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quinta-feira, 25 de junho de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA


Maria Carpi: temos de merecer a democracia


Escritora defende a vigilância constante do povo, para que o vírus da ignorância não nos impeça de alcançar a “poesia do bem comum”

Por Maria Carpi*

Sou poeta e defensora pública antes de escrever um livro ou fazer um concurso. Com ambas as atividades, exerço a minha cidadania. De refletir e participar. Nesse sentido, considero o poeta Castro Alves um defensor público, pela sua luta pela abolição da escravatura, uma das mais vergonhosas páginas de nossa história.

Toda organização civil necessita da regulamentação das leis. A lei dá rumo certo à ação humana. Certa vez fiquei tomada de sadio espanto quando meu paraninfo do curso de Direito da UFRGS, professor Ruy Cirne Lima, provou com exemplos eruditos que as melhores leis se avizinhavam à poesia. Pois bem, a poesia ilumina e também dá rumo à vida. A poesia inclusive tem o poder de tirar a cultura do limbo.

Leis são leis e devem ser substituídas pelos legisladores e promulgadas por quem exerce o poder em nome do povo quando caducarem. É uma das mais altas delegações.

Tinha razão o sábio e culto professor, pois a cidade do Bem Comum será o nosso melhor poema. E, como partícipe do ingresso do pobre à Justiça, pela Defensoria Pública, sempre defendi e aspirei que as políticas públicas por sua vez dessem ao pobre o aceso à saúde, à moradia, ao estudo e ao trabalho com dignidade. Há sinais inaudíveis quando as leis aplicadas são uma obstrução da Justiça. Quando as leis perdem sua legitimidade. Esse é o critério: leis legítimas e leis ilegítimas em confronto com os direitos e deveres de um povo.

Vezes há, como na escolha de uma cirurgia, que se torna necessária, pela gravidade da situação, uma revolução. Mas a verdadeira revolução é sem armas, não tem baixas nem feridos. Ocorre na  comunhão de consciências, através da ética comunitária, com participação coletiva, em plena liberdade, com escolha madura da democracia. E se aprimora ao longo dos anos e de experiências. Nada é estático. Tudo caminha a seu aprimoramento. E todos são chamados a contribuir.

Os ditadores também apelaram por leis. São as leis de exceção e as marciais. Ilegítimas no seu nascimento. Quando pensam ter encarcerado a liberdade (vão propósito), encarceram a si mesmos. E a verdade não se veste com o engodo de suas mentiras e demagogias.

Temos de merecer a democracia através do exercício da cidadania. Temos de merecer sermos livres com responsabilidades individual e coletiva. Lembro Paul Ricoeur quando afirma que um homem justo é o que aspira viver numa sociedade justa. Sejamos uma sociedade justa, vencendo a tendência de usufruir benesses ou interesses grupais.

Sim, temos de merecer a democracia através do exercício da cidadania, com a prática dos nossos deveres para com ela. Será um ato continuo que vai além da escolha consciente pelo voto, tantas vezes aleatória, mas de vigilância do que ainda teremos de fazer para sermos uma nação. Temos de merecer sermos livres com responsabilidades individual e coletiva. Lembro Paul Ricoeur quando afirma que um homem justo é o que aspira viver numa sociedade justa. Sejamos uma sociedade justa, vencendo a tendência de usufruir benesses ou interesses grupais. Um poema – principalmente do Bem Comum – só surge da necessidade da poesia em não calar.

O poder emana do povo, como as águas de um rio emanam da fonte. Ninguém pode negociar com o poder, usufruindo privilégios, sem cair na mais vergonhosa tirania ou basófia. Ou delírio. Ninguém pode afirmar: eu sou a lei. Ou fazer da Constituição uma cadeira cativa. A letra da Constituição é um sopro de liberdade. Somos leais servidores, com honra, da Carta Magna. A história está repleta de malogros. Pior do que o vírus das doenças é o vírus da ignorância.

E, pior do que a ignorância do mal, é a virulenta participação no engodo. Hannah Arendt que o diga. Fiquemos atentos e irmanados a que não se repita “a banalidade do mal”.

*Defensora pública aposentada, poeta, autora de “O que Resta Está por Vir” (AGE, 2020)

terça-feira, 9 de junho de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta semana, excepcionalmente, estamos publicando a Crítica Literária na terça e não na quinta como de costume.

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

UMA AMOSTRA DA LITERATURA CATALÃ

(Wagner Coriolano)

12 Poetas Catalães: seleção, apresentação e notas de Josep Domènech Ponsatí. O livro reúne parte da poesia que se fez na Catalunya, dos anos sessenta aos nossos dias. Dos doze poetas, o mais novo é Jordi Cornudella, nascido em 1962. O mais velho é de 1942, Narcís Comadira, natural da cidade de Girona. Comadira também comparece no livro com a pintura que gerou a ilustração, em preto e branco, reproduzida na capa.

Além dos poemas selecionados por Josep Domènech, e traduzidos em parceria com Ronald Polito (São Paulo: Lumme Editor, 2006), o volume traz uma apresentação bastante elucidativa sobre a situa-
ção dos estudos da poesia catalã, acompanhada de juízo crítico para cada um dos poetas, e acrescenta, ao final, uma síntese biobibliográfica, com referência às edições que serviram para a transcrição dos poemas, em edição bilíngüe.

A Catalunya representa um dos governos autônomos na Espanha, cuja circunscrição enquanto país europeu abrange Valência, Aragão, Navarra, Províncias Bascas, Castela Velha, Castela Nova, Extremadura, Murcia, Andaluzia, Galícia, Astúrias e Leão. Fora da fronteira, no Mediterrâneo, o país tem a posse das Ilhas Baleares. A maioria dos poetas escolhidos tem naturalidade catalã, de cidades
próximas de Barcelona, embora haja no grupo dois que são de outras partes de Espanha: Enric Sòria (1958), de Oliva, localizada na Valência, e Andreu Vidal (1959-1998), de Palma de Mallorca, uma das Ilhas Baleares.

Mesmo de posse desta geografia, ainda permanece a pergunta sobre a origem do poeta. Vários poemas colocam o leitor no centro do debate do fazer poético, quando lidam com a descoberta da palavra. Comadira considera que o “poema, como o edifício, como o quadro, como uma peixada, começa e acaba nele mesmo, no seu próprio sistema de proporções e ressonâncias; segundo o seu projeto será a sua projeção, segundo a sua ascendência a sua transcendência”.

Constante na literatura catalã, as manifestações psíquicas do desejo revelam a sintonia dos poetas com a tradição e com os desafios do verso na atualidade. Enric Sòria, juntando elementos de dois
campos de sua atuação, a história e a poesia, nos revela uma sintonia lapidar com esse movimento: Mètode (A Eduard Verger)/ “Perquè el poema siga/ tan sobri com convé,/ cal beure fora mida./ Perquè siga tan pur/ com és llegut, cal fer/ uns altres sacrificis,/ més obscurs./ Puc dir que és uma llàstima”. [Método/ Para que o poema seja/ tão sóbrio como convém,/ é preciso encher a cara./ Para que seja tão puro/ como é lícito, é preciso fazer/ uns outros sacrifícios,/ mais obscuros./ Posso
dizer que é uma lástima.].

A poesia catalã se revela uma ótima via de acesso ao riquíssimo patrimônio cultural e humano da Catalunya, terra de Gaudí, das festas populares e da autonomia política.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

TODOS SE VÃO

(Wagner Coriolano)

Santiago, Guantânamo, Camagüey, Cienfuegos, Cárdenas, Havana e Pinar del Rio são sete nomes de uma Ilha que não se encerra na capital. Cuba nos chega de todos os lados através da música, do cinema e da literatura, nas artes, assim como do atletismo e da medicina. Em Todos se van (2006), de Wendy Guerra, parte da narrativa se passa fora da cidade de Havana, em Cienfuegos e arredores, embora na tradução a ênfase recaia sobre a capital cubana. A edição brasileira da Editora Âmbar, de Minas Gerais, altera o título para Diários de Havana (2007).

O romance se divide em três partes: o prólogo, o diário de infância e o diário de adolescência. A escritora aproveita páginas dos Diários de Nieve Guerra na construção da estrutura da obra, que acompanha a passagem do tempo na vida da narradora. Um fragmento de Anna Frank antecipa, com palavras preliminares, as palavras e registros de Nieve: “Poderíamos fechar os olhos perante toda esta miséria, porém pensamos naqueles que nos são queridos, e para os quais tememos o pior, sem poder socorrê-los” (Diário 19 nov. 1942). Nieve escreve para reunir os pedaços de vida em território pessoal.

O diário de infância anuncia o período entre 1978 e 1980, quando morava em Cienfuegos, ora com a mãe e Fausto, ora com o pai, por ordem judicial, sofrendo com a falta de comida e maus tratos. “Cienfuegos, a cidade de minha infância, me intimida: o expediente de minha mãe, os dias de julgamento por obter minha custódia, meu próprio expediente” (p.10). A página do diário – com dia da semana, mês e ano – funciona como capítulo do romance. Nieve fala da relação com os pais, da escola, das amigas e do próprio fazer poético e das leituras que realiza, “mi madre me trajo varios libros” (p.67). O tema da saída de cubanos da Ilha e das cidades do interior, em direção à capital, já aparece neste primeiro diário, quando registra que Elena se vai para Havana com seus pais.

O diário de adolescência, cujas páginas abrangem o período de 1986 a 1990, inicia com palavras do escritor cubano Eliseo Diego, onde o poeta fala da passagem dos anos do adolescente como andar sobre brasas. Nieve se torna mais consistente, sua prosa enriquece de elementos geopolíticos e literários, ainda que fortemente carregada de sentimentos e densidade existencial. “Não quero ser hippie como minha mãe, não quero Paz e Amor. Quero ser eu. Nenhum estado de ebriedade me parece necessário. Tenho quinze anos” (p.142). Algumas páginas do diário perdem a marcação de mês e ano e recebem um pequeno título. Em La casa de Osvaldo, El cuarto de Osvaldo e El deseo y el dolor, o leitor encontra uma fina expressão feminina da intimidade no encontro dos corpos.

Mais ao final do romance, a narradora insere a expressão “todos se van” pela primeira vez no texto: “Quase não há gente conhecida na cidade. Todos se vão. Me deixam só” (p.242). Neste momento, as diversas situações de despedida, de fuga, de pessoas e de meios de expressão que estiveram proibidas assumem um sentido maior do que a crítica ao regime.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

SEMPRE AOS PARES
(Wagner Coriolano)

Dizer poesia não é o mesmo que dizer poema. Contudo, os poetas anunciam seus versos como poesia, antecipando a solenidade que o leitor há de encontrar e, ao mesmo tempo, dando força a um costume imemorial, de ter a poesia na melhor conta, digamos que ofício de poucos.

João Claudio Arendt segue a tradição dos poetas soleníssimos, dando-nos um livro inteiro de poemas, última produção de uma lavoura que cultiva faz mais de vinte anos. Ainda nos umbrais da Universidade, e depois nos entretempos da jornada de Letras e da vida, João Claudio limava os versos e às vezes os submetia aos pares, exercícios poéticos que entendemos como antecedentes deste Plural da ausência, recentemente publicado em Caxias do Sul (2009).

Às vésperas de fazer quarenta anos, o poeta vem nos colocar frente à leitura de duas vertentes da literatura: o romantismo e o modernismo da fase contemporânea. Como leitor experiente, João Claudio nos submete aos versos de Junqueira Freire e Castro Alves, por um lado, e de Ferreira Gullar, por outro, preparando o terreno da poética que lida com temas recorrentes da condição humana: o vazio como niilismo, a morte como inexorável, o desejo como o encontro dos corpos.

Caímos na expressão sempre aos pares por uma série de indícios: o poeta utiliza dois substantivos no título Plural da ausência; divide a obra em duas partes, sendo que cada uma tem subtítulo com expressão hifenizada (Desejo-erosão; Tempo-corrosão); estabelece um diálogo com o sistema literário, retomando dois períodos e fincando marcas de outros fazeres poéticos. Enfim, ele cultiva pares, paralelismos e oposições.

Será que os poemas do passado, os perdidos nos desvãos do tempo, podem ameaçar esses novos versos na praça?

Temos ainda que aprender dos poetas. Nos livros de poesia, encontramos uma lição silenciosa de diálogo e uma convocação ao trabalho de decifrar a Esfinge. Os dicionários nos lembram a figura
assombrosa desta senhora: monstro fabuloso com corpo, garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de águia e unhas de harpia, que propunha enigmas aos viandantes e devorava quem não conseguia decifrá-los. Como admiro os dicionaristas, que conseguem nos dizer com poucas palavras sobre um mundo imaginário da Grécia. Como admiramos teus versos, João Claudio, que trazem novamente os mitos antigos: “Fui até o lago e ele estava deserto/ No espelho das águas cintilava apenas o teu rosto de esfinge/ Devorei tua imagem para decifrar o enigma”.

Os poetas dialogam na distância dos tempos. Os versos que escrevem e as imagens que inventam, depois de um tempo, reaparecem na obra dos novos, refundindo sentidos. Querem uma prova? Uma imagem do João, a cinza das manhãs, remete a Manuel Bandeira, que estreou com A cinza das horas, e também escreveu os poemas de Estrela da manhã. Um poeta se procura em outro poeta, o João Claudio se procura na tradição: “Sentes a solidão que a cinza das manhãs deságua sobre ti?/ Sentes o abandono que o basalto das tardes estende sobre ti?/ Sentes o desamparo que o chumbo das noites arroja sobre ti?/ É minha ausência que deságua, que se estende que se aloja em ti”. Com isso, apontamos um rastro, mas devemos esperar por mais crítica que possa desvendar este Plural da ausência.

A leitura de poesia pode auxiliar em outros trabalhos com a palavra, como é o caso, por exemplo, de quem faz reportagem, ensaio de cultura e composição de letra musical. Quanto à proximidade en-
tre poesia e música, se torna pertinente recordarmos as palavras de Pedro Lyra, tecendo comentário sobre a relação entre o poema e a letra de música. Lyra registra que “o poema é uma forma de expressão que se sustenta por si mesma, por ter seu próprio ritmo; a letra de música só se sustenta pela melodia e, portanto, tem um ritmo externo” (O real no poético).

A poesia de Plural da ausência prepara a palavra pelo desafio que lança ao leitor. Ensina-nos que no ato de leitura é preciso perceber e apreciar cada detalhe, como nas minuciosas explorações de ritmos pelo emprego de paralelismo. O poeta ora cria uma imagem cíclica – “Apago do meu corpo os vestígios do teu/ Resistem na pele os fluidos impressos inscritos nos pêlos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu/Tatuados na pele os humores secretos conservam apelos/ Apago do meu corpo os vestígios do teu”, ora inventa uma surpresa – “Este amor qual quebra-cabeças com peças repetidas e faltantes/ este amor que capitula mas ao exílio condena os seus amantes/ este amor que se nutre de migalhas que erra os caminhos e a cada entrega é ausência constante/ este amor é obra de um cupido cego e sem asas, artimanha do diabo ou ilusão de um poeta que nunca nunca amou antes”.

Outro aspecto significativo da obra tem a ver com a criação dos subtítulos desejo-erosão e tempo-corrosão. Bem no começo, o poeta lança o curto poema “O amor/ é a erosão da ausência” – que ilustra a relação desejo-erosão – como carro-chefe de longa série de poemas, onde predomina a relação intersubjetiva dos amantes, embora raros poemas escapem ao registro do pronome pessoal. Na segunda parte do livro, ele nos propõe o conflito da corrosão do tempo, por meio da metáfora do humano como pássaro. Recorrentes são as imagens em que pássaros ilustram situações humanas, o desgaste que vem com o tempo: “Por que não colhes o fruto antes dos pássaros e da corrosão do açúcar?”. Aqui, também, alguns poemas fogem da regra, registrando a corrosão do tempo com outras imagens: “De onde tira o mar timbre pra cantar?/ De onde tira o mar ginga pra dançar?/ De onde
tira o mar o sal pra adoçar?”

Com este Plural da ausência, João Claudio Arendt nos enriquece pela poesia e pela redescoberta do espanto como concernente ao humano.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


POETIZAR O COTIDIANO
(Wagner Coriolano)

O escritor Oneide Bobsin afirmou, no texto Religiões em romances (2002), que na boca de uma pluralidade de personagens é difícil perceber os limites entre a realidade e a ficção. E, ainda mais especificamente, sintetizou com As fronteiras entre as versões dos fatos históricos e as suas recriações literárias são tênues. Na ocasião, o Oneide estava às voltas com os romances A viagem de Théo, de Catherine Clément, O rei, o sábio e o bufão, de Shafique Keshavjee e O livro das religiões, que Jostein Gaarder assina junto com Victor Hellern e Henry Notaker.

Se não bastasse examinar as recriações literárias ou ficcionais da religião, o Oneide retorna à cena literária e empreende um exercício de proferir, pela voz da crônica, uma série de textos onde trata do cotidiano pela perspectiva luterana. Intitulou de Histórias para quem gosta de aprender (2009). Na apresentação, que antepõe às trinta e uma histórias, diz que os textos foram escritos em momentos específicos e com objetivo de problematizar assuntos concretos. Não faz menção à tênue fronteira entre o fato histórico e a versão literária.

São crônicas de fundo religioso e bíblico, assim o provam as diversas citações entremeadas nos textos, mas também aparecidas nos títulos, como em A família de Jesus, Lutero em Cuba e Bush,
Saddam e Lutero. Contudo extrapolam a leitura estritamente teológica, avançando por uma voz fundada em aporte intercultural, quando o autor retoma o acúmulo do pensamento ocidental e oriental como estratégia de leitura das coisas novas. As crônicas circularam, em primeira mão, pelo jornal da comunidade evangélica, da IECLB, e foram caprichosamente editadas pela Oikos Editora.

Em Folhas de figueiras, encontramos um excelente exemplo de crônica literária, calcada entre o fato e a ficção. Como homem que trabalha a teologia, Oneide Bobsin se revela aqui um cuidadoso leitor, visto que é impossível separar a teologia do gosto pelos livros. O ponto de partida da crônica é o livro Auto-engano (1999), do filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca. Tocado pela frase mentimos para nós mesmos o tempo todo e nos vemos bem melhor do que somos, Oneide recupera uma pequena história do auto-engano através dos tempos, nos levando ao Paraíso, com a famosa folha que velou o corpo da mulher.

Sob o ponto de vista literário, ao entrelaçar o relato bíblico de Adão e Eva com o registro jornalístico de acidente no Aeroporto de Congonhas, o autor destaca que neles o homem incorre em produzir
mentiras para esconder os próprios erros. A camuflagem daquela folha bíblica permanece sendo o nosso expediente por meio de outras folhas. A fronteira, portanto, começa a ser colocada quando percebemos a poetização (ou politização) deste título Folhas de figueiras.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

PEQUENA CONTRIBUIÇÃO

(Wagner Coriolano)

Uma pequena contribuição para aumentar nossa paixão pela literatura. Assim escreve Sérgio Farina de próprio punho no Estatuto poético (1996), meu exemplar marcado desde o pórtico com sua letra e na confirmação da dedicatória impressa “aos meus alunos”. De 1997, data do autógrafo, a 2007, data do lançamento do Prêmio Literário Sérgio Farina, nosso campo de estudos expandiu suas fronteiras, mas a lição do amigo permanece com força e atualidade.

Nas cinco primeiras páginas, o Estatuto poético dá uma imagem do que foi o exercício do magistério de uma vida. Nesse sentido, vale a pena observar que se trata de uma proposta de leitura analítica e interpretativa, conforme destaca o autor no subtítulo do livro. Leitura do texto antes, durante e depois da aula, visto que o texto literário nos leva além de si mesmo. Nessa introdução, Farina questiona o ensino da literatura, a fim de abrir horizontes de investigação, bem como de buscar a essência pela crítica, enriquecendo a obra com os múltiplos sentidos que a atualidade acrescenta ao tecido ficcional, seja em verso, seja em prosa.

O trabalho com a arte, na proposta do estatuto, acompanha o interesse didático. Cabe ao professor investigar um método que satisfaça a visibilidade da mensagem da obra literária, de preferência com a participação do leitor. Para tanto, após examinar as posições teóricas e o leque de opções de ensino, afirma que o conhecimento da literatura se faz via experiência e importa verificar os rumos da teoria literária aplicada aos textos escolhidos.

Dentre as metas contidas no ABC de Farina, duas disparam na frente: como ler o texto poético e como produzir sentidos. No coração dessas perguntas, encontram-se o reconhecimento da consciência de finitude humana, da necessidade de um ato interpretativo perante a escritura e, ainda, do fato de que o leitor não tem o sentido original ou verdadeiro das palavras. Como leitor privilegiado, ele dizia que no mais recôndito passado, há o mito, canal com o mistério que somos.

As etapas de seu método abarcam quatro procedimentos relacionados à obra literária. Em primeiro lugar, a procura por tudo o que envolve o tempo em que a obra foi escrita; segundo, o exame do texto a partir das noções de teoria da literatura; terceiro, o exercício da leitura extensiva através dos códigos de sentido e, por último, o ensaio de uma leitura profunda que visa estabelecer o signo texto. Em contato com as idéias de Sérgio Farina, podemos aprimorar a tarefa de docência da literatura.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


OS INSTANTES DE ERNANI MÜGGE

(Wagner Coriolano)

Há muitos anos Ernani Mügge mora em Dois Irmãos, cidade fortemente marcada pela cultura alemã, e ali exerce seu magistério, participando de uma política de incentivo à leitura e escrita, no município e arredores. A experiência com a palavra, todavia, é anterior a esta prática, no mínimo recuando aos tempos de formação secundária e aos dias do curso de Letras Português – Alemão.

Ainda nos anos 1990, cursa uma especialização em lingüística do texto, e na virada do milênio estreia com o livro de contos Percalços, editado em 2000, cuja temática explora a ambivalência do termo percalço, passando da compreensão de um incômodo inerente para a acepção de um benefício que se obtém por meio de alguma atividade. No conto O segredo, por exemplo, a personagem Pedro abandona uma intenção ruim após descobrir que está sendo observado por uma mulher e, em seguida, por outros passageiros do ônibus.

Em 2004, após o mestrado em teoria da literatura, Ernani Mügge retorna à cena literária com catorze contos, enfeixados sob o título Instantes, publicado pela Oikos Editora. A capa do livro revela uma escolha de imagens que correspondem apenas a cinco contos, entre os quais, O concerto e O Aerowillis novo. O ilustrador Marco Liesenfeld, desse modo, sugere uma estratégia de leitura do livro: o desenho e o ato de selecionar.

Ao inscrever estes instantes na obra ficcional, o contista faz lembrar as palavras de Cecília Meireles, “canto porque o instante existe”, bem como se aproxima do pensamento que entende a vida como um instante imenso, no constante retorno do mesmo. Separo quatro instantes em primeira pessoa, após a leitura dos demais contos narrados em terceira pessoa, a fim de pôr em relevo a voz de menino narrador que vê o mundo com curiosidade.

Em O passeio, o narrador menino conta o esquisito passeio que faz a um velório. As marcas do “proibido” são muito frágeis, transparecem na linguagem e na incerteza das regras. O menino tem
uma irmã, chamada Margarete, a quem explica coisas. “Minha irmã também não sabia que as velas acesas eram para iluminar a alma do morto. Que tonta! Por cima ainda perguntou o que era alma. Eu disse que sabia só que não achava as palavras para explicar certo. / – Tu também é um burro! – irritou-se”.

O narrador menino de A hora certa de dizer as coisas a um filho nos apresenta o dia em que os pais socorreram a vizinha, cujo sogro se enforcou. Demoraram na casa dos Herzel, mas o menino sabe que ordem do pai era para cumprir. Sem saber como os pais decidiram contar-lhe o ocorrido, ele conjectura sobre o complicado de saber a hora certa.

Em Sabedoria, o menino narra a vez que seguiu o avô para  observá-lo na pescaria. Queria saber como adivinhava o dia certo do peixe cair no anzol. Constata, finalmente, que o avô sabia o que
estava fazendo. E, por último, em O concerto, o menino conta da aproximação com o casal de músicos tão diferentes dele. Aproximase devagarzinho, ouvindo os ensaios de longe, até que um dia o músico os convidou, a ele e a seus amigos, a entrarem na casa e assistir a uma apresentação.

Os instantes de Ernani Mügge entretecem o cotidiano, ora dando voz aos protagonistas, ora por meio de um olhar de fora. Nos quatro contos, predomina o questionamento da norma, o menino não aceita simplesmente o certo. Em alguns contos em terceira pessoa aparece a criança que se cala frente à determinação adulta, como em O lugar proibido e Decepção.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

OS CONTOS DE IVO BENDER

 (Wagner Coriolano)


O escritor brasileiro Ivo Bender, com mais de quarenta anos de produção teatral, volta aos campos literários com um livro de narrativas, Contos (2010), reunião de nove contos que traçam um mapa territorial e imaginário do Rio Grande do Sul, como bem anotou a crítica Regina Zilberman, que assina as palavras da apresentação. Em vários trechos do livro, cuja capa vermelha põe em destaque as letras do título e o nome do autor, o leitor encontrará a citação de poemas, ora do cancioneiro local, ora da alta poesia norte-americana.

Como na canção Águas de março, de Antonio Carlos Jobim, onde o compositor carioca transita entre a natureza (é pau, é pedra, é um resto de toco) e o humano (é um pouco sozinho), a literatura de Ivo Bender mistura a natureza e sua exuberância com a interioridade humana e seus complexos. Seis palavras selecionadas do sumário apontam a força da natureza. Campo, vale e pedra, substantivos ligados à terra; tília, espinheiro e corticeira, substantivos ligados à flora designativa de árvores. O nome dos contos antecipa o mostruário riquíssimo que o leitor encontrará dos elementos típicos da terra gaúcha.

Ao lado da natureza, por meio de cuidadosa composição literária, o escritor adiciona o tempero da humana condição. Os nove contos narram as veredas da sexualidade de todos os tempos. Campos de Santa Maria do Egito narra o desaparecimento de uma curandeira, após ter sido atacada por dois homens, com sede de mulher. Vale das tílias circula em torno de suposto adultério. Sonora conta de corpos que se unem às escondidas. Pedra marcada destaca a metamorfose de uma mulher, que realiza por fim o amor de carne, como dizia o Vinícius de Moraes. Brau Lopes fala em dois homens com a mesma mulher. Espinheiros conta de um pai que entrega a filha, a fim de aplacar a insânia de outra mulher. Mercês conta de um triângulo amoroso, que envolve uma mulher sozinha com casal de mulheres.

Aljofres apresenta certa volúpia de homem solteiro que é visitado pelo espectro de uma escritora. Por fim, em Corticeira, a estudante de fulgurante cabeleira se deita com seu treinador do colégio tradicional.

Com estes contos, Ivo Bender nos traz uma literatura muito exigente, que extrapola uma primeira visita ao texto. A bem da verdade, esta obra literária amplia a galeria das narrativas que têm relevância no quadro de nossas letras. Não tem como deixar de lembrar o trabalho de Dyonélio Machado e de Cyro Martins, sob o ponto de vista da representação psicológica, quando descemos o pano ao final desta jornada, amparados pela mão alegórica com que explora a contemporaneidade regional.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


OS AMORES TURVOS

(Wagner Coriolano)

Com Historia de un amor turbio (1908), Horacio Quiroga apresenta a personagem Luis Rohán e suas viagens. A edição brasileira, publicada em 1998, traz um posfácio de Pablo Rocca, crítico uruguaio, que assim sintetiza o enredo: “a ação transcorre basicamente em Lomas de Zamora e, em menor medida, em Buenos Aires, com alusões a uma distante estância, de onde Rohán vem para a capital, por uma temporada – e aqui começa o romance – e para onde ele volta ao final”.

Na capital argentina, Rohán inicia o curso de Engenharia, mas logo desiste da formação acadêmica. Consegue um emprego no Ministério de Obras Públicas, como desenhista, e permanece na cidade, levando uma vida independente, embora a contragosto do pai. Após um ano, se aproxima das irmãs Lola e Mercedes, e posteriormente passa a freqüentar a casa da família, em localidade distante a vinte e cinco minutos em transporte ferroviário.

Pouco tempo depois, recebe uma carta do pai, ordenando que viaje à Europa, a fim de que encontre uma vocação: “acho que voltarás mais inútil ainda, mas sempre me restará o consolo de ter feito o possível por ti”. Apesar dos laços que o jovem Rohán estreita com a família Elizalde, em especial com Mercedes e a pequena Eglé, de nove anos, segue para Paris. Na temporada francesa, frequenta museus e ateliês “com a tenaz assiduidade de quem tenta convencer-se de um amor que não sente muito”. Ao final do terceiro ano de França, decide pela fotogravura, outra escolha que malogrará perante os sofismas pessoais. Com oito anos de andança, retorna para o Cone Sul.

De volta a Buenos Aires, Rohán reingressa no Ministério como subchefe de divisão e retoma a amizade com a família de Lomas. Aos poucos, vence as barreiras que o separam de Eglé, agora mais bonita, tangível e desejável, porém distante e indiferente. O narrador observa que “uma noite, observando-a em silêncio, deplorou até o fundo da alma não poder voltar ao passado”.

Nas sucessivas visitas, Rohán desfruta da música ao piano, da conversa íntima com Mercedes e das primeiras aproximações com Eglé. Passeiam pela estação de trem, onde caminham pela gare do sul, menos tumultuada que a gare do norte. Visitam a quinta, onde finalmente principia o namoro. “Rohán ergueu o rosto dela e a beijou na boca. Foi um beijo tão longo, tão apertado, que Eglé saiu dele fatigada, rendida àquele amor que acabava de confessar”.

A história de Rohán e Eglé dura apenas alguns meses. Ele tem muito a fazer na cidade e, com o passar das semanas, reduz o tempo de ficar com a namorada. Ela entende como esmorecimento do amor. A razão do desenlace, contudo, tem a ver com a obsessiva preocupação de Rohán com um passado relacionamento de Eglé. Ele vai morar numa estância à distância de dois dias, ela permanece em Lomas.


Na tradução de Sérgio Faraco, a novela de Quiroga recebe o título de História de um amor louco. O câmbio da palavra – talvez pela melhor correspondência – reduz os sentidos desta narrativa uru-
guaia, que também trata da travessia da personagem Rohán, entre caminhos e descaminhos.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O TEMPO E A MEMÓRIA


(Wagner Coriolano)

É preciso dar aos contemporâneos a oportunidade de conhecer as obras que marcaram a cultura ocidental como, por exemplo, a leitura de Em busca do tempo perdido, do escritor francês Marcel Proust. A caudalosa narrativa reúne sete romances que traçam o panorama da vida de Marcel, o narrador.

Com exceção do capítulo Um amor de Swann, narrado em terceira pessoa, os livros (um pouco menos de três mil páginas na tradução brasileira) expõem o ponto de vista do narrador a respeito de sua própria vida e de como a memória reteve o tempo passado e o sentimento de transformação de todas as coisas.

A leitura do romance exige tempo e muita observação. A relação entre leitura e memória é inevitável, e a ruptura com o ato de ler uniforme se torna uma exigência permanente. Daí a pergunta: como fazer uma leitura do romance e não se perder ou não reagir com tédio?

A estratégia do texto mostra que a intenção de envolver o leitor se deu pela intermitência do enredo, quando o escritor enxerta episódios significativos na grande estrutura narrativa. Segundo o tradutor 
Fernando Py, “o que importa não são os encadeamentos narrativos e episódicos e sim a análise psicológica, as conexões estabelecidas e, acima de tudo, aquela transcendental peleja do espírito criador, que luta para se afirmar e deixar a marca de sua genialidade”.

A linguagem rica em poesia, com que é apresentada a recordação da infância – cheia de detalhes que remetem à época (como certos costumes e hierarquia rígida), à cultura arquitetônica (casa com jardim, portão de ferro com ruído ferruginoso) e aos costumes (jeito de falar em casa) –, revela a trajetória da personagem pelo mundo nobre. Desse modo, entendemos a aproximação entre o passado distante da infância e um passado mais próximo do tempo em que narra, situado no mundo aristocrático da duquesa, no jantar dos Guermantes.

Marcel recorda as visitas de Swann filho a seus familiares, a recepção e a mentalidade da família de Swann quanto a seu casamento com mulher de outra posição social. “Ele já não vivia na sociedade que sua família freqüentava”, registra o narrador. Charles de Swann, homem reservado e de vida ambígua, é ingênuo a respeito da vida movimentada de Odete de Crecy com quem se casa. A diferença entre a postura do filho mundano e do velho Swann aristocrático só é possível de estabelecer quando se conhece o desenrolar dos episódios narrados no romance, onde encontramos a descrição de outras personagens que foram formadas na educação aristocrática, como a Senhora de Luxemburgo, mas que mudaram de lugar social.

O crítico alemão Wolfgang Iser afirma que a obra literária existe quando se constitui como texto na consciência do leitor, quando leitor e autor participam conjuntamente de um jogo de fantasia, para o
qual não há espaço para algo mais do que regras de jogo. De modo excepcional, Proust soube realizar uma jornada pelos caminhos entre o real e o imaginário, nos comunicando o mundo da sociedade francesa da passagem entre os séculos XIX e XX, ao mesmo tempo em que nos conduzindo através da invenção de uma infância encantada, trazida do tempo perdido.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O LUGAR DE SÉRGIO FARINA


(Wagner Coriolano)


A revista Letras de Hoje, dezembro de 1970, guarda um texto exemplar de Sérgio Farina, verdadeiro exercício didático de análise literária de um poema moderno. Com sua habitual clareza, o autor deixa as pegadas de um trabalho calcado sob o princípio de simpatia, de paciência e do conselho de leitura, elementos que, no seu entender, dariam um caminho para a participação na experiência vital do poeta, transfigurada em obra de arte.

O ensaio de Farina reúne dois campos através dos quais palmilhou a vida universitária: as letras e a metodologia científica. Ainda nos anos 80, a segunda área de atuação profissional ofuscava o fino leitor e o cronista discreto, haja vista o número de edições do livro Apresentação de trabalhos escolares, realizado em parceria com os professores
Fernando Becker e Urbano Scheid. Como se não bastasse àquela presença, em diversas áreas da academia, outros apontamentos de como produzir textos técnicos despontaram, em série, nas páginas da revista Entrelinhas, de outubro de 2000 a março de 2003, na edição impressa.

De tão singular ofício de crítico e de pesquisador, uma história trintenária, vieram as crônicas jornalísticas dos anos 90, no jornal Vale dos Sinos. Farina fez um movimento da academia para o chão da cidade. Como os poetas de sua admiração, transitou da cultura letrada para uma ênfase maior da linguagem cotidiana. As crônicas revelam o escritor que soube colher as circunstâncias escalenas da cultura regional. Em depoimento recolhido no livro Histórias de vida nos 31 anos da Unisinos, organizado pelo poeta Lauro Dick, afirma que, com o mestrado concluído em 1977, sua visão acadêmica foi se alterando também. Apanhei o crachá, aquele mesmo que recebi ao ingressar, e, no verso da face que dizia ensino, escrevi pesquisa. Iniciei, acompanhado por alguns colegas, a dar mais importância à pesquisa, em minhas aulas, como forma de redimir a graduação.

Quando escreveu que o pesquisador é o criador de seu próprio conhecimento, o leitor contumaz Sérgio Farina sabia o que estava dizendo. As janelas da casa defronte à rua padre Nóbrega é que o digam. Entre livros e revistas, praticava o antigo exercício de recortar textos e novamente costurá-los com seu traço saboroso.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

O ESCRITOR DAS CRIANÇAS


(Wagner Coriolano)

A poucos dias de completar 60 anos sem o escritor Monteiro Lobato, falecido em julho de 1948, ainda ecoa no Brasil das crianças o efeito de suas criativas personagens. E, muitos brasileiros, lembramos a boneca Emília e o lendário Saci Pererê, quando fazemos referência ao universo da literatura para o público infanto-juvenil ou enfatizamos o esforço de Lobato pela emancipação intelectual das futuras gerações.

Antes de iniciar a série de personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, José Bento Monteiro Lobato – batizado José Renato não José Bento – aparece com a criação de Jeca Tatu, a representação literária do homem atrasado, que vivia nas cidades mortas do interior de São Paulo, onde prosperaram antigas fazendas de café no século 19.

Após se formar em Ciências Sociais e Jurídicas, na capital do Estado, em 1904, o escritor volta para a cidade natal, Taubaté, no Vale do Paraíba, e pouco tempo depois segue para Areias, pequena cidade morta (“vivia das áureas lembranças do passado”, segundo Cassiano Nunes), a fim de assumir o cargo de promotor público da comarca.

De 1908 a 1921, ano em que inicia a escrita de história para crianças, Monteiro Lobato se casa com Maria Pureza e se torna pai de Marta, Edgard, Guilherme e Ruth. Herdeiro da fazenda Buquira, do avô materno Visconde de Tremembé, deixa a promotoria e abraça a vida de fazendeiro. Como os negócios não prosperam como deseja, em 1917 vende a fazenda e, em 1918, compra a Revista do Brasil, uma publicação de intelectuais ligados ao jornal O Estado de São Paulo, propriedade da família Mesquita. Não pára nesse negócio. Em 1919, abre a firma Monteiro Lobato & Cia, concretizando o antigo sonho de editar livros.

A editora de Monteiro Lobato, por sete anos, populariza o livro por diversas regiões do país e edita um sem número de autores novos. Desse modo, torna possível a realização do desejo de leitura de um público que contava com inexpressiva publicação nacional, pagando caro pelas edições vindas de Portugal e pelas edições vindas de Portugal e pelas edições importadas em língua estrangeira. Com a proposta de baratear o livro, Lobato ainda uma vez enfrenta dificuldades de seguir com a empresa, pelo custo elevado do papel brasileiro e pela impossibilidade de importá-lo, devido às altas taxas.

Dos altos e baixos da vida, o escritor herdou uma riqueza sem precedentes, com as quais soube rechear o repertório dos trabalhos intelectuais, no campo das Letras, e em outros campos, com livros sobre saúde pública, petróleo, folclore, imprensa, energia, ciências, vida literária e inúmeras cartas. A sua literatura para crianças e jovens registra este amplo conhecimento, em linguagem acessível, mas não empobrecida de palavras e sentidos. A leitura de qualquer de uma das 32 histórias originais de Lobato acenderá o sentimento de identidade com as coisas do Brasil e, mesmo a leitura das sete adaptações de clássicos, fortalecerá o desejo de boas escolas e editoras que valorizem a cultura do livro.


sábado, 28 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


O DESAPARECIMENTO DE TEODORA

(Wagner Coriolano)

A peça As núpcias de Teodora representa o teatro da maturidade de Ivo Bender, juntamente com Colheita de cinzas e A ronda do lobo, as três peças que fundam a Trilogia perversa. Arguto escritor de arte dramática nesta cultura no sul do mundo, o dramaturgo cruza o imaginário da colônia alemã, no século 19, com o universo dos antigos mitos gregos. “Fui professor de Teatro Grego, na Universidade Federal, por muito tempo. Nas aulas, além dos textos, eu trabalhava com mitologia. Resolvi aproveitar esses mitos e fazer uma transposição, fazer as personagens míticas serem imigrantes alemães”.

A personagem Teodora aparece na primeira cena da peça, em diálogo com sua mãe Cordélia. Após perder o sono, informa que teve um pesadelo, onde vê o pai com muito sangue na cabeça. Na última cena do primeiro ato, na mesma sala da casa, reaparece, lê um trecho da carta que um mensageiro trouxera, e declara que “não queria casar assim, tão de repente”. Nas cenas do segundo e último ato, Teodora é constantemente mencionada, sobretudo como filha de Hagemann, como nossa filha (o pai), como minha filha (a mãe), em relação ao noivo (o caminho de Teodora e Antônio) e na expressão “leva as mãos de Teodora para a face” (a mãe).


Teodora, que ao final desaparece, descobre a sentença de morte proferida por Jacobina Maurer e tenta a fuga. Recapturada, ainda uma vez, apela à mãe que permaneça com ela, pois precisa de coragem. Entretanto, de nada adianta o apelo de Cordélia em face da ordem fatal da líder dos Muckers, ensandecida contra a iminente descrença de seu principal chefe. Sem a filha, tempos depois, recebe em casa outro mensageiro com notícias do marido, sobrevivente do embate entre os colonos da montanha e as forças do governo e com uma ferida na cabeça. O mensageiro segue seu caminho e ela fecha a última cena: “Eu te espero, Cristóvão Hagemann. Cedo ou tarde retornarás. E nesse dia não escaparás do meu olhar. Nem da minha mão”.

A jovem instaura o lado bom do humano. Teodora, neologismo, de Teo, Deus, com dora, presente. Desta junção de elementos gregos, vem o possível sentido de “dádiva de Deus”. O ataque contra Teodora confirma, pela segunda vez, a tendência cruel do ato de Jacobina. A falsa demente antes não respeitara a integridade do texto bíblico, a fim de melhor persuadir o traidor. No episódio do sacrifício de Abraão, no livro de Gênesis, o anjo diz “Não estenda a mão contra o menino! Não lhe faça nenhum mal!”. Ordens de Deus. Ao imolar Teodora, a líder instaura a vingança, enlaça pelo sangue aquele que esteve a seu lado, e, como outros colonos, percebeu a causa perdida. Ordens de Jacobina.

A noção de tragédia, em Ivo Bender, conserva um sentido mais amplo, sob o ponto de vista do conflito de valores no seio da família Hagemann. Se o pai entrega a filha, a mãe não a abandona. Cordélia, assim, nos recorda a invenção poética de Manuel Bandeira, no poema Neologismo, de 1947: Teadoro, Teodora.



quinta-feira, 19 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

O CORPO DE CARMÉLIA

(Wagner Coriolano)

Próximo da casa dos oitenta anos, Antonio Carlos Resende escreve o romance da paixão de um homem branco por uma mulher negra, através do qual convida o leitor ao tema da diversidade cultural. “Minha maior preocupação era mesmo a questão do racismo, não tanto a das drogas nem a do amor. A história, aliás, vem me acompanhando desde que eu era guri, em Cachoeira do Sul”, declara o escritor, na edição 90 da Revista Aplauso.

Nomeado com a expressão A obra-prima do teu corpo, o livro escrito e publicado em 2007 amplia as letras gaúchas com a escrita do espaço entre o morro e a cidade, na imaginária Capital. O narrador e protagonista José Bauermann Cardoso, maitre de restaurante e leitor que freqüenta sebos na cidade, encontra-se com a moradora do morro, Carmélia da Silva, que trabalha no candomblé. “Sua avó e sua mãe foram ialorixás. A mãe desencarnou por causa de uma bala perdida numa batida feroz da Brigada, faz dez anos” (p.60). Ela também é iniciada ialorixá, após a viagem ao Cairo.

Desde o dia em que vê Carmélia no boteco do seu Antero, no morro Maria da Conceição, quando ela comprava pão da tarde, até o dia em que a recebe no restaurante, acompanhada do avô, e nos posteriores encontros, José comunica um sentimento de entrega amorosa. Entretanto, do ponto de vista do enfrentamento que estabelece com os líderes do morro – devido à resistência contra o narcotráfico – a personagem perde em coerência, ainda que as cenas imaginosas de seqüestro e ameaças sejam determinantes no texto e no liame dos capítulos.

José tem requintes de poeta. Diante da beleza e elegância da moça negra, magra e de cabelo corte zero, ele aproxima o corpo feminino da noção de obra-prima. No curso do romance, a expressão aparece depois de outras marcas que indicam a sua relação com as palavras: José lê livros na cama (p.15), cita o romance O viúvo, de Oswaldo França Júnior, comprado num sebo (p.22) e alguns contos de Rubem Fonseca (p.43). Ao final de uma cena constrangedora, perante o traficante Jerônimo e seus aliados, declara a Carmélia que “só a obra-prima do teu corpo para atenuar minha vergonha” (p.72). A personagem ainda cita a leitura de Um fuzil na mão um poema no bolso, livro do escritor congolês Emmanuel Dongala, publicado na década de 70, com edição da Nova Fronteira.

As leituras da personagem José diretamente apontam os temas do romancista: a representação da violência, a perspectiva pessoal de futuro e o nome de Carmélia. Tanto o escritor brasileiro Rubem Fonseca como o africano Emmanuel Dongala trabalham a realidade do conflito urbano contemporâneo através da palavra ficcional. Resende esboça o futuro de José colocando-o como postulante ao curso de Direito, bem como independente frente aos interesses da sociedade constituída em torno do restaurante. No nome da negra de cor azulada, o escritor aproxima a magia do poema e a expressão generosa da cultura afrobrasileira.

quinta-feira, 12 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


NATAL E LITERATURA


(Wagner Coriolano de Abreu)


A premissa básica da conversa sobre Natal através da literatura reside na aceitação do Cristo que foi feito como homem. Nesse sentido, o tema proposto exige uma compreensão da História. Sob os auspícios do Império Romano, o historiador Flávio Josefo escreveu sobre os hebreus e deu notícias do nascimento do menino cuja estrela se tornaria sinal de presença divina e promessa de reconciliação.

A história do evento natalino, portanto, inscreve-se para a posteridade não apenas através da escrita apostólica, mas também pela escrita oficial representada pelo soldado que serviu aos romanos. No século XX, o escritor norte-americano Gore Vidal se notabilizou por tratar do tema da inserção do cristianismo na história romana em seu romance intitulado Juliano.

Em face da história do Natal, a palavra literatura pode ser entendida em pelo menos dois sentidos.
Em sentido geral, são os escritos que fazem referência ao evento, a Bíblia, a história, o folclore e os registros da arte. A literatura natalina inclui os escritos dos profetas que antecederam ao episódio, no curso do tempo. José Schiavo, em seu dicionário de personagens bíblicos, diz que Isaías proclama que o menino nasceria de uma virgem, Amós diz que sairia de uma tribo de Davi, Miquéias anuncia que nasceria em Belém, Naum diz que faria a pregação evangélica, Jeremias previa a infidelidade para com Ele e seu sacrifício, assim como fala das dores e da encarnação, Baruc celebra seu aparecimento entre os homens, Daniel utiliza a expressão filho do homem, Ageu prediz sua entrada no templo, enfim, Malaquias fala no precursor que lhe prepararia os caminhos. O poeta e professor gaúcho Armindo Trevisan, recentemente, fez publicar o seu estudo minucioso sobre o filho do homem no livro O rosto de Cristo.

Em sentido estrito, como se fala atualmente na escola, a literatura reúne os escritos com arte, a poesia, o teatro e, sobretudo, a narrativa ficcional. A respeito desta produção em prosa, e para ficar no exemplo brasileiro, temos que lembrar o conto Missa do galo, de Machado de Assis. O grande escritor foi matriz de vários escritores modernos que a seu conto fizeram referência. No Sul, o conto O menininho do presépio, de João Simões Lopes Neto, é famoso. Contudo, a diversidade prevaleceu e a literatura brasileira tornou-se um mar de histórias natalinas.

A literatura, sem dúvida, anunciou o acontecimento Natal entre nós e deixou um rastro dessa história como uma biblioteca aberta ao público. Outras narrativas literárias podem ser encontradas nas antologias de contos intituladas A palavra é Natal e Contos para um Natal brasileiro. A literatura pode ser o nosso perene advento. Então é Natal.

quinta-feira, 5 de março de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.


NA CADEIRA DE GREGÓRIO

(Wagner Coriolano de Abreu)



A cadeira de Gregório da Fonseca não é um ícone do design brasileiro, como a famosa cadeira do artista plástico Sérgio Rodrigues. A cadeira de Gregório tem assento na Academia Rio-Grandense de Letras, indicando um lugar oficialmente reconhecido de honra e de autoridade. Gregório Porto da Fonseca, natural de Cachoeira do Sul, destacou-se na vida local, como figura da história literária no Rio Grande do Sul, e na vida nacional, como ocupante da cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras, quando participava ativamente da vida literária na cidade do Rio de Janeiro.

Em maio de 2009, o médico e romancista Waldomiro Carlos Manfroi proferiu o discurso de posse à cadeira 30 do patrono Gregório Fonseca, passando a ocupar a vaga deixada, em 2007, pelo médico cardiologista e poeta Caio Flávio Prates da Silveira. Em agosto de 2010, Walfomiro Manfroi esteve em São Leopoldo, participando do Momento Cultural/SESC, no Espaço Vila D’Assissi, onde expôs sua obra ficcional, feita de romances e contos, e sua entrada para a Aca-
demia Rio-Grandense, honrado em ocupar a cadeira de Gregório.

As palavras do discurso de Waldomiro Manfroi, lidas no Memorial do Rio Grande do Sul, representam uma verdadeira poética. Em seguida à saudação inicial, faz uma profissão de fé pela Literatura, citando Edgar Morin, quando nos recomenda viver a parte poética de nossas vidas. Se Gregório escreveu poesia, ensaios e biografia – contribuição reflexiva sobre a condição humana, Manfroi escreve nos romances e contos o que é invisível nas ciências humanas, colocando à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade e com o mundo.

No encontro de São Leopoldo, o escritor narrou alguns episódios dos romances Tempo de viver (1992), A confissão do espelho (1999) e Os demônios do lago (2004), bem como as estratégias de romancista e as razões que levam um profissional da Medicina a deitar-se sobre a criação literária. Do ponto de vista da geografia gaúcha, o romance A confissão do espelho nos traz um recanto civilizatório, que estava faltando no retrato deste Rio Grande do Sul. Sobre o espaço em que se insere a temática do livro, depois de muitos anos, descobri o que dizes: ninguém tinha tratado este tema com esta dimensão.

O escritor Waldomiro Manfroi enriquece o lugar que Gregório ocupou e tantos escritores ilustres compartilharam. Com as histórias de enigma, tanto em A confissão do espelho quanto em Férias interrompidas, veicula os dilemas da vida amorosa e oferece aos leitores uma expressão linguística contemporânea. A prosa do escritor contempla a versatilidade da língua portuguesa temperada com o melhor do vocabulário sul-rio-grandense, vivo nos rincões. Sob este aspecto, há uma confluência entre o Waldomiro Manfroi, seu antecessor Caio Flávio e o patrono Gregório.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Esta coluna reúne críticas literárias de Wagner Coriolano de Abreu, publicados originalmente no livro SEMPRE AOS PARES, lançado pela Carta Editora.

MODOS DE DIZER CAMUS


(Wagner Coriolano de Abreu)

Para o nosso tempo, de visualidade e rapidez, um bom começo pode ser uma frase. Albert Camus, no ensaio Herman Melville (1952), afirma: “o escritor de talento recria a vida, ao passo que o gênio, além disso, a coroa com mitos”. Outro bom começo acontece através de um traço do perfil literário. Susan Sontag, no ensaio Os cadernos, de Camus (1963), descreve: “sob  muitos aspectos é um rosto quase ideal, o rosto de menino, bonito mas não muito, magro, forte, a expressão ao mesmo tempo intensa e modesta”.

Tanto nas palavras de Camus sobre Melville quanto na descrição que Susan Sontag faz do próprio Camus, sobressaem elementos que se relacionam a esse homem franco-argelino, mais conhecido como autor da novela literária O Estrangeiro. Camus torna-se notável pela ponte que estabelece entre o mito grego e a expressão intensa e modesta das crises do pensar no mundo contemporâneo, expondo em seus ensaios O mito de Sísifo (1942) e O homem revoltado (1951), entre outros, a problemática da filosofia do absurdo. Neste sentido, podemos dizer que literatura e filosofia correm pari passu na escritura.

Uma terceira via de acesso ao pensamento de Camus encontra-se na explanação Albert Camus, sentimento espontâneo e crise do pensar, do alemão Jürgen Hengelbrock, publicado pela Nova Harmonia em 2006. De acordo com o editor, Hengelbrock oferece uma imagem do filósofo que não se esgota numa queixa contra o absurdo da existência, pois representa uma mundividência coerente e orientada segundo a tradição antiga do ceticismo filosófico.

Hengelbrock não se detém na biografia do escritor, nascido na periferia européia às vésperas da Primeira Guerra e falecido em 1960, mas sinaliza a formação intelectual, informando-nos do leitor atento dos pensadores Edmund Husserl e Friedrich Nietzsche. O professor da Ruhruniversität de Bochum, Alemanha, baliza seu estudo pela hipótese de que, para Camus, a interrogação filosófica só tem valor se der significado ao sentimento espontâneo e elementar da vida.

A parte maior do Albert Camus, de Hengelbrock, examina o ensaio O mito de Sísifo. O professor procura demonstrar o embate entre lógica do pensamento e lógica da vida, o sentimento do absurdo e o caminho intermédio “onde a inteligência pode permanecer clara”.

No mito grego, a personagem Sísifo permanece presa ao castigo após desafiar Zeus; na releitura do mito, Camus oferece diferente perspectiva de existência, quando coloca a decisão de viver acima da decisão de deixar de viver. Assim, revela-se um leitor de Nietzsche, como bem observa o professor de Bochum.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

MÊS DO MENINO

(Wagner Coriolano de Abreu)

Os leitores brasileiros, que nos últimos anos descobriram a poesia de Fernando Pessoa, se lembrarão da heteronímia presente na obra poética, em verso e prosa, deste português de Lisboa, cuja vida transcorreu entre 1888 a 1935. Dentre os muitos nomes imaginários que Fernando Pessoa identifica como autor de suas obras, Alberto Caeiro compõe com Álvaro de Campos e Ricardo Reis uma tríade singular de poetas homônimos, aos quais apenas se junta com a mesma força o ortônimo Fernando Pessoa, autor de Mensagem, ele mesmo.

Alberto Caeiro escreveu o longo O guardador de rebanhos, uma reunião de quarenta e nove poemas, entre os quais, a narrativa de um sonho, no qual o menino Jesus foge do céu e vem morar entre os homens, no mundo. Este menino conta como funciona o céu e as relações com a família eterna. Finalmente, passa a morar no íntimo do poeta. São cento e sessenta e um versos para ninguém botar defeito.

À primeira vista, lido ou ouvido na voz do ator Paulo Autran, o poema revela ao leitor ou ouvinte uma diferente abordagem, em face deste tema envolto geralmente em reverência (Fernando Pessoa por Paulo Autran, Coleção Poesia Falada, Luz da Cidade Produções Artísticas). Não é para menos. O heterônimo Alberto Caeiro, homem de vida rural e ligado à natureza, faz uma severa crítica ao ideário do cristianismo e da instituição católica, que insiste em apresentar um retrato convencional desta pessoa de enorme sensibilidade humana.

58 SEMPRE AOS PARES


Passado o susto do relato, com sua blasfêmia infantil e seu antiespiritualismo absoluto, é possível sentir que o permanente reside na vida que se leva sem mistério, mas com a descoberta de que tudo vale a pena.

A leitura do poema, certamente, é rico exercício de paciência, na tentativa de superação de  preconceitos morais, àqueles que esperam ainda sentir, no mês do menino, a riqueza da sua mensagem. Às avessas, Caeiro nos dá outro rosto de Cristo, em meio a tantos que marcaram nosso imaginário, através da arte cristã, como bem ilustra Armindo Trevisan, em O rosto de Cristo: a formação do imaginário e da arte cristã. Aqui, se observa que as artes ampliam o horizonte de
conhecimento e remexem a sensibilidade, pois nos renovam a verdade.

O poema de Alberto Caeiro anuncia o fim de uma interpretação de história oficial. Em diálogo com outros poetas da natureza, por exemplo, com o autor de Cântico do sol e Cântico das criaturas, ele
polemiza para mostrar como é difícil aceitar a figura de Jesus Cristo, embora não consiga libertar-se dela: era nosso demais, diz o verso. Ao construir sua poesia em oposição aos cânticos de Francisco de Assis, Caeiro se aparta da concepção de mundo cristã e tenta colocá-la em questão. A simplicidade alcançada pelo pobrezinho, todavia, tornou-se uma obsessão de Caeiro, pois deu-se conta da impossibilidade de alcançá-la. Talvez, aí esteja o motivo de Álvaro de Campos chamá-lo
de “uma espécie de São Francisco de Assis sem fé”.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

MAS O AMOR SABE UM SEGREDO
(Wagner Coriolano de Abreu)

A capa do livro Olhos azuis, coração vermelho, de Jane Tutikian, mostra a imagem de duas meninas, uma maior e outra pequena, unidas por um coração vermelho. Editado pela Artes e Ofícios, 2005, em Porto Alegre, esta novela pertence à coleção Grilos e trata de dois movimentos interiores da personagem: a paixão amorosa e o convívio com a diferença. A escritora, no caderno Autores Gaúchos, do Instituto Estadual do Livro, afirma que a sua literatura para jovens surge meio por acaso. “Tinha dentro de mim uma menina, seus amigos, seu mundo, enfim, e sentei para escrever sem pensar que o resultado seria infanto-juvenil.”

Com treze anos, Julia tem a primeira cólica e passa a narrar a história daqueles dias, em companhia dos pais, do irmão mais velho e da irmã pequena. Quando recebe o abraço de seu pai, a narradora diz que “há coisas que se dizem sozinhas, eu me dei conta, mesmo sem falar nem nada”. À tarde, recebe no apartamento a visita de Adri, Suzi, Cau e Tuca, amigas e colegas de escola, que exigem saber tudo a respeito do. E para comemorar, decidem fazer a Festa do Segredo.

O enredo revela que os acontecimentos estão fora da ordem natural. Julia volta no tempo, à cena em que os pais comunicam a ela e ao irmão Cauê que teriam uma irmã. Constata que “as coisas mudaram” em casa, pois os pais passaram a dar maior atenção à criança de olhos azuis puxados, lenta nas ações, “a dona do meu pai e da minha mãe”. Um pouco sem jeito, ela confessa que não gosta da
irmã.

Na escola, Julia combina com as meninas a lista de convidados, incluindo o pessoal do terceiro ano, sabendo que a presença deles garantiria um registro no jornal da escola. Reflete sobre as paixões entre as amigas e os meninos, destacando que Tuca é a mais madura das meninas, apesar da dificuldade financeira com que dona Maria a educa. Em seguida, fala de seu sentimento por Bronco, amigo de Cauê, e do dia em que Titi contou a ele, que por sorte não ouviu. Tuca escreve um requerimento à direção da escola, pedindo o espaço para a festa.

As meninas começam a enfeitar o salão, os meninos afinam os instrumentos e repassam a música. Cauê e alguns amigos formam a banda “Os Q-não comem”. As meninas ficam perto da Banda, mas
Julia não se aproxima do grupo e de Bronco. Sua mãe passa por ali e deixa Titi para eles tomarem conta. Ao final dos preparativos, a turma toda faz uma guerra de purpurina e Titi fica cheia de brilho até na língua. A direção aprova o arranjo final.

Ela vai para casa e se enche de dúvidas. “Por que será que eu era assim, se podia ter nascido de outro jeito? E se eu fosse de outro jeito, seria outra pessoa?”. Pensa em perguntar para Titi, que assiste
de pijama rosa, com que roupa irá à festa, mas desiste. Corre para o apartamento de Suzi, no mesmo edifício, para se arrumar e colocar a maquiagem.

Na festa, as meninas começam a circular para o lado dos meninos, mas Julia fica no banco. Ela tem questionamentos de identidade e pensa com ternura em Titi e seu jeito diferente de ser. Em outro canto, e também sentado, se encontra Bronco. Quando a professora conselheira e o professor de Educação Física vão para a pista de dança, os pares se formam. Bronco tira Julia para a dança. Colam o corpo e pouco depois ele se declara para ela. Segue breve silêncio e Bronco pergunta se fez bobagem. Julia então toma coragem de revelar seu sentimento e mais adiante eles se beijam.

As meninas voltam acompanhadas da festa e vão para o apartamento de Suzi, onde juntas se reúnem no acolchoado no chão. Houve uma pequena discussão entre Suzi e Tuca, envolvidas com Cauê. Julia conta como foi a noite e conversam sobre os ideais a respeito de namoro. Cau recorda o amor de seus avôs que eram hippies, nos anos 60. Tecem especulações sobre a identidade dos pais, mas não querem outros. “Ficamos um tempão discutindo os nossos pais e, o mais engraçado é que, por mais que tenhamos posto defeito neles, e a gente botou uma montanha!, por mais que a gente quisesse que eles fossem ou fizessem coisas diferentes, nenhuma de nós queria outra mãe ou outro pai”. A narradora vê o dia clarear e se surpreende com a descoberta do amor como um novo sentido para a vida.

Pela manhã, a mãe de Suzi acorda as meninas e as convida para o almoço. Julia agradece o almoço e vai para o apartamento dos pais, que a recebem com abraço afetuoso e aprovação do namoro. Entre brabeza e vergonha, segue para o quarto, acompanhada do irmão. Conta da briga entre as meninas e diz que Tuca tinha tentado de tudo para esquecê-lo, mas não teve jeito. Cauê diz que Titi chorou
na sua ausência. Julia se questiona a respeito de Deus e dos caminhos da doença. Queria que não precisasse ser assim.

Julia recebe as meninas em casa, na mesma hora em que tira o telefone do gancho para atender Bronco. Seus sentimentos se misturam, não sabe o que dizer. “Tinha que dizer aquelas coisas que as pessoas dizem: meu bem, meu querido, meu amor? Não saberia. Não que não sentisse vontade, apenas não sabia”. A mãe pede que leve Titi ao Colégio, pois tem um chá para as crianças. Julia se
irrita e Adri toma conta de Titi, contando uma história e levando-a pela mão.

Ao chegar à escola, Julia se dá conta de que há muitas crianças com Síndrome de Down e todos eles têm a fala e o jeito da Titi. Eles apresentam alguns números de música. Ao final, as crianças descem
do palco e entregam um cartão vermelho a alguém de sua escolha. Titi entrega o seu para Julia, que se desmancha em choro. Júlia encerra a história, dizendo que “como uma ventania, tudo o que havia vivido nesta semana me mostrava, finalmente, me mostrava que estava perto de todas as pessoas que amava e, com elas, eu começava a descobrir a vida no que ela tem de recomeço”.

Na trilha de Jane Tutikian, cujo texto está recheado da mais recente canção brasileira, procurei também uma canção que aproximasse as diversas personagens por uma idéia. E a encontrei em Vinícius de Moraes e Tom Jobim, quando afirmam que o amor sabe (tem sabor de) um segredo.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA

Excepcionalmente, a coluna CRÍTICA LITERÁRIA será postada esta semana na terça-feira.


LECIONANDO SONHOS
(Wagner Coriolano)

Quis Sérgio Farina se apresentar perante os leitores da coluna Literariedades, nos idos de maio de 2004, jornal Vale dos Sinos, com o seu ofício de professor, que ele trocava em miúdos pela expressão lecionando sonhos. Naquele momento, o professor retornava ao campo da literatura lendo crônicas, completando roteiros de análise, discutindo aspectos pelo viés da crítica e orientando caminhos de ensino.

Foram muitas semanas que se seguiram iluminadas por aquela crônica de domingo.Tomando um ou outro título da série, encontramos o registro do tema de casa realizado com esmero, mostrando a cultura literária do mestre, que, a bem da verdade, foi doutor em Letras. As crônicas são textos que mostram a dimensão literária e crítica do leitor Farina.

Com a crônica A deusa Grécia fez harmoniosa síntese da contribuição dos gregos, apontando-os como a fonte do pensamento contemporâneo. Com o texto Entre hoje e amanhã, mostra que não apenas conhecia os pensadores, citando, por exemplo, Alvin Toffler e Heráclito, como também inaugurava reflexões: o tempo está sempre colado a nós como pele luminosa ou sombra assustadora e não sabemos o que pode acontecer entre hoje e amanhã. Com as duas crônicas intituladas Quando começa o ensino de literatura relembra o papel dos pais na formação literária dos filhos, antes mesmo do tempo escolar, quando contam histórias como uma forma de se fazer família, convivendo
momentos mais íntimos. Farina nos brinda com outra reflexão bem a seu estilo: a literatura são desperdícios da imaginação.

Pouco identificado como especialista, o nosso cronista encareceu tanto a leitura cultural quanto a leitura literária. No campo específico das Letras, tomou do lingüista Roman Jakobson a palavra
literariedade, calcada do termo russo literaturnost, para indicar o conjunto de características específicas que permitem considerar um texto como literário. Na baliza do pensador Jakobson, o cronista encontrou um meio de dizer a importância da teoria, como farol para iluminar nossa peregrinação pelos caminhos da literatura e do cotidiano.

Revendo outros textos de Sérgio Farina, ora na revista Palavra Comovida, ora no prefácio aos poemas de Lauro Dick, no livro Poesia de quatro idades, é que percebemos o alto nível de pensamentos que levou ao leitor de jornal, semanalmente mesclando o momento vivido com a perspectiva de civilização, a nossa relação com o chão do inconsciente coletivo da humanidade, como aponta ao tratar da deusa Grécia. E olha que Farina escreveu estas literariedades na hora em que viajava pela canoinha da aposentadoria, como tão bem registrou, pensando em Guimarães Rosa.