As pessoas têm necessidade do ruído: ele afasta a
necessidade de conversar, de refletir, de pensar na vida.
por Menalton Braff — publicado 24/06/2013 09:33, última modificação 24/06/2013 09:41

A imagem é muito boa, pena que não seja minha. Em artigo
publicado no dia dois de junho do ano corrente (e como corre), no Estadão, o
sociólogo francês David Le Breton afirma que na sociedade moderna o silêncio é
sentido como um terreno baldio no centro da cidade. É, portanto, necessário
dar-lhe uma destinação, ou seja, é preciso preencher esse espaço vazio com
algum ruído, com alguma coisa mais lucrativa.
A sociedade dos homens que compartilham o mesmo espaço foi
possível baseada em um princípio bastante simples e que aos poucos, por ser
simples, vamos esquecendo: o respeito. Você não invade meu espaço e eu lhe
retribuo não invadindo o seu. E estamos prontos para a sobrevivência em
sociedade. Quem já leu as Cartas Persas, de Montesquieu, e se recorda da alegoria
dos trogloditas, sabe muito bem do que estou falando. Ah, bom, você ainda não
leu? Pois está na hora de ler.
E como para alguns o silêncio corresponde a uma área de desconforto, toca a infernizar a vida dos vizinhos. A televisão ligada depois da meia-noite no mais alto volume, os aparelhos de som, domésticos ou automotivos, cada vez mais possantes, verdadeiras procelas artificiais, reunião de amigos na frente de seu portão, que, por acaso, fica debaixo da janela de seu quarto, reunião para uma cervejinha regando gargalhadas, gritos, impropérios que se estendem até o amanhecer, os cachorros do vizinho, que não são poucos, latindo desesperados porque uma pulga passou pela rua, ufa, uma lista aberta de modos não sutis com que pessoas ainda não preparadas para o convívio em sociedade conseguem acabar com o sossego daqueles que precisam trabalhar e que vão acabar cochilando no próprio serviço.
Mas quem disse que o ser humano precisa de repouso? Quem
quiser repouso que vá morar no meio do mato. Estou reproduzindo com todas as
letras frase ouvida há dois anos de um desses seres que não suportam o
silêncio.
E como para alguns o silêncio corresponde a uma área de desconforto, toca a infernizar a vida dos vizinhos. A televisão ligada depois da meia-noite no mais alto volume, os aparelhos de som, domésticos ou automotivos, cada vez mais possantes, verdadeiras procelas artificiais, reunião de amigos na frente de seu portão, que, por acaso, fica debaixo da janela de seu quarto, reunião para uma cervejinha regando gargalhadas, gritos, impropérios que se estendem até o amanhecer, os cachorros do vizinho, que não são poucos, latindo desesperados porque uma pulga passou pela rua, ufa, uma lista aberta de modos não sutis com que pessoas ainda não preparadas para o convívio em sociedade conseguem acabar com o sossego daqueles que precisam trabalhar e que vão acabar cochilando no próprio serviço.
Não sou versado em psicologia, mas meu amigo Adamastor, que
nem gigante é, e nasceu aqui mesmo, no meu bairro, tem amigos psicólogos. E
ele, o Adamastor, me informa que as pessoas, pelo menos a maioria, têm
necessidade do ruído porque ele, o ruído, afasta a necessidade de conversar, de
refletir, de pensar na vida.
Então é possível a história que segue:
João e Marcelo se encontram para tomar uma cervejinha.
Passam pela porta de um bar silencioso e nem olham pra dentro. Escolhem aquele
outro, lá adiante, onde a aparelhagem de som é a mais potente. E entram. Por
gestos a que o garçom já esteja acostumado, pedem a ele que lhes traga uma
cerveja. Enchem os copos e, depois do brinde silencioso, tomam o primeiro gole.
João olha para Marcelo e os dois sorriem. Estão muito contentes por estarem
juntos. Tomam o segundo gole e tamborilam o ritmo que lhes preenche os ouvidos
com os dedos na mesa. Horas mais tarde e muitas cervejas depois, chamam o
garçom, pagam a conta e vão-se embora. Não houve necessidade de uma única
palavra, porque não saberiam o que dizer um ao outro. Falta-lhes repertório,
ou, como dizia o Deonísio, não têm café no bule. O barulho é um ótimo auxiliar
para disfarçar a falta do café.
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