Seguindo ainda o prof. Aguiar e Silva, inicia-se agora a discussão sobre língua literária.
Pág. 144 "O conceito de língua literária
O conceito de 'língua' apresenta conteúdos variáveis, em função das teorias e dos sistemas de oposição terminológico-conceituais em que é utilizado.
No pensamento de Ferdinand de Saussure, matriz a que se torna indispensável remontar neste domínio, o conceito de 'língua' define-se, por um lado, em relação ao conceito de 'linguagem' e, por outra banda, em relação ao conceito de 'fala'.
A linguagem é uma faculdade universal, uma potencialidade existente em cada indivíduo, ao passo que a língua é uma instituição, isto é, um produto social condicionado histórica e geograficamente, 'um conjunto de convenções necessárias, adoptadas pelo corpo social para permitir o exercício (pág. 145) daquela faculdade nos indivíduos'. A língua é de natureza supra-individual e contratual: constitui um 'código social', um 'sistema de sinais', um 'modelo coletivo', um 'depósito' ou um 'tesouro' de formas existente em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade linguística. A fala, pelo contrário, é de natureza individual, sendo constituída pelas combinações através das quais o sujeito falante, exercitando a sua inteligência e a sua vontade, utiliza o código da língua., (pág. 146) 'a fim de exprimir o seu pensamento pessoal'. Na fala , mediante a utilização do sistema de sinais e da instituição social que é a língua, o indivíduo realiza a faculdade da linguagem.
A língua representa, por conseguinte, 'uma técnica historicamente determinada e condicionada' e é a partir da entidade histórica constituída por uma determinada língua natural que se organiza o sistema modelizante secundário da literatura. A língua natural, ao operar-se esta mutação de nível semiótico, adquire o estatuto de língua literária. Não utilizamos o conceito de 'língua literária' com a intensão ampla de totalidade dos factores constitutivos do sistema semiótico literário - a langue literária de que o texto particular e concreto representaria a parole -, mas com a intensão mais restrita de língua natural submetida a um peculiar processo de semiotização que, em conformidade com uma poética implícita (pág. 147) ou explícita, actuante quer a nível da produção, quer a nível da recepção, transforma as estruturas verbais dependentes do sistema modelizante primário em estruturas verbo-simbólicas dependentes do sistema modelizandte secundário que é o sistema semiótico literário.
Em geral, a língua literária de um escritor é constituída pela sua própria língua materna, embora esta regra possa ser frequentemente derrogada: na Idade Média e, sobretudo, no Renascimento, por motivos de prestígio cultural, muitos autores escolheram como língua literária uma língua morta, o latim; por vezes, um escritor, nascido e criado no âmbito de uma determinada comunidade linguística, escolhe para realizar parte da sua obra literária a língua de outra comunidade, porque encontra nela uma língua literária tradicionalmente utilizada em certos géneros poéticos (Afonso X de Castela, por exemplo, optou pelo galego-português para escrever as suas Cantigas de Santa Maria); outras vezes, ainda, sob o efeito de vigorosos fenómenos de influência cultural e político-social exercida por um país sobre outro, muitos escritores do país influenciado adoptam também a língua do país influenciador como língua literária (é o caso, por exemplo, de muitos escritores portugueses de fins do século XVI e do século XVII, que utilizam o português e o castelhano como línguas literárias); pode acontecer ainda que um escritor realize a sua obra literária numa língua que não é a língua da sua nacionalidade (o irlandês Samuel Beckett escreve em francês).
(CONTINUA)
Pág. 144 "O conceito de língua literária
O conceito de 'língua' apresenta conteúdos variáveis, em função das teorias e dos sistemas de oposição terminológico-conceituais em que é utilizado.
No pensamento de Ferdinand de Saussure, matriz a que se torna indispensável remontar neste domínio, o conceito de 'língua' define-se, por um lado, em relação ao conceito de 'linguagem' e, por outra banda, em relação ao conceito de 'fala'.
A linguagem é uma faculdade universal, uma potencialidade existente em cada indivíduo, ao passo que a língua é uma instituição, isto é, um produto social condicionado histórica e geograficamente, 'um conjunto de convenções necessárias, adoptadas pelo corpo social para permitir o exercício (pág. 145) daquela faculdade nos indivíduos'. A língua é de natureza supra-individual e contratual: constitui um 'código social', um 'sistema de sinais', um 'modelo coletivo', um 'depósito' ou um 'tesouro' de formas existente em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade linguística. A fala, pelo contrário, é de natureza individual, sendo constituída pelas combinações através das quais o sujeito falante, exercitando a sua inteligência e a sua vontade, utiliza o código da língua., (pág. 146) 'a fim de exprimir o seu pensamento pessoal'. Na fala , mediante a utilização do sistema de sinais e da instituição social que é a língua, o indivíduo realiza a faculdade da linguagem.
A língua representa, por conseguinte, 'uma técnica historicamente determinada e condicionada' e é a partir da entidade histórica constituída por uma determinada língua natural que se organiza o sistema modelizante secundário da literatura. A língua natural, ao operar-se esta mutação de nível semiótico, adquire o estatuto de língua literária. Não utilizamos o conceito de 'língua literária' com a intensão ampla de totalidade dos factores constitutivos do sistema semiótico literário - a langue literária de que o texto particular e concreto representaria a parole -, mas com a intensão mais restrita de língua natural submetida a um peculiar processo de semiotização que, em conformidade com uma poética implícita (pág. 147) ou explícita, actuante quer a nível da produção, quer a nível da recepção, transforma as estruturas verbais dependentes do sistema modelizante primário em estruturas verbo-simbólicas dependentes do sistema modelizandte secundário que é o sistema semiótico literário.
Em geral, a língua literária de um escritor é constituída pela sua própria língua materna, embora esta regra possa ser frequentemente derrogada: na Idade Média e, sobretudo, no Renascimento, por motivos de prestígio cultural, muitos autores escolheram como língua literária uma língua morta, o latim; por vezes, um escritor, nascido e criado no âmbito de uma determinada comunidade linguística, escolhe para realizar parte da sua obra literária a língua de outra comunidade, porque encontra nela uma língua literária tradicionalmente utilizada em certos géneros poéticos (Afonso X de Castela, por exemplo, optou pelo galego-português para escrever as suas Cantigas de Santa Maria); outras vezes, ainda, sob o efeito de vigorosos fenómenos de influência cultural e político-social exercida por um país sobre outro, muitos escritores do país influenciado adoptam também a língua do país influenciador como língua literária (é o caso, por exemplo, de muitos escritores portugueses de fins do século XVI e do século XVII, que utilizam o português e o castelhano como línguas literárias); pode acontecer ainda que um escritor realize a sua obra literária numa língua que não é a língua da sua nacionalidade (o irlandês Samuel Beckett escreve em francês).
(CONTINUA)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
http://twitter.com/Menalton_Braff
http://menalton.com.br
http://www.facebook.com/menalton.braff
http://www.facebook.com/menalton.braff.escritor
http://www.facebook.com/menalton.para.crianças