O caso da boneca
Pendurada na traseira do caminhão coletor de lixo, a cabeça
da boneca, suja e desgrenhada, com seus olhos muito azuis e tristes, vê todas
as ruas da cidade, assiste à passagem dos automóveis, examina com atenção a
fisionomia de todos os pedestres. Mas a tristeza não abandona seus olhos azuis.
Principalmente dos bairros nobres da cidade, ela conhece
cada esquina, as casas todas, seus muros e jardins. Quando os percorre,
balouçando na traseira do caminhão, sente-se ainda mais triste, pois tem a
impressão de que já morou por estes lados.
Um dia, mudaram-lhe o itinerário, e a boneca estranhou as
ruas mais escuras, menos limpas, e as pobres casas descoloridas por trás de
jardins de dois palmos quase completamente abandonados. Não se lembrava mais
deste bairro, mas ao parar em uma das esquinas, seus olhos brilharam chispas
azuis que foram depressa perder-se no céu.
Trepada num muro baixo e de reboco estragado, ela viu uma
menina, que também a viu, e as duas se reconheceram. Ágil como um gato, a
menina pulou ao alto de uma aba do caminhão e arrebentou o barbante em que sua
amiga estava presa.
Abraçadas, fugiram para dentro de casa, onde contariam
histórias de suas últimas aventuras.

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