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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ORELHA

Esta coluna reúne apresentações de livros feitas por Menalton Braff. 

Uma família inglesa

Júlio Dinis que me perdoe a utilização de seu título, mas este aqui não é um romance, são apenas comentários mais ou menos descosidos a respeito de um romance, uma obra prima da escritora francana Vanessa Maranha. Escritora premiada que justifica seus prêmios e os ratifica com a qualidade de literatura que nos oferece.

Seu mais recente romance, “A filha de Mrs. Dalloway”, podemos dizer que é a ficção emoldurando a ficção. A Virginia Woolf comparece não mais como autora senão como personagem. É a irmã mais velha da Clarissa Dalloway e tia da protagonista do romance, a Elizabeth, filha de Clarissa. Essa, que comparecera como protagonista do romance “Mrs. Dalloway”, volta rediviva no romance da Vanessa. E dá à luz Elizabeth, quem nos ocupará por mais tempo.

Quando se quer definir um bom romance, entre outras coisas, deve-se destacar que um bom romance é aquele que põe em discussão vários aspectos da vida humana, quase sempre sem necessidade de sugerir soluções acabadas. A lembrança dessa peculiaridade nos veio da leitura deste “A filha de Mrs. Dalloway”.

Começando pelas emoções e sensações causadas por este livro, ocorre-me que durante a leitura me senti na praia, porque as cenas chegam como ondas que vêm, nos empolgam, cobrem-nos, escondendo a paisagem, com força, às vezes furor, para então retornar tranquilamente ao mar por algum tempo. As ondas do discurso da Vanessa, em  que pese a metáfora marítima, são de uma doçura inigualável para quem gosta das palavras.

Outra virtude deste romance é a escolha dos detalhes. São sempre importantes, descritos com extrema competência, o que resulta numa pintura palpável, quase material.

Mas é claro, nada do que se diz acima seria possível sem uma das características desde sempre marcantes da Vanessa: a extensão de seu vocabulário. A extensão e a propriedade. Sua riqueza vocabular é extraordinária sem cair no exibicionismo daqueles que, como contam de Coelho Neto, não podia ouvir uma palavra desconhecida que não a utilizasse em seu próximo texto. No texto da Vanessa Maranha, as palavras surpreendem pela exatidão com que são usadas, e isso nos mais variados campos do conhecimento.

E falando de surpresa, não se pode esquecer o ostraniene dos Formalistas Russos, que introduziram nos estudos literários este conceito do estranhamento. Sem ele, o texto pode tornar-se enfadonho, insosso, apenas informativo, quando informa. Esta é uma das mais altas virtudes da Vanessa, que a cada passo nos assusta ao conceber uma combinação totalmente estranha que tem como objetivo dar maior vigor à sua literatura.

O escritor literário é um inventor de linguagem. Em seu famoso texto “Instinto da Nacionalidade”, o Bruxo do Cosme Velho pontifica que o escritor de literatura tem de ser permeável à língua de seu povo, mas a língua que devolve tem de ser melhor do que a recebida, por isso é escritor. A Vanessa, nesse sentido, é uma autora machadiana.

Se descermos um pouco mais nos códigos usados pela escritora, podemos filiá-la à corrente literária para a qual mais importante do que o visível, são os movimentos de sua alma, seus valores, enfim, sua mais profunda humanidade. E isso, a Vanessa explora com suas personagens, incluindo aí a autora/personagem Virginia Woolf. 

Tendo como base de sua criação o ambiente londrino em que viveu Mrs. Dalloway, festas, saraus, regados a bebidas e discussões, este livro, tanto no ambiente londrino da mãe, Clarissa, quanto de sua irmã, Virgínia Woolf, e também em São Paulo, onde John é feito cônsul da Grã Bretanha, e Elizabeth, sua esposa, acha que vai morrer de tédio.

Nas três personagens femininas que conduzem a história, vamos encontrar conflitos em que se debatem em busca de uma justificação para estarem vivas, tentando dar algum sentido a suas vidas.

Vida e morte estarão sempre presentes, pairando como dúvidas, como tentativas de chegar a um ponto de repouso, uma verdade que lhes permita, enfim, mirar-se no espelho sem detestarem o que veem.

Questões como as levantadas pelas sufragistas acompanham essas mulheres, quando conseguem romper com as banalidades a que estão habituadas.

Enfim, um romance para o qual sua autora demonstrou familiaridade com Londres e São Paulo e que, sem dúvida, demandou muitas horas de pesquisa. Um romance que o leitor de literatura não deve perder.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

MENALTON POR VANESSA MARANHA

Menalton Braff, um mestre  

(Por: Vanessa Maranha)

Um dos teóricos que mais norteou a minha leitura e produção literária foi Ezra Pound, para quem “grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.

A seguir esse axioma, a obra de Menalton Braff justifica toda a premiação que já recebeu. A leitura de Braff em si, uma grande experiência estética formalista, mas que não se destitui do necessário equilíbrio entre forma e conteúdo.

Eu o leio desde que “À Sombra do Cipreste” (Editora Palavra Mágica) recebeu o Prêmio Jabuti como Livro do Ano (o que não é pouca coisa) em 2000.

Em Menalton Braff é clara a recusa aos modismos literários, a negativa ao hiper realismo, sua habilidade em trabalhar a palavra na maleabilidade da língua. Braff não despreza, contudo, a tradição clássica da literatura em razão de uma escrita puramente vanguardista. Tampouco se coloca num estilo refratário ao novo. Ao contrário, bebe de suas fontes e sintetiza seu próprio tom, refletindo aquilo que Roland Barthes chamou de “categorias eternas do espírito”. “Em qualquer forma literária, há a escolha de um tom, de um etos, e é aí que o escritor se individualiza claramente, porque é aí que ele se engaja”, afirma Barthes.

Subvertendo a sintaxe, ao longo de toda a sua obra, Braff concebe construções espantosamente sofisticadas. ‘Amor Passageiro’ (Editora Reformatório), novo livro de contos de Menalton Braff, traz histórias alinhavadas por um traço comum: falam basicamente de momentos, mas não de uma instantaneidade bergsoniana e líquida.

Os momentos são eternizados na mão do artista, trabalhando com perfeição o sentido do arco dramático, sem necessariamente se colocarem em linearidade. E para dissecar esses momentos, o autor busca significações por meio de uma linguagem precisa, exuberante, de tintas proustianas, lampejos de inventividade numa prosa por vezes vagamente elegíaca, gênero que se põe dialogicamente entre o épico narrativo e o lírico, trazendo aquilo que Hegel denomina objetividade épica no fluxo narrativo e subjetivamente lírica, o que é, em síntese, prosa poética.

“Amor Passageiro” é uma viagem cheia de sensorialidade e que fala também de resistência e impermanência, refletindo um jeito cada vez mais raro de ser e de estar no mundo. Mas, aqui eu acrescento a negativa a uma visão apocalíptica que preconiza o fim da literatura a reboque do fim das utopias para postular que não ‘seremos os últimos da nossa espécie, como disse Marcelo Yuka, músico do Rappa que faleceu este ano.

Uma literatura impressionista, na melhor acepção da definição. Um livro que eu li viajando, literalmente.

sábado, 2 de novembro de 2019

MENALTON AOS OLHOS DE VANESSA MARANHA

Acesse a publicação original

Menalton Braff, um mestre

Por: Vanessa Maranha


Um dos teóricos que mais norteou a minha leitura e produção literária foi Ezra Pound, para quem “grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.

A seguir esse axioma, a obra de Menalton Braff justifica toda a premiação que já recebeu. A leitura de Braff em si, uma grande experiência estética formalista, mas que não se destitui do necessário equilíbrio entre forma e conteúdo.

Eu o leio desde que “À Sombra do Cipreste” (Editora Palavra Mágica) recebeu o Prêmio Jabuti como Livro do Ano (o que não é pouca coisa) em 2000.

Em Menalton Braff é clara a recusa aos modismos literários, a negativa ao hiper realismo, sua habilidade em trabalhar a palavra na maleabilidade da língua. Braff não despreza, contudo, a tradição clássica da literatura em razão de uma escrita puramente vanguardista. Tampouco se coloca num estilo refratário ao novo. Ao contrário, bebe de suas fontes e sintetiza seu próprio tom, refletindo aquilo que Roland Barthes chamou de “categorias eternas do espírito”. “Em qualquer forma literária, há a escolha de um tom, de um etos, e é aí que o escritor se individualiza claramente, porque é aí que ele se engaja”, afirma Barthes.

Subvertendo a sintaxe, ao longo de toda a sua obra, Braff concebe construções espantosamente sofisticadas. ‘Amor Passageiro’ (Editora Reformatório), novo livro de contos de Menalton Braff, traz histórias alinhavadas por um traço comum: falam basicamente de momentos, mas não de uma instantaneidade bergsoniana e líquida.

Os momentos são eternizados na mão do artista, trabalhando com perfeição o sentido do arco dramático, sem necessariamente se colocarem em linearidade. E para dissecar esses momentos, o autor busca significações por meio de uma linguagem precisa, exuberante, de tintas proustianas, lampejos de inventividade numa prosa por vezes vagamente elegíaca, gênero que se põe dialogicamente entre o épico narrativo e o lírico, trazendo aquilo que Hegel denomina objetividade épica no fluxo narrativo e subjetivamente lírica, o que é, em síntese, prosa poética.

“Amor Passageiro” é uma viagem cheia de sensorialidade e que fala também de resistência e impermanência, refletindo um jeito cada vez mais raro de ser e de estar no mundo. Mas, aqui eu acrescento a negativa a uma visão apocalíptica que preconiza o fim da literatura a reboque do fim das utopias para postular que não ‘seremos os últimos da nossa espécie, como disse Marcelo Yuka, músico do Rappa que faleceu este ano.

Uma literatura impressionista, na melhor acepção da definição. Um livro que eu li viajando, literalmente.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

VANESSA MARANHA ESCREVE SOBRE AMOR PASSAGEIRO


Menalton Braff, um mestre

Por: Vanessa Maranha

Um dos teóricos que mais norteou a minha leitura e produção literária foi Ezra Pound, para quem “grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.

A seguir esse axioma, a obra de Menalton Braff justifica toda a premiação que já recebeu. A leitura de Braff em si, uma grande experiência estética formalista, mas que não se destitui do necessário equilíbrio entre forma e conteúdo.

Eu o leio desde que “À Sombra do Cipreste” (Editora Palavra Mágica) recebeu o Prêmio Jabuti como Livro do Ano (o que não é pouca coisa) em 2000.

Em Menalton Braff é clara a recusa aos modismos literários, a negativa ao hiper realismo, sua habilidade em trabalhar a palavra na maleabilidade da língua. Braff não despreza, contudo, a tradição clássica da literatura em razão de uma escrita puramente vanguardista. Tampouco se coloca num estilo refratário ao novo. Ao contrário, bebe de suas fontes e sintetiza seu próprio tom, refletindo aquilo que Roland Barthes chamou de “categorias eternas do espírito”. “Em qualquer forma literária, há a escolha de um tom, de um etos, e é aí que o escritor se individualiza claramente, porque é aí que ele se engaja”, afirma Barthes.

Subvertendo a sintaxe, ao longo de toda a sua obra, Braff concebe construções espantosamente sofisticadas. ‘Amor Passageiro’ (Editora Reformatório), novo livro de contos de Menalton Braff, traz histórias alinhavadas por um traço comum: falam basicamente de momentos, mas não de uma instantaneidade bergsoniana e líquida.

Os momentos são eternizados na mão do artista, trabalhando com perfeição o sentido do arco dramático, sem necessariamente se colocarem em linearidade. E para dissecar esses momentos, o autor busca significações por meio de uma linguagem precisa, exuberante, de tintas proustianas, lampejos de inventividade numa prosa por vezes vagamente elegíaca, gênero que se põe dialogicamente entre o épico narrativo e o lírico, trazendo aquilo que Hegel denomina objetividade épica no fluxo narrativo e subjetivamente lírica, o que é, em síntese, prosa poética.

“Amor Passageiro” é uma viagem cheia de sensorialidade e que fala também de resistência e impermanência, refletindo um jeito cada vez mais raro de ser e de estar no mundo. Mas, aqui eu acrescento a negativa a uma visão apocalíptica que preconiza o fim da literatura a reboque do fim das utopias para postular que não ‘seremos os últimos da nossa espécie, como disse Marcelo Yuka, músico do Rappa que faleceu este ano.

Uma literatura impressionista, na melhor acepção da definição. Um livro que eu li viajando, literalmente.

sábado, 11 de maio de 2019

AMOR PASSAGEIRO GANHA RESENHA DE VANESSA MARANHA

Menalton Braff, um mestre do conto

(Vanessa Maranha)

Contística de Braff mantém-se vigorosa e necessária


Um dos teóricos que mais norteou a minha leitura e produção literária, foi Ezra Pound, para quem “grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”. A seguir esse axioma, a obra de Menalton Braff justifica toda a premiação que já recebeu. A leitura de Braff em si, uma grande experiência estética formalista, mas que não se destitui do necessário equilíbrio entre forma e conteúdo.

Eu o leio desde que “À Sombra do Cipreste” (Editora Palavra Mágica) recebeu o Prêmio Jabuti como Livro do Ano (o que não é pouca coisa) em 2000. Em Menalton Braff é clara a sua recusa aos modismos literários, a negativa ao hiper realismo, sua habilidade em trabalhar a palavra na maleabilidade da língua. Braff não despreza, contudo, a tradição clássica da literatura em razão de uma escrita puramente vanguardista. Tampouco se coloca num estilo refratário ao novo. Ao contrário, bebe de suas fontes e sintetiza seu próprio tom, refletindo aquilo que Roland Barthes chamou de “categorias eternas do espírito”. “Em qualquer forma literária, há a escolha de um tom, de um etos, e é aí que o escritor se individualiza claramente, porque é aí que ele se engaja”, afirma Barthes.

Subvertendo a sintaxe, ao longo de toda a sua obra, Braff concebe construções espantosamente sofisticadas. Em ‘Amor Passageiro’ (Editora Reformatório), novo livro de contos de Menalton Braff, traz histórias alinhavadas por um traço comum: falam basicamente de momentos, mas não de uma instantaneidade bergsoniana e líquida. Os momentos são eternizados na mão do artista, trabalhando com perfeição o sentido do arco dramático, sem necessariamente se colocarem em linearidade. E para dissecar esses momentos, o autor busca significações por meio de uma linguagem precisa, exuberante, de tintas proustianas, lampejos de inventividade numa prosa por vezes vagamente elegíaca, gênero que se põe dialogicamente entre o épico narrativo e o lírico, trazendo aquilo que Hegel denomina objetividade épica no fluxo narrativo e subjetivamente lírica, o que é, em síntese, prosa poética.

“Amor Passageiro” é uma viagem cheia de sensorialidade e que fala também de resistência e impermanência, refletindo um jeito cada vez mais raro de ser e de estar no mundo. Mas, aqui eu acrescento a negativa a uma visão apocalíptica que preconiza o fim da literatura a reboque do fim das utopias para postular que não 'seremos os últimos da nossa espécie', como disse Marcelo Yuka, músico do Rappa que faleceu este ano. Uma literatura impressionista, na melhor acepção da definição. Um livro que eu li viajando, literalmente.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

ORELHA

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre livros de outros escritores, mitos deles publicados como orelhas.

UMA HORA ACABA

Sobre a competência narrativa da Vanessa Maranha muito já se falou, mas preciso continuar falando. Sobre sua competência linguística, por mais que se fale, fica-se em débito para com a autora.

O romance Contagem regressiva foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e editado pelo Selo Off Flip, em 2014.

É de seu portal que transcrevemos este parágrafo de caráter epigramático; 

Uma hora acaba. A insônia, as tormentas, o aluvião, o tédio, a dor, o coração chagado. Uma hora isso de cismar entre pessoas sem ter o que dizer, nem querer dizer, nem saber o que e para que, isso de não gritar na hora certa, de me encolher e me distender em acrobacias para ser aceitável... Isso acaba. Vai um dia com o vento ou pelo ralo, na oblíqua intenção, no quadrado dessa minha queixa. Ou se volatiza no fogo-fátuo das coisas mortas. 

Só uma consciência muito aguda da condição humana tem o direito de dizer o que o narrador deste romance diz já na abertura de sua história. Sim, porque a despeito do estilo reflexivo e nervoso, em que mais importa a interioridade da personagem do que suas ações, apesar disso, existe uma história.

E a história que o narrador nos oferece é realmente uma contagem regressiva. A narrativa começa quando a vida já está perto do fim. Eis a primeira parte de uma estrutura em que fica invertida a

terça-feira, 11 de setembro de 2018

ENTREVISTAS QUE VOCÊ NÃO LEU

Entrevista concedida por Menalton Braff e Marçal Aquino a Vanessa Maranha, em 2006, e publicada no jornal Comércio.

A entrevista acaba de ser divulgada pela própria Vanessa no Facebook.

Crítica Literária Hoje


- Menalton Braff e Marçal Aquino discutem a vida literária contemporânea em sua produção e nos moldes de sua crítica –
​Vanessa Maranha
​Especial para o Comércio

​​A vida literária, segundo autores como Benedito Nunes, Nelson de Oliveira, Cláudio Willer e Leyla Perrone-Moisés, está em crise.

​​Uma crise que, de acordo com sua visão, parte da produção literária - à mercê do sistema de valores vigente - e desemboca na crítica, dividida entre uma vertente universitária e outra antiacadêmica.

​​Para discutir essa questão, o jornal Comércio convidou dois autores de expressão no cenário da literatura brasileira contemporânea: Menalton Braff e Marçal Aquino.

​​Braff é incisivo. Para ele, a crítica literária é quase inexistente hoje no Brasil. “Diminuíram-se terrivelmente os espaços dedicados à literatura nos jornais, espaço que apenas revistas especializadas mantêm. Sem o exercício constante da crítica, nota-se um definhamento do setor”, diz ele.
​​Aquino é mais otimista e prefere relativizar a questão. “Não enxergo neste momento nenhuma crise, nem na literatura, nem na crítica. Basta olhar o número de novos escritores e editoras que têm surgido, o que demonstra que a literatura vive um momento de grande vitalidade”, comenta.

terça-feira, 17 de abril de 2018

ORELHA

807 dias

Estes trinta contos que a Vanessa Maranha reuniu sob o título de "Oitocentos e sete dias", foram escritos com a já conhecida competência da autora para nos surpreender. O livro, dividido em duas partes, mantém o leitor numa incrível viagem pela vida de suas personagens, uma viagem que não é possível interromper.

Vai faltar o ar, muitas vezes, com a queda livre vertiginosa. Assim são seus contos: saltos no vazio, de onde a autora tenta resgatar o que nos resta de humanidade.

Nos dez contos da primeira parte, a autora explora aspectos grotescos do convívio humano, tendo como conto emblemático este formidável Castiços, em que uma família de brutos vê-se ligada aos senhores da terra. O final, nos moldes do realismo mágico ontológico, é inteiramente inesperado.

Do primeiro parágrafo do conto, extrai-se o fragmento abaixo:
Que o que vem de fora não presta. Que o chão bem plano é o melhor lugar para os pés, ainda que contrariados. Que não nos engraçássemos pelos chamamentos da casa senhorial; nosso merecimento, a colônia e os seus despojos. Que tatus éramos de origem, destinados ao rés do chão, depois à sua profundeza em cova e nada mais.

Mas tanto nestes como nos vinte contos da segunda parte, a impressão que nos fica é a de uma autora tecelã da linguagem, surpreendendo-nos em cada parágrafo com o insólito de suas combinações, com

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

CONTOS CORRENTES

 Piquenique
(Vanessa Maranha)

Sei não. Ele anda arisco que só. Desaba na cama e em dois minutos já era, ausentado de mim, de nós, submerso no mais profundo dos sonos. Cheguei a pensar em bebida, mas não, que mau cheiro de cachaça, cevada azeda ou malte entranhado não há. Entorpecente? Será que?
Farejei-lhe furtivamente as camisas no cesto de roupa suja ao longo das últimas semanas, mas nada de realmente incriminador havia, senão evolação de pastel, fumaça e suor. Ele nunca foi adepto a colônias ou essências, desodorantes, só os sem cheiro. Não havia a menor insinuação de perfume feminino naquelas roupas, apenas cheiro de homem mesmo, o que poderia  sugerir... 
           Impossível. Ah, se não me seguro começam a florescer em minha mente imagens grotescas. Verdade mesmo é que nunca se sabe. O cheiro de pastel parece renitente. Todos os dias a gordura rançosa impregnada nos fios de algodão de suas camisas sempre brancas. Fui hoje mesmo à pastelaria pegada à firma onde ele trabalha. Não me pareceu, em nada, suspeita. Mas bem pode suceder de ser um ponto de encontro.                      
          Ah, que ainda faço amizade com a turma de atendentes, com o caixa com pinta de nordestino galante e então veremos se não me darão a ficha completa do comportamento do Adalberto, esse que suspeito não reconhecer quando longe de mim. Se bem que como quem não quer nada, com a desculpa de uma suposta cobrança, eu o descrevi para a senhora que é dona do estabelecimento –

sábado, 15 de julho de 2017

LANÇAMENTOS DA SEMANA

Título:  Eram olhos enfeitados de sol                 Autor: Dênisson Padilha Filho
Gênero: Novela
Editora: Penalux

Data: 19 de julho
Horário: 19h
Local: Lebowski Pub
Endereço: Rua da Paciência, 127, Rio Vermelho, Salvador - Bahia


Título: Começa em mar
Autor: Vanessa Maranha
Gênero: Romance
Editora: Penalux

Data: 22 de julho
Horário: 18h
Local: Espaço Cultural (Shopping do Calçado)
Endereço: Avenida Doutor Hélio Palermo, 5001 - Franca -SP

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CONTOS CORRENTES

grenadine
(Vanessa Maranha)

para ler ao som de na ilha de lia, no barco de rosa, chico buarque

Licoroso o instante em que Santiago, num brinde, com sua voz pastosa e sensual que trazia mais torpor que a própria bebida adocicada de romãs disse: a nós. A nós – Sílvia e Júlia na mesa – tinha gosto incômodo, abrangente demais, nem solene nem tão íntimo assim que se bastasse em si para qualquer uma das duas e, portanto, “a nós” detonava o fel do ciúme a escorrer dos olhos de ambas. Esmeralda era toda a íris de Sílvia, quase clorofila; cobalto a descer liso das pálpebras pintadas de Júlia. John Coltrane e guitarra lamentosa quase imperceptíveis no burburinho daquela noite em bar, noite de um azul intenso, marinho, escolhido para o anúncio de Santiago: amo mesmo as duas, em igual medida. Ou vêm em par ou não quero nenhuma.                                                             

Nem estupefatas nem atordoadas. Havia tanto Júlia e Sílvia compartilhavam-no num acordo tácito, mudo. Terrível era dar voz a isso. Feito o verbo, então, daquilo que nem precisava ser dito, a coisa caía no terreno do insuportável. Aquelas mulheres atávicas

sábado, 1 de outubro de 2016

LIVRO RECEBIDO NA SEMANA

Título: Pássara
Autora: Vanessa Maranha
Gênero: Contos
Editora: Patuá

Da 4ª capa:
"Ele chega e vai, não sei se volta, se gosta, se quis mesmo. Não me olha nos olhos, você nunca me olha nos olhos que é para eu não ver o fundo irisado intransponível que te habita, ou o que de fato não há - nenhum sinal, nada, signo, símbolo, aceno, uma chama? Eu fico, não vou, não te amarro nem te encaro. Não diz. Você não diz nem que sim, nem que não. Pode ser? No que você nos fez, transformou, jogou? Que coisa informe sou eu agora?"

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

RESENHA

Conspiração de Nuvens


Vanessa Maranha

O livro Conspiração de Nuvens, de Lygia Fagundes Telles, fecha o ciclo memorialístico iniciado em 1980 com A Disciplina do Amor e retomado em 2000, no volume Invenção e Memória e, posteriormente, em 2002, com Durante Aquele Estranho Chá.                                                                                                              Assim como nessas obras, Conspiração de Nuvens, engajado na escrita límpida e inconfundível de Lygia, se permite a ficcionalização das memórias, demonstrando a tênue fronteira a separar (ou não) a ficção da realidade, especialmente dentro da idéia heideggeriana que indica ser a arte o “pôr-se em obra da verdade”.                                             
Esse o ponto mais impactante de toda a escrita de Lygia Fagundes Telles: adensar-se em busca do verdadeiro sem, entretanto, se aferrar a nenhum sistema rígido de verdades, por meio da linguagem

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

RESENHA DA SEMANA

Conspiração de nuvens
Vanessa Maranha


O livro Conspiração de Nuvens, de Lygia Fagundes Telles, fecha o ciclo memorialístico iniciado em 1980 com A Disciplina do Amor, retomado em 2000, no volume Invenção e Memória e, posteriormente, em 2002, com Durante Aquele Estranho Chá.           

Assim como nessas obras anteriores, Conspiração de Nuvens engaja-se na escrita límpida e inconfundível de Lygia e permite a ficcionalização das memórias, demonstrando a tênue fronteira a separar (ou não) a ficção da realidade, na ideia heideggeriana que indica ser a arte o “pôr-se em obra da verdade”.    

Esse o ponto mais impactante de toda a escrita de Lygia Fagundes Telles: adensar-se em busca do ‘verdadeiro’ sem, entretanto, aferrar-se a nenhum sistema rígido de verdades, por meio da linguagem carregada de significação. Nesse sentido, a autora traz a realidade da representação, do simbólico e, portanto, do universal, mas, sempre na chave de uma brasilidade vital.    

sábado, 28 de novembro de 2015

RESENHA DA SEMANA

Desespero e beleza em “A coleira no pescoço”, o novo livro de Menalton Braff

Vanessa Maranha*

Para o semiólogo francês Roland Barthes, o grau zero da escrita é uma modalidade isenta de quaisquer obrigações para com a elaboração da linguagem, como, por exemplo, no texto jornalístico.
Seria o desvencilhamento da linguagem literária, o afastamento da linguagem viva e dos mitos nela inscritos, a perda voluntária de qualquer recurso à elegância, a cessão a um estilo da ausência, como aquele inaugurado por Albert Camus, persistente em alguns autores contemporâneos brasileiros.
Antitético, Barthes diz que nada pode ser mais infiel à literatura do que essa “escrita branca”. “Se a escrita for realmente neutra, se a linguagem, em lugar de ser um ato embaraçoso e indomável, chegar ao estado de uma equação pura, não tendo mais espessura do que uma álgebra em face do vazio do homem, então a literatura está vencida, a problemática humana está encoberta e entregue sem cor”, escreve Barthes. Em Menalton Braff é clara a sua recusa aos modismos literários, a negativa ao cruísmo e à violência dominantes, impõe-se sua habilidade em trabalhar a palavra na maleabilidade da língua. Braff não despreza a tradição clássica da literatura em razão da escrita vanguardista. Tampouco se mantém encalacrado num estilo refratário ao novo. Ao contrário, bebe de suas fontes e sintetiza seu próprio tom, refletindo as “categorias eternas do espírito”, ainda dentro da visão barthesiana. “Em qualquer forma literária, há a escolha de um tom, de um etos, e é aí que o escritor se individualiza claramente, porque é aí que ele se engaja”, afirma Barthes.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

RESENHA

O Volume do Silêncio*



Dezessete contos, retirados das antologias Hotel Solidão, O vaso azul, Duas tardes, Meu amigo João e Dias raros, compõem o livro O volume do silêncio, de João Anzanello Carrascoza, que ficou entre os vencedores do Prêmio Jabuti, na categoria contos, de 2007.

Autor premiado, oriundo da vizinha cidade de Cravinhos (SP), Carrascoza fez parte do ruidoso grupo Geração 90, organizado por Nelson deOliveira escritor e antologista que também, não por acaso, foi quem selecionou os textos para O volume do silêncio.

O livro traz histórias alinhavadas por um traço comum: falam basicamente de momentos. E para dissecar esses momentos, o autor busca significações por meio de uma linguagem precisa, exuberante, de tintas proustianas, lampejos de inventividade numa prosa vagamente elegíaca, num gênero que se contrapõe, dialeticamente, entre o épico narrativo e o lírico, trazendo aquilo que Hegel denomina objetividade épica no fluxo narrativo e subjetivamente lírica, o que é, em síntese,  prosa poética.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

"ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?"

Editora Agir relança a obra de Caio Fernando Abreu

                                          Resenha de Vanessa Maranha*

Um nome que na literatura brasileira é crucial na definição do que foram, em termos estéticos e ideológicos os anos 80 e 90 e do legado que nos deixaram é o do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, morto em 1996, de AIDS.                                                   

Ficcionista de primeira grandeza, sobretudo como contista, onde aliás jaz, ainda pulsante, quase a totalidade de sua produção literária, Caio F. (assim assinava missivas aos amigos) continua marcando toda uma geração de escritores: de Santiago Nazarian a Joca Reiners Terron, são visíveis as rasuras em seus respectivos textos da influência direta ou indireta de Abreu, em suas temáticas urbanas, na recorrência quase obsessiva à cena gay (Nazarian), no lirismo derramado, as obsessões todas sublinhadas e que se mostram espaçadas, renitentes, ao longo de seus escritos, dialogando entre si.                         

No que se poderia chamar de um culto póstumo deflagrado nessa década em benefício da memória do escritor que em vida passou situações de verdadeira penúria financeira, sua obra foi relançada em grande estilo pela Editora Agir. Começou em 2011 com o tríptico “Caio 3 D” e depois trouxe aos leitores o romance “Onde Andará Dulce Veiga?” (que virou filme também em 2007 sob a direção do ribeirão-pretano Guilherme de Almeida Prado,  com Maitê Proença no papel principal).  

sábado, 5 de setembro de 2015

“MRS. DALLOWAY", LIVRO DE RELEITURAS


  Resenha de Vanessa Maranha

“Mrs. Dalloway”, considerado a obra-prima de Virginia Woolf, é um grande texto para ser revisitado em diferentes momentos da vida.  

Numa primeira mirada, o estranhamento diante da forma que apresenta um enredo enxuto, aparentemente banal e que tem por recursos técnicos e estilísticos o fluxo de consciência; a anulação na distinção entre discurso direto e indireto; o monólogo; o solilóquio; narrativa que se alterna entre a descrição onisciente na trilha de pelo menos vinte personagens ; recuos e avanços abruptos no tempo.
“Mrs.Dalloway”, que deriva dos contos “Mrs.Dalloway em Bond Street” e “O Primeiro Ministro”, acontece num único dia de junho na Inglaterra do período entreguerras e costuma ser apontado, aliás, como uma réplica a “Ulisses” de James Joyce. Na segunda leitura, menos distraída pela exuberância da forma, pode-se focalizar melhor no enredo e nas temáticas recorrentes em todos os livros de
Virginia Woolf.

Clarissa Dalloway é uma dona de casa que prepara uma recepção. Logo pela manhã ela sai para fazer compras em Londres e o que vê e sente nesse percurso a remete à sua juventude em Bourton. A partir daí, a personagem, em rememorações, reconstroi a sua vida, entra e sai, imaginariamente, dos pensamentos de pessoas importantes em sua biografia. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

LABIRINTOS DE DENTRO

Estamos retomando nossa coluna de resenhas com um texto da escritora Vanessa Maranha sobre o
romance Bolero de Ravel, escrito na época de seu lançamento (2010).

Labirintos de dentro
                                         
Vanessa Maranha*

O Bolero de Ravel, novo livro de Menalton Braff, prolífico e versátil ficcionista laureado por importantes prêmios da literatura luso-brasileira, pode ser lido por pelo menos duas lentes. 
Pela refração da técnica literária, aperfeiçoa seu estilo elíptico, de livres associações e no fluxo da consciência;  trabalha com mão de artista a sintaxe, a linguagem, por vezes, levada às últimas consequências.
Seu desenvolvimento parece perseguir a cadência musical do “Bolero”, de Maurice Ravel, obra-prima que embute longos e obsessivos movimentos tonais intervalados por momentos de clímax. É a música provável radiografia rítmica do psiquismo de Adriano, personagem que ainda menino, desistiu da escola e da vida conforme os ditames da sociedade, com a anuência condescendente da mãe e a oposição insuficiente do pai e da irmã Laura, caracterizada por ele como vencedora desde sempre, a seguir os passos do pai advogado, aquele que em seu gabinete de “imperador” assinava seus despachos com suas “mãos gordas e peludas” e diariamente “beijava, sem nenhuma fome, a testa da mãe”.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

CONTOS CORRENTES

           Piquenique

Vanessa Maranha

Sei não. Ele anda arisco que só. Desaba na cama e em dois minutos já era, ausentado de mim, de nós, submerso no mais profundo dos sonos. Cheguei a pensar em bebida, mas não, que mau cheiro de cachaça, cevada azeda ou malte entranhado não há. Entorpecente? Será que?
Farejei-lhe furtivamente as camisas no cesto de roupa suja ao longo das últimas semanas, mas nada de realmente incriminador havia, senão evolação de pastel, fumaça e suor. Ele nunca foi adepto a colônias ou essências, desodorantes, só os sem cheiro. Não havia a menor insinuação de perfume feminino naquelas roupas, apenas cheiro de homem mesmo, o que poderia  sugerir...