quarta-feira, 11 de setembro de 2013

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (68)

Para terminar a discussão sobre literatura oral:

Pág. 142 - "Mesmo tendo em conta a plausível pertinência desta correcção  parcial introduzida por alguns investigadores, sob a influência da linguística gerativa, na dinâmica do modelo do sistema semiótico da literatura oral, não se altera o facto de que o autor, como sujeito da enunciação, está reduzido quase sempre ao grau zero do texto literário oral e não cessam as razões para se caracterizar a literatura oral, na generalidade, como marcadamente estereotipada, reiterativa, analiticamente pobre e ideologicamente conservadora, em consonância, aliás, com o conservantismo típico das culturas primariamente orais.

Os caracteres sistémicos e estruturais antes examinados - policódigo rigidamente conformado ao longo da tradição cultural de uma comunidade, muito forte subordinação do texto ao policódigo, natureza estereotipada do texto, ausência do sujeito da enunciação nas estruturas textuais e anonímia habitual do texto - assemelham a literatura oral à paraliteratura. A função débil, ou mesmo a função zero, da metalinguagem no sistema semiótico da literatura oral representa outra afinidade desta com a paraliteratura.
Sob o ponto de vista da recepção, a literatura oral diferencia-se profundamente da literatura escrita. O texto literário oral existe potencialmente na memória do emissor - seja ele autor stricto sensu, rapsodo, jogral, recitador, etc. - e, em grau variável, na memória da sua audiência. Para que esta existência virtual se volva em existência actual, torna-se necessário que o emissor, num tempo e num espaço determinados, utilizando canais naturais - o que implica um tipo de comunicação (pág. 143) próxima e instantânea -, dirigindo-se a um auditório numericamente circunscrito e fisicamente compresente, execute, na polimodalidade dos seus signos constitutivos, o texto literário oral. Ao ser realizado, o texto literário oral desenvolve-se de modo irreversível, tanto para o emissor como para os receptores, na lineariedade do tempo, mas desenvolve-se também parcialmente no espaço (basta pensar nos seus signos cinésicos e proxémicos).
Em cada realização concreta, o texto literário oral pode apresentar variações mais ou menos extensas, já que o seu emissor não é um computador digital que reproduza estritamente a informação armazenada na sua memória, mas um emissor-actor cuja criatividade se pode exercitar em cada performance , em sintonia com as reações do auditório. A recepção de cada performance  do texto literário oral opera-se normalmente no âmbito de grupos sociais mais ou menos numerosos - o receptor insulado e solitário do texto só aparece com o advento da literatura escrita - e a própria produção e a difusão dos textos da literatura oral são primordialmente condicionadas pelas crenças, pelos padrões éticos, pelos usos e costumes desses mesmos grupos sociais, pois a literatura oral está sujeita a uma 'censura preventiva da comunidade' que não permite a difusão de textos refractários ou hostis às normas axiológico-pragmáticas prevalecentes nessa comunidade.
(pág. 144) Se em culturas já não primariamente orais, isto é, culturas em que o sistema semiótico da literatura oral coexiste com o sistema semiótico da literatura escrita, podem ocorrer múltiplos fenómenos de cruioulização entre ambos os sistemas e entre os textos dependentes de um e de outro sistema, numa cultura secundariamente oral como a cultura contemporânea dos países tecnológica e socialmente avançados, isto é, uma cultura dominada por meios de comunicação audiovisual, verifica-se a ocorrência do fenómeno de reoralização da literatura e, particularmente, da poesia: dessacralização do texto escrito, exploração das potencialidades fónico-rítmicas, semânticas e pragmáticas da fala que 'sai de uma boca', associação ou simbiose da poesia com a música e o canto, comunicação dos textos poéticos por um emissor que se dirige diretamente a um grupo de ouvintes, etc.

(CONTINUA)



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