O medo tomou conta de nossa civilização. O mesmo medo que
assaltou os ingleses do século XV e que Thomas Morus descreve em sua Utopia
por Menalton Braff
— publicado 15/07/2013 14:36
Um parente de meu vizinho aqui da esquerda recebeu uma
visita indesejada numa noite qualquer do mês passado. Dois indivíduos armados
pularam-lhe o muro e entraram pela porta da cozinha. Por isso, uma semana
depois, ele, o meu vizinho aqui da esquerda, apareceu cá por casa (coisa que
não fez durante os anos em que vizinhamos) para se despedir. Ele tinha o olhar
apreensivo e irrequieto de quem vê uma ameaça debaixo de cada folha. Estava de mudança para um condomínio fechado.
Soube, também, que aderiu ao teletrabalho: não precisa mais sair de casa nem
pra ganhar o pão-nosso-de-cada-dia.
Ontem parou aqui ao lado um destes caminhões que a gente
chama de baú, porque carregam nossos móveis e nossos segredos. Logo depois uns
nem sei quantos automóveis e congêneres. Foi um movimento de formigueiro. Camas
e vasos, caixas de papelão lacradas, sei lá, toda esta bugiganga sem a qual uma
casa não fica com a cara dos donos. Poucas horas depois, ouvi batidas das
portas do caminhão-baú, para que não nos esqueçamos - de alguns automóveis e
congêneres, e a curiosidade me mordeu: fui espiar. Os móveis já haviam sido
engolidos pela casa e os segredos jamais nos serão revelados, pois se o forem
deixarão de sê-lo.
Voltei para minha cadeira preguiçosa onde um livro me
esperava com sisuda paciência. Mal sentei, o susto: dois homens faziam buracos
em cima do muro, enfiavam nestes buracos pequenas hastes de ferro que chumbavam
lá no alto com cimento. Uma operação rápida, verdadeira blitzkrieg, e aquilo me
assustou um pouco. Nem me levantei, para perguntar irritado o que era que
faziam ali, quase dentro do meu quintal.
- O patrão mandou eletrificar, respondeu-me o que já vinha
trabalhando mais perto.
A resposta, primeiro, me deixou pasmo porque entendi, não
sei por que livre associação, "eletrocutar". E realmente antes que
caíssemos todos nós, eu na preguiça e o dia nas sombras, corriam quatro fios
que se ligavam às hastes por cima do muro, que estava devidamente eletrocutado.
Depois, mercê do que vira, caí novamente, mas desta vez caí do livro em cima de
uma reflexão. De queda em queda fui percebendo que o homem não consegue andar
em linha reta. Há de fazer sempre seus círculos. Alguns acreditam que a história
se desenvolve em círculos; outros acreditam que se desenvolve em espiral,
voltando sempre ao mesmo ponto, mas alguns furos acima. Seja como for, percebi
que voltáramos à Idade Média.
O medo tomou conta de nossa civilização. O mesmo medo que
assaltou os ingleses do século XV e que Thomas Morus descreve em sua Utopia.
Depois de criar bandos imensos de miseráveis, a nobreza britânica resolveu
enforcá-los porque se tornaram uma ameaça aos seus produtores. Reeve, em sua
History of Law, conta que foram enforcados 70.000 nos últimos 14 anos do
reinado de Henrique VIII. No Brasil, se tivéssemos de enforcar os ladrões, bem,
isso já é outro assunto.
Estou convencido de que a história se desenvolve em espiral.
As muralhas dos castelos medievais, hoje, foram transformadas em condomínios
fechados ou naqueles quatro fiozinhos que vejo daqui passando por cima do muro
aí do lado. E o trabalho em casa, dos mestres artesãos e seus aprendizes, não é
mais distribuído por um mercador, mas por outro fio, o telefônico. Alguns furos
acima.

Menalton, que satisfação acompanhar boa parte do seu trabalho como cronista e, agora, constatar na minha opinião que estou diante um texto de alta qualidade. Se não a melhor, uma das melhores crônicas que li nos últimos anos.
ResponderExcluirPerfeita, e triste, sua observação sobre nosso regresso à Idade das Trevas. As muralhas voltaram, meu amigo, mas o excesso de insensibilidade social, de uma miopia feroz, faz com que tudo seja uma novidade. Usando o clichê: "quem não aprende com a história, está sujeita a repeti-la". É clichê, mas o duro é que ele teima ainda em ser atual.
Vitor, meu caro, suas palavras são generosas e comoventes. Se não podemos mudar, pelo menos podemos gritar.
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