terça-feira, 10 de julho de 2012

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (16)

Edward Gibbon

Oberve-se que até o momento o autor está preso entre dois polos. Resumindo: se abrir demais o conceito, entram para a categoria de literários textos que não deveriam. Se fechar excessivamente, textos literários deverão ficar de fora da categoria. Acompanhemos o desenvolvimento da discussão.


Págs 37, 38 e 39 - "Por outro lado, há textos que terão sido produzidos como extraliterários, quer na intenção do autor, quer no juízo do público leitor seu contemporâneo, e que podem, mais tarde e noutro contexto sociocultural, vir a ser integrados no domínio da literatura. John Ellis menciona como caso paradigmático desta possibilidade a obra de Gibbon, Decline and fall of the roman empire. Observemos, primeiramente, que é aleatório afirmar, em casos deste teor, que um texto tenha sido produzido intencionalmente como extraliterário. Registre-se, depois, que serão relativamente escassos em número os textos produzidos como estraliterários, recebidos como extraliterários pelos leitores seus contemporâneos e redescobertos e reavaliados como textos literários por futuros leitores. Sublinhe-se, enfim, que, quando se redescobre e se reavalia como literário um texto até então assim não considerado, se desocultam, se iluminam, se fazem avultar elementos, propriedades ou valores que o próprio texto comporta e que não resultam de uma mera projecção no texto da capacidade criativa dos seus leitores. E por isso um texto como Decline and fall of the roman empire pode ser lido literariamente como uma narrativa, mas não é possível ler literariamente um tratado de economia ou um código de direito civil.
Pode-se admitir a existência de uma espécie de escala da literariedade, em perfeita consonância com o conceito wittgensteiniano de 'semelhanças de família', variável de um para outro contexto histórico e sociocultural. Se nos ativermos, por exemplo, ao código literário do romantismo, podemos determinar como centrais nessa escala textos como poemas líricos, romances, novelas e dramas e como tendencialmente periféricos textos como memórias, biografias, ensaios, crónicas de viagem, discursos parlamentares, etc. Mas nessa escala não cabem - nem no seu centro, nem na sua periferia - textos como Die Phänomenologie des Geists de Hegel ou como as Mémoires sur l'electromagnétisme et l'électrodynamique de Ampère. Com efeito, em nosso entender, não é passível de corroboração empírica a afirmação de John Searle segundo a qual 'the literary is continuous with the nonliterary. Not only is there no sharp boundary, but there is not much of a boundary at all.' Semelhante asserção, aliás, parece-nos proceder de um grave erro que examinaremos no capítulo seguinte: o erro que consiste em considerar o texto literário como estrutural e funcionalmente dependente apenas de um sistema semiótico - o sistema linguístico."

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