Do livro inédito A dona da casa.
Uma cara muito branca
A primeira percepção foi aquele
som que parecia vir de muito longe e se infiltrava em meu sono. Era uma
respiração asmática, de ar que passa forçado pela garganta. A respiração se
aproximava e fiquei algum tempo hesitante, sem saber se sonhava ou se aquela
respiração por uma garganta estreita assaltava minha vigília. Minhas pálpebras
continuavam grudadas escondendo meus olhos amedrontados, mas os ouvidos
abriram-se até sentirem que um bafo morno os inundava. Minha única realidade,
naquele momento, era o som do ar entrando por uma garganta estreita, para em
seguida ser expelido com um chiado tenebroso.
Aos poucos fui catando na memória
minha circunstância, e me lembrei de que tinha tomado uma ducha antes de deitar
e apagar a luz. Morava sozinho naquela casa antiga, com soalho de tábuas largas
e teto baixo, a única encontrada para alugar quando vim assumir o posto
conquistado por concurso.
Tentei abrir os olhos sem
conseguir, mas o ruído daquela respiração já estava tão perto de meu rosto que,
num esforço monstruoso, consegui sentar na cama e abrir os olhos.
Estava muito escuro, mas pude ver,
muito perto de mim, a menos de um braço, uma forma de mulher. A única e parca
claridade do quarto vinha de seu rosto luminoso com um buraco escuro por onde
deveria entrar e sair o ar de sua respiração. A cabeça não tinha cabelos,
tampouco tinha dentes sua boca.
Não é possível saber por quanto
tempo fui estátua de granito, os músculos rijos como ossos, os pelos todos
eriçados até à dor, os movimentos em suspensão. Me representa que não respirei,
naqueles instantes, e que mesmo o coração tinha deixado de bater.
Ela me olhava com brasas nos olhos
e fazia gestos que me pareceram obscenos. Eu estava sendo atraído para uma
orgia com aquela criatura terrível.
Passado o primeiro momento de
terror, tentei correr até a porta e me livrar do espectro que tinha penetrado
no meu quarto enquanto eu dormia. Dei dois passos e senti sua mão gelada me
segurar pelo ombro, mas resisti com um salto em que todas as minhas forças
foram empregadas e já me acreditava livre da boca sem dentes da mulher, quando
a vi postada no vão da porta, por onde eu pretendia fugir. Ela me segurou pelos
braços e aproximou sua cabeça da minha a tal ponto que o som cavo do ar
entrando pela garganta estreita
confundia-se com minha respiração.
Tentei forçar a passagem, mas seu
corpo etéreo e luminoso tornou-se uma estátua de bronze, contra a qual era
inútil lutar.
Cansado, voltei à cama e sentei de
modo a não perdê-la de vista. Ela aproximou-se devagar, sem pressa, e me
pareceu ter descoberto uma tentativa de sorriso em seu rosto. Foi então que
mais um de meus sentidos participou da cena macabra: senti um forte cheiro de
enxofre.
Quando chegou ao alcance do meu
braço, me levantei e tentei desferir um murro em sua cabeça calva. Mas não
consegui porque sua mão de ferro tomou-me o pulso e me fez sentar novamente. Eu
estava coberto de suor e não conseguia dizer palavra alguma. Ela também estava
muda. O único som que emitia era o de sua respiração asmática.
Por fim, o espectro me subjugou
com facilidade e me pôs deitado na cama. Ficou algum tempo me observando como
se esperasse o momento de dar o bote final. Em lugar disso, começou a me tirar
o pijama até me deixar inteiramente nu. A débil luz produzida por seu rosto
começou a esquentar e aumentava o calor à medida em que ela cobria meu corpo
com o seu.
Sua boca sem dentes se aproximava
perigosamente da minha, nossa respiração já se misturava. Consegui, finalmente,
arrancar uma pergunta de minha garganta.
‒ Quem é você?, gemi.
Ela soltou uma gargalhada em
gorgolejo estridente antes de responder.
‒ Eu sou Átropos, a indesejada das
gentes.
Suas palavras vieram envolvidas
por um bafo mefítico que me fez vomitar em seu rosto. Foi minha salvação.
Enquanto ela tentava reacender as brasas de seus olhos, que meu vômito apagara,
empurrei seu peito com uma tal força desconhecida que ela foi arremessada
contra uma das paredes.
Aproveitei seu descuido e saí em
cega disparada, tropeçando em móveis, trombando em objetos fora de lugar, e
correndo assim cheguei até a porta da rua. No ar diáfano da noite, um céu
piscando pelos poros acima de minha cabeça, senti que meu corpo se fazia cada
vez mais leve, tão leve que eu podia planar, livre, agora, daquele espectro horroroso.
Olhei para baixo e percebi que a cidade já estava bem longe. Não passava de um
aglomerado de pequenos pontos luminosos plantados num mar de escuridão.

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