Festa de aniversário
Alzira
Este meu filho, também, só inventa de fazer aniversário nas brasas de
fevereiro. Não agüento mais esse charco de calor por cima de mim, e tomar
refrigerante, ah, não, nem por decreto: bebida de criança. Mas tem toda esta gente
aí tomando cerveja e, apesar da promessa que fiz ao Júlio, não vou resistir sem
dar um mergulho num copo. Um pecado de vez em quando só pode me fazer bem. E
sei eu quanto ando necessitada de algum. Aproveito agora, que ele está no
alpendre ensaiando um namoro com qualquer uma daquelas meninas. O meu Júlio
querendo ficar homem. Não sei quem foi que abriu esta latinha, mas isso também
não me interessa.
Essa mulher aí deve ser mãe de uma das meninas. Nunca tinha visto. Ela me olha sorrindo e pisca um olho com malícia. Respondo só com as sobrancelhas erguidas, porque não entendo o sorriso gordo dela nem seu olho piscando pra mim. Me abano com mais violência agora e lhe devolvo o sorriso com o recado bem claro de que só bebo porque não agüento este calor. A mulher gorda vai até o isopor e traz duas latinhas, então já sei de quem roubei o primeiro copo de cerveja. Ela abre as duas e enche meu copo. Eu devia recusar, por causa da promessa que fiz ao Júlio, mas entre senhoras, como nós, acho que seria uma indelicadeza. Por isso aceito e agradeço. Não sei se ela percebe que invertemos os papéis. Ela se fazendo de anfitriã, talvez pensando que eu também seja convidada, como ela.
Essa mulher aí deve ser mãe de uma das meninas. Nunca tinha visto. Ela me olha sorrindo e pisca um olho com malícia. Respondo só com as sobrancelhas erguidas, porque não entendo o sorriso gordo dela nem seu olho piscando pra mim. Me abano com mais violência agora e lhe devolvo o sorriso com o recado bem claro de que só bebo porque não agüento este calor. A mulher gorda vai até o isopor e traz duas latinhas, então já sei de quem roubei o primeiro copo de cerveja. Ela abre as duas e enche meu copo. Eu devia recusar, por causa da promessa que fiz ao Júlio, mas entre senhoras, como nós, acho que seria uma indelicadeza. Por isso aceito e agradeço. Não sei se ela percebe que invertemos os papéis. Ela se fazendo de anfitriã, talvez pensando que eu também seja convidada, como ela.
O Júlio atravessa a sala atrás do séqüito de meninas que ele pastoreava
no alpendre. É de longe o garoto mais bonito da festa. O meu Júlio. O grupo se
dirige pra cozinha. Ele passa muito sério, de passo lento, retrasado,
procurando meus olhos, que se escondem numa conversa recente com o marido da
vizinha da esquerda, que me perguntou quantos anos o Júlio estava completando. Bonitão,
este vizinho, e me parece que está caidinho por mim. Pergunta meio tola, a
dele, que faz tempo me olha de olho quase vidrado, querendo puxar conversa. Fico
virada para o vizinho, mas bem que noto, de esguelha, a censura no olhar de meu
filho. Aquela ruga que eu conheço na testa.
Uma das meninas volta da cozinha com uma bandeja de salgadinhos, e
oferece pra gorda aqui do lado. Ela pega um só na pontinha dos dedos com cara
de nojo. Eu pego dois pastéis e uma empada. Enfim, estou na minha casa. Então
não tenho como recusar a cerveja que alguém me oferece. Não sei de onde
apareceu esta garrafa, mas apareceu em boa hora.
Em cima da mesa, pratos de papelão com restos de bolo, uma travessa
grande com o bolo das velinhas pela metade, garfos e facas de madeira, garrafas
vazias de refrigerante, farelos de todo tipo, guardanapos de papel usados. De
vez em quando aparecem esses garotos para se servirem de qualquer coisa. Eles
entram barulhentos, encobrindo o som que vem do aparelho ligado na cozinha,
onde os amigos do Júlio resolveram fazer a festa particular deles.
O Júlio, não se passam cinco minutos que ele não venha até o fim do
corredor para me espionar. Ele já sabe que eu descumpri a promessa, mas,
caramba, quem agüenta tanto calor?!
O casal de noivos, do outro lado da mesa, encostados à janela, olham pra
mim sorrindo e dizendo alguma coisa. Ele veio de gravata, meu Deus. Com este
calorão. Não consigo entender o que eles dizem, porque o barulho das conversas
se mistura com as gargalhadas e com o fragor de bate-estaca que vem pelo
corredor e desemboca aqui na sala. Não entendo, mas finjo que concordo
sacudindo a cabeça. Deve ser alguma bobagem, porque eles são muito jovens e
parecem apaixonados. A noiva tem uma cara muito enjoada. Acho que não está
gostando da festa.
Um dos colegas de meu filho vem pegar um pedaço de bolo que enfia quase
inteiro na boca e fica com um bigode de glacê. A gente nunca mais vê a cor dos
cabelos destas crianças porque eles nunca tiram os bonés. O garoto me olha com
ar de deboche, e eu pergunto o que é que foi. Acho que é filho da gorda. Tem
jeito.
Eu sei que o mundo oscila só pra mim, mas isso também não me interessa. O
movimento de gente que entra e sai é muito grande e é uma coisa que me deixa
meio tonta. Agora parece que a sala toda cai na gargalhada, as pessoas todas
muito alegres, e só eu não sei por quê.
Não sei quantas cervejas já bebi, mas não podem ser poucas. A mulher
gorda que eu nunca tinha visto me pergunta pela terceira vez se estou me
sentindo bem. Abro muito os olhos e digo que estou bem, muito bem, e solto
minha gargalhada, no fim da qual peço mais uma cerveja, e acho que minha voz
não está muito clara, eu sei, mas é por causa da língua ocupando muito espaço
na boca. O que mais me irrita é esta gente toda olhando pra mim com olhos
grandes e parados, cochichando uns com os outros, oscilantes, todos eles, como
se estivessem numa festa, eu subindo na roda-gigante, meu Deus, que vertigem.
Agora estou sentindo o estômago embrulhado e me seguro na cadeira com
medo de cair. Alguém acendeu a luz. Quem foi que acendeu a merda desta luz? Não
consigo mais reconhecer rosto nenhum. Meu estômago está embrulhado e eu acho
que vou cair.
A primeira golfada quase atinge a mesa. É um líquido amarelado e muito
amargo. O vizinho dá um pulo de defesa. Meus arrancos chamam a atenção e corre
gente para todos os lados. O Júlio chega e me segura por trás, as mãos firmes
em minhas axilas. Ele sozinho, coitado, praticamente me arrasta para o banheiro.
Mulher gorda
Ela passa a mão na latinha de cerveja que eu abri pra mim. Acho que é a
dona Alzira, a mãe do Júlio. O Marcelo me apresentou a mulher, mas era um monte
de gente que só me lembro do nome. Bem que meu filho me avisou que ela enxuga
qualquer bebida. Os meninos chamam ela de esponja, mas não na frente do Júlio. Me
olha com cara de ladra e levanta as sobrancelhas. O que pode significar seu
gesto? E não pára de se abanar. É, minha filha, vá se acostumando com o calor
ou então comece a tomar chá de amora.
Trago duas latinhas pingando, bem geladas e ofereço uma à mulher que me
parece a dona da casa. Ela aceita e me olha um pouco encabulada. Deve ser por
ter bebido a minha cerveja. Quem será este homem aí do lado que come a dona
Alzira com os olhos? Ela olha em volta, cuidadosa, então desfralda sua
bandeira. Eu finjo que não estou vendo as manobras dos dois.
O Marcelo instalou o som lá na cozinha porque lá eles têm mais espaço.
Aqui na sala, neste aperto, com esta mesa enorme e suja atrapalhando, os
meninos não iam ter como dançar. As meninas passam rindo e atrás delas vem o
aniversariante. Ele repara na mãe bebendo e faz cara feia. Olhe só, a safada,
finge que está conversando com este homem aí e não encara o filho.
Uma das meninas volta da cozinha com uma bandeja de salgados. Por minha
vontade comia metade deles, mas a sala está cheia de gente olhando. Tiro uma
empadinha e sacudo a cabeça que não, estou satisfeita. O homem que está dando
em cima da dona Alzira descobre as garrafas geladas de cerveja. Ela pega três
salgados de uma só vez. Acho que agora é que a festa está começando. Faz umas
três horas que se cantou o parabéns-a-você e estava tudo uma chatice, mas agora
alguma coisa vai acontecer.
O Júlio aparece toda hora na boca do corredor com cara de quem fiscaliza
a mãe. Que falta de compostura: precisar da fiscalização do filho. O Marcelo vem
até a sala, finalmente, e pega um pedaço de bolo. Deve estar morrendo de fome,
o coitado, socado naquela cozinha. Ele chega a boca branca de glacê perto do
meu ouvido e diz não é bem como eu disse? Depois olha rindo para dona Alzira, e
ela parece que se irrita porque pergunta muito séria o que é que foi.
A dona Alzira está muito pálida e suando. Pergunto a ela se se sente bem
e tenho de repetir três vezes porque ela arregala muito os olhos e parece não
entender nada do que acontece em sua volta. Pra mim ela já está é meio
chumbada. Por fim, responde que está bem, muito bem e solta uma gargalhada que
ninguém entende. Então pede mais uma cerveja, e este homem que está dando em
cima dela se apressa a buscar a bebida, e aproveita para acender a luz.
Mas o que é isso? Ela quase vomitou por cima da mesa, a indecente! A
sorte é que o Júlio andava por perto e veio socorrer a mãe. O homem que trouxe
a garrafa de cerveja deve ter saído respingado. Saiu batendo um guardanapo na
calça. Coitado do Júlio, com uma mãe assim, é a cruz dele. Ela deve ser uma mulherzinha
muito da à-toa.
Vizinho
Sem esse filho grudado nela o tempo todo, a história já teria sido outra.
Desde que os dois se mudaram para cá, é a menor distância dela que consigo.
Muitas vezes trocamos sorrisos a distância, e isso com muito disfarce, que a
Rita nunca se distrai. É um ciúme pior do que uma doença. Não me conformo é que
uma mulher bonita como ela, sem marido aparente, se deixe dominar por um
pentelho como este Júlio. Mas é claro que sem agradar o aborrecente jamais vou
ter oportunidade de chegar à mãe. Andei dando umas caronas a ele em dia de
chuva, e cá estou eu, na sala da Alzira, com ela me engolindo com os olhos. Este sorriso dela é que me mata. É um convite
para um pedaço de paraíso, numa ilha deserta, entre bosques de pinheiros, relva
verde cobrindo a terra e moitas de flores, de muitas flores, todas coloridas e
perfumadas. Meu Deus do céu, só porque pergunto quantos anos o garoto está
comemorando, ela não pára mais de conversar comigo. E na minha cabeça vem a
palavra alfombra. Ah, sim, numa ilha deserta.
Com esse bando de meninas atravessando a sala, não entendo bem o que a
vizinha me diz, mas concordo, ah, sim, concordo com tudo que ela disser. O
filho passa pela sala com cara azeda e nos queima com os olhos. No início do
corredor ainda se vira, fiscal como ele é.
Uma das meninas volta da cozinha com uma travessa de salgadinhos e me
levanto para buscar no freezer uma garrafa de cerveja bem gelada. Abro-a e a
ofereço à Alzira, que está mastigando. Ela me agradece com um sorriso feliz e
dadivoso. Se a sala estivesse com menos gente, talvez fosse possível aprofundar
algum assunto mais íntimo. Neste aperto, os assuntos são todos comunitários. E
a Rita não demora muito a chegar. Não conseguimos progresso nenhum e é uma pena
perder uma oportunidade destas.
O casal de noivos, do outro lado da sala, está querendo conversar com a
Alzira, mas o barulho é grande e ela se mostra irritada, e acredito que seja
porque não ouve nada. Aparece um garoto vindo da cozinha e corta uma imensa
fatia do bolo, lambuzando a boca e o queixo. Ele cochicha alguma coisa no
ouvido dessa mulher gorda que nos fiscaliza o tempo todo, esta vaca. A Alzira olha pra ele com raiva e pergunta o
que é que foi. Se o garoto se mete a besta, dou uns empurrões nele. Onde já se
viu, provocar a própria dona da casa.
Vou até o comutador e acendo a luz. Aproveito para trazer mais uma
garrafa de cerveja. A Alzira começa a me preocupar. Está extremamente pálida e
abre muito os olhos querendo com eles engolir a sala. Corajosa, esta vizinha,
esvazia o copo de uma vez só. Quanto será que ela já bebeu?
Esta não! O vômito dela respingou na minha calça. Decididamente, ela não
sabe se controlar.
A noiva
Há qualquer coisa que me enoja nesta sala, que bem pode ser esta mesa
suja, com a toalha manchada de refrigerante e gordura de salgadinhos, com
garfos de madeira lambuzados de glacê misturados com guardanapos amarfanhados
de papel. Talvez seja o cheiro de fritura que vem da cozinha nas ondas desta
música pobre de melodia, de ritmo quase imbecil de tão monótono, como suportes
de uma letra tola, de uma maliciazinha imbecil. Não sei. Mas também podem ser
as pessoas, que passam movidas pela necessidade de gastar energia, que falam,
todos eles, como num monólogo coletivo, que se entopem de comida e bebida por
não saberem fazer outra coisa.
Desde o início avisei o Ricardo que não gosto deste tipo de festinha em
que tudo é de uma vulgaridade atroz, com pessoas ordinárias gritando bobagens
que ninguém entende porque tudo se embola no ar com a fumaça dos cigarros e das
frigideiras. Mas o certo é que ninguém quer entender nada. O que eles querem é
o entorpecimento, o espírito embotado. É preciso um som que faça o ambiente
trepidar, e, nesse meio ambiente, cada um solta seus berros atávicos. E isso os
diverte.
O Ricardo fez questão de vir porque gosta do garoto, sente pena dele,
que, com a idade que tem já assumiu a condução da mãe, esta mulher grosseira
que namora o vizinho na frente de todos e se embebeda como um gambá. O garoto
já procurou o Ricardo várias vezes no fórum, pedindo socorro por causa da mãe.
Nós precisamos ir embora e o meu noivo diz isso a anfitriã, acrescentando
que ela deve moderar um pouco no consumo da bebida. Ela sacode a cabeça, que
sim, sim, mas continua esvaziando os copos de cerveja que este homem aí do lado
vai empurrando nela. E é claro, com intenções bem conhecidas. Ela oscila na cadeira
e não se levanta para nos levar até a porta.
Finalmente, alguém teve o bom-senso de acender a luz. O Ricardo se
despede de um conhecido e eu já estou perto da porta, pois não suporto mais o
cheiro e o barulho deste lugar.
Meu Deus, a mulher está vomitando por cima da mesa.
Uma das meninas
Uma rainha, esta mãe do Júlio. Uma rainha sem trono, mas o modo como fala
com o nariz apontando o céu, o sorriso completo em que usa o rosto todo, a voz
clara de quem manda. Uma rainha. Quando eu crescer quero ser bonita e elegante
assim como ela. Em vez de ficar lá na cozinha tomando conta do serviço, fica
aqui na sala, exposta à admiração dos súditos. Este vizinho dela, se deixar,
engole a coitada.
A mãe do Marcelo pega uma empadinha com as pontas dos dedinhos gordos e
faz cara de nojo. Se alguém perguntar a ela por que é tão gorda, é provável que
diga, muito admirada e sacudindo a cabeça, não sei, minha filha, não sei, tomo
tanto cuidado, não como quase nada. Pois não é que a dona Alzira pega três
salgados de uma vez! Ela não tem medo de que a julguem esganada. Também, com o
layout dela, pode comer o que quiser.
Esta velhinha parece que não se decide. Ela olha para uma travessa,
examina a outra e suspira. Só pode ser de saudade. Agora ela me encara e sacode
a cabeça, dizendo com a voz estragada de velhinha que não, não posso, que o
médico proibiu qualquer fritura por causa de uma úlcera mal curada. Ela quase
chora quando retiro a bandeja de sua frente.
Bem, lá fora eu não vou. Quem quiser comer que entre. Sobrou a metade,
mas não vou levar de volta pra cozinha. Vou deixar aqui em cima da mesa e as
pessoas que se sirvam sozinhas. A mãe do Júlio esvaziou uma garrafa de cerveja
enquanto dei a volta na sala. Bem que o Júlio estava se queixando dela na
cozinha. Tinha prometido não beber, mas não se agüentou. Ainda se não der
escândalo, o Júlio comentou, já é lucro. Pobre garoto, agüenta uma barra que
não é fácil, não.
Marcelo
Que zoeira, nesta cozinha. Já começo a ficar um pouco cansado. Ainda bem
que está todo mundo animado, com meu som. Não fosse eu, esta festa do Júlio
saía mas era muito da chocha. Sacanagem isso, me deixarem até agora sem um
pedacinho de bolo. Tenho de aproveitar a seleção que botei no aparelho de som.
A Raquel se largou naquela cadeira com cara de vontade de morrer. Deixa ela lá,
descansando. Deve ter bebido algumas. Me cochicharam que um carinha desses aí
trouxe uísque escondido. Sacanagem. A
gente pediu pra eles que não trouxessem nada. Porra, mas a Raquel é muito é
estúpida se entrou nessa.
Cara, mas esta sala está com cara de velório. Minha velha, pelo menos,
parece que se diverte com alguma coisa. E acho que sei com quê. Primeiro, um
pedaço compensador deste bolo, que daqui a pouco não sobra mais nada. Bom,
muito bom. Minha mãe empurra a aba do meu boné pra nuca. Não é como eu falei?,
e ela confirma que sim, que a dona Alzira já deve ter empurrado uma dúzia de
cervejas goela a baixo. Dou um bico no copo da mãe e me arrependo. Cerveja não
bate bem com bolo. Que droga. A dona Alzira pensa que estou rindo dela e me
encara irritada. Ela me pergunta o que é que foi, mas eu ri foi da minha idéia
de misturar bolo com cerveja.
Eu vou mas é voltar pra cozinha que o ar lá está mais leve e mais
colorido.
Júlio
Não dá mais. Hoje de manhã, minha mãe me jurou que não tocava em bebida
nenhuma além de água. Mais uma vez ela jurou. Minha mãe jura com muita
facilidade porque já sabe que não é obrigada a cumprir o juramento. Sem que ela
jurasse, eu não teria coragem de convidar o Dr. Ricardo. Ele sempre me deu
muito apoio e me livrou de muita barra, agora o que eu vejo? Ela está com um
copo de cerveja na mão.
Você não me engana, dona Alzira. Não me engana mesmo. Conheço a senhora
desde que me conheço. Talvez até antes. Eu ainda não sabia o que eu era, mas você,
minha mãe, eu já conhecia. Naquele tempo, você era minha proteção, minha
provedora, você sempre dava um jeito de me tornar feliz. Mudamos muito, senhora
minha mãe. Muito. Invertemos nossos papéis? Pensa que não percebo que atenção
concentrada no vizinho é escamoteação? Mas você não me engana. Seus juramentos
já não têm valor nenhum. O Dr. Ricardo e a noiva estão vendo que não é exagero
meu, quando procuro por eles no fórum, pedindo socorro.
Bem, talvez eu esteja exagerando. Um copo de cerveja não faz mal nenhum à
dona Alzira. Ela agüenta bebida melhor do que eu. E também não vou perder o
melhor do agito que está é na cozinha. O Marcelo montou lá a central de som e
ele é muito bom nisso. As meninas me convidaram pra dançar e de vez em quando
volto aqui pra ver o que está acontecendo.
Eu queria dançar era com a Raquel, que está muito gostosinha com aquele
bustiê laranja e a barriga de fora. A sacana, porém, não larga o Marcelo,
grudada nele, sem me dar chance nenhuma. Então dou uns amassos na prima dela, a
Silvinha. É um chaveirinho, mas suporta bem o meu tamanho.
Largo a Silvinha e digo que me espere. Vou até a porta da sala espiar pra
saber o que está... Que droga! Minha coroa já está com uma garrafa quase vazia
na frente. Foi coisa deste cafajeste do vizinho, que anda dando em cima dela.
Só pode ser ele porque agora está enchendo outra vez o copo dela. Tomara que
não passe disso.
A Silvinha vem me encontrar no corredor. De rosto ela é ainda mais bonita
do que a Raquel. O problema dela é este corpinho de criança. Me sinto meio
pedófilo, dançando com a Silvinha. O Marcelo foi pra sala e procuro a Raquel,
que está largada numa cadeira com cara de quem quer morrer. É, acho que não vai
dar pé, mesmo. Ela está com jeito de quem bebeu alguma coisa diferente. Só
sendo muito cretina pra cair nessa.
Hoje de manhã telefonei pro meu pai e ele me prometeu mandar um presente.
Disse que pagava minha festa e me desejou muita felicidade. Nenhuma palavra
sobre sua ex, esta senhora a quem chamo de mãe, que jurou não dar vexame e já
nem sei quantas cervejas enxugou. Outra vez o velho insistiu pra que eu largue
esta vida e vá viver com ele. Não posso fazer isso. Alguém precisa tomar conta
da dona Alzira e ela é minha mãe e só tem a mim. Além disso, ela vive da minha
pensão.
O Marcelo aparece arrumando o boné e limpando a boca na mão. Ele me olha com
a cara cheia de malícia, e eu conheço muito bem o Marcelo. Sinto a cócega de
seu hálito na minha orelha, por onde entra o veneno dele, dizendo que a minha
mãe já está chumbada que não vê mais ninguém. Ele me dá a impressão de que sente
um prazer imenso em me dar a notícia. Largo a Silvinha nas mãos sujas de bolo
do Marcelo e vou espiar. Entrar lá e dar um esporro, que ela pare de beber
etcétera e tal, isso eu não posso fazer. Ela ficaria desmoralizada.
Mas que droga! O que eu tinha medo que acontecesse, aconteceu. Minha mãe
está lavando a sala com a cerveja que bebeu. As pessoas fogem, com medo de se
sujar, como este idiota do vizinho, e ninguém vai ajudar minha mãe. Está completamente
tonta. Se a largo, ela desaba. E ninguém vem me ajudar? Preciso carregar com
ela pro banheiro, pra escondê-la porque a curiosidade desta gente fede mais do
que o vômito dela. Morro de vergonha, mas é minha mãe. Puxa, mas ela não
parecia tão pesada. Alguém aí pode me ajudar?

Isso é que é escrever ... "o resto é prosa". Na verdade, suas crônicas são prosas, mas no sentido que diz dizer "prosa" é de deboche. Quem me dera ter esse poder de escrever assim. Ah! Viveria só "escrevinhando". Que pena que não tenho esse dom. Numa outra encarnação, quem sabe?!! De tanto ler nesta, pode ser que na próxima eu venha escrevendo!!!!
ResponderExcluirMas, parabéns, Menalton! Um dia, não sei quando, ainda chego lá!!! Preciso ler muito ... e muito ... e muito para chegar aos seus pés.
Mais uma vez: parabéns!
Um grande abraço e continue nos deleitando com textos assim, bem humorados, surpreendentes!
Zezé Capella
18/11/2012