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terça-feira, 19 de novembro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Estamos encerrando hoje as postagens de "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis, texto que Menalton Braff fundamental para a formação de todo escritor.

Para facilitar a leitura, o texto foi dividido em 23 fragmentos, que postamos semanalmente de junho a novembro.

Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15 Fragmento 16 Fragmento 17 Fragmento 18
Fragmento 19 Fragmento 20 Fragmento 21 Fragmento 22



FRAGMENTO 23

Outra coisa de que eu quisera persuadir a mocidade é que a precipitação não lhe afiança muita vida aos seus escritos. Há um prurido de escrever muito e depressa; tira-se disso glória, e não posso negar que é caminho de aplausos. Há intenção de igualar as criações do espírito com as da matéria, como se elas não fossem neste caso inconciliáveis. Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias; para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.

Aqui termino esta notícia. Viva imaginação, delicadeza e força de sentimentos, graças de estilo, dotes de observação e análise, ausência às vezes de gosto, carências às vezes de reflexão e pausa, língua nem sempre pura, nem sempre copiosa, muita cor local, eis aqui por alto os defeitos e as excelências da atual literatura brasileira, que há dado bastante e tem certíssimo futuro.

FIM

terça-feira, 12 de novembro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Já estamos na penúltima postagem do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis", que Menalton considera imprescindível à formação do escritor. 

As postagens começaram a ser feitas em junho último, com periodicidade semanal. Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15 Fragmento 16 Fragmento 17 Fragmento 18
Fragmento 19 Fragmento 20 Fragmento 21



FRAGMENTO 22

Mas se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o princípio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.

Feitas as exceções devidas não se lêem muito os clássicos no Brasil. Entre as exceções poderia eu citar até alguns escritores cuja opinião é diversa da minha neste ponto, mas que sabem perfeitamente os clássicos. Em geral, porém, não se lêem, o que é um mal. Escrever como Azurara ou Fernão Mendes seria hoje um anacronismo insuportável. Cada tempo tem o seu estilo. Mas estudar-lhes as formas mais apuradas da linguagem, desentranhar deles mil riquezas, que, à força de velhas se fazem novas, — não me parece que se deva desprezar. Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum.


terça-feira, 5 de novembro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Faltam apenas duas postagens para encerramos o texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis", que Menalton considera imprescindível à formação do escritor.

As postagens começaram a ser feitas em junho último, com periodicidade semanal. Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15 Fragmento 16 Fragmento 17 Fragmento 18
Fragmento 19 Fragmento 20


FRAGMENTO 21

A Língua

Entre os muitos méritos dos nossos livros nem sempre figura o da pureza da linguagem. Não é raro ver intercalado em bom estilo os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva influência da língua francesa. Este ponto é objeto de divergência entre os nossos escritores. Divergência digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorância ou preguiça, outros há que os adotam por princípio, ou antes por uma exageração de princípio.

Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade.


terça-feira, 29 de outubro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE


Já estamos chegando ao fim do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis", que começamos a postar em fragmentos semanais no último mês de junho.

Postamos hoje o 20º fragmento e as postagens serão concluídas no dia 19 de novembro. 

Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.


Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15 Fragmento 16 Fragmento 17 Fragmento 18
Fragmento 19



FRAGMENTO 20

E todavia a continuar o teatro, teriam as vocações novas alguns exemplos não remotos, que muito as haviam de animar. Não falo das comédias do Pena, talento sincero e original, a quem só faltou viver mais para aperfeiçoar-se e empreender obras de maior vulto; nem também das tragédias de Magalhães e dos dramas de Gonçalves Dias, Porto-Alegre e Agrário. Mais recentemente, nestes últimos doze ou catorze anos, houve tal ou qual movimento. Apareceram então os dramas e comédias do Sr. J. de Alencar, que ocupou o primeiro lugar na nossa escola realista e cujas obras Demônio Familiar e Mãe são de notável merecimento. Logo em seguida apareceram várias outras composições dignas do aplauso que tiveram, tais como os dramas dos Srs. Pinheiro Guimarães, Quintino Bocaiúva e alguns mais; mas nada disso foi adiante. Os autores cedo se enfastiaram da cena que a pouco e pouco foi decaindo até chegar ao que temos hoje, que é nada.

A província ainda não foi de todo invadida pelos espetáculos de feira; ainda lá se representa o drama e a comédia, — mas não aparece, que me conste, nenhuma obra nova e original. E com estas poucas linhas fica liquidado este ponto.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Hoje chegamos ao 19° fragmento do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis", texto que Menalton considera imprescindível à formação do escritor.

As postagens começaram a ser feitas em junho último, com periodicidade semanal. Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15 Fragmento 16 Fragmento 17 Fragmento 18


FRAGMENTO 19

O Teatro


Esta parte pode reduzir-se a uma linha de reticência. Não há atualmente teatro brasileiro, nenhuma peça nacional se escreve, raríssima peça nacional se representa. As cenas teatrais deste país viveram sempre de traduções, o que não quer dizer que não admitissem alguma obra nacional quando aparecia. Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo o que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

terça-feira, 15 de outubro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Já se vão 18 fragmentos do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis", que começamos a postar semanalmente em junho último.

Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15 Fragmento 16 Fragmento 17


FRAGMENTO 18

Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas é preciso que a imaginação lhe dê os seus toques, e que estes sejam naturais, não de acarreto. Os defeitos que resumidamente aponto não os tenho por incorrigíveis; a crítica os emendaria; na falta dela, o tempo se incumbirá de trazer às vocações as melhores leis. Com as boas qualidades que cada um pode reconhecer na recente escola de que falo, basta a ação do tempo, e se entretanto aparecesse uma grande vocação poética, que se fizesse reformadora, é fora de dúvida que os bons elementos entrariam em melhor caminho, e à poesia nacional restariam as tradições do período romântico. P18

terça-feira, 8 de outubro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Estamos no décimo-sétimo fragmento do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis", que começamos a postar semanalmente em junho último.

Menalton decidiu fazer a  publicação por considerar esse livro fundamental para a formação dos escritores. A divisão em fragmentos visa facilitar a absorção do conteúdo.

Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15 Fragmento 16


FRAGMENTO 17


A escola a que aludo não exprimiria a idéia com tão simples meios, e faria mal, porque o
sublime é simples. Fora para desejar que ela versasse e meditasse longamente estes e outros
modelos que a literatura brasileira lhe oferece. Certo, não lhe falta, como disse, imaginação;
mas esta tem suas regras, o estro leis, e se há casos em que eles rompem as leis e as regras, é
porque as fazem novas, é porque se chamam Shakespeare, Dante, Goethe, Camões. Indiquei
os traços gerais. Há alguns defeitos peculiares a alguns livros, como por exemplo, a antítese,
creio que por imitação de Vítor Hugo. Nem por isso acho menos condenável o abuso de uma
figura que, se nas mãos do grande poeta produz grandes efeitos, não pode constituir objeto de
imitação, nem sobretudo elementos de escola. Há também uma parte da poesia que,
justamente preocupada com a cor local, cai muitas vezes numa funesta ilusão. P17

terça-feira, 1 de outubro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

O texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis, está sendo postado aqui no blog desde o dia 18 de junho. 

Menalton decidiu fazer a  publicação por considerar esse livro fundamental para a formação dos escritores. A divisão em fragmentos visa facilitar a absorção do conteúdo.

Caso você tenha perdido os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14  Fragmento 15


FRAGMENTO 16

O condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os campos do Sul, os grandes rios, a mata virgem com todas as suas magnificências de vegetação, — não há dúvida que são painéis que desafiam o estro, mas, por isso mesmo que são grandes, devem ser trazidos com oportunidade e expressos com simplicidade. Ambas essas condições faltam à poesia contemporânea, e não é que escasseiem modelos, que aí estão, para só citar três nomes, os versos de Bernardo Guimarães, Varela e Álvares de Azevedo. Um único exemplo bastará para mostrar que a oportunidade e a simplicidade são cabais para reproduzir uma grande imagem ou exprimir uma grande idéia. N'Os Timbiras, há uma passagem em que o velho Ogib ouve censurarem-lhe o filho, porque se afasta dos outros guerreiros e vive só. A fala do ancião começa com estes primorosos versos:

São torpes os anuns, que em bandos folgam,
São maus os caititus que em varas pascem:
Somente o sabiá geme sozinho,
E sozinho o condor aos céus remonta.

Nada mais oportuno nem mais singelo do que isto. P16

terça-feira, 24 de setembro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Já estamos no décimo quinto fragmento de  "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis. 

O texto começou a ser postado, em fragmentos, no dia 18 de junho. Menalton decidiu fazer a  publicação por considerar esse livro fundamental para a formação dos escritores.

Se por acaso o assunto te interessa e você perdeu os fragmentos anteriores, não se preocupe. A seguir estão os links de acesso cada um deles para que você possa recuperá-los facilmente.

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13  
Fragmento 14


FRAGMENTO 15

Não faltam à nossa atual poesia fogo nem estro. Os versos publicados são geralmente ardentes e trazem o cunho da inspiração. Não insisto na cor local; como acima disse, todas as formas a revelam com mais ou menos brilhante resultado; bastando-me citar neste caso as outras duas recentes obras, as Miniaturas de Gonçalves Crespo e os Quadros de J. Serra, versos estremados dos defeitos que vou assinalar. Acrescentarei que também não falta à poesia atual o sentimento da harmonia exterior. Que precisa ela então? Em que peca a geração presente? Falta-lhe um pouco mais de correção e gosto; peca na intrepidez às vezes da expressão, na impropriedade das imagens na obscuridade do pensamento. A imaginação, que há deveras, não raro desvaira e se perde, chegando à obscuridade, à hipérbole, quando apenas buscava a novidade e a grandeza. Isto na alta poesia lírica, — na ode, diria eu, se ainda subsistisse a antiga poética; na poesia íntima e elegíaca encontram-se os mesmos Defeitos, e mais um amaneirado no dizer e no sentir, o que tudo mostra na poesia contemporânea grave doença, que é força combater. Bem sei que as cenas majestosas da natureza americana exigem do poeta imagens e expressões adequadas. P15

terça-feira, 17 de setembro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

No último mês de junho, Menalton decidiu postar aqui no blog a obra "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis. O que o motivou foi o fato de considerar esse livro fundamental para a formação de todo escritor.

Com o fim de facilitar a leitura, dividimos o texto em pequenos fragmentos que postamos às terças-feiras. 

Hoje chegamos ao décimo quarto fragmento.  Quem perdeu os treze primeiros pode recuperá-los a seguir:

Fragmento 1  Fragmento 2  Fragmento 3  Fragmento 4 Fragmento 5  Fragmento 6  Fragmento 7  Fragmento 8 Fragmento 9  Fragmento 10  Fragmento 11  Fragmento 12  Fragmento 13


FRAGMENTO 14

Os que sobreviveram calaram as liras; e se uns voltaram as suas atenções para outro gênero literário, como Bernardo Guimarães, outros vivem dos louros colhidos, se é que não preparamobras de maior tomo, como se diz de Varela, poeta que já pertence ao decênio de 1860 a1870. Neste último prazo outras vocações apareceram e numerosas, e basta citar um Crespo, um Serra, um Trajano, um Gentil-Homem de Almeida Braga, um Castro Alves, um Luís Guimarães, um Rosendo Moniz, um Carlos Ferreira, um Lúcio de Mendonça, e tantos mais, para mostrar que a poesia contemporânea pode dar muita coisa; se algum destes, como Castro Alves, pertence à eternidade, seus versos podem servir e servem de incentivo às vocações nascentes. Competindo-me dizer o que acho da atual poesia, atenho-me só aos poetas de recentíssima data, melhor direi a uma escola agora dominante, cujos defeitos me parecem graves, cujos dotes — valiosos, e que poderá dar muito de si, no caso de adotar a necessária emenda. P14

terça-feira, 10 de setembro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Há cerca de três meses, inciamos aqui a publicação da obra "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis.

A decisão foi tomada porque  Menalton considera esse texto fundamental para a formação de todo escritor.

Com o fim de facilitar a leitura, dividimos o texto em pequenos fragmentos que postamos às terças-feiras. 

Hoje chegamos ao décimo terceiro fragmento.  Quem perdeu os doze primeiros pode recuperá-los a seguir:


FRAGMENTO 13

Em resumo, o romance, forma extremamente apreciada e já cultivada com alguma extensão, é um dos títulos da presente geração literária. Nem todos os livros, repito, deixam de se prestar a uma crítica minuciosa e severa, e se a houvéssemos em condições regulares, creio que os defeitos se corrigiriam, e as boas qualidades adquiririam maior realce. Há geralmente viva imaginação, instinto do belo, ingênua admiração da natureza, amor às coisas pátrias, e além de tudo isto agudeza e observação. Boa e fecunda terra, já deu frutos excelentes e os há de dar em muito maior escala.

A Poesia

A ação da crítica seria sobretudo eficaz em relação à poesia. Dos poetas que apareceram no decênio de 1850 a 1860, uns levou-os a morte ainda na flor dos anos, como Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, cujos nomes excitam na nossa mocidade legítimo e sincero entusiasmo, e bem assim outros de não menor porte. P13

terça-feira, 3 de setembro de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Por considerar que o texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis, é fundamental para a formação de todo escritor, Menalton Braff decidiu publicá-lo aqui no blog.

Com o fim de facilitar a leitura, dividimos o texto em pequenos fragmentos que postamos às terças-feiras. 

Hoje chegamos ao décimo segundo fragmento.  Quem perdeu os onze primeiros pode recuperá-los a seguir:


FRAGMENTO 12

Isento por esse lado o romance brasileiro, não menos o está de tendências políticas, e geralmente de todas as questões sociais, — o que não digo por fazer elogio, nem ainda censura, mas unicamente para atestar o fato. Esta casta de obras conserva-se aqui no puro domínio de imaginação, desinteressada dos problemas do dia e do século, alheia às crises sociais e filosóficas. Seus principais elementos são, como disse, a pintura dos costumes, a luta
das paixões, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres;
com esses elementos, que são fecundíssimos, possuímos já uma galeria numerosa e a muitos
respeitos notável. No gênero dos contos, à maneira de Henri Murger, ou à de Trueba, ou à de
Ch. Dickens, que tão diversos são entre si, têm havido tentativas mais ou menos felizes, porém
raras, cumprindo citar, entre outros, o nome do Sr. Luís Guimarães Júnior, igualmente
folhetinista elegante e jovial. É gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade, e creio que
essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e não lhe dando, penso eu,
o público toda a atenção de que ele é muitas vezes credor. P12

terça-feira, 27 de agosto de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Chegamos ao décimo  primeiro fragmento do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis.

Por considera-lo fundamental para a formação de todo escritor, Menalton Braff decidiu publicá-lo aqui no blog.

Com o fim de facilitar a leitura, dividimos o texto em pequenos fragmentos que postamos às terças-feiras.  Quem perdeu os dez primeiros pode recuperá-los a seguir:


FRAGMENTO 11

Naturalmente exige da parte do escritor dotes não vulgares de observação, que, ainda em literaturas mais adiantadas, não andam a rodo nem são a partilha do maior número. As tendências morais do romance brasileiro são geralmente boas. Nem todos eles serão de princípio a fim irrepreensíveis; alguma coisa haverá que uma crítica austera poderia apontar e corrigir. Mas o tom geral é bom. Os livros de certa escola francesa, ainda que muito lidos entre nós, não contaminaram a literatura brasileira, nem sinto nela tendências para adotar as suas doutrinas, o que é já notável mérito. As obras de que falo, foram aqui bem-vindas e festejadas, como hóspedes, mas não se aliaram à família nem tomaram o governo da casa. Os nomes que principalmente seduzem a nossa mocidade são os do período romântico; os escritores que se vão buscar para fazer comparações com os nossos, — porque há aqui muito amor a essas comparações — são ainda aqueles com que o nosso espírito se educou, os Vítor Hugos, os Gautiers, os Mussets, os Gozlans, os Nervals. P11

terça-feira, 20 de agosto de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Por considerar que o texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis, é fundamental para a formação de todo escritor, Menalton Braff decidiu publicá-lo aqui no blog.

Com o fim de facilitar a leitura, dividimos o texto em pequenos fragmentos que postamos às terças-feiras. 

Hoje chegamos ao décimo fragmento. Quem perdeu os nove primeiros pode recuperá-los a seguir:


FRAGMENTO 10

O romance brasileiro recomenda-se especialmente pelos toques do sentimento, quadros da
natureza e de costumes, e certa viveza de estilo muito adequada ao espírito do nosso povo. Há
em verdade ocasiões em que essas qualidades parecem sair da sua medida natural, mas em
regra conservam-se estremes de censura, vindo a sair muita coisa interessante, muita
realmente bela. O espetáculo da natureza, quando o assunto o pede, ocupa notável lugar no
romance, e dá páginas animadas e pitorescas, e não as cito por me não divertir do objeto
exclusivo deste escrito, que é indicar as excelências e os defeitos do conjunto, sem me
demorar em pormenores. Há boas páginas, como digo, e creio até que um grande amor a este
recurso da descrição, excelente, sem dúvida, mas (como dizem os mestres) de mediano efeito,
se não avultam no escritor outras qualidades essenciais. Pelo que respeita à análise de paixões
e caracteres são muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer à crítica; alguns há,
porém, de merecimento incontestável. Esta é, na verdade, uma das partes mais difíceis do
romance, e ao mesmo tempo das mais superiores. P10

terça-feira, 13 de agosto de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Desde o dia 18 de junho, estamos publicando, em pequenos fragmentos semanais, o texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis. 

A ideia de divulgar esse texto partiu do próprio Menalton por considerá-lo fundamental para a formação de um escritor. Segundo ele, "a análise que Machado faz da literatura de seu tempo e os conceitos que emite são de enorme validade para os dias que correm - um texto que candidato algum à carreira literária pode desconhecer."

Hoje chegamos ao nono fragmento. Quem perdeu os oito primeiros pode recuperá-los a seguir:


FRAGMENTO 9

O romance pode-se dizer que domina quase exclusivamente. Não há nisto motivo de admiração nem de censura, tratando-se de um país que apenas entra na primeira mocidade, e esta ainda não nutrida de sólidos estudos. Isto não é desmerecer o romance, obra d'arte como qualquer outra, e que exige da parte do escritor qualidades de boa nota. Aqui o romance, como tive ocasião de dizer, busca sempre a cor local. A substância, não menos que os acessórios, reproduzem geralmente a vida brasileira em seus diferentes aspectos e situações. Naturalmente os costumes do interior são os que conservam melhor a tradição nacional; os da capital do país, e em parte, os de algumas cidades, muito mais chegados à influência européia, trazem já uma feição mista e ademanes diferentes. Por outro lado, penetrando no tempo colonial, vamos achar uma sociedade diferente, e dos livros em que ela é tratada, alguns há de mérito real. Não faltam a alguns de nossos romancistas qualidades de observação e de análise, e um estrangeiro não familiar com os nossos costumes achará muita página instrutiva. Do romance puramente de análise, raríssimo exemplar temos, ou porque a nossa índole não nos chame para aí, ou porque seja esta casta de obras ainda incompatível com a nossa adolescência literária. P9

terça-feira, 6 de agosto de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Há cerca de dois meses, começamos a publicar, semanalmente, fragmentos do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis. 

A ideia de divulgar esse texto partiu do próprio Menalton por considerá-lo fundamental para a formação de um escritor. Segundo ele, "a análise que Machado faz da literatura de seu tempo e os conceitos que emite são de enorme validade para os dias que correm - um texto que candidato algum à carreira literária pode desconhecer."

Hoje chegamos ao oitavo fragmento. Quem perdeu os sete primeiros  pode recuperá-los a seguir:


FRAGMENTO 8


A falta de uma crítica assim é um dos maiores males de que padece a nossa literatura; é mister
que a análise corrija ou anime a invenção, que os pontos de doutrina e de história se
investiguem, que as belezas se estudem, que os senões se apontem, que o gosto se apure e
eduque, para que a literatura saia mais forte e viçosa, e se desenvolva e caminhe aos altos
destinos que a esperam.

O Romance

De todas as formas várias as mais cultivadas atualmente
no Brasil são o romance e a poesia lírica; a mais apreciada é o romance, como aliás acontece
em toda a parte, creio eu. São fáceis de perceber as causas desta preferência da opinião, e por
isso não me demoro em apontá-las. Não se fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de
filosofia, de lingüística, de crítica histórica, de alta política, e outros assim, que em alheios
países acham fácil acolhimento e boa extração; raras são aqui essas obras e escasso o mercado
delas. P8

terça-feira, 30 de julho de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Há quase dois meses, estamos publicando semanalmente fragmentos do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis. 

A ideia de divulgar esse texto partiu do próprio Menalton por considerá-lo fundamental para a formação de um escritor. Segundo ele, "a análise que Machado faz da literatura de seu tempo e os conceitos que emite são de enorme validade para os dias que correm - um texto que candidato algum à carreira literária pode desconhecer."

Hoje chegamos ao sétimo fragmento. Quem perdeu os seis primeiros  pode recuperá-los a seguir:

Fragmento 1
Fragmento 2
Fragmento 3
Fragmento 4
Fragmento 5
Fragmento 6


INSTINTO DE NACIONALIDADE - FRAGMENTO 7


O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre do tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial. Estes e outros pontos cumpria à crítica estabelecê-los, se tivéssemos uma crítica doutrinária, ampla, elevada, correspondente ao que ela é em outros países. Não a temos. Há e tem havido escritos que tal nome merecem, mas raros, a espaços, sem a influência cotidiana e profunda que deveram exercer. P7

terça-feira, 23 de julho de 2019

INSTINTO DE NACIONALIDADE

Em  16 de junho, iniciamos a publicação, aqui no blog, do texto "O Instinto de Nacionalidade – Notícia da atual literatura brasileira", de Machado de Assis. Dividimos o texto em fragmentos curtos, que podem ser lidos em qualquer intervalo de tempo. 

Menalton tomou esta decisão porque, em sua opinião, "a análise que Machado faz da literatura de seu tempo e os conceitos que emite são de enorme validade para os dias que correm - um texto que candidato algum à carreira literária pode desconhecer."

Hoje chegamos ao sexto fragmento. Quem perdeu os cinco primeiros  pode recuperá-los a seguir:

Fragmento 1
Fragmento 2
Fragmento 3
Fragmento 4
Fragmento 5


INSTINTO DE NACIONALIDADE - FRAGMENTO 6

O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de casa, e não acabaria se fosse necessário recorrer aos estranhos. Mas, pois que isto vai ser impresso em terra americana e inglesa, perguntarei simplesmente se o autor do Song of Hiawatha não é o mesmo autor da Golden Legend, que nada tem com a terra que o viu nascer, e cujo cantor admirável é; e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês. Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. P6