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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

LIVROS RECEBIDOS

Esta coluna apresenta as obras enviadas a Menalton Braff logo após a publicação.

Título: Leque aberto
Autora: Raquel Naveira
Gênero: Crônicas
Editora: Penalux
Da orelha:
"Reminiscências, lembranças, objetos semióticos - como um espelho, um leque - vão constituindo um inventário simbólico latejante, repleto de fatos reais envoltos na bruma difusa de uma memória afetiva e poética." (Profa. Rita Pacheco Limberti)

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

CONTOS CORRENTES

 NOIVA

Raquel Naveira

Foi lindo ter-me vestido de noiva um dia! Eu era jovem e pensei: “Agora vou me tornar diferente, serei algo que não conheço, mas posso ser”. Ardi, tive medo, tremi, representei o papel de sedutora. E você foi fiador dos meus sonhos, não fugiu de mim, meu bem precioso.

Essa emoção reviveu dentro de mim ao assistir ao vídeo da noiva de Beirute. Ela estava radiante, perto do porto, envolta em rendas e espumas, fazendo um ensaio fotográfico. Um buquê de rosas amarelas foi colocado estrategicamente sobre o véu que despencava feito uma cascata. De repente, a explosão. Tudo voou na corrente de ar, naquele fim de outono.

O poeta Fernando Pessoa (1888-1935), também num porto, olhando o mar de Portugal, exclamou: “_ Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó Mar!” Mais melancólico do que isso, só mesmo aquelas que foram enterradas vestidas de noiva, virgens, com lírios entre os dedos ou que rolaram pelo abismo em seus cavalos, a caminho da igreja.

Vestir-se de branco no dia do casamento foi ideia da rainha Vitória (1819-1901), uma das monarcas mais icônicas da Inglaterra, que designou uma era.

Apaixonada e feliz, casou-se com Albert de Saxe-Coburgo e Gotha, com um traje branco com bordados, um longo véu, coroa de flores de mirto e laranjeira, dando início a essa tradição de moda. Tiveram nove filhos. Ele faleceu subitamente, levado por uma febre de tifo. Ela passou mais da metade de sua vida viúva, toda de negro, luto fechado, isolada em seu castelo, em inconsolável tristeza.

Há outras noivas marcantes na história e na literatura, como, por exemplo, Marília. O livro Marília de Dirceu foi publicado em 1792, mesmo ano em que Dirceu, pseudônimo do poeta mineiro Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), partiu para o exílio em Moçambique. Deixou a noiva Marília, que de fato se chamava Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão (1767-1853), desolada. Dedicou a ela versos amorosos, de uma ternura comovida, espontânea, versos à sua “Marília bela”, sua “Estrela”, aquela que não veria mais o trabalho dos cativos de Minas Gerais, tirando granetes de ouro dos rios e das serras; que não veria mais as plantações de cana e tabaco, nem faria companhia ao seu amado enquanto ele, jurista brilhante, estivesse lendo os volumes dos processos e dos pleitos. O casamento estava marcado exatamente para o dia em que ele foi preso por ser um membro da Inconfidência Mineira. No degredo africano, o poeta casou-se com a filha de um rico negociante. Já Marília esperou por ele até seu último suspiro, aos 85 anos, em profundo desgosto. Os restos mortais do poeta voltaram ao Brasil e ambos estão sepultados juntos, na antiga Casa dos Contos, em Ouro Preto.

Relato semelhante é o caso de Manoela de Paula Ferreira (1820-1903), a eterna noiva de Garibaldi. Manoela era loira, graciosa como um anjo de olhos azuis.

Alimentou um amor impossível pelo guerrilheiro. Ele se encantou por ela, mas logo desistiu para não enfrentar a oposição da família e por estar envolvido com a Revolução Farroupilha. Na cidade de Laguna, ele conheceu Anita. Ela engravida e dá à luz um filho, Menotti. A corajosa Anita partiu para a Itália com Garibaldi. Morreu aos 28 anos, lutando pela unificação italiana. Manoela manteve-se fiel e solteira até a velhice, sublimando aquele amor não concretizado e trágico.

Désirée Clary (1777-1860), filha de um comerciante de sedas de Marselha, foi noiva de Napoleão. Um noivado quebrado quando ele se envolveu com a exuberante Josefina. Depois da desilusão, ela se casa com o Marechal Bernadotte e vem a ser futuramente rainha da Suécia. Mas, além dos homens, Désirée amava uma cidade: Paris. 

Não conseguia viver longe de suas pontes, de seus lampiões, das folhas secas na borda do rio Sena. Visitava o marido durante suas campanhas militares pela Europa. Enquanto isso, frequentava a corte de Napoleão com grande influência política e familiar, pois sua irmã Júlia era casada com José, irmão do imperador. Acompanhou o auge e o declínio do antigo noivo até a morte dele.

E, por falar em José, não podemos esquecer de Maria, a noiva judia, prometida, talhada, anunciada para mãe do Messias. Era noiva de José e apareceu misteriosamente gestando um fruto no ventre. José, aconselhado por um anjo, recebeu-a em sua casa como esposa, salvando-a do apedrejamento. Noiva sempre desejada.

As fotos de casamento nos fascinam. Debruçamo-nos sobre elas. Qual terá sido o destino desses noivos? Como se deram as bodas? As núpcias? Como selaram essa aliança? Com palavras? Com laços? Com sangue? Com liames de prata? Como tiveram coragem de entrar juntos num barco frágil, diante das atrozes tempestades?

Como puderam confiar numa aventura?

Meus olhos sempre marejam de lágrimas quando vejo uma noiva. Passaram-se tantos anos, mas sempre me delicio em lembrar que um dia fui tua noiva.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 A CRIAÇÃO DE ADÃO

(a Michelangelo)

Raquel Naveira


Fascinante a imagem

Do primeiro homem,

Pura manifestação,

Sujeito e objeto

Das mãos de Deus.


No afresco da capela,

Do lado direito,

O Velho,

De barba e cabelos brancos,

Peito aberto,

Entronizado ao centro de uma concha,

Um crânio,

Um cérebro perfeito:

Glândula partida ao meio,

Recheada de anjos,

Miolos,

Nervos.


Sobre seu ombro,

Os olhos de uma mulher ruiva

Na expectativa

De vir a ser Eva.


Do lado esquerdo,

Um jovem,

O corpo dobrado,

Mergulhado

No verde de um prado,

Lânguido,

Estendendo a mão fraca.


Entre os dedos indicadores

De Deus

E do moço

Há um espaço,

Um vazio,

Uma trinca,

A falta de um osso.


Um toque

E haverá dom,

Conhecimento,

Linguagem,

Visão,

Energia,

Modelação de argila,

Vísceras,

Espírito,

Lampejos da mente,

Adâmica criação.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 NOIVA*


(Raquel Nveira)


Casei-me com um ipê branco,

Suas raízes fincaram-se em meu sexo,

Suas ramagens

Se espalharam pelos meus seios,

Formaram guirlandas

No meu pescoço

E um véu sobre meus ombros.


Penetrei passiva

Num mar de leite

E lavandas.


A noite era de lua,

De bruma

E de glacê.


* Poema do livro ALMA DE IPÊ - Ia PARTE: IPÊS BRANCOS



sexta-feira, 5 de junho de 2020

CONTOS CORRENTES

LEQUE ABERTO

(Raquel Naveira)

Encontrei entre os guardados de minha mãe, um leque. Um leque vermelho como uma aurora boreal. A renda toda revestida de lantejoulas rubras. Abri as hastes brancas de madrepérola e ele fez um estranho som. Fechei novamente como quem toca um instrumento de flerte e sedução. Era tão vaidosa a minha mãe! Nascera mulher, preocupada com seus retratos e decotes, com o que os outros pensariam de sua beleza. Uma necessidade enorme de ser notada, de não passar nunca despercebida. Às vezes isso a fazia cair um vácuo, num vazio absoluto, que doía em sua velhice.

Abro o leque sobre o rosto, escondendo a boca. O gesto trouxe à minha memória o trecho de um poema de Fernando Pessoa: “O teu silêncio é um leque,/ Um leque fechado,/ Um leque aberto seria tão belo, tão belo,/ Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque.” Que analogia! O silêncio como um leque fechado, um enigma, um mistério, um fascínio. O leque desdobrado, mas sem abanar a dama, entregue a seus pensamentos. O leque esquecido em seu colo, o cabelo solto, as chamas saindo do seu corpo. Quanta feminilidade!

No mesmo poema, o “Hora Absurda”, o poeta afirma que “já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora”. O pavão é a pura imagem da vaidade. Essa ave, que simbolizava a deusa Juno, abria a cauda em forma de leque e provocava chuvas de fertilização celeste. O leque em círculo evoca mesmo um céu de estrelas, miríades de olhos na plumagem azul-esverdeada. Por um instante é como se nossa alma se deparasse com o cosmos.

Este leque talvez seja a cauda de um pavão vermelho. As pedrarias, gotas de ciúme, um princípio de corrupção. Ânsia de sangue real e imortalidade. Um atiçador de fogo. “Vaidade de vaidades! É tudo vaidade”, escreveu o rei Salomão em sua contemplação da raça humana. Tudo é vaidade e aflição do espírito. Confessemos o quanto somos vaidosos. O nosso cuidado exagerado com a aparência. O desejo de atrair admiração e elogios. A necessidade de ter a própria existência reconhecida. Caprichamos nas vestimentas, comportamentos, bens, eloquência, cultura. Artistas e poetas, então, como trabalham vaidosamente debaixo do sol. A sede de comunicação faz violentar até os emperamentos tímidos. E se aumentam em conhecimentos, aumentam sua dor. Correm atrás do sonho, entre leques de grandes plumas. Confessemos, pois há o perigo iminente de cairmos nas falsas esperanças do mundo. Percebamos, enquanto há tempo, as sérias realidades do mal, da injustiça e da morte que nos cercam e enlaçam. Fiquemos em comunhão com Deus, com a obra de amor que Ele quer fazer em nossa vida. Entreguemos nossos poemas como se fossem pássaros buscando o infinito.

Tudo é vaidade. “Tudo névoa-nada”, escreveu o poeta e tradutor Haroldo de Campos, em sua “transcriação” do Eclesiastes, a partir do texto em hebraico, mantendo o ritmo poético, a sonoridade e a rede metafórica original. Haroldo fugiu da palavra “vaidade” e usou expressões como “fome-de-vento”, “fumaça”, “vapor”, “ilusão passageira”. Dirigindo-se aos poetas e sábios alertou: “Aonde a ciência cresce/ acresce a pena”. // Tudo é vaidade, mas não ter vaidade seria a maior de todas as vaidades. Vaidosas e esmagadas, minha mãe e eu. Abro e fecho com fúria o leque em minhas mãos.

sexta-feira, 13 de março de 2020

CONTOS CORRENTES

CAÇA E CAÇADOR

(Raquel Naveira)

Passei pela rua Tonico de Carvalho, que leva o nome de meu tio. Ele era caçador e colecionador de armas de fogo. Um dia, quando estava limpando o cano de uma arma, no seu quarto-pavilhão de caça, o tambor girou de repente e a bala penetrou entre suas costelas, formando uma flor borbulhante de sangue. O caçador virou caça de si mesmo. Triste lembrança.

A primordial e milenar atividade da caça nos leva à Idade Média, onde ela estava enraizada no cotidiano da época. Os cavaleiros da Europa, de guerreiros andantes, transformaram-se em aristocratas rurais, sedentários em suas terras e castelos. Esses homens vigorosos e rústicos saíam a cavalo pela floresta para caçar o javali, o urso, o porco-montês, os cervos, as lebres e as perdizes. Iam acompanhados de grande séquito. Levavam falcões e gaviões treinados para abater animais de pequeno porte. Matilhas de cães farejadores. Era a forma de desenfadar a fidalguia, o passatempo real, uma cerimônia cheia de gestos, objetos e lugares definidos. O código feudal assemelhava-se a um treino militar. A floresta era o vasto campo dos perigos e das emboscadas, onde se travava o conflito entre o bem e o mal, onde a presença do sobrenatural era sentida na busca dos rastros.

Hoje, continuamos todos caçadores, conforme explicou o filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), em seu livro Tempos Líquidos. Somos compelidos a agir sob pena de sermos expulsos da caçada, relegados às fileiras das caças. Num mundo povoado por caçadores, há pouco lugar para devaneios e utopias. Resta-nos apenas um esforço desesperado para permanecer na corrida. Fugir se tornou o nome do jogo mais famoso do momento, onde a insegurança veio para ficar. Lutar contra a
derrota e tentar estar entre os caçadores toma nossa atenção vinte e quatro horas por dia.

É preciso manter-se em movimento, impulsionado pela fuga. A sorte dos eliminados é a rebelião e, às vezes, o vício das drogas. Há várias formas de se evadir: mudar de emprego, de residência, de país, de clima, assumir a promiscuidade, o álcool, as viagens, a psicanálise. Escapar da necessidade de pensar no verdadeiro significado da vida, na nossa frágil condição humana, precária e infeliz. Preferimos, então, a caça à captura da lebre, porque a lebre não vai nos livrar de refletir sobre nossas limitações e imperfeições, mas caçá-la vai. Capturar a lebre só tornaria a próxima caçada, a próxima
posse ainda mais sedutora, pois para um caçador não há trabalho realizado, nem missão concluída. A labuta é interminável. A expectativa do fim da caça é apavorante numa sociedade de caçadores. Seria a exclusão. Ouçamos as trombetas anunciando a próxima aventura. O latido dos galgos. Doce memória de antigas caçadas.

No quarto-pavilhão de meu tio Tonico, havia quadros de caçadas. Nobres ingleses em carruagens. A raposa com seu focinho comprido, a cauda longa e ruiva, os olhos ovais, saindo por detrás de uma moita. Isso me remete ao fantástico conto “A Caçada”, de Lygia Fagundes Telles (1923-...). O cenário é uma loja de antiguidades, com cheiro de arca de sacristia e livros roídos. Dois personagens, uma velha, talvez dona da loja e um homem que vai ao estabelecimento atraído por uma tapeçaria com a
representação de uma caçada. No outro dia, o homem volta à loja, observa melhor a tapeçaria e diz que tudo está mais nítido, mais próximo. De repente, fica tenso, pálido, perplexo diante da imagem. Sua mão treme na perturbação. Pergunta-se intimamente em que tempo teria assistido a essa mesma cena e onde. Vê na tapeçaria esverdeada a marca de uma seta. Ela vê apenas um buraco de traça. A loja vai ficando embaçada. Ele seria o caçador ou a caça? Lembrou-se da dor da seta em seu peito. Morreu fulminado por um infarto na loja de antiguidades.

Esse é o eterno dilema da caçada: a caça para o caçador é um prêmio; o caçador para a caça é destruição. Gato e rato. Forças que se confrontam e se confundem. Assim são as caçadas sentimentais, amorosas. Imagino a cena: a amazona sobre o cavalo, um halo rubro de sol, a alameda de ciprestes. Ela é uma lebre em fuga, uma raposa que vai perder a pele, uma onça que vai virar tapete, uma gazela que vai tremer de febre. Do outro lado, o pavilhão de caça: o teto estampado de salamandras, a lareira, os troféus, os sonhos, o sensual jogo de caça e caçador.

Tonico de Carvalho: nome de rua, nome do meu ingênuo tio. Sempre soube, desde menina, que a vida de um caçador é uma tragédia.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS


                   NERUDA


       (Raquel Naveira*)

Neruda,
Escrevo-te esta carta
Porque preciso de ajuda,
Poderias me enviar da Ilha Negra
Um punhado de peixes cintilantes,
Um sopro de vento salgado,
O som dos sinos
De quem entra
Em teu jardim?

Neruda,
Escrevo-te esta carta,
Acode-me,
Assim como cantaste
Os rios da América:
O Amazonas,
O Orinoco,
Artérias nas cordilheiras
Onde a neve
Desliza úmida
E as rosas explodem selvagens,
Cantei minha terra
Cheia de pássaros e pantanais,
Tiritei de frio
Sob os astros siderais.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS


MENINA DOS OLHOS              
 

 (Raquel Naveira)

Suplico proteção,
Por toda parte há perigos
Que machucam,
Fazem chorar
E andar às cegas.

Envolve-me em tua túnica,
Entre pálpebras e cortinas,
Enquanto lá fora ardem luzeiros,
Fagulhas e purpurinas.

Há um poder que mata
E fulmina,
Mar mutante,
Estrela pequenina,
Reflexo das profundezas submarinas
Nos meus olhos

quarta-feira, 22 de maio de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS

DESTINO*
(Raquel Naveira)

Qual será o meu destino?
lutas me oprimem,
O arco se retesa contra mim
Para trucidar-me nas mãos de um assassino.

Qual será o meu destino?
Caí,
Fiquei prostrado,
Cego de areia
Como um beduíno.

Qual será o meu destino?
Exaspero-me,
Ouço intrigas,
Invade-me um furor leonino.

Preciso confiar,
Esperar
Naquele que atuará
Sobre meu destino,
Naquele que fará surgir minha justiça
como um sol cristalino.



*Poema publicado no livro Sabgue Português, lançado pela Arte e Ciência Editora.

quarta-feira, 13 de março de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS

UNGIDA* 

(Raquel Naveira)


Vem,
Unge-me com santos óleos:
O corpo,
Os cabelos,
A pele,
O plexo solar.

Vem,
Unge-me
Com óleo bento:
A mente,
O espírito
Sedento
De azeite quente.

Vem,
Unge-me,
De cada poro
Transpiro
Gotas de luz,
Toda pura
E poderosa.

*Poema publicado no livro "Sangue Português", lançado pela "Arte e Ciência Editora. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS


Elegância Suprema

 (Raquel Naveira)

Caminho por um tapete violeta
Estendido sobre nuvens.
Como é suntuosa tua morada!
Gotículas de chuva
Cristalizam-se em diamantes
E raios de sol
Pendem das colunas
Como correntes de ouro!

Meu rei, meu Senhor!
Quanto fausto!
Quanto brilho
Na tua túnica,
Na tua coroa,
No escabelo
A teus pés!
Por que ocultaste até o último instante que eras rei?

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

Esta coluna está sendo publicada excepcionalmente na quinta, mas semana que vem voltará ao seu dia de costume; quarta-feira.

BICHO ESQUISITO       

(Raquel Naveira)

Poeta é cão perdigueiro
Farejando tudo:          
Até no lixo
Encontra cacos de estrela.

Poeta é inseto de antena,
Captando sons,
Imagens,
Mensagens telepáticas.

Poeta vive procurando rastros,
Códigos cifrados,
Hieróglifos em rosetas.

Poeta vive deixando trilhas,
Caindo em armadilhas,
Desvencilhando-se de teias.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

ALMA E LAMA
(Raquel Naveira)

Quando foi que a lama se transformou em alma?
Era tudo brejo,
Terra agitada,
Fermentada
E plástica,
Solo palpitando de bolhas,
De larvas,
De insetos,
Rabinhos com olhos de feto
E vieram o sopro,
O ar nos pulmões,
A vida pelo sangue,
Pelo fígado,
Pela medula e ossos,
Pulsando quente
Como chama.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

COPO-DE-LEITE

(Raquel Naveira, de série Flores)

Sempre gostei de leite no copo
E de copo-de-leite,
Uma flor quase lírio
Em forma de copo branco
Como se guardasse leite
Ou algum pó lácteo,
Compacto
De que é feito um caminho de estrelas.

No copo-de-leite
Há um talo amarelo,
Pistilo cheio de luz e arrojo.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

Violeta*
(Raquel Naveira)

Estou em perigo:
Uma angústia,
Um desejo de morrer,
Minhas pétalas murcham
Num roxo mortiço,
Perco o viço,
De amor tão intenso
Desfaleço.

Estou em perigo:
Uma felicidade,
Um deleite,
Minhas raízes sugam húmus,

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

BRINCO-DE-PRINCESA*

(Raquel Naveira)

Sempre pensei que as princesas usassem brincos,
Brincos enormes e leves
Como se fossem feitos de gotas de mar
Ou de sangue.

Quando menina
Gostava de uma flor chamada “brinco-de-princesa”,
Uma papoula vermelha em forma de pendão;
Arrancava algumas pétalas
E com elas fazia unhas postiças,
Depois, pendurava uma flor em cada orelha,

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS

Da série Flores:

LÍRIOS (símbolos da pureza e da perfeição)
 (Raquel Naveira)

Lírios brancos
Bordados de ouro
Balançam como borboletas
As pétalas de asas.

Lírios do campo,
Manto de arminho,
Onde pousam passarinhos
E luminosos pirilampos.

Quando Ele,
O lírio feito Homem
Passou pelo vale,
Eles se curvaram

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS

Da série Flores: 


CRISÂNTEMOS
(Raquel Naveira)

Os crisântemos são flores de um amarelo tão vivo,
Tão forte,
Que acendem a casa
Como lâmpadas de ouro.

Van Gogh aprisionou crisântemos em suas telas,
Deu-lhes contornos de tempestade,
De ondas,
Tentáculos e pistilos;
A tinta amarela escorreu pela sua boca
Como gema de ovo.

Os crisântemos não têm perfume
Mas se tivessem

terça-feira, 7 de novembro de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS

FLORES

ROSAS I (símbolo do amor e da beleza

Rosas!
Deve ser bom mastigá-las,
Sentir o sangue escorrer no canto da boca,
Vampiro.


                                            (Raquel Naveira)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS

FLORES

Girassol (símbolo da paixão desvairada)
                                      (Raquel Naveira)                      
De repente,
Vi o sol lá no alto,
Abri-me em pétalas amarelas,
Ergui os braços,
Toda oferta;
Sem nenhum cansaço
Corri ao seu encontro
Como uma esposa,
Uma gazela
Sedenta de rio.

Foi tão bom o gozo,
O calor,
O desfalecimento
Que só de lembrar
Os olhos se enchem de lágrimas,
As verdadeiras,
De puro contentamento.