quarta-feira, 17 de julho de 2013

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (62)

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. 6. ed. Coimbra: Livraria Almedina, 1984.

"Pág. 130 - Enquanto a metalinguagem literária desempenha uma função relevante na produção e na recepção do texto literário, a sua função é extremamente débil, ou até nula, no concernente ao texto paraliterário. Correlativamente, o texto literário, quer no estádio da sua produção, quer no estádio da sua recepção, põe em causa frequentemente os códigos de (p.131) que em última instância depende, transformando-os, renovando-os, discutindo-os, subvertendo-os.
A paraliteratura, pelo contrário, revela-se destituída desta capacidade de inovação e de questionamento em relação aos seus códigos, cujas regras e convenções tanto o autor como o leitor típico do texto paraliterário actualizam dócil e passiavamente. Os códigos do texto literário encontram-se, pois, em mudança contínua, ora tão lenta que se configura como estabilidade, ora tão célere e tão tumultuária que provoca rupturas com as normas e os padrões estabelecidos - situação característica da actuação das vanguardas literárias -, ao passo que os códigos do texto paraliterário se transformam tão pouco e tão demoradamente que parecem estáticos, repercutindo-se neles, sempre com grande atraso, com carácter residual e marcada simplificação, as inovações estilísticas, técnico-compositivas, semântico-pragmáticas, etc., entretanto introduzidas e consagradas no policódigo da literatura. Esta relação de especularidade total existente (p.132) entre o texto paraliterário e os seus códigos explica, em grande parte, a razão por que as obras da paraliteratura, embora ostentem na capa e no rosto o nome do autor, circulam frequentemente nos circuitos de difusão e de consumo como se fossem obras anónimas, isto é, obras conhecidas quase sempre pelo seu título e raramente identificadas também pelo nome do autor. Na literatura portuguesa, por exemplo, o romance popular A Rosa do adro (1870), texto típico de certa paraliteratura pós-romântica sentimental e regionalista, tem sido lido e conhecido por numerosos leitores de que só uma pequena parcela seria capaz de mencionar o nome do seu autor.
Tal heterogeneidade de funcionamento dos códigos no âmbito da literatura e no âmbito da paraliteratura reenvia à problemática do valor estético dos respectivos textos, sobretudo se se adoptar a perspectiva da estética informacional, (p. 133) em conformidade com a qual a reiteração especular, na estrutura de um texto, das normas e convenções inscritas no código gera a trivialização e o esvaziamento da informação estética contida nesse mesmo texto. O texto paraliterário, que tende para o estereótipo consumado, para a repetição estrita na sua organização sintagmática das instruções registradas no plano paradigmático, apresenta pois uma capacidade mínima ou nula de informação, isto é, de imprevisibilidade e de novidade, com a correlativa degradação do seu valor estético, ao contrário do que acontece com o texto literário. Observe-se, porém, que muitos textos literários - alguns dos quais de valor estético geralmente reconhecido - não oferecem elevado índice de novidade, se analisados à luz da estética informacional (basta pensar, para além dos casos diacronicamente repetidos dos textos epigónicos, nos textos produzidos em conformidade com os sistemas artísticos regidos pelo princípio que Lotman designa por estética da identificação; por outro lado, muitos textos que ostentam uma acentuada novidade em relação aos códigos vigentes aquando da sua produção - novidade que pode assumir dimensões de ruptura e de iconoclastia, como sucede tantas vezes com obras vanguardistas - não são credores necessariamente de um elevado valor estético.

(CONTINUA)

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