domingo, 8 de julho de 2012

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (15)

Continuamos transcrevendo fragmentos do Capítulo I, do livro Teoria da Literatura, de Vítor Manuel de A. e Silva.
Como é fácil observar, antes de aprofundar o assunto, o autor, como qualquer autor, sente-se na obrigação de definir, para Quesdelimitar e precisar sua ação, o assunto que pretende abordar.
Estamos nessa fase do estudo.

Págs. 36 e 37 - "Há, com efeito, elementos textuais considerados num período histórico como extraliterários - e até antiliterários - e que noutro período histórico podem vir a ser considerados como elementos textuais literários. Assim, por exemplo, o classicismo francês excluía dos textos literários temas de origem e natureza folclórica e elementos lexicais de cunho realista ou próprios do comportamento linguístico de estratos sociais inferiores.

Posteriormente, o pré-romantismo e o romantismo conferiram àqueles temas estatuto literário e o realismo e o neo-realismo converteram em relevante factor textual literário aquele léxico postergado pelo código do classicismo francês. Estas transformações, próprias de um sistema aberto como o sistema literário, no qual ocorre um constante e complexo fluxo de entradas e saídas em relação à esfera da não-literatura, são originadas por alterações do sistema de normas aceite pela comunidade literária - escritores, leitores, críticos, teorizadores, professores, etc. -, sob a acção de mudanças operadas historicamente nas estruturas sociais e culturais, e representam um alargamento do conceito de literatura, mas não propriamente a emergência de uma conceituação radicalmente nova da literatura. Não é pelo facto de as tragédias de Racine não possuírem um léxico característico dos estratos sociais inferiores da França de Luís XIV que tais textos deixam hoje de ser considerados como obras literárias, nem é pelo facto de nos romances de Faulkner ou de Jorge Amado ocorrer com frequência um léxico daquele tipo que esses textos são considerados como textos literários. Se as rupturas operadas na dinâmica do sistema literário pelos chamandos movimentos de vanguarda podem impor - e têm imposto frequentemente - um alargamento do conceito de literatura e uma diversificação dos factores considerados como potenciais elementos configuradores da textualidade literária, quer no plano técnico-formal, quer no plano semântico, não há notícia de que tais rupturas, mesmo as geradas pelos mais radicalistas movimentos de vanguarda, tenham alterado profunda e generalizadamente os juízos sobre a natureza literária dos textos até então considerados como textos literários."

(CONTINUA)

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