terça-feira, 19 de junho de 2012

QUESTÕES DA ESTÉTICA DA LITERATURA (5)

(Anotações fragmentárias de um livro considerado fundamental para os estudos literários: Teoria da Literatura, de René Wellek e Austin Warren)  


A DISCUSSÃO CONTINUA

Pág. 28 - "As principais distinções a estabelecer devem destacar o uso literário, o uso diário e o uso científico da linguagem. Um recente exame deste assunto por Thomas Clark Pollock, The f Literature, embora no conjunto seja verdadeiro, não parece inteiramente satisfatório, em especial ao definir os termos da distinção entre os usos literário e diário da linguagem. O problema é crucial, mas está longe de ser simples na prática, uma vez que a literatura, diferentemente das outras artes, não tem um meio de expressão próprio,  e uma vez que indubitavelmente existem muitas formas mistas e muitas  transições subtis desses usos. É bastante fácil
diferençar a linguagem da ciência da linguagem da literatura. O simples contraste entre 'pensamento' e 'emoção' ou 'sentimento' já, porém, não é suficiente. A literatura contém sentimento, realmente, mas a linguagem emocional não está confinada à loiteratura: basta atentarmos numa conversa de namorados ou numa discussão vulgar. Contudo, a linguagem científica ideal é puramente 'denotativa': visa a uma correspondência de um para um entre o signo e a coisa significada. O signo é completamente arbitrário, e portanto pode ser substituído por outros sinais equivalentes."

Obs. Na linguagem científica tanto quanto em qualquer texto informativo, o eixo paradigmático (lexical) pode propor substituições. Ex.: Uma garota linda, ou Uma bela menina, do ponto de vista da informação não altera nada. Na linguagem literária a substituição é transgressora e atenta contra a inviolabilidade do texto do autor.

"O signo é, além disso, transparente: isto é, sem chamar a atenção sobre si próprio, dirige a nossa atenção inequivocamente sobre a coisa referida."

Obs. Em seu livro Qu'est que ce litterature?, Sartre cria a metáfora da palavra como vidro inteiramente transparente na linguagem informativa; e da palavra como vidro colorido na linguagem literária. Antes da coisa além do virdro, o próprio vidro colorido se mostra.

"desta forma, a linguagem científica tende para um sistema de signos, como o é a matemática ou a lógica simbólica. O seu ideal é uma linguagem tão universal como a characterística universalis que Leibnitz já no fim do século XVII começara a projectar. A linguagem literária, comparada com a científica, parecerá deficiente nalguns aspectos. Abunda em ambiguidades; como qualquer outa linguagem histórica, está cheia de homónimos e de categorias arbitrárias ou irracionais como o gênero gramatical; é permeada de acidentes históricos, por recordações e por associações. Numa palavra: é uma linguagem altamente 'conotativa'. Acresce que a linguagtemj literária está longe de ser apenas referencial: tem o seu lado expressivo, comunica o tom e a atitude do orador ou do escritor."

(continua) 

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