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| Gérard Genette |
Os investigadores do grupo µ da Universidade de Liége propõem identificar aquele grau zero com um discurso 'ingénuo', isento de artifícios e de subentendidos e para o qual 'um gato é um gato'. Este discurso artificialmente asseptizado só pode ser entendido como uma 'construção ideal' (ideal construct) que o investigador utiliza com fins heurísticos, mas, mesmo assim, o Grupo µ da Universidade de Liége receia que o carácter asséptico de tais construções ideais não seja perfeito e acaba por identificar o zero absoluto do discurso com um discurso que, por via metalinguística, seria decomposto nas suas entidades básicas, isto é, nos seus semas essenciais. Sob o ponto de vista epistemológico e metodológico, as propostas do Grupo µ da Universidade de Liège afiguram-se gravemente incorrectas, porque um inventário de semas não constitui um discurso em funcionamento e porque um 'um discurso ingénuo, isento de artifícios e de subentendidos', representa uma contrafacção da atividade linguística: o ideal construct (p. 150) destina-se a observar, sem circunstâncias ou agentes perturbadores, um determinado fenómeno e não a desnaturar esse mesmo fenómeno.
Mais cautelosamente, Gérard Genette classifica a 'expressão simples e comum' de Fontanier como uma 'linguagem virtual' reconstituível e recuperável pelo pensamento e à qual, em última instância, é traduzível qualquer figura da 'linguagem real' utilizada pelo poeta, o que postula a tradutibilidade de uma linguagem presente e marcada - a linguagem poética - numa linguagem ausente e não marcada. Esta tradutibilidade pressupõe a equipolência semiótica da linguagem literária e da linguagem normal ou comum e conduz necessariamente a uma concepção ornamentalista daquela linguagem.
(CONTINUA)
µ

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