emprego de paralelismo. O poeta ora cria uma imagem cíclica – “Apago do meu corpo os vestígios do teu/ Resistem na pele os fluidos impressos inscritos nos pêlos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu/Tatuados na pele os humores secretos conservam apelos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu”, ora inventa uma surpresa – “Este amor qual quebra-cabeças com peças repetidas e faltantes/ este amor que capitula mas ao exílio condena os seus amantes/ este amor que se nutre de migalhas que erra os caminhos e a cada entrega é ausência constante/ este amor é obra de um cupido cego e sem asas, artimanha do diabo ou ilusão de um poeta que nunca nunca amou antes”.

Outro aspecto significativo da obra tem a ver com a criação dos subtítulos desejo-erosão e tempo-corrosão. Bem no começo, o poeta lança o curto poema “O amor/ é a erosão da ausência” – que ilustra a relação desejo-erosão – como carro-chefe de longa série de poemas, onde predomina a relação intersubjetiva dos amantes, embora raros poemas escapem ao registro do pronome pessoal. Na segunda parte do livro, ele nos propõe o conflito da corrosão do tempo, por meio da metáfora do humano como pássaro. Recorrentes são as imagens em que pássaros ilustram situações humanas, o desgaste que vem com o tempo: “Por que não colhes o fruto antes dos pássaros e da corrosão do açúcar?”. Aqui, também, alguns poemas fogem da regra, registrando a corrosão do tempo com outras imagens: “De onde tira o mar timbre pra cantar?/ De onde tira o mar ginga pra dançar?/ De onde
tira o mar o sal pra adoçar?”

Com este Plural da ausência, João Claudio Arendt nos enriquece pela poesia e pela redescoberta do espanto como concernente ao humano.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


POETIZAR O COTIDIANO
(Wagner Coriolano)

O escritor Oneide Bobsin afirmou, no texto Religiões em romances (2002), que na boca de uma pluralidade de personagens é difícil perceber os limites entre a realidade e a ficção. E, ainda mais especificamente, sintetizou com As fronteiras entre as versões dos fatos históricos e as suas recriações literárias são tênues. Na ocasião, o Oneide estava às voltas com os romances A viagem de Théo, de Catherine Clément, O rei, o sábio e o bufão, de Shafique Keshavjee e O livro das religiões, que Jostein Gaarder assina junto com Victor Hellern e Henry Notaker.

Se não bastasse examinar as recriações literárias ou ficcionais da religião, o Oneide retorna à cena literária e empreende um exercício de proferir, pela voz da crônica, uma série de textos onde trata do cotidiano pela perspectiva luterana. Intitulou de Histórias para quem gosta de aprender (2009). Na apresentação, que antepõe às trinta e uma histórias, diz que os textos foram escritos em momentos específicos e com objetivo de problematizar assuntos concretos. Não faz menção à tênue fronteira entre o fato histórico e a versão literária.

São crônicas de fundo religioso e bíblico, assim o provam as diversas citações entremeadas nos textos, mas também aparecidas nos títulos, como em A família de Jesus, Lutero em Cuba e Bush,
Saddam e Lutero. Contudo extrapolam a leitura estritamente teológica, avançando por uma voz fundada em aporte intercultural, quando o autor retoma o acúmulo do pensamento ocidental e oriental como estratégia de leitura das coisas novas. As crônicas circularam, em primeira mão, pelo jornal da comunidade evangélica, da IECLB, e foram caprichosamente editadas pela Oikos Editora.

Em Folhas de figueiras, encontramos um excelente exemplo de crônica literária, calcada entre o fato e a ficção. Como homem que trabalha a teologia, Oneide Bobsin se revela aqui um cuidadoso leitor, visto que é impossível separar a teologia do gosto pelos livros. O ponto de partida da crônica é o livro Auto-engano (1999), do filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca. Tocado pela frase mentimos para nós mesmos o tempo todo e nos vemos bem melhor do que somos, Oneide recupera uma pequena história do auto-engano através dos tempos, nos levando ao Paraíso, com a famosa folha que velou o corpo da mulher.

Sob o ponto de vista literário, ao entrelaçar o relato bíblico de Adão e Eva com o registro jornalístico de acidente no Aeroporto de Congonhas, o autor destaca que neles o homem incorre em produzir
mentiras para esconder os próprios erros. A camuflagem daquela folha bíblica permanece sendo o nosso expediente por meio de outras folhas. A fronteira, portanto, começa a ser colocada quando percebemos a poetização (ou politização) deste título Folhas de figueiras.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


OS INSTANTES DE ERNANI MÜGGE

(Wagner Coriolano)

Há muitos anos Ernani Mügge mora em Dois Irmãos, cidade fortemente marcada pela cultura alemã, e ali exerce seu magistério, participando de uma política de incentivo à leitura e escrita, no município e arredores. A experiência com a palavra, todavia, é anterior a esta prática, no mínimo recuando aos tempos de formação secundária e aos dias do curso de Letras Português – Alemão.

Ainda nos anos 1990, cursa uma especialização em lingüística do texto, e na virada do milênio estreia com o livro de contos Percalços, editado em 2000, cuja temática explora a ambivalência do termo percalço, passando da compreensão de um incômodo inerente para a acepção de um benefício que se obtém por meio de alguma atividade. No conto O segredo, por exemplo, a personagem Pedro abandona uma intenção ruim após descobrir que está sendo observado por uma mulher e, em seguida, por outros passageiros do ônibus.

Em 2004, após o mestrado em teoria da literatura, Ernani Mügge retorna à cena literária com catorze contos, enfeixados sob o título Instantes, publicado pela Oikos Editora. A capa do livro revela uma escolha de imagens que correspondem apenas a cinco contos, entre os quais, O concerto e O Aerowillis novo. O ilustrador Marco Liesenfeld, desse modo, sugere uma estratégia de leitura do livro: o desenho e o ato de selecionar.

Ao inscrever estes instantes na obra ficcional, o contista faz lembrar as palavras de Cecília Meireles, “canto porque o instante existe”, bem como se aproxima do pensamento que entende a vida como um instante imenso, no constante retorno do mesmo. Separo quatro instantes em primeira pessoa, após a leitura dos demais contos narrados em terceira pessoa, a fim de pôr em relevo a voz de menino narrador que vê o mundo com curiosidade.

Em O passeio, o narrador menino conta o esquisito passeio que faz a um velório. As marcas do “proibido” são muito frágeis, transparecem na linguagem e na incerteza das regras. O menino tem
uma irmã, chamada Margarete, a quem explica coisas. “Minha irmã também não sabia que as velas acesas eram para iluminar a alma do morto. Que tonta! Por cima ainda perguntou o que era alma. Eu disse que sabia só que não achava as palavras para explicar certo. / – Tu também é um burro! – irritou-se”.

O narrador menino de A hora certa de dizer as coisas a um filho nos apresenta o dia em que os pais socorreram a vizinha, cujo sogro se enforcou. Demoraram na casa dos Herzel, mas o menino sabe que ordem do pai era para cumprir. Sem saber como os pais decidiram contar-lhe o ocorrido, ele conjectura sobre o complicado de saber a hora certa.

Em Sabedoria, o menino narra a vez que seguiu o avô para  observá-lo na pescaria. Queria saber como adivinhava o dia certo do peixe cair no anzol. Constata, finalmente, que o avô sabia o que
estava fazendo. E, por último, em O concerto, o menino conta da aproximação com o casal de músicos tão diferentes dele. Aproximase devagarzinho, ouvindo os ensaios de longe, até que um dia o músico os convidou, a ele e a seus amigos, a entrarem na casa e assistir a uma apresentação.

Os instantes de Ernani Mügge entretecem o cotidiano, ora dando voz aos protagonistas, ora por meio de um olhar de fora. Nos quatro contos, predomina o questionamento da norma, o menino não aceita simplesmente o certo. Em alguns contos em terceira pessoa aparece a criança que se cala frente à determinação adulta, como em O lugar proibido e Decepção.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

OS CONTOS DE IVO BENDER

 (Wagner Coriolano)


O escritor brasileiro Ivo Bender, com mais de quarenta anos de produção teatral, volta aos campos literários com um livro de narrativas, Contos (2010), reunião de nove contos que traçam um mapa territorial e imaginário do Rio Grande do Sul, como bem anotou a crítica Regina Zilberman, que assina as palavras da apresentação. Em vários trechos do livro, cuja capa vermelha põe em destaque as letras do título e o nome do autor, o leitor encontrará a citação de poemas, ora do cancioneiro local, ora da alta poesia norte-americana.

Como na canção Águas de março, de Antonio Carlos Jobim, onde o compositor carioca transita entre a natureza (é pau, é pedra, é um resto de toco) e o humano (é um pouco sozinho), a literatura de Ivo Bender mistura a natureza e sua exuberância com a interioridade humana e seus complexos. Seis palavras selecionadas do sumário apontam a força da natureza. Campo, vale e pedra, substantivos ligados à terra; tília, espinheiro e corticeira, substantivos ligados à flora designativa de árvores. O nome dos contos antecipa o mostruário riquíssimo que o leitor encontrará dos elementos típicos da terra gaúcha.

Ao lado da natureza, por meio de cuidadosa composição literária, o escritor adiciona o tempero da humana condição. Os nove contos narram as veredas da sexualidade de todos os tempos. Campos de Santa Maria do Egito narra o desaparecimento de uma curandeira, após ter sido atacada por dois homens, com sede de mulher. Vale das tílias circula em torno de suposto adultério. Sonora conta de corpos que se unem às escondidas. Pedra marcada destaca a metamorfose de uma mulher, que realiza por fim o amor de carne, como dizia o Vinícius de Moraes. Brau Lopes fala em dois homens com a mesma mulher. Espinheiros conta de um pai que entrega a filha, a fim de aplacar a insânia de outra mulher. Mercês conta de um triângulo amoroso, que envolve uma mulher sozinha com casal de mulheres.

Aljofres apresenta certa volúpia de homem solteiro que é visitado pelo espectro de uma escritora. Por fim, em Corticeira, a estudante de fulgurante cabeleira se deita com seu treinador do colégio tradicional.

Com estes contos, Ivo Bender nos traz uma literatura muito exigente, que extrapola uma primeira visita ao texto. A bem da verdade, esta obra literária amplia a galeria das narrativas que têm relevância no quadro de nossas letras. Não tem como deixar de lembrar o trabalho de Dyonélio Machado e de Cyro Martins, sob o ponto de vista da representação psicológica, quando descemos o pano ao final desta jornada, amparados pela mão alegórica com que explora a contemporaneidade regional.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


OS AMORES TURVOS

(Wagner Coriolano)

Com Historia de un amor turbio (1908), Horacio Quiroga apresenta a personagem Luis Rohán e suas viagens. A edição brasileira, publicada em 1998, traz um posfácio de Pablo Rocca, crítico uruguaio, que assim sintetiza o enredo: “a ação transcorre basicamente em Lomas de Zamora e, em menor medida, em Buenos Aires, com alusões a uma distante estância, de onde Rohán vem para a capital, por uma temporada – e aqui começa o romance – e para onde ele volta ao final”.

Na capital argentina, Rohán inicia o curso de Engenharia, mas logo desiste da formação acadêmica. Consegue um emprego no Ministério de Obras Públicas, como desenhista, e permanece na cidade, levando uma vida independente, embora a contragosto do pai. Após um ano, se aproxima das irmãs Lola e Mercedes, e posteriormente passa a freqüentar a casa da família, em localidade distante a vinte e cinco minutos em transporte ferroviário.

Pouco tempo depois, recebe uma carta do pai, ordenando que viaje à Europa, a fim de que encontre uma vocação: “acho que voltarás mais inútil ainda, mas sempre me restará o consolo de ter feito o possível por ti”. Apesar dos laços que o jovem Rohán estreita com a família Elizalde, em especial com Mercedes e a pequena Eglé, de nove anos, segue para Paris. Na temporada francesa, frequenta museus e ateliês “com a tenaz assiduidade de quem tenta convencer-se de um amor que não sente muito”. Ao final do terceiro ano de França, decide pela fotogravura, outra escolha que malogrará perante os sofismas pessoais. Com oito anos de andança, retorna para o Cone Sul.

De volta a Buenos Aires, Rohán reingressa no Ministério como subchefe de divisão e retoma a amizade com a família de Lomas. Aos poucos, vence as barreiras que o separam de Eglé, agora mais bonita, tangível e desejável, porém distante e indiferente. O narrador observa que “uma noite, observando-a em silêncio, deplorou até o fundo da alma não poder voltar ao passado”.

Nas sucessivas visitas, Rohán desfruta da música ao piano, da conversa íntima com Mercedes e das primeiras aproximações com Eglé. Passeiam pela estação de trem, onde caminham pela gare do sul, menos tumultuada que a gare do norte. Visitam a quinta, onde finalmente principia o namoro. “Rohán ergueu o rosto dela e a beijou na boca. Foi um beijo tão longo, tão apertado, que Eglé saiu dele fatigada, rendida àquele amor que acabava de confessar”.

A história de Rohán e Eglé dura apenas alguns meses. Ele tem muito a fazer na cidade e, com o passar das semanas, reduz o tempo de ficar com a namorada. Ela entende como esmorecimento do amor. A razão do desenlace, contudo, tem a ver com a obsessiva preocupação de Rohán com um passado relacionamento de Eglé. Ele vai morar numa estância à distância de dois dias, ela permanece em Lomas.


Na tradução de Sérgio Faraco, a novela de Quiroga recebe o título de História de um amor louco. O câmbio da palavra – talvez pela melhor correspondência – reduz os sentidos desta narrativa uru-
guaia, que também trata da travessia da personagem Rohán, entre caminhos e descaminhos.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O TEMPO E A MEMÓRIA


(Wagner Coriolano)

É preciso dar aos contemporâneos a oportunidade de conhecer as obras que marcaram a cultura ocidental como, por exemplo, a leitura de Em busca do tempo perdido, do escritor francês Marcel Proust. A caudalosa narrativa reúne sete romances que traçam o panorama da vida de Marcel, o narrador.

Com exceção do capítulo Um amor de Swann, narrado em terceira pessoa, os livros (um pouco menos de três mil páginas na tradução brasileira) expõem o ponto de vista do narrador a respeito de sua própria vida e de como a memória reteve o tempo passado e o sentimento de transformação de todas as coisas.

A leitura do romance exige tempo e muita observação. A relação entre leitura e memória é inevitável, e a ruptura com o ato de ler uniforme se torna uma exigência permanente. Daí a pergunta: como fazer uma leitura do romance e não se perder ou não reagir com tédio?

A estratégia do texto mostra que a intenção de envolver o leitor se deu pela intermitência do enredo, quando o escritor enxerta episódios significativos na grande estrutura narrativa. Segundo o tradutor 
Fernando Py, “o que importa não são os encadeamentos narrativos e episódicos e sim a análise psicológica, as conexões estabelecidas e, acima de tudo, aquela transcendental peleja do espírito criador, que luta para se afirmar e deixar a marca de sua genialidade”.

A linguagem rica em poesia, com que é apresentada a recordação da infância – cheia de detalhes que remetem à época (como certos costumes e hierarquia rígida), à cultura arquitetônica (casa com jardim, portão de ferro com ruído ferruginoso) e aos costumes (jeito de falar em casa) –, revela a trajetória da personagem pelo mundo nobre. Desse modo, entendemos a aproximação entre o passado distante da infância e um passado mais próximo do tempo em que narra, situado no mundo aristocrático da duquesa, no jantar dos Guermantes.

Marcel recorda as visitas de Swann filho a seus familiares, a recepção e a mentalidade da família de Swann quanto a seu casamento com mulher de outra posição social. “Ele já não vivia na sociedade que sua família freqüentava”, registra o narrador. Charles de Swann, homem reservado e de vida ambígua, é ingênuo a respeito da vida movimentada de Odete de Crecy com quem se casa. A diferença entre a postura do filho mundano e do velho Swann aristocrático só é possível de estabelecer quando se conhece o desenrolar dos episódios narrados no romance, onde encontramos a descrição de outras personagens que foram formadas na educação aristocrática, como a Senhora de Luxemburgo, mas que mudaram de lugar social.

O crítico alemão Wolfgang Iser afirma que a obra literária existe quando se constitui como texto na consciência do leitor, quando leitor e autor participam conjuntamente de um jogo de fantasia, para o
qual não há espaço para algo mais do que regras de jogo. De modo excepcional, Proust soube realizar uma jornada pelos caminhos entre o real e o imaginário, nos comunicando o mundo da sociedade francesa da passagem entre os séculos XIX e XX, ao mesmo tempo em que nos conduzindo através da invenção de uma infância encantada, trazida do tempo perdido.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O LUGAR DE SÉRGIO FARINA


(Wagner Coriolano)


A revista Letras de Hoje, dezembro de 1970, guarda um texto exemplar de Sérgio Farina, verdadeiro exercício didático de análise literária de um poema moderno. Com sua habitual clareza, o autor deixa as pegadas de um trabalho calcado sob o princípio de simpatia, de paciência e do conselho de leitura, elementos que, no seu entender, dariam um caminho para a participação na experiência vital do poeta, transfigurada em obra de arte.

O ensaio de Farina reúne dois campos através dos quais palmilhou a vida universitária: as letras e a metodologia científica. Ainda nos anos 80, a segunda área de atuação profissional ofuscava o fino leitor e o cronista discreto, haja vista o número de edições do livro Apresentação de trabalhos escolares, realizado em parceria com os professores
Fernando Becker e Urbano Scheid. Como se não bastasse àquela presença, em diversas áreas da academia, outros apontamentos de como produzir textos técnicos despontaram, em série, nas páginas da revista Entrelinhas, de outubro de 2000 a março de 2003, na edição impressa.

De tão singular ofício de crítico e de pesquisador, uma história trintenária, vieram as crônicas jornalísticas dos anos 90, no jornal Vale dos Sinos. Farina fez um movimento da academia para o chão da cidade. Como os poetas de sua admiração, transitou da cultura letrada para uma ênfase maior da linguagem cotidiana. As crônicas revelam o escritor que soube colher as circunstâncias escalenas da cultura regional. Em depoimento recolhido no livro Histórias de vida nos 31 anos da Unisinos, organizado pelo poeta Lauro Dick, afirma que, com o mestrado concluído em 1977, sua visão acadêmica foi se alterando também. Apanhei o crachá, aquele mesmo que recebi ao ingressar, e, no verso da face que dizia ensino, escrevi pesquisa. Iniciei, acompanhado por alguns colegas, a dar mais importância à pesquisa, em minhas aulas, como forma de redimir a graduação.

Quando escreveu que o pesquisador é o criador de seu próprio conhecimento, o leitor contumaz Sérgio Farina sabia o que estava dizendo. As janelas da casa defronte à rua padre Nóbrega é que o digam. Entre livros e revistas, praticava o antigo exercício de recortar textos e novamente costurá-los com seu traço saboroso.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

O ESCRITOR DAS CRIANÇAS


(Wagner Coriolano)

A poucos dias de completar 60 anos sem o escritor Monteiro Lobato, falecido em julho de 1948, ainda ecoa no Brasil das crianças o efeito de suas criativas personagens. E, muitos brasileiros, lembramos a boneca Emília e o lendário Saci Pererê, quando fazemos referência ao universo da literatura para o público infanto-juvenil ou enfatizamos o esforço de Lobato pela emancipação intelectual das futuras gerações.

Antes de iniciar a série de personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, José Bento Monteiro Lobato – batizado José Renato não José Bento – aparece com a criação de Jeca Tatu, a representação literária do homem atrasado, que vivia nas cidades mortas do interior de São Paulo, onde prosperaram antigas fazendas de café no século 19.

Após se formar em Ciências Sociais e Jurídicas, na capital do Estado, em 1904, o escritor volta para a cidade natal, Taubaté, no Vale do Paraíba, e pouco tempo depois segue para Areias, pequena cidade morta (“vivia das áureas lembranças do passado”, segundo Cassiano Nunes), a fim de assumir o cargo de promotor público da comarca.

De 1908 a 1921, ano em que inicia a escrita de história para crianças, Monteiro Lobato se casa com Maria Pureza e se torna pai de Marta, Edgard, Guilherme e Ruth. Herdeiro da fazenda Buquira, do avô materno Visconde de Tremembé, deixa a promotoria e abraça a vida de fazendeiro. Como os negócios não prosperam como deseja, em 1917 vende a fazenda e, em 1918, compra a Revista do Brasil, uma publicação de intelectuais ligados ao jornal O Estado de São Paulo, propriedade da família Mesquita. Não pára nesse negócio. Em 1919, abre a firma Monteiro Lobato & Cia, concretizando o antigo sonho de editar livros.

A editora de Monteiro Lobato, por sete anos, populariza o livro por diversas regiões do país e edita um sem número de autores novos. Desse modo, torna possível a realização do desejo de leitura de um público que contava com inexpressiva publicação nacional, pagando caro pelas edições vindas de Portugal e pelas edições vindas de Portugal e pelas edições importadas em língua estrangeira. Com a proposta de baratear o livro, Lobato ainda uma vez enfrenta dificuldades de seguir com a empresa, pelo custo elevado do papel brasileiro e pela impossibilidade de importá-lo, devido às altas taxas.

Dos altos e baixos da vida, o escritor herdou uma riqueza sem precedentes, com as quais soube rechear o repertório dos trabalhos intelectuais, no campo das Letras, e em outros campos, com livros sobre saúde pública, petróleo, folclore, imprensa, energia, ciências, vida literária e inúmeras cartas. A sua literatura para crianças e jovens registra este amplo conhecimento, em linguagem acessível, mas não empobrecida de palavras e sentidos. A leitura de qualquer de uma das 32 histórias originais de Lobato acenderá o sentimento de identidade com as coisas do Brasil e, mesmo a leitura das sete adaptações de clássicos, fortalecerá o desejo de boas escolas e editoras que valorizem a cultura do livro.


sábado, 28 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O DESAPARECIMENTO DE TEODORA

(Wagner Coriolano)

A peça As núpcias de Teodora representa o teatro da maturidade de Ivo Bender, juntamente com Colheita de cinzas e A ronda do lobo, as três peças que fundam a Trilogia perversa. Arguto escritor de arte dramática nesta cultura no sul do mundo, o dramaturgo cruza o imaginário da colônia alemã, no século 19, com o universo dos antigos mitos gregos. “Fui professor de Teatro Grego, na Universidade Federal, por muito tempo. Nas aulas, além dos textos, eu trabalhava com mitologia. Resolvi aproveitar esses mitos e fazer uma transposição, fazer as personagens míticas serem imigrantes alemães”.

A personagem Teodora aparece na primeira cena da peça, em diálogo com sua mãe Cordélia. Após perder o sono, informa que teve um pesadelo, onde vê o pai com muito sangue na cabeça. Na última cena do primeiro ato, na mesma sala da casa, reaparece, lê um trecho da carta que um mensageiro trouxera, e declara que “não queria casar assim, tão de repente”. Nas cenas do segundo e último ato, Teodora é constantemente mencionada, sobretudo como filha de Hagemann, como nossa filha (o pai), como minha filha (a mãe), em relação ao noivo (o caminho de Teodora e Antônio) e na expressão “leva as mãos de Teodora para a face” (a mãe).


Teodora, que ao final desaparece, descobre a sentença de morte proferida por Jacobina Maurer e tenta a fuga. Recapturada, ainda uma vez, apela à mãe que permaneça com ela, pois precisa de coragem. Entretanto, de nada adianta o apelo de Cordélia em face da ordem fatal da líder dos Muckers, ensandecida contra a iminente descrença de seu principal chefe. Sem a filha, tempos depois, recebe em casa outro mensageiro com notícias do marido, sobrevivente do embate entre os colonos da montanha e as forças do governo e com uma ferida na cabeça. O mensageiro segue seu caminho e ela fecha a última cena: “Eu te espero, Cristóvão Hagemann. Cedo ou tarde retornarás. E nesse dia não escaparás do meu olhar. Nem da minha mão”.

A jovem instaura o lado bom do humano. Teodora, neologismo, de Teo, Deus, com dora, presente. Desta junção de elementos gregos, vem o possível sentido de “dádiva de Deus”. O ataque contra Teodora confirma, pela segunda vez, a tendência cruel do ato de Jacobina. A falsa demente antes não respeitara a integridade do texto bíblico, a fim de melhor persuadir o traidor. No episódio do sacrifício de Abraão, no livro de Gênesis, o anjo diz “Não estenda a mão contra o menino! Não lhe faça nenhum mal!”. Ordens de Deus. Ao imolar Teodora, a líder instaura a vingança, enlaça pelo sangue aquele que esteve a seu lado, e, como outros colonos, percebeu a causa perdida. Ordens de Jacobina.

A noção de tragédia, em Ivo Bender, conserva um sentido mais amplo, sob o ponto de vista do conflito de valores no seio da família Hagemann. Se o pai entrega a filha, a mãe não a abandona. Cordélia, assim, nos recorda a invenção poética de Manuel Bandeira, no poema Neologismo, de 1947: Teadoro, Teodora.



quinta-feira, 19 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

O CORPO DE CARMÉLIA

(Wagner Coriolano)

Próximo da casa dos oitenta anos, Antonio Carlos Resende escreve o romance da paixão de um homem branco por uma mulher negra, através do qual convida o leitor ao tema da diversidade cultural. “Minha maior preocupação era mesmo a questão do racismo, não tanto a das drogas nem a do amor. A história, aliás, vem me acompanhando desde que eu era guri, em Cachoeira do Sul”, declara o escritor, na edição 90 da Revista Aplauso.

Nomeado com a expressão A obra-prima do teu corpo, o livro escrito e publicado em 2007 amplia as letras gaúchas com a escrita do espaço entre o morro e a cidade, na imaginária Capital. O narrador e protagonista José Bauermann Cardoso, maitre de restaurante e leitor que freqüenta sebos na cidade, encontra-se com a moradora do morro, Carmélia da Silva, que trabalha no candomblé. “Sua avó e sua mãe foram ialorixás. A mãe desencarnou por causa de uma bala perdida numa batida feroz da Brigada, faz dez anos” (p.60). Ela também é iniciada ialorixá, após a viagem ao Cairo.

Desde o dia em que vê Carmélia no boteco do seu Antero, no morro Maria da Conceição, quando ela comprava pão da tarde, até o dia em que a recebe no restaurante, acompanhada do avô, e nos posteriores encontros, José comunica um sentimento de entrega amorosa. Entretanto, do ponto de vista do enfrentamento que estabelece com os líderes do morro – devido à resistência contra o narcotráfico – a personagem perde em coerência, ainda que as cenas imaginosas de seqüestro e ameaças sejam determinantes no texto e no liame dos capítulos.

José tem requintes de poeta. Diante da beleza e elegância da moça negra, magra e de cabelo corte zero, ele aproxima o corpo feminino da noção de obra-prima. No curso do romance, a expressão aparece depois de outras marcas que indicam a sua relação com as palavras: José lê livros na cama (p.15), cita o romance O viúvo, de Oswaldo França Júnior, comprado num sebo (p.22) e alguns contos de Rubem Fonseca (p.43). Ao final de uma cena constrangedora, perante o traficante Jerônimo e seus aliados, declara a Carmélia que “só a obra-prima do teu corpo para atenuar minha vergonha” (p.72). A personagem ainda cita a leitura de Um fuzil na mão um poema no bolso, livro do escritor congolês Emmanuel Dongala, publicado na década de 70, com edição da Nova Fronteira.

As leituras da personagem José diretamente apontam os temas do romancista: a representação da violência, a perspectiva pessoal de futuro e o nome de Carmélia. Tanto o escritor brasileiro Rubem Fonseca como o africano Emmanuel Dongala trabalham a realidade do conflito urbano contemporâneo através da palavra ficcional. Resende esboça o futuro de José colocando-o como postulante ao curso de Direito, bem como independente frente aos interesses da sociedade constituída em torno do restaurante. No nome da negra de cor azulada, o escritor aproxima a magia do poema e a expressão generosa da cultura afrobrasileira.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Excepcionalmente, a coluna CRÍTICA LITERÁRIA será postada esta semana na terça-feira.


LECIONANDO SONHOS
(Wagner Coriolano)

Quis Sérgio Farina se apresentar perante os leitores da coluna Literariedades, nos idos de maio de 2004, jornal Vale dos Sinos, com o seu ofício de professor, que ele trocava em miúdos pela expressão lecionando sonhos. Naquele momento, o professor retornava ao campo da literatura lendo crônicas, completando roteiros de análise, discutindo aspectos pelo viés da crítica e orientando caminhos de ensino.

Foram muitas semanas que se seguiram iluminadas por aquela crônica de domingo.Tomando um ou outro título da série, encontramos o registro do tema de casa realizado com esmero, mostrando a cultura literária do mestre, que, a bem da verdade, foi doutor em Letras. As crônicas são textos que mostram a dimensão literária e crítica do leitor Farina.

Com a crônica A deusa Grécia fez harmoniosa síntese da contribuição dos gregos, apontando-os como a fonte do pensamento contemporâneo. Com o texto Entre hoje e amanhã, mostra que não apenas conhecia os pensadores, citando, por exemplo, Alvin Toffler e Heráclito, como também inaugurava reflexões: o tempo está sempre colado a nós como pele luminosa ou sombra assustadora e não sabemos o que pode acontecer entre hoje e amanhã. Com as duas crônicas intituladas Quando começa o ensino de literatura relembra o papel dos pais na formação literária dos filhos, antes mesmo do tempo escolar, quando contam histórias como uma forma de se fazer família, convivendo
momentos mais íntimos. Farina nos brinda com outra reflexão bem a seu estilo: a literatura são desperdícios da imaginação.

Pouco identificado como especialista, o nosso cronista encareceu tanto a leitura cultural quanto a leitura literária. No campo específico das Letras, tomou do lingüista Roman Jakobson a palavra
literariedade, calcada do termo russo literaturnost, para indicar o conjunto de características específicas que permitem considerar um texto como literário. Na baliza do pensador Jakobson, o cronista encontrou um meio de dizer a importância da teoria, como farol para iluminar nossa peregrinação pelos caminhos da literatura e do cotidiano.

Revendo outros textos de Sérgio Farina, ora na revista Palavra Comovida, ora no prefácio aos poemas de Lauro Dick, no livro Poesia de quatro idades, é que percebemos o alto nível de pensamentos que levou ao leitor de jornal, semanalmente mesclando o momento vivido com a perspectiva de civilização, a nossa relação com o chão do inconsciente coletivo da humanidade, como aponta ao tratar da deusa Grécia. E olha que Farina escreveu estas literariedades na hora em que viajava pela canoinha da aposentadoria, como tão bem registrou, pensando em Guimarães Rosa.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro do ano passado, reúne críticas literárias. As primeiras postagens contêm textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


ERICO VERISSIMO 2005

(Wagner Coriolano de Abreu)

O verso de Drummond – Por isso gosto tanto de me contar –, do poema Mundo grande, cabe perfeitamente no retrato falado de Érico 
Verissimo, este contador de histórias do Rio Grande do Sul, autor de frases que não raro reaparecem nas nossas conversas, como “mundo velho sem porteira” e “era uma noite de lua cheia”, mormente nas lembranças em comum.

O ano 2005 marca o centenário do nascimento de Erico Verissimo, em Cruz Alta, e o trintenário do falecimento, em Porto Alegre.


Destes setenta anos de vida, boa parte foi dedicada aos livros, a começar pelo período cruz-altense, quando, nos intervalos de balconista de farmácia, rabiscava seus textos e croquis, pois aliava ao estilo verbal o gosto pelo desenho, e posterior período porto-alegrense, quando desenvolve intensa atividade junto à Editora Globo, conforme traduções bastante conhecidas e o livro Um certo Henrique Bertaso, indispensável ao leitor curioso pela indústria livreira no Brasil.


As fotos que compõem o calendário 2005, do Banco do Estado, apresentam elementos recorrentes na vida do escritor. Na modalidade calendário de mesa, ele aparece em quatro situações exemplares: escrevendo manualmente, escrevendo na máquina Royal, caminhando por uma alameda e abraçado com Mafalda. De fato, a luminosidade das fotos em preto e branco põe em destaque certo magnetismo pessoal. Não bastasse a boa qualidade iconográfica do calendário, acrescenta-se ainda no verso uma breve notícia referente ao visualizado. É nessa hora que se vê o trabalho cuidadoso e imprescindível do Acervo Literário Erico Veríssimo (ALEV).


Erico lê a inscrição Arquipélago e escreve ideias para seu lançamento. Estava chegando ao final de sua trilogia O tempo e o vento, início dos anos sessenta, onde narra a trajetória da família Terra-Cambará e reconstitui a história do Rio Grande do Sul, da colonização até o fim da Era Vargas. Flávio Loureiro Chaves observa que o romance, embora seja longa narrativa, amarra o primeiro parágrafo de O Continente com o último parágrafo de O Arquipélago com a mesma redação: Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia 

um cemitério abandonado. Assim, a compreensão da obra prende-se à leitura da série como um todo.

A festa do Centenário colocará em destaque seu nome em feiras, ruas e universidades. As máquinas modernas imprimirão seus textos revisados e bem encadernados. A leitura destes livros, entretanto, precisa ser encarecida e incentivada. As crianças precisam conhecer A vida do elefante Basílio, os jovens, O diário de Sílvia. E outro verso de Drummond – Meu coração também pode crescer –, anuncia um sentimento de leitor que viaja pela narrativa de Erico.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

DOIS CONTISTAS NA SINUCA

(Wagner Coriolano de Abreu)

João Antônio e Sérgio Faraco pertencem à geração do conto contemporâneo, cuja produção inicia nos anos 60, século 20. A narrativa destes escritores desenha um retrato imaginário do Brasil, por meio de excelente carpintaria textual, abastecida na leitura dos clássicos modernos. Em 1997, Faraco reflete sobre seu silêncio nas letras e afirma que nunca publicara um conto que tivesse custado menos de um ano de suor e desespero.

Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), o primeiro livro de João Antônio, reúne nove narrativas, entre as quais o conto homônimo que dá título ao volume, e trata da vida de três jogadores de sinuca, na noite paulistana, se bem que a temática extrapola o contexto daquela cidade, pois se refere a uma realidade nacional e popular. A história destes contos de João Antônio tem a ver com a declaração de Faraco, pois os originais que seriam enviados à editora queimaram no incêndio da casa onde morava, de modo que os reescreve a partir dos esboços que enviava nas cartas e através da memória.

O segundo livro de contos de Sérgio Faraco, Depois da primeira morte (1974), presta homenagem a Mario Quintana, que escreveu Da vez primeira que me assassinaram/ Perdi um jeito de sorrir que eu
tinha.../ Depois, de cada vez que me mataram,/ Foram levando qualquer coisa minha... Estes versos também aparecem no perfil de Quintana traçado por João Antônio, na década de 80, antes que o poeta fizesse oitenta anos.

À parte as duas aproximações – o jogo da sinuca e a poesia de Quintana –, estes contistas estiveram unidos pela tarefa de uma leitura literária do cotidiano brasileiro. Tanto Faraco como João Antônio
se colocam como representantes de uma gente que não é muito ouvida ou percebida pelas autoridades. Nesse sentido, o homem se encontra no epicentro da produção artística. Quando declara que a arte tem dívida com a realidade, poucos meses antes da morte, João Antônio se refere à realidade humana, amor, solidão, inveja, ciúme, necessidade de carinho e aventura humana.

O conto Saloon, de Sérgio Faraco, publicado em 2000, apresenta uma partida de sinuca que é uma aposta, o jogo vida, o joguinho mais ladrão de quantos há na sinuca. O negro Gorila ganha do velho
de tez azeitonada e ainda bate em sua perna com um joelhaço. Em seguida, um rapaz de rabo-de-cavalo, que assiste ao jogo e à cena, desafia o ganhador e o vence. O negro tenta impedí-lo de levar o
dinheiro, mas é barrado por uma faca que o moço traz guardada sob o colete. Já na rua, na volta da esquina, o rapaz se encontra com o velho numa lanchonete e saem para comer uma pizza.

Sob o ponto de vista de João Antônio, Faraco realiza a tarefa de intérprete da vida brasileira e se aproxima da vida real, cuja dinâmica abrange o universo dos que não têm voz, os que vivem do jogo e da sorte. Através de Malagueta, Perus e Bacanaço e Saloon é possível entender a linguagem que é própria dos ambientes de salão de sinuca, síntese do patético da vida, como registra João Antônio na saudosa Revista Realidade, outubro de 1967.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

COM VOCÊS, IVO BENDER


(Wagner Coriolano de Abreu)

Antes de estar em evidência escritores enquanto marketing, bem antes, final dos anos 80, Ivo Bender visitou o curso de Letras da nossa Universidade, em São Leopoldo. Antes do bate-papo com os acadêmicos, esteve no bar da Comunicação ou do Direto, não sei mais a quem pertencia, para um cafezinho. Naquela altura, já consagrado pelas peças O macaco e a velha e O cabaré de Maria Elefante, entre outras, desfrutava o ambiente na mais discreta presença.

Tempos depois, final dos anos 90, reencontro Ivo Bender a palmilhar, com seus ares de omem de teatro, um corredor de outra Universidade, na Capital. Naquela ocasião, ele doutor, tradutor, com carreira de professor no Instituto de Artes da UFRGS, passava tranquilamente pelos estudantes e pares das Letras, sempre atencioso na sua reserva. Relembrar estas cenas parece fundamental diante da surpresa de descobrir, em meio a suas peças, ainda pouco conhecidas fora dos espaços de realização das artes cênicas, a construção de uma expressiva dramaturgia.

O professor e escritor Ivo Bender, natural de São Leopoldo, ocupou os palcos de Porto Alegre com mais de uma dezena de espetáculos, desde a estreia em 1961, com a peça As cartas marcadas.
Em 2003, o público assistiu extasiado à montagem de A ronda do lobo, uma das três peças que compõem sua famosa trilogia, de 1988, na qual desenvolve elementos da cultura grega, a partir de situações  relacionadas ao contexto da imigração alemã no Rio Grande do Sul.

Como professor, lecionou Literatura Dramática no Instituto de Artes, ministrou cursos e proferiu palestras em outras Universidades. Leitor atento dos clássicos, escreveu ensaios sobre a tragédia grega de Sófocles e de Eurípedes, traduziu o francês Jean Racine, o inglês Harold Pinter e a poeta norte-americana Emily Dickinson. Como dramaturgo, escreveu peças para crianças e adultos, atuou como ator e diretor teatral.

À parte esta breve notícia literária, síntese de uma vida que extrapola as convenções mas não perde o fio, é preciso reconhecer a persistência de Ivo Bender em face dos campos difíceis de sua escolha: o magistério e o teatro ou vice-versa. No mesmo ritmo, o ensino caminha com a invenção teatral, e lentamente constituiu o estabelecimento de uma história do tablado entre nós. Nesse sentido, o seu trabalho se torna exemplar em face da luta pela preservação da memória cultural.

Tanto nas tragédias da Trilogia perversa como na comédia  O boi dos chifres de ouro, o escritor demonstra o domínio de técnicas de ação dramática com as quais esteve lidando em sala de aula, no esforço de recuperar a lição grega da arte nos palcos. Não foram poucas as vezes a insistir que nos faltava um conhecimento acerca da ação no texto de teatro, algumas vezes até convidando as novas gerações a um passeio pelo texto de Aristóteles. “E o que é ação teatral em última instância? Poderia ser definida como a luta de alguém para alcançar alguma coisa, num determinado tempo, num determinado lugar e de uma certa maneira. Isto é ação dramática, o resto é bobagem”. Assim falou Ivo Bender.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


Caio Fernando Abreu na crônica


Caio Fernando Abreu se inscreve na literatura brasileira através de seus livros de contos, publicados a partir dos anos 70, embora o mais festejado seja o volume Morangos mofados, de 1982. Entretanto, o escritor pode ser lembrado também pela atividade de jornalista, iniciada ao final dos anos 60, quando é selecionado para redator da revista Veja e deixa os pagos do Rio Grande do Sul em busca da paixão pelo mundo e pelo tempo.

Tanto os contos quanto a crônica revelam um Caio poético, senhor de um intimismo que imbrica o passado gaúcho com a vivência de geografias pelas quais cruzou e anotou nos textos. Sobre a crônica, o livro Pequenas epifanias reúne as diversas que publicou em jornais, durante uma década.

Compensa repassar uma ou outra destas composições, quando se quer ilustrar o gênero brasileiríssimo de juntar o coloquial com a poesia. O escritor se mostra por inteiro em As primeiras azaléias. De seu apartamento, na cidade de São Paulo, meados dos anos 80, vê pela janela um casal de jovens, que estão tomados em torno de algum sentimento, pois a moça chora. Caio estica o instante e cria a atmosfera da paixão humana e seu mistério. O cronista que há nele não pode deixar de ver e registrar o desenlace da cena.

De uma viagem a Paris, na crônica Existe sempre alguma coisa ausente, anota o verso de Camille Claudel – existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta – escrito na placa defronte à casa em que ela viveu a paixão por Rodin. Pelo título escolhido, deixa entrever o processo de amalgamar a citação a novas leituras e o faz pela genealogia das palavras e sentimentos, quando alguns anos depois retoma o verso, aproveitando-o como epígrafe de um conto.

Antes de comentar uma terceira crônica, recordo ainda que a antecedem outras três, intituladas de primeira, segunda e última carta, nas quais expõe a experiência pessoal com a doença que provocou

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, iniciada em outubro, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


AS BARBAS E A DITADURA

(Wagner Coriolano de Abreu)

No Brasil dos anos setenta, o cidadão que usasse barbas longas tornava-se um suspeito perante as autoridades e era procurado para esclarecimentos de ordem política, social e profissional. O barbudo que ficasse a fumar seu cigarro na esquina, por exemplo, já se enrolava junto aos donos do poder e seu órgão de informações.


Foi o tempo da ditadura militar, período em que o país ficou nas mãos de apenas um chefe e seus homens que, por vias da força, fecharam os espaços de participação política, a começar pelo Con-

gresso Nacional, estendendo-se às reuniões em praça pública. A censura que impuseram atingiu as raias da loucura, através de atos absurdos, não só contra quem não fosse a favor da ideologia e se
opusesse cara a cara, mas também contra as pessoas inocentes, os lazeres populares e as manifestações artísticas.

Os homens barbudos foram tomados como partidários do comunismo, embora nem todos o fossem. A ditadura usou o expediente capcioso de rotular os adversários como comunistas, para melhor 

atingir objetivos de controle social e estabelecer a ordem imperialista ditada pelos Estados Unidos. Pode-se dizer que a ditadura fez muito mal aos rapazes que apenas cofiavam suas barbas com outros interesses e estavam alienados dos rumos do país.

Esta época, contudo, deixou também, como legado para as novas gerações, atos de coragem, que merecem ser relembrados. É o 36 SEMPRE AOS PARES caso da obra literária Sombras de reis barbudos, de José Jacinto Veiga, que veio a lume na pior hora do regime, bem no início dos anos setenta.


O livro trata da história do menino Lucas e sua gente, numa cidade invadida por uma Companhia de Melhoramentos, que piorava a vida de todos, através de proibições. Em linguagem culta e descontraída, a história logo se tornou motivo de alusões nos meios intelectualizados e uma espécie de senha para a resistência nacional. Mesmo que os estudiosos tenham criado o conceito de fantástico ou realismo mágico, a fim de explicarem algumas referências daquele momento, nem tudo ficou bem explicado e é preciso continuar na militância da memória. A leitura dos anos de chumbo, como se dizia, abre-se em novas conotações neste texto do escritor goiano, conhecido também pelo livro A hora dos ruminantes e pelo fato de ser leitor de Erico Verissimo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna iniciada há cerca de um mês, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


AVENTURA FUGITIVA

(Wagner Coriolano de Abreu)

A personagem Otávio Augusto cruza pela Costa Doce do Rio Grande – trecho entre a Capital e o Chuí – movida pelo medo. Não viaja a passeio, mas em busca da fronteira, de cruzar urgentemente para o lado uruguaio, a fim de ordenar as idéias e decidir o que fazer. Ela reconhece apenas a brusca variação na sistemática rotina do seu planejado dia, após acertar a menina e o garoto que atravessam na frente do carro. 


Em Contramão (Bertrand Brasil, 2007), de Henrique Schneider, Otávio Augusto perde o controle da própria vida entre dois instantes: no começo, quando atropela os estudantes numa Avenida de Porto Alegre, e na cena final, quando atravessa a rua sem olhar, em direção a uma cabana de pescadores, na Praia Punta del Diablo. Os demais incidentes, na parte que entremeia as pontas, ilustram as tentativas da personagem para retomar o domínio da Situação.


No quarto do hotel, encorajado pela força do vinho e do sexo, Otávio Augusto decide por contar à muambeira a verdadeira história. As palavras do narrador sintetizam o longo trecho da narrativa: “Contou tudo, sem esconder qualquer detalhe: como havia atropelado as crianças (não falou do olhar de morte da menina), furado a barreira policial embalado pela fumaça esgazeada do cigarro, roubado um carro e se livrado do antigo dono, as placas, o caminho todo construindo a fuga, o enguiço do Passat na imensidão do Taim, a espera pelo ônibus, o encontro com Valdete e o nascimento impensado de Jeison Pontes. Por isso estava indo ao Uruguai, afirmou: para pensar bem no que fazer”.


A terceira parte do romance abre com uma interpelação de grande efeito, proferida pelo narrador: “E agora?”. Famosa pergunta que aparece na poesia de Carlos Drummond de Andrade, no verso “E agora, José?”, do conhecido poema José. A marca de Drummond, o poeta que canta o sentimento do mundo, se faz presente na prosa de Henrique Schneider. Mais do que uma recorrência linguística, o romancista dialoga com a perspicácia do poeta. Se o poema Congresso internacional do medo (1940) inicia com (Provisoriamente) não cantaremos o amor, e se encaminha ao final com cantaremos o medo da 

morte (e o medo de depois da morte), o romance também acompanha esta metamorfose.

De um dia para o outro, a rotina de Otávio Augusto rumo ao triunfo e à vida matrimonial muda, em direção ao destino cego e à possível repetição de morte. Diante do imprevisto, as noções de Administração de Empresas do executivo ambicioso começam a produzir um efeito destrutivo, tornando-o cego às belezas que o cercam na paisagem ao longo da estrada (ele a vê como área de negócios). A contramão anunciada pelo título se refere à vida da personagem. A palavra na capa, portanto, assume um sentido figurado, à medida que rompe com o convencionado sinal de trânsito. Por se tratar de narrativa Ficcional, o sentido trafega melhor quando o leitor passa a epígrafe e avança páginas adentro.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna, recém-iniciada, reúne críticas literárias. As primeiras postagens conterão textos de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


A EXPRESSÃO AFÁVEL


(Wagner Coriolano)

Os setenta e um anos que separam o leitor dos primeiros milhares de leitores de Um rio imita o Reno, de Clodomir Vianna Moog  (1906-1988), não corroeram a fertilidade do romance e do debate temático que o autor inseriu na narrativa. Publicado em 1939, este livro representa a estreia do autor na ficção literária, depois de consagrado como ensaísta.


A primeira edição do romance, de cinco mil exemplares, esgota em três semanas, segundo informa o Instituto Estadual do Livro.


Este fato nos leva a perguntar sobre a comunidade leitora da época, bem como acerca da recepção da obra e seu impacto naqueles leitores de então.


A história do encontro amoroso entre o engenheiro, que chega às margens do rio, e a descendente de imigrantes alemães, que vive na cidade com sua família, constitui o cenário de um acervo cultural, em condições de revelar novos traços decorrentes da imigração. Nesse sentido, Vianna Moog soube lidar muito bem com a expressão de sentimentos fortes, decorrentes dos contatos entre imigrantes e brasileiros, e a argumentação de teses relevantes naquele momento histórico. A leitura da narrativa não se esgota na polêmica do isolacionismo dos grupos germânicos ou da crítica ao conflito racional, visto que pode reabastecer o debate contemporâneo da imigração com outras

linhas de pesquisa.


Salta aos olhos de quem conhece a região do Vale do Rio dos Sinos a alusão entre realidade e invenção, presente no desenho da cidade e da torre da Igreja do Relógio, na exposição do conflito dos Muckers, na reprodução textual de estrofes de