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sexta-feira, 16 de outubro de 2020

CONTOS CORRENTES

A alquimia do amor

(Roniwalter Jatobá)

Cearense, ele aprendeu no mar a fazer um badejo ou uma corvina na brasa que até Deus perdoava o pecado da gula. Pratos comuns, como o virado à paulista, ele preparava com apuro e, durante a semana, eram disputados entre meio-dia e duas horas da tarde por esfomeados peões da construção civil e até mesmo engravatados executivos.

Conhecido como Batista, era cozinheiro do boteco Caminho da Lua, em Santo Amaro, na zona sul paulistana. Se quisesse poderia propor a alguém uma sociedade na área gastronômica, pois, com certeza e, em pouco tempo, iria figurar entre os donos de restaurantes de origem nordestina que começaram como lavadores de pratos e se deram bem em São Paulo.

Ali pelas oito da noite, já com panelas, pratos, caçarolas e cozinha brilhando na rigorosa limpeza, o Batista chegou até a minha mesa. De outras vezes, falou de sua vida: viera de uma cidadezinha do litoral do Ceará, onde viviam ainda seus pais. Eram pobres: o pai, pescador; a mãe cuidava da casa e de uma turma de filhos. Mas, naquela hora, o bar fecha não fecha, o que ele queria mesmo era falar de algo mais íntimo: o fim de seu casamento paulistano após dois anos de lua de mel.

Durante muito tempo, não vi mais o Batista. Mas outro dia ele me veio à lembrança ao ler uma pesquisa realizada pela equipe da professora Cindy Hazan, da Universidade de Cornell, em Nova York, nos Estados Unidos.

Depois de entrevistar mais de cinco mil pessoas, Cindy e os pesquisadores chegaram à conclusão que uma paixão não dura mais do que dois anos e meio.

-- Há uma série de evidências de que o que chamamos de grande amor é criado por um coquetel de substâncias químicas cerebrais -- informou a professora. -- Em determinado momento, o efeito acaba.

Voltei outro dia ao Caminho da Lua. O Batista não trabalha mais ali.

Uma pena: fiquei sem saber maiores detalhes da sua separação, para entender melhor o problema, já que ninguém ainda sabe quem é mais suscetível -- o homem ou a mulher? -- à alquimia do amor.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

CONTOS CORRENTES

Amor antigo

(Roniwalter Jatobá)

Ele encontra a antiga namorada no cruzamento da avenida Paulista com a rua da Consolação, bem em frente ao cinema HSBC Belas Artes. No primeiro momento, o encontro inesperado serviu pelo menos para uma séria constatação: os anos passam. Enquanto a cumprimenta, ele a vê bem mais jovem, em antigas lembranças, caminhando pela margem esquerda do rio Sena, em Paris, quando ali vivia num exílio voluntário, anos e anos atrás.

Recorda bem: ela estava vestida numa indumentária de renda, branca e transparente, o que realçava o corpo moreno numa tarde de verão. Trazia em volta do pescoço um exótico colar de conchas e, nos pés nus, uma trançada sandália de couro pintada de branco. Ele a vê também no boulevard de Vaugirard, caminhando ao seu lado, em direção à gare Montparnasse, onde já no começo do inverno se despede para a viagem a Lisboa, o começo da volta ao Brasil. Lábios quentes, olhos em lágrimas, ele tem tudo nítido na memória.

Agora, no instante do reencontro em território paulistano, três décadas depois, os dois inicialmente fingem não existir o passado. Frente a frente no meio da multidão, as palavras demoram em concretizar frases curtas.

-- Como vai você? -- ele diz.

-- Há quanto tempo, hein? -- ela indaga.

Na realidade, nenhum deles parecia querer alongar a conversa. Mas era impossível fugir um do outro. Embora fossem agora apenas dois conhecidos, cada um tinha gravado dentro de si os dias e noites na feira matinal, nos bares, nos restaurantes e na alcova da rua Mouffetard, no Quartier Latin, quase esquina com rua Ortolan.

-- Para que remoer uma paixão que teve seus dias para terminar -- e terminou? – ela pensa.

Por outro lado, ele imagina dar uma desculpa, inventar um compromisso e se safar logo dali. Medo? Mas, de súbito, ela se recorda de uma promessa de, um dia, escreverem um
livro juntos.

-- Já pensou em retomar aquele projeto tão sonhado? – ela sugere enquanto caminham em direção ao metrô na esquina da rua Augusta.

-- Lembra do título? -- ele diz. -- Pomposo: “Trabalhadores esquecidos, ofícios e profissões desaparecidas em São Paulo de 1850 a 1920”. Viu como lembro?

Ele tem tudo isso anotado. Todo o projeto está guardado em uma pasta bem escondida num armário de seu apartamento.

-- Os primeiros seriam os gasistas ou gaseiros, responsáveis pela iluminação a gás --ele recita.

-- Claro, mas a gente ia também tratar dos condutores ou motorneiros dos bondes --ela replica, e ri.

-- Não eram os carroceiros e os cocheiros? ---- ele acrescenta.

Os dois agora riem a valer. Os transeuntes naquele domingo olham e acham estranho o casal que gargalha em plena avenida Paulista. Eles também imaginam o mesmo e riem mais. Depois, se despedem e prometem se encontrar qualquer dia.

Já longe dela, ele recorda uma noite fria, os dois olhando pela janela a Mouffetard, os últimos boêmios no silêncio da rua, enquanto bebem vinho e alegria. No vagar da madrugada, falam de coisas agradáveis. Na cama, ela pergunta por que anda tão alegre. Diz que, nos últimos tempos, tem visto a cidade com outros olhares. Fala de um jardim, que espera em breve nascer quase ao lado do prédio residencial, e até pensa em viver ali o resto da vida.

-- Comigo? -- ela quer saber.

-- Claro -- ele diz e a abraça com força.

Agora, apenas com suas recordações, ele desce do metrô na estação Brigadeiro e volta para casa. omeça a escurecer quando abre a porta do apartamento. Escancara todas as janelas para entrar um pouco de sol, réstias que chegam do lado oeste da metrópole. Na sala, procura no esconderijo a velha pasta, mas não tem nenhuma vontade de abri-la.

Guarda-a no mesmo lugar e se volta para uma antiga e solitária pesquisa que aponta os fatos mais marcantes do último ano do século 19.

São Paulo, 1899

● Em janeiro a polícia localiza e prende os impressores de notas falsas e rótulos de produtos estrangeiros, além de reprimir o jogo do bicho. Também foram sorteados terrenos na Vila América, esquina da rua Augusta e da alameda Lorena.

● Em fevereiro a Câmara reclama do prefeito Antônio Prado que as galerias dos rios Anhangabaú e Saracura não comportam as águas das chuvas e provocam enchentes. Um jornal registra que as festas de carnaval têm ocorrido sem animação.

● Em abril o último lançamento do imposto predial apontava que existiam 21.656 casas em São Paulo. Eram 18.010 térreas, 1.866 assobradadas, 1.678 de um andar e 102 com mais de andar.

● Em maio, na rua São Bento, começam a funcionar modernos aparelhos: rotoscópio e poliphônio. O primeiro servia para exibir panoramas em tamanho natural e o segundo para reprodução de vozes.

● Em junho os moradores da rua Augusta e Vila América reclamam do governo do município a falta de iluminação e água encanada.

● Em julho um decreto presidencial autoriza o funcionamento da The São Paulo Railway, Light & Power Co. Ltd.

● Em agosto o circo da Cia. dos Irmãos Pery estréia na cidade, montado na praça da
República.

● Em setembro é inaugurada a linha de bonde a burro da avenida Paulista ao cemitério do Araçá. No jardim da Luz, um grande público vem se divertindo com um “panorama”, que exibe vistas de cidades européias.

● Em outubro são detectados em Santos alguns casos de peste bubônica. São Paulo está alarmada.

● Em novembro é registrado o primeiro caso da doença na capital. Com receio, estudantes de Direito pedem o fechamento da faculdade e adiamento dos exames. O Desinfectório Central incinera ratos, pagando trezentos réis cada roedor trazido pela população. Em apenas um dia, 594 deles foram queimados. Já no pavilhão da hospedaria de Imigrantes, foi inaugurado o serviço de desinfecção individual para a prevenção da peste.

Consiste em banho de água sublimada e tratamento das roupas. Passageiros procedentes de Santos só poderiam prosseguir viagem depois de oito dias de observação.

● Em dezembro é divulgado que próximo ao ano-novo poderá ocorrer, como em 1799, 1833 e 1866, uma chuva de meteoritos. A população está atemorizada e crê no fim do mundo devido à colisão de um asteróide com a Terra.

Ele agora sente os olhos cansados. Deixa a pesquisa sobre a mesa.

-- O mundo não acabou em 1899, mas muitos conseguem morrer em vida -- ele diz para si mesmo em meio a um riso triste.

Aí, nota que a cidade vista do oitavo andar havia escurecido e já estão acesas as luzes das ruas, dos prédios vizinhos e da torre de televisão que paira sobre o edifício da TV Gazeta, na avenida Paulista.
-- O amor duraria tanto tempo? -- ele se indaga ao apertar o interruptor da lâmpada da sala.

Não sabe dizer. Caminha pelo apartamento e vai acendendo as luzes de todos os cômodos como se tentasse iluminar, para destruir, a imagem do rosto dela de trinta anos atrás fixado no coração e aquela partida de Paris, inesperada e sem sentido.

Lembra de uma pesquisa realizada pela equipe da professora Cindy Hazan, da Universidade de Cornell, em Nova York. Depois de entrevistar mais de cinco mil pessoas, a conclusão foi que uma paixão não dura mais do que dois anos e meio. De acordo com Cindy, há uma série de evidências de que o que chamamos de grande amor é criado por um coquetel de substâncias químicas cerebrais e, em determinado momento, o efeito acaba.

-- E o pequeno amor -- ele ainda se pergunta -- pode durar décadas?

Ele tenta se esquecer do estudo norte--americano e, noite adentro, continua relacionando as dezenas de notícias, as mais significativas do ano de 1899, talvez para esquecer o encontro daquela tarde. Até que venha o sono e ele não tenha mais que pensar nela -- a possível co-autora de uma história que nunca, jamais, vai ser escrita a dois.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

CONTOS CORRENTES

Esta coluna reúne contos de autores convidados.

Sina

(Roniwalter Jatobá)

1952 -- A minha pele refletia a mocidade. Quem via dizia: tão novo, tão moço ainda. Tinha: um sonho antigo, passado de pai para filho, que era partir pelo mundo. Pai, que passou a vida inteira atrás de sustento, vendo os filhos que nasciam em todo ano, só sonhou em um dia ir embora. 
E: mãe enrodilhada na cama, no resguardo de filho novo, na mesma pequenez quanto as palavras dela, relutando:meu filho, pra que ir tão longe? Eu: ali, sempre vendo aquela velhice que vinha ano após ano, trazida quem sabe por quem, que ia entrando nas pessoas. Como ser tão parado no viver? Esperando pai morrer, mãe morrer, aqui, tudo miúdo, até a vida.

1953 -- O caminhão não esperou a claridade despontar. Dormindo, uns. Maldizendo, chorando, outros. Calado, eu. A lona marrom cobrindo as pessoas da chuva, do sol, e guardando poeira. A Bahia, grande. Minas: serras, lama, ladeiras, o caminhão lotado de gente, pneus levantando poeira, voando areia, pedra, por esses caminhos pobres. São Paulo: como nos velhos sonhos de pai, vermelho tal São Miguel, onde aportei em janeiro de tarde, com um sol miúdo. A grande fábrica de química me acenando pelos dias seguintes, chamando. Fichado fui. Perto do ano findar, voltei à Bahia, em dias de folga. Trouxe Adelina: ela preencheu o vazio de uma mulher.

1954 -- Comprei um terreno no Jardim Helena. Em oito domingos seguidos, fiz um quarto e uma cozinha, fiz moradia desse começo de casa. Nas noites, como uma roça, sapos
cantavam longe, na vargem do Tietê. Adelina, sempre dizendo: sinto saudade. Nasceu Reinaldo. O presidente Getúlio Vargas morreu.

1955 -- Não nasceu João Batista, que já tinha nome e quase leva pra cova a fraca Adelina, que muito sofreu nesse ano. Por mão própria, demorosa, a notícia assim veio: pai morreu

sexta-feira, 6 de julho de 2018

CONTOS CORRENTES

A mão esquerda
(Roniwalter Jatobá)

Ruas, todas no Brás, cheias de vai e vem no fim da tarde: Rangel Pestana, Joaquim Nabuco, Gomes Cardim e a Cavalheiro cheia, também, de ônibus que vão cruzar estradas, Estados e, gente nas ruas, aqui, bestando, correndo pra estação do trem da Central procurando rumo de São Miguel Paulista, Guaianases, Moji, passando homens, mulheres, crianças, todos com seus sonhos, sem sonhos e sonolentos, que partem, que chegam, que trazem esperanças, que voltam vazios de fé, bem vestidos de roupas coloridas, jaquetas compradas a prestações, já liquidadas na Rua Oriente, Maria Marcolina, que apreciam violeiros no Largo da Concórdia e discos ouvidos nas portas das lojas, que compram elixir milagroso de um homem apregoando o remédio para todos os males do corpo.

Você, parado, olhando as rodas de gente observa os passos dos homens neste começo de noite e o movimento da rua, lhe xingam por atrapalhar o rebuliço na calçada apertada, você nem liga e só chega mais pra perto do meio-fio dando passagem. Continua olhando o motorista de um ônibus quando ele começa a receber as passagens, depois, quando coloca as malas no bagageiro. Pra você tudo aquilo por ora é importante, parece ser, depois você descobre que existe na calçada do outro lado da rua um homem parado, calado, que olha o ônibus, aí, ele vai se aproximando devagar, devagarinho no rumo do ônibus, vai se esforçando em carregar a mala com a mão direita. A mão esquerda, você vê, aparece dentro das suas vistas como uma volumosa mancha branca. A mancha, agora, cresce dentro destes olhos seus.

sexta-feira, 16 de março de 2018

CONTOS CORRENTES

O sonho de Cléo
(Roniwalter Jatobá)


Numa fria tarde de julho, a dona-de-casa Cleonice Menezes buscava o fraco calor de um sol ameno no quintal todo acimentado de sua casa, na rua Espírito Santo do Dourado, no Jardim Miragaia, em São Miguel Paulista. Por sobre os muros de blocos nus, vinha o burburinho das gentes simples das moradias vizinhas, mas ela estava só. Como quase todos os dias, aguardava o marido que cumpria o turno de guarda numa metalúrgica em Guarulhos, sem hora de chegada.

Sem filhos, ia completar 50 anos, mas o rosto triste aumentava a idade. À primeira vista, qualquer um imaginava ter duas décadas a mais. A pele clara lembrava um pergaminho antigo, amassado e desbotado pelo tempo. Os cabelos eram brancos como flocos de algodão. Uma vez contou, começaram a clarear quando, numa noite, sonhou que nunca mais veria a terra onde nasceu, e acordou pensando na morte.

–  Tão nova e tão acabada –  dizia uma amiga, Lenita, quando perguntada sobre a conterrânea que não se adaptara a São Paulo. -- Está um caco, a coitada da Cléo.

Cléo nunca pensou em viver numa cidade grande. Morava com a mãe viúva e seus irmãos mais velhos numa casa espaçosa, bem em frente a única praça de Bananeiras, onde durante o dia inteiro ciscavam galinhas e pastavam animais.

Cléo tinha sido bonita na mocidade. Jovens bobões, caras pintadas de espinhas, segundo ela, davam voltas e voltas para passarem em frente à sua janela, tentando ver suas mãos brancas e ágeis tecendo

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"NOITE ADENTRO" NA REVISTA ESCRITABLOG

Uma postagem da  revista "Escritablog" transcreve mensagens enviadas aos amigos por Menalton Braff (e-mail) e Roniwalter Jatobá (Facebook) com o fim de contar as novidades.

O texto de Menalton comunica a chegada de seu último romance "Noite Adentro" e a postagem de Roniwalter informa sobre a doação de mais de 500 livros de seu acervo a  uma escola municipal do distrito de Bananeiras Pindobaçu, na Bahia.

Novidades de Menalton Braff e Roniwálter Jatobá / CORRESPONDÊNCIA

        Duas mensagens de escritores, a primeira de Menalton Braff e a segunda de Roniwalter Jatobá, mostram claramente que não estão nada parados. A do primeiro diz simplesmente:
       “Gostaria de compartilhar uma boa notícia com vocês: acaba de ser iniciada, em diversas livrarias na internet, a pré-venda do romance "Noite Adentro"(grifo nosso) – último volume da trilogia "Tempus Fugit", editada pela Global. 
       A trilogia teve início em 2011, com o romance “Tapete de Silêncio”, prosseguiu em 2014 com "Pouso do Sossego" e breve faremos o lançamento oficial de “Noite Adentro”, informa o escritor.”   
        Em caso de dúvida, ele sugere que acessem seu blog.
      
  Não mais do que livros
      
  Já a de Roniwálter Jatobá no Facebook não fica atrás em termos de novidades:
​       
“Amigos e amigas
      Semana intensa. Primeiro, nascimento de um neto, o Valentin, do Fabio Lima, hoje um filho. Lembro de Cony, em "Quase memória".
      Bom , durante sete dias, reuni precisamente 527 livros de boa literatura do meu total acervo e doei para a Escola Municipal de Bananeiras Bahia Brasil, distrito de Bananeiras Pindobaçu Bahia.
      Hoje, fretei um táxi e fui a São Miguel carregado de dez caixas de obras literárias, incluindo aí

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CONTOS CORRENTES

Sina

(Roniwalter Jatobá)

1952 -- A minha pele refletia a mocidade. Quem via dizia: tão novo, tão moço ainda. Tinha: um sonho antigo, passado de pai para filho, que era partir pelo mundo. Pai, que passou a vida inteira atrás de sustento, vendo os filhos que nasciam em todo ano, só sonhou em um dia ir embora. 
E: mãe enrodilhada na cama, no resguardo de filho novo, na mesma pequenez quanto as palavras dela, relutando:meu filho, pra que ir tão longe? Eu: ali, sempre vendo aquela velhice que vinha ano após ano, trazida quem sabe por quem, que ia entrando nas pessoas. Como ser tão parado no viver? Esperando pai morrer, mãe morrer, aqui, tudo miúdo, até a vida.

1953 -- O caminhão não esperou a claridade despontar. Dormindo, uns. Maldizendo, chorando, outros. Calado, eu. A lona marrom cobrindo as pessoas da chuva, do sol, e guardando poeira. A Bahia, grande. Minas: serras, lama, ladeiras, o caminhão lotado de gente, pneus levantando poeira, voando areia, pedra, por esses caminhos pobres. São Paulo: como nos velhos sonhos de pai, vermelho tal São Miguel, onde aportei em janeiro de tarde, com um sol miúdo. A grande fábrica de química me acenando pelos dias seguintes, chamando. Fichado fui. Perto do ano findar, voltei à Bahia, em dias de folga. Trouxe Adelina: ela preencheu o vazio de uma mulher.

1954 -- Comprei um terreno no Jardim Helena. Em oito domingos seguidos, fiz um quarto e uma cozinha, fiz moradia desse começo de casa. Nas noites, como uma roça, sapos

sexta-feira, 8 de julho de 2016

CONTOS CORRENTES

A mão esquerda

Roniwalter Jatobá*

Ruas, todas no Brás, cheias de vai e vem no fim da tarde: Rangel Pestana, Joaquim Nabuco, Gomes Cardim e a Cavalheiro cheia, também, de ônibus que vão cruzar estradas, Estados e, gente nas ruas, aqui, bestando, correndo pra estação do trem da Central procurando rumo de São Miguel Paulista, Guaianases, Moji, passando homens, mulheres, crianças, todos com seus sonhos, sem sonhos e sonolentos, que partem, que chegam, que trazem esperanças, que voltam vazios de fé, bem vestidos de roupas coloridas, jaquetas compradas a prestações, já liquidadas na Rua Oriente, Maria Marcolina, que apreciam violeiros no Largo da Concórdia e discos ouvidos nas portas das lojas, que compram elixir milagroso de um homem apregoando o remédio para todos os males do corpo.

Você, parado, olhando as rodas de gente observa os passos dos homens neste começo de noite e o movimento da rua, lhe xingam por atrapalhar o rebuliço na calçada apertada, você nem liga e só chega mais pra perto do meio-fio dando passagem. Continua olhando o motorista de um ônibus quando ele começa a receber as passagens, depois, quando coloca as malas no bagageiro. Pra você tudo aquilo por ora é importante, parece ser, depois você descobre que existe na calçada do outro lado da rua um

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

CONTOS CORRENTES

A filha do príncipe                                                                       

Roniwalter Jatobá                                  


Chamava-se Leididai. Contaram outro dia, em São Miguel Paulista, que esse não era o seu nome verdadeiro. O escrivão do registro civil, ciente da lei, não quis aceitar o que era desejo da família. Com o consentimento amuado do pai, o oficial marcou no papel Eva ou Maria Aparecida. Na morada à beira do riacho Jacuí, porém, a menina foi sempre chamada -- e agora lembrada -- do jeito que todos gostavam: Leididai.

Nascera em 1982. Três meses depois do casamento do século, aquele que uniu o príncipe de Gales e a jovem Diana Spencer, a menina foi batizada numa cerimônia coletiva num galpão comunitário do Jardim Pantanal. O padre abençoou a todos e os pais da menina, Aírton e Ester Silveira Lima, se sentiram também nas graças de Deus, naquele domingo.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

CONTOS CORRENTES


Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Cheiro de chocolate e outras histórias (vencedor do Prêmio Jabuti 2013). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O conto escolhido para o CONTOS CORRENTES de hoje foi: 
 O sonho de Cléo
    Roniwalter Jatobá

Numa fria tarde de julho, a dona-de-casa Cleonice Menezes buscava o fraco calor de um sol ameno no quintal todo acimentado de sua casa, na rua Espírito Santo do Dourado, no Jardim Miragaia, em São Miguel Paulista. Por sobre os muros de blocos nus, vinha o burburinho das gentes simples das moradias vizinhas, mas ela estava só. Como quase todos os dias, aguardava o marido que cumpria o turno de guarda numa metalúrgica em Guarulhos, sem hora de chegada.

   Sem filhos, ia completar 50 anos, mas o rosto triste aumentava a idade. À primeira vista, qualquer um imaginava ter duas décadas a mais. A pele clara lembrava um pergaminho antigo, amassado e desbotado pelo tempo. Os cabelos eram brancos como flocos de algodão. Uma vez contou, começaram a clarear quando, numa noite, sonhou que nunca mais veria a terra onde nasceu, e acordou pensando na morte.

   -- Tão nova e tão acabada -- dizia uma amiga, Lenita, quando perguntada sobre a conterrânea que não se adaptara a São Paulo. -- Está um caco, a coitada da Cléo.