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Muitas vezes tenho encontrado a qualificação de fulano ou
beltrano como utópico. E isso de maneira pejorativa. Utópico como defeito,
adjetivo que condena o pensamento de uma pessoa. Isso acaba mexendo com essa
mania de procurar o sentido exato das palavras, mania que teima em não me
abandonar. A maioria das pessoas usa as palavras em acepções tão disparatadas
que provocam ambiguidades prejudiciais ao verdadeiro sentido pretendido. São
famosos os casos de duplo sentido que levaram a algum tipo de desastre.
Outro dia, por exemplo, ouvi um caminhoneiro atacar um
advogado, com quem estava irritado, chamando-o de ignorante. Pelo comportamento
geral (e Deus me livre de menosprezar o caminhoneiro como ser humano), o
vituperador não teria mais do que três ou quatro anos de escola. Ora,
ignorante, segundo o Aurélio, é a pessoa que não tem instrução, que não sabe
nada ou sabe pouco. E a pessoa que xingou tanto não sabia o que falava que não
sabia o significado da palavra. Só pelo contexto era possível entender que ele
não estava querendo significar a falta de conhecimento do advogado. Mesmo
assim, parecia muito contente com o que havia dito.
Tenho consciência de que a língua não está lá dentro do
dicionário, engessada e pura. Ela está na boca do povo, que a usa e transforma.
Em gramática histórica não se aprende que são as crianças e os adultos incultos
os que, por ignorância, transformam a língua? Noctem não se transformou em
noite nos escritos de eruditos. Isso aconteceu na boca dos falantes de menor
cultura.
O mesmo ocorre com pessoas que veem sentido pejorativo em
utopia. Ah, fulano não é uma pessoa confiável, ele vive na lua, é um utópico.
Pelo contrário, trata-se de um dos mais belos elogios que se possa fazer ao
pensamento de alguém. Valho-me, neste caso, do sociólogo húngaro Karl Mannheim
e de seu célebre “Ideologia e Utopia”. A palavra utopia tem uma história mais
ou menos longa e veio sofrendo alterações semânticas. Do grego “não lugar” até
os dias atuais a distância não é pequena. Quando se quer, contudo, um texto com
precisão dos significados, como no discurso científico, é necessário que se
utilize uma acepção consagrada por alguém cuja autoridade seja incontestável. E
o mesmo acontece com a palavra ideologia, tão maltratada pela mídia. Karl Marx
também carimbou esta palavra com o seu pensamento, mas é um sentido menos
utilizado. Fiquemos com o outro Karl, aquele com trânsito menos problemático
entre nós.
Sem o pensamento utópico, o homem continuaria habitando
florestas, vestido de tanga e comendo carne crua com o nariz enfiado nas
carcaças. A utopia, segundo Mannheim, é que move a sociedade para a frente,
para a transformação, e se essa ideia lhes parecer iluminista, fiquemos apenas
com a transformação. Sem a utopia dos
Ford e Santos Dumont, andaríamos até hoje de carreta de boi. O que, para
muitos, talvez fosse o transporte mais adequado, pois o pensamento ideológico,
segundo o mesmo autor, é em essência conservador. Sem a utopia de Saint-Simon,
Robert Owen, Charles Fourier e tantos outros, estaríamos trabalhando 16 horas
por dia, para comer uma côdea de pão seco.
E tem muita gente por aí dizendo que as ideologias acabaram.
Não é mesmo de rir? Bem, aí sim, me
parece que cabe a palavra ignorância.

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