sexta-feira, 26 de outubro de 2012

MAIS UM CONTO INÉDITO


Em família

 

 

 

Todos reunidos em volta da cama com seus olhos abertos resplandecentes de esperteza, todos fechando em círculo as saídas com seus corpos grandes, à espera. Um muro de músculos e hálitos plantado em sua volta. Eles sabiam de tudo. Então eles sabiam de tudo. Completaram suas idades, desde o início, sabendo de tudo, mas sem coragem de revelar que sabiam.
Lívia, de frio, encolhe-se por baixo do edredom e puxa o lençol para esconder o rosto. A luz, ah, esta luz a incomoda. A luz e os olhos que a vida toda se mantiveram mudos, enquanto espreitavam cada canto e seus segredos. Três pares de olhos amoitados ali mesmo, dentro de casa, da sua casa, a caverna que julgava indevassável.

Por que fingiam acreditar, se já sabiam, então, toda a verdade?

O desejo de sumir num desmaio está preso à língua como um frio, um frio grosso que a imobiliza. Não há mais o que dizer, e mesmo a confissão não a pode redimir ou salvar da vergonha. Seus filhos, então, podem fingir, mas é impossível não perceber acusação em seus olhos. E por que tanta luz, quem teve a idéia desta iluminação exacerbada?

No quarto, no ar do quarto, respira-se o cheiro do suor que os lençóis absorveram enquanto a febre ainda renitia. Ninguém ousaria acusá-la, naquele entanto, com a morte em revoada silenciosa ali no pequeno espaço entre o céu e a terra. Antes embarcar naquele coche escuro e definitivo a sofrer as agruras da vergonha.

Beatriz, a sua Beatriz, principalmente ela, deve orgulhar-se, neste momento, da vitória. No transcorrer de seu crescimento, todos os dias, quantas e quantas palavras foram-se acumulando, que agora jazem inúteis no monturo das mentiras! Não foi o que disse o brilho de seus olhos pontiagudos tão logo ela chegou? Não, jamais poderá dirigir-lhe novamente qualquer palavra, pois tornaram-se todas suspeitas de inutilidade.  

O frio entra pelos interstícios abertos entre o edredom e o lençol. Lívia sente-se desprotegida, mesmo procurando prender com pés e pernas a orla de sua coberta. Ela se concentra na operação com muito método, prendendo primeiramente os panos com firmeza por baixo dos calcanhares; manobrando em seguida para que as pernas estiradas enrolem-se nas laterais, com cuidado para que não restem frinchas por onde possa passar o frio, e com ele a vida que o marido e os dois filhos trouxeram-lhe em oferta. Ela os quer fora, livres de seu contato e do suor que cheira mal. Pensa apenas em ficar só, seu corpo e suas culpas, para poder descansar.

Muitas vezes tivera de afastar as suspeitas sobre o comportamento de Armando. Ele, o mais quieto, quem mais examinava os cantos da casa, principalmente os cantos que luz nenhuma conseguia iluminar. Armando observava a teia de uma aranha como se estivesse pensando em lhe copiar o modelo. Atento. O último espaço de uma gaveta, a paisagem cheia de penumbra por trás da geladeira, a poeira acumulada por cima dos armários, de tudo tinha ciência, mas uma ciência calada que lhe vinha morrer no alto da garganta. Atrapalhava-se um pouco ao ser surpreendido em alguma empresa de que só ele tinha conhecimento. Mas isso por pouco tempo. Mudava de posto, escolhia atividade diferente, e nada se arrancava de suas descobertas.

  Sua respiração úmida e quente é um barulho ritmado que o lençol abafa subindo e descendo. O ar, cada vez mais insuficiente. Pensa em mostrar o rosto debaixo de toda aquela iluminação, entretanto reluta, pois não quer suas lágrimas expostas como um pedido de piedade.

Finalmente, o que já vinha temendo desde que se formaram em barreira ao seu redor. Leonardo senta-se à beira da cama e uma de suas mãos enfia-se por baixo das cobertas à procura de Lívia. Ela encolhe-se mais, agarrando-se aos próprios ombros e enfiando o queixo entre os seios e a interseção dos braços em cruz. Violada a vida inteira em suas intimidades pela própria família, sem que o soubesse, não permitiria, agora, contato algum. A cama, Leonardo, a cama é meu último reduto. Não tente, meu pobre marido, dar prosseguimento a esta comédia. Por que a deixaram pensar estes anos todos que estava a salvo da bisbilhotice alheia? Que os filhos se fechassem mudos, ainda relevava. Chegava quase a entender. Ah, não, mas Leonardo, com seu ar sempre alheado de tudo, colhendo da vida apenas recortes e beiradas, Leonardo não pode ter o silêncio perdoado.

Ouve o cochicho dos filhos, percebe algumas sílabas isoladas e consegue apenas supor que seja ela mesma o assunto dos dois. Então se aflige ao concluir que não é mais do que um objeto familiar, um objeto neutro já, e em cuja presença não é preciso manter qualquer discrição. Sente raiva na garganta entupida de impotência e nas veias da garganta que se estufam de um sangue grosso de veneno. E por que não vão embora, não vão conversar sobre o que quiserem à beira de seu próprio túmulo?

Quando os via boca no ouvido,  escondendo-se na edícula ou rente ao muro nos fundos do quintal com aquele riso engolido de crianças, como não suspeitar de que falavam com maldade sobre a mãe, como pudera ser tão tola e por tanto tempo? Se encontrava suas coisas remexidas no closet, atribuía-se com a maior facilidade a culpa do esquecimento. Claro, em escaninhos seus ninguém  podia mexer. E todos sabiam disso.

Perdão, perdão, perdão, mas quem disse que eu queria perdão, se o perdão é sempre jogado de cima para baixo? O ar vai ficando cada vez menor debaixo do lençol, e Lívia abre uma janela que dá para a parede, onde ninguém e por onde recebe o frio que lhe vem do exterior. Todos eles, que te perdoamos. O perdão é forma de domínio. Eu, perdoada para arrastar comigo uma dívida pelos dias que me restam! Ah, não, só o ódio me salva.

Pela janela recém-aberta, Leonardo consegue enfiar a mão sorrateira, talvez insidiosa, e encontra o rosto molhado da esposa, que não tem mais o que encolher. Lídia grunhe incomodada com a tamanha aspereza dos dedos em suas pontas quase cegas. As pálpebras pressionam ainda mais seus olhos escondidos, em desespero por causa de sua impotência. Com dedos nervosos, o marido insiste no perdão, mas o perdão não purifica. Por que nenhum dos três a ofende com imprecações  e terríveis vitupérios para que ela finalmente possa desvencilhar-se da culpa? Por que no momento extremo e vencidos todos os medos não a deixaram ir-se embora?

Podia ser que Beatriz fosse ao mesmo tempo a mãezinha de suas bonecas a brincar na sala por trás de poltronas e a bruxa dissimulada conhecedora de graves segredos? Como era então a infância, que ainda incompleta, transformava-se em veneno! Ah, Beatriz, que aos onze anos já falava sem esmorecimento sobre os dias previstos de sua menstruação! Menina-mulher, que se escondeu todos estes anos com o segredo colado nas paredes de sua boca. Com quem trocava, sua Beatriz, com quem se aliviava do peso deste segredo e sua sordidez? Impossível que fosse com o irmão, dois anos mais novo e, como o pai, calado, movendo-se sorrateiro por onde houvesse menos claridade.

Por baixo do lençol, Lívia sente que os filhos também se aproximam A cama range sob o peso dos dois. Finalmente, depois do perdão, vêm os três para colher o resultado: os restos de uma mulher a quem trouxeram de volta à vida com o propósito de perdoá-la para sempre, para que nunca mais perca as marcas sujas de seu rosto.

 

 

 

 

 

   

2 comentários:

  1. Notável! Nos remete a uma busca do que se pudesse ter acontecido. Uma trama que envolve até chegar ao fim do texto. Amei! Que bom ter conhecido você!

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  2. Ô, Marisete, seu comentário me envaidece, mas me deixa com vontade de conhecer algo seu também.

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