Schopenhauer tem razão: a felicidade não existe senão em
gotas. Por Menalton Braff
por Menalton Braff —
publicado 07/10/2013 13:14
Esta manhã fui fazer minha caminhada matinal (finalmente
estou conseguindo dar à velha carcaça aquilo que o Dr. Laércio me exige). Passo
por um imenso terreno baldio onde moram quatro cachorros. Estão lá sempre
brincando, perseguindo-se, as línguas de fora. Uma de suas diversões é correr
atrás de automóvel. Voltam felizes para casa por terem expulsado aquele monstro
para longe. Com pessoas são muito cordiais. E são gordos, quem diria, de
aparência saudável.
Depois do terreno onde os cachorros moram, ainda existe uma
meia dúzia de casas, então termina o asfalto e começa a estrada de terra. À
esquerda fica uma ladeira coberta de mato. Um mato rasteiro, onde muitas vezes
os cachorros somem, mas é mato. À direita, a terra arroteada para receber
aqueles pedaços de cana, que servem de semente.
Tinha andado uns quinhentos metros pela estrada de terra quando um dos cachorros pulou na estrada com o focinho muito perto do chão. Nem me olhou. Atravessou a estrada, agitado, cheio de pressa, escalou o barranco e continuou com o focinho atento a algum cheiro. Pareceu perder-se no terreno, voltou, reencontrou o rastro (só podia ser um rastro) e se aproximou de uma pequena malha de capim e uma confusão de outras pequenas plantas.
Tinha andado uns quinhentos metros pela estrada de terra quando um dos cachorros pulou na estrada com o focinho muito perto do chão. Nem me olhou. Atravessou a estrada, agitado, cheio de pressa, escalou o barranco e continuou com o focinho atento a algum cheiro. Pareceu perder-se no terreno, voltou, reencontrou o rastro (só podia ser um rastro) e se aproximou de uma pequena malha de capim e uma confusão de outras pequenas plantas.
Então parou, a pata direita dianteira dobrada no ar, o rabo
em riste, o olhar fixo. Alguns segundos nessa posição. Súbito ele flecha na
direção da pequena malha de mato e dali, num salto formidável, pula no meio da
estrada uma preá. Mal toca no chão, no entanto, já está na boca do cachorro,
cujo salto foi ainda mais formidável. Sua cabeça foi sacudida violentamente, a
presa na boca. Pulou de volta para o mato e foi completar seu serviço.
Esta cena me lembrou o Adamastor, amigo meu que já foi até
gigante no extremo sul da África, segundo um poeta que tem toda minha
consideração. Pois meu amigo, o Adamastor, chegou aqui em casa com ar muito
abatido. Sentou na cadeira que lhe indiquei, aceitou o cafezinho que lhe
ofereci, e começou o desabafo. Estou lendo o Schopenhauer, ele disse, e
descobri que ele tem razão: a felicidade não existe senão em gotas.
Eu adverti que o café estava esfriando, mas ele não me
ouviu. Todos os seres estão em permanente guerra por matéria, ele continuou. E
é impossível a satisfação. Há sempre algo mais a ser desejado. Muito didaticamente
explicou que o filósofo criou uma hierarquização dos seres, sendo os últimos da
fila os seres em estado bruto, a matéria sem vida. Em seguida os seres vivos,
divididos em vegetais e animais. Os vegetais sendo inferiores aos animais; e os
animais tendo como grau mais elevado o homem.
Pior ainda, ele gemeu, tudo é comandado pela vontade. E a
vontade nunca é plenamente satisfeita. Apenas duas possibilidades de um ser
curtir a felicidade: a contemplação estética, porque é desinteressada (vencendo
a vontade), mas por muito pouco tempo; e o ascetismo total, a vitória sobre a
vontade. Só no abandono do desejo, inclusive de viver, o ser humano consegue
uma felicidade permanente.
Disse a ele que seu café já estava frio, e o Adamastor
levantou-se, saindo sem se despedir. Tudo isso por causa do combate permanente
dos seres por matéria.
Pobre Adamastor... Quanta angústia trazia na alma naquele momento.
ResponderExcluirO Adamastor, René, depois de perdoado por Netuno, abandonou o extremo sul da África, mas nunca mais foi feliz.
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