![]() |
Fita de Möbius
(Edmar Monteiro Filho*)
Desperto em meio a uma sensação perturbadora que, a princípio, não reconheço. Abro os olhos. Encontro-me deitada sobre um colchão fino, no interior de um aposento acortinado que cheira a poeira e suor velho. Meu corpo dolorido reage ao movimento para me pôr em pé e andar até a janela, onde a fresta de luz luta por um canto de assoalho. Abro as cortinas, ergo o basculante em busca de ar fresco e encontro o amanhecer sobre um pequeno quintal cimentado, cercado de muros altos de tijolos nus. Volto-me para o quarto, para mim mesma. Estou descalça sobre um carpete puído; uma penteadeira antiga e uma cadeira estão mal arranjadas diante da parede aos pés do colchão; este, parece atirado com descaso, coberto com um lençol praticamente em farrapos; um modesto guarda-roupa ocupa o espaço ao lado da porta, na parede oposta à janela. Encontro um par de sapatos atirados no centro do quarto. Examino-me com crescente desconforto, como se não me reconhecesse, da mesma forma que não reconheço o lugar. Mas sinto-me estranhamente lúcida, alerta. Ao calçar os sapatos, descubro-me no espelho da penteadeira e me vejo pálida, olhos fundos, cabelos desalinhados, vestindo uma camiseta escura, uns jeans novos, um pouco largos, que me desagradam. E eis que um intenso déjà vu parece clarear toda a cena. A sensação prolonga-se, os gestos repetindo mecanicamente um enredo já ensaiado, de modo que vou percebendo o movimento seguinte com a antecedência de frações de segundo. Sigo até a porta, sobre o ranger do assoalho, giro a maçaneta e entro num corredor iluminado por uma claraboia.






