O que vem acontecendo no mundo me fez lembrar de um texto
cuja autoria, sem muita certeza, atribuo a Eduardo Alves da Costa
Por Menalton Braff - Publicado em 14/10/2013 14h37
Por Menalton Braff - Publicado em 14/10/2013 14h37
Se alguém chegar ao fim desta crônica julgando-me xenófobo,
tenho o direito de acreditar que não entendeu nada do que aqui foi declarado.
Portanto, e para desautorizar juízes apressados, começo afirmando que sim,
queremos sócios, de patrões é que não temos necessidade.
O que vem acontecendo no mundo me fez lembrar de um texto
cuja autoria, sem muita certeza, atribuo a Eduardo Alves da Costa. Não me
lembro da mensagem, para usar a linguagem de Roman Jakobson, mas o referente
continua bem claro na minha memória. Portanto, altero o discurso mantendo-me
fiel ao assunto.
O jardim de sua casa era belo de causar inveja, e, na
primeira noite, você dormia tranquilamente em sua cama quando alguns de seus
vizinhos abriram seu portão e, mesmo sob os protestos de seu cão, pisotearam as
flores de seu jardim. Na manhã seguinte, você viu aborrecido o estrago, mas não
quis se indispor com os vizinhos e nada disse.
Na noite seguinte, irritados com o barulho de seu cão quando
invadiram seu jardim, abriram novamente o portão e mataram o cão. Você só foi
descobrir isso na manhã seguinte. Mas nada disse, pois praticava a política de
boa vizinhança. A qualquer preço.
Animados pelo sucesso das duas noites anteriores, seus
vizinhos quebraram a corrente com que você quis trancar o portão, arrebentaram
a porta de entrada e invadiram sua casa. Roubaram tudo que puderam, sentindo-se
muito fortes, o que lhes dava a sensação de impunidade.
E agora não adianta mais você querer reclamar, pois
roubaram-lhe também a voz.
Não, não sou um nacionalista do tipo tradicional, tampouco
um ufanista ingênuo, mas há alguns pontos que me parecem universais e em cujo
respeito se baseiam as relações entre os países. Sem respeito à soberania
alheia, voltamos à selvageria. E uma nação que promove ações não civilizadas, não
tem crédito para liderar outras nações.
Conheço pessoas que justificam a espionagem. Com base em que
princípio eu não sei, mas suspeito que seja no princípio do direito do mais
forte. Está na hora de ler a metáfora do troglodita, daquelas Cartas Persas, de
Montesquieu. E você, que joga baralho, como se sente ao descobrir que seu
adversário tinha todas as cartas marcadas?
Assim como as pessoas, também as nações, mutatis mutandis,
têm direito à privacidade. E cabe uma pergunta àqueles que vêm censurando o
governo brasileiro por ter reclamado e continuar reclamando em foro
internacional contra a intrusão de outras nações em assuntos que só a nós dizem
respeito. Vocês, que acham muito justo o mais forte ter o direito de espionagem
contra o mais fraco, não hão de ser as pessoas mais fortes de sua cidade. Vocês
ficariam calados se amanhã alguém, durante seu sono, invadisse sua casa (com
todo o direito da força) para bisbilhotar o que você tem, o que fazem seus
filhos, como dorme sua esposa ou seu marido?
Se a resposta for afirmativa, bem, então não temos mais o
que conversar. Botar as preferências e interesses partidários acima dos
interesses nacionais me parece de uma estupidez inominável.

Olá, Menalton,
ResponderExcluirnão sei bem o motivo, mas creditava (na minha cabeça) esse poema a Carlos Drummond de Andrade, mas, realmente, é de Eduardo Alves da Costa ("No caminho com Maiakóvski").
Seu texto expressa muito bem uma angústia cada vez maior na nossa sociedade, que é a intrusão nas vidas das pessoas, seja pelo Estado (que dessa vez específica foi vítima), seja por particulares, seja mesmo por oprimidos, porque isso me parece não ter a ver com condição social ou econômica, mas sim com a condição de humano.
Você tem toda a razão, as paixões partidárias são muito perigosas, chegam a cegar.
De pleno acordo, Renê.
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