
Agonizante leitura
Acabo de sair de uma leitura de um atordoante romance. Não levei tão a sério o título para me agoniar logo de cara. Afinal, nem sempre devemos levar no literal o título de uma obra, mas depois das primeiras páginas, percebi que o autor estava realmente querendo alertar para o seu livro. Certamente o aviso era sério, alerta insistente para que o leitor se preparasse por algo nada comum aos olhos da banalidade. Pois bem, a literatura é, de fato, uma revelação sufocante e aguda. O livro, sem mais delongas, é o romance norte-americano Enquanto Agonizo, de William Faulkner.
Acabo de sair de uma leitura de um atordoante romance. Não levei tão a sério o título para me agoniar logo de cara. Afinal, nem sempre devemos levar no literal o título de uma obra, mas depois das primeiras páginas, percebi que o autor estava realmente querendo alertar para o seu livro. Certamente o aviso era sério, alerta insistente para que o leitor se preparasse por algo nada comum aos olhos da banalidade. Pois bem, a literatura é, de fato, uma revelação sufocante e aguda. O livro, sem mais delongas, é o romance norte-americano Enquanto Agonizo, de William Faulkner.
Decididamente, o título não é sobre os personagens, mas sim ao leitor, o qual é tragado pela história envolvente e sedutora. A sedução aqui não se faz pela via dos prazeres comuns, se faz pela necessidade de que passemos no labirinto das ações humanas, e ao passar nesse labirinto, o título passa a dizer respeito ao leitor.
Loucura, orgulho, honra e egoísmo são meras classificações verbais quando o leitor vai de companhia com a família Bundren durante seu trajeto de 16km para enterrar a matriarca no chão de sua terra natal.
A epopeia dos Bundren ganha contornos e recheios de drama ao longo da caminhada. Levar um cadáver numa carroça, com o cheiro nauseabundo humano em seu alto teor de podridão da carne, dramatiza a situação. É uma forma latente de despedida e de confirmação do fim da vida. Agonizamos juntos ao entender que o corpo de Addie Bundren pode ser, perfeitamente, uma metáfora daquilo que nos transformaremos, querendo ou não.
Além de seu instigante e diferente conteúdo, a linguagem recusa-se a ser o mais do mesmo. Ao ler o romance, percebi que Clarice Lispector estava na obra, ou melhor, a obra estava em Clarice. Nossa maior escritora moderna, com certeza, leu muito o Faulkner, pois o fluxo de consciência nesse escritor norte-americano é o encanto genial de suas letras, e desse estilo Clarice não fugia. Estilo que se retorce inicialmente ao leitor não-habitual, mas que se solta e torna-se fundamental para a originalidade e composição da obra, fazendo com que o leitor persistente saia do livro com mais afinidades com a palavra, além de torná-lo mais crítico e exigente com a literatura.
Parabéns, amigo!
ResponderExcluirMuito interessante sua interpretação da agonia do título.
Marcou-me muito a última ação do pai Bundren, que lança uma nova luz no motivo da odisseia familiar.
Bjão
Natasha