quinta-feira, 3 de outubro de 2013

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (71)

Gérard Genette
Pág. 148 - "Já no declínio da tradição retórica neoclássica, Fontanier caracterizou o discurso figurado, de que o discurso literário seria a quinta-essência, como um discurso que se afasta da 'expressão simples e comum'. Estamos perante uma (p. 149)  concepção tipicamente ornamentalista do desvio: a expressão simples e comum representa uma espécie de grau zero da escrita, uma linguagem neutra e não marcada, que seria exornada, transformada e semanticamente enriquecida com os tropos e o sentido figurado atribuído aos lexemas. Mas onde e como existe esta 'manière ordinaire et commune de parler', esta expressão neutra não marcada? Du Marsais, no seu tratado Des tropes (1730), teve clara consciência desta dificuldade teórica e por isso inverteu os termos com que Fontanier, um século mais tarde, procuraria equacionar o problema: 'Je suis persuadé qu'il se fait plus de figures un jour de marché à la Halle qu'il ne s'en fait en plusieurs jours d'assemblées académiques. Ainsi, bien loin que les figures s'éloignent du langage ordinaire des hommes, ce seraient au contraire les façons de parler sans figures qui s'en éloigneraient, s'il n'était possible de faire un discours où il n'y eût que des expressions non figurées.'

Os investigadores do grupo µ da Universidade de Liége propõem identificar aquele grau zero com um discurso 'ingénuo', isento de artifícios e de subentendidos e para o qual 'um gato é um gato'. Este discurso artificialmente asseptizado só pode ser entendido como uma 'construção ideal' (ideal construct) que o investigador utiliza com fins heurísticos, mas, mesmo assim, o Grupo  µ  da Universidade de Liége receia que o carácter asséptico de tais construções ideais não seja perfeito e acaba por identificar o zero absoluto do discurso com um discurso que, por via metalinguística, seria decomposto nas suas entidades básicas, isto é, nos seus semas essenciais. Sob o ponto de vista epistemológico e metodológico, as propostas do Grupo µ da Universidade de Liège afiguram-se gravemente incorrectas, porque um inventário de semas não constitui um discurso em funcionamento e porque um 'um discurso ingénuo, isento de artifícios e de subentendidos', representa uma contrafacção da atividade linguística: o ideal construct  (p. 150)  destina-se a observar, sem circunstâncias ou agentes perturbadores, um determinado fenómeno e não a desnaturar esse mesmo fenómeno.
Mais cautelosamente, Gérard Genette  classifica a 'expressão simples e comum' de Fontanier como uma 'linguagem virtual' reconstituível e recuperável pelo pensamento e à qual, em última instância, é traduzível qualquer figura da 'linguagem real' utilizada pelo poeta, o que postula a tradutibilidade de uma linguagem presente e marcada - a linguagem poética - numa linguagem ausente e não marcada. Esta tradutibilidade pressupõe a equipolência semiótica da linguagem literária e da linguagem normal ou comum e conduz necessariamente a uma concepção ornamentalista daquela linguagem.

 (CONTINUA)






µ
 


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