segunda-feira, 20 de março de 2017

CRÔNICA


Esta coluna reúne textos de Menalton Braff, publicados originalmente em seu site.

Anedota socrática

Nada contra a posse de bens, mesmo os materiais, pois sem eles a vida seria impossível.  Quanto aos bens espirituais, bem, sem eles vive-se tanto quanto vivem patos e marrecos, bois e cavalos, e alguns bípedes muito encontradiços em nosso meio.  A busca de bens materiais é natural, se deles dependemos. O que causa espanto, desalento, o que causa descrença nesse pequeno ser que se chama humano é ver como algumas pessoas vendem a alma ao diabo. Não, não vou falar de literatura, que por ela já passeei bastante ultimamente. Não vou falar do Fausto, tampouco do Robaldo, famosas personagens que se deixaram seduzir pela ideia de que o diabo podia ajuda-los a alcançar algum objetivo em troca da alma, que a ele deveriam entregar após a morte. A venda da alma de que me ocupo é outra. Falod a sedução exercida pelo mercado e que conquista muitas almas. Nos dias que correm ( e céleres) pode-se dizer que o mercado conquista a grande maioria das almas.

O ser há muito perdeu sua importância. Vivemos, como já se disse por aí, numa época em que ter vai
conquistando a maioria dos corações. Pior ainda. Há quem diga que parecer, nos dias atuais, é o canal, a verdadeira causa de satisfação. Talvez seja, mas o que me ocupa agora é o modo fácil como a maioria absoluta da população é capaz de sacrificar afinidades, valores éticos, amizades, prazeres, sonhos e encantamento pela posso de um objeto qualquer. E muito qualquer. Quase nunca um objeto lhe trará algum beneficio. Não aprendemos com a semiótica que se compra não um objeto, mas sua significação? Em outras palavras, compra-se o objeto que dê status, a marca que dê prestígio, isto é, compram-se aparências.
E o Sócrates, o grego? Por que razão aparece no título? Bem, um dia ele passeava pelas ruelas do mercado em Atenas. Ele passeava por ali com um de seus discípulos, apreciando a infinidade de mercadorias expostas dos dois lados da rua. Então parou e, com o braço num amplo gesto, chamou a atenção do discípulo: - Veja só, meu jovem, de quanta coisa eu não preciso para viver.

O tempora, o mores! Diria Cícero se estivesse por aqui.







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