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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

CONTOS CORRENTES


Fita de Möbius 

(Edmar Monteiro Filho*)
           
Desperto em meio a uma sensação perturbadora que, a princípio, não reconheço. Abro os olhos. Encontro-me deitada sobre um colchão fino, no interior de um aposento acortinado que cheira a poeira e suor velho. Meu corpo dolorido reage ao movimento para me pôr em pé e andar até a janela, onde a fresta de luz luta por um canto de assoalho. Abro as cortinas, ergo o basculante em busca de ar fresco e encontro o amanhecer sobre um pequeno quintal cimentado, cercado de muros altos de tijolos nus. Volto-me para o quarto, para mim mesma. Estou descalça sobre um carpete puído; uma penteadeira antiga e uma cadeira estão mal arranjadas diante da parede aos pés do colchão; este, parece atirado com descaso, coberto com um lençol praticamente em farrapos; um modesto guarda-roupa ocupa o espaço ao lado da porta, na parede oposta à janela. Encontro um par de sapatos atirados no centro do quarto. Examino-me com crescente desconforto, como se não me reconhecesse, da mesma forma que não reconheço o lugar. Mas sinto-me estranhamente lúcida, alerta. Ao calçar os sapatos, descubro-me no espelho da penteadeira e me vejo pálida, olhos fundos, cabelos desalinhados, vestindo uma camiseta escura, uns jeans novos, um pouco largos, que me desagradam. E eis que um intenso déjà vu parece clarear toda a cena. A sensação prolonga-se, os gestos repetindo mecanicamente um enredo já ensaiado, de modo que vou percebendo o movimento seguinte com a antecedência de frações de segundo. Sigo até a porta, sobre o ranger do assoalho, giro a maçaneta e entro num corredor iluminado por uma claraboia.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

CONTOS CORRENTES

RELATIVIDADE
(Edmar Monteiro Filho)

“Somente num mundo virtual a mão pode ao mesmo tempo desenhar e ser desenhada, pode um plano ser ao mesmo tempo piso e parede e pode uma mesma escada ser usada na mesma direção para subir e descer.”
M. C. Escher

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            Entre as engenhosas peças de madeira, o cadáver intacto de um botão de rosa, um envelope endereçado a ela e um molho de pequenas chaves: enfim, as razões para todo aquele ruído.
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Por isso, a caixinha de segredo atirada ao chão com impensada e perfeita fúria para vê-la aberta, em pedaços e surpresas.
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Anos e anos, toda uma vida de girar, apertar, torcer o objeto gasto de insucessos, essa diversão de perdida graça, tempo perdido em encontrar a solução, agora não apenas para o cloc-cloc dos pequenos blocos de madeira, deslizando ou se negando uns sobre os outros, mas de alguns metais batendo-se no conteúdo. Encaixes para nada, jogo para nada, até os limites de uma tolerância que julgava eterna.
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Aberta e revirada sobre a cama, para espalhar conteúdo: camisa nova na embalagem, cigarro, infalíveis exemplares de Tex, meias, cuecas, alpargata uruguaia

sexta-feira, 9 de junho de 2017

CONTOS CORRENTES

Fita de Möbius 
(Edmar Monteiro Filho)


           
Desperto em meio a uma sensação perturbadora que, a princípio, não reconheço. Abro os olhos. Encontro-me deitada sobre um colchão fino, no interior de um aposento acortinado que cheira a poeira e suor velho. Meu corpo dolorido reage ao movimento para me pôr em pé e andar até a janela, onde a fresta de luz luta por um canto de assoalho. Abro as cortinas, ergo o basculante em busca de ar fresco e encontro o amanhecer sobre um pequeno quintal cimentado, cercado de muros altos de tijolos nus. Volto-me para o quarto, para mim mesma. Estou descalça sobre um carpete puído; uma penteadeira antiga e uma cadeira estão mal arranjadas diante da parede aos pés do colchão; este, parece atirado com descaso, coberto com um lençol praticamente em farrapos; um modesto guarda-roupa ocupa o espaço ao lado da porta, na parede oposta à janela. Encontro um par de sapatos atirados no centro do quarto. Examino-me com crescente

sábado, 13 de maio de 2017

SAINDO DO FORNO


Título: "Atlas do impossível"
Autor: Edmar Monteiro Filho
Editora: Penalux

Lançamento: 25 de maio
Horário: a partir das 19h
Local: bar Canto Madalena
Endereço: Medeiros de Albuquerque, 471
Vila Madalena, São Paulo-SP

sexta-feira, 10 de março de 2017

CONTOS CORRENTES

Em silêncio

(Edmar Monteiro Filho*)


A convivência, como a moita de "unhas de gato" que galgava o muro entre o terreiro e a casa. Arrancar os galhos teimosos e deparar-se com as marcas deixadas no seu trajeto, os sinais agarrados na tinta velha, nos tijolos: resistências. Assim como conviver, quando os traços de um se mudam ao toque de Midas de outro, para o brilho do ouro ou para a matéria escura da indiferença. Para as mães e seus filhos, a vantagem de haver partilhado as entranhas, como unhas de gato arranhando o útero.

            Nada de extraordinário em ouvir os gritos mudos de alguém na distância, mesmo distraída pelo desconforto da água gelada, endurecendo as mãos na pia da cozinha, enquanto planejando o sacrifício de uma ave para o almoço. Brusco como um susto, um cutucão ferrão nas têmporas. Fechar a torneira, tirar o avental e conferir mentalmente o paradeiro do marido, dos dois filhos, da velha na varanda, balançando-se ao sol em sua cadeira, zangando com o cão, descartada.

            O menino mais novo, o mudo, cambaleando pelo caminho cercado de geada, vindo dos estábulos. Aflição localizada mesmo ali da janela: duas mãos tapando o rosto, errando o rumo encharcado de sangue na blusa de lã clara suja o ferrão mais fundo. Serena de pronto, o mesmo gelo da

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

CONTOS CORRENTES

ÚLTIMA CHAMADA
                 (Edmar Monteiro  Filho)                                   


Letras, números, setas e cores: organizar o intrincado. Mas essa ordem, seu objetivo de conduzir o passageiro com segura certeza ao seu destino, oculta uma malha infinita e cruel de luzes, escadas, ônibus, corredores, esteiras, lojas, guichês, praças de alimentação, tudo recoberto por ares de higiene, polidez e sofisticação que intimidam e oprimem. O passageiro prevenido caminha sobre o piso imaculado sem pressa ou se deixa levar pelas esteiras por puro deleite. Um minuto diante das vitrines, mesmo revirar as prateleiras com os olhos, perguntar por um ou outro produto para comparar mentalmente os preços, fazendo as conversões para a moeda de seu país. Parar diante do painel com a programação de partidas e chegadas, as bandeirinhas das companhias, descansar a bagagem por um instante e seguir em frente. Mas o passageiro atrasado, que acompanha os minutos escorrendo, esvaziando as chances de chegar a tempo à porta de embarque e completando potes e potes da sua ansiedade, atravessa os corredores martelando o fôlego, devorando as indicações coloridas que intimam a virar à esquerda, seguir adiante, subir a escada rolante, mas não, voltar, dobrar à direita, não há tempo para perguntar e tentar decifrar o idioma indecifrável da pressa.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

LANÇAMENTO DA SEMANA

TÍTULO: O rei condenado à morte e outras histórias
AUTOR: Edmar Monteiro Filho
GÊNERO: contos
EDITORA: Penalux

DATA: 25 de fevereiro
HORÁRIO: 19h53
LOCAL: Botequim Rosário
ENDEREÇO: Largo do Rosário, Amparo SP

quinta-feira, 30 de maio de 2013

CANTOS DE AMIGOS

O poema que segue está no livro Halma Húmida, de meu amigo Edmar Monteiro Filho, de quem há muito não tenho notícias.

TORRE DE BABEL

Revogados os privilégios
das palmeiras
os privilégios íngremes
dos rochedos
insípidos monarcas
aspiraram a erigir seus tronos
nas alturas