Toda uma noite: o prêmio
Entra meio empurrado para o quarto e senta-se com a beirada
do corpo sobre seu cansaço na cama estreita. Um peso. O mundo ali, com todos
aqueles disfarces, quase impossível arrastar-se por inteiro até o centro do
cenário. Sentado fundo, à espera, primeiro aquela mão de Humberto, ainda um
pouco estúpida, explorando o edredom: tecitura e dobras, seu relevo. Os olhos,
então, já menos assustados, percebem as grandes flores da cortina e o nicho com
a vela acesa sobre a penteadeira. Um recorte de revista enfeita a porta do
roupeiro. Tudo simples entrando por seus olhos já menos assustados. Está então
a ponto de sentir-se em profundo bem-estar. A mulher que lhe destinaram,
arrumando-se no banheiro, cerimoniosa, deferente. Ele sentado, sem medo de
cair, só esperando. Não há o que temer. As narinas, entretanto, as narinas
recém-chegadas e sensíveis, mas inexperientes, querem saber de que espécie e
origem aquele cheiro meio morno insosso, um tanto orgânico, como de vida que
não chegou a vingar. Um cheiro que está grudado nas paredes, que parece subir
das entranhas da cama. Sua intuição lhe diz que é o próprio cheiro do tempo e
isso volta a inquietá-lo.
Com a porta fechada, agora, mal se ouvem as pancadas mais
fortes da bateria, que ainda há pouco, no salão, ameaçavam ensurdecê-lo sem
motivo aparente. Tudo que vem de fora chega de maneira abafada, mesmo as
lembranças mais recentes. Apesar de assim protegido, começa a se incomodar com
o suor que lhe poreja no buço e na testa, um desconforto.
Depois de o instalar sentado na cama, a Ruiva, a mulher que
lhe destinaram, saiu dizendo que demorava um instantinho só. Fosse tirando a
roupa e se arrumando, enquanto isso. E bateu atrás de si a porta que dava para
o corredor por onde haviam chegado eles dois, e por onde vinham a música e as
gargalhadas do salão. Era preciso dizer-lhe que se tratava de sua primeira vez,
mas ela parecia ter pressa.
Vira a cabeça para a esquerda e se vê com surpresa congelado
no espelho da penteadeira. Mais pálido que de costume, os olhos redondos e sem
outra expressão que não seja o pavor mudo e infantil que já não percebe por ser
expressão que o acompanha todos os dias da semana. Seu cão farejava qualquer
coisa entre os trilhos do bonde. Humberto, na calçada, viu chegar a distância
um bonde imenso e veloz. E o bonde se aproximava barulhento, mas seu cão estava
distraído com aquilo que acabava de descobrir entre os trilhos. Talvez pudesse
correr e salvá-lo. Talvez pudesse gritar e chamá-lo. A visão antecipada da
tragédia, entretanto, imobilizava-o. O último ganido foi abafado pelo barulho
das pesadas rodas sobre os trilhos. E ela saiu sem lhe perguntar se era sua
primeira vez, sem falar de sua paciência com principiantes, mesmo quando já
muito além da idade apropriada. No espelho, por cima de sua cabeça, o brilho
meio desmaiado da arandela, aquela mancha na parede. Em seu rosto mais pálido
que de costume, separando a testa das faces, uns olhos redondos e sem
expressão.
O tempo, ali dentro, é líquido espesso, denso, lento. Lento
como o espelho, como a cortina imóvel. Um instantinho só. Que demorava um
instantinho só.
A mão direita volta a pesquisar a superfície do edredom,
agora acompanhada pelo olhar fatigado, em fuga do espelho. Eram flores
vermelhas e amarelas em fundo verde. Lírios e rosas, provavelmente. As mesmas
flores da cortina, verdes e amarelas em fundo vermelho. Seus olhos, esquecidos
do rosto pálido preso no espelho, distraem-se a subir e descer, do edredom para
a cortina, descobrindo simetrias. Poderia imaginar um jardim, além da janela,
com tuias, moitas de arecas, caramanchões e pérgulas, aléias de saibro,
delgados ciprestes. Poderia. Mas, além de não ter o hábito do devaneio, está
mergulhado em seu próprio corpo, um corpo prestes a florescer e ele não sabe o
que deve fazer. Por onde começar? É muito comum que o sucesso resulte da
primeira atitude. Tal idéia, entretanto, fica a meio caminho de sua formulação.
Enquanto espera, quase imóvel sentado sobre seu peso, não passa de uma
sensação, de uma sensação até um pouco desagradável, espremida entre a língua e
o palato, aquela náusea que sobe do vácuo aberto em seu estômago. Seu vazio.
O silêncio da vitrola não chega a cair em sua consciência:
uma alteração. O silêncio. Talvez uma falta, sensação difusa de uma ausência.
Apenas isso. Quando ouve passos no corredor, entretanto, passos que se
aproximam, crescendo, fica imóvel, o
olhar mergulhado no espelho, tenso engatilhado, o corpo todo dorido porque
usado inteiro na escuta.
Ouve vozes, mas não distingue as palavras. Suspende a
respiração. O suor volta a porejar no buço e na testa e agora também nas palmas
das mãos. Estão muito próximos. Vira-se então para a porta, os olhos fixos na
maçaneta. Todo ele fixo, parado. Os passos se afastam, carregando as vozes de
palavras indistintas.
Distende os músculos, volta a respirar sem medo. Não, ainda
não era a Ruiva. Um bocejo devolve-lhe a paz dos membros. Um bocejo muito
aberto, amplo mesmo, quase uma entrega. Sente calor e tira o paletó,
pendurando-o no espaldar da cadeira de palhinha. Repete o bocejo como se preparasse
um conforto, por isso alonga os braços e joga o tronco para trás, na cama onde
está sentado, quase esquecido de que era apenas por um momentinho.
Não tivera como recusar. Uma bobagem, aquilo de rifa. Não
acreditava. E o prêmio esdrúxulo: aquela noitada. Por vontade própria não
jogava dinheiro fora. Mas a pressão dos colegas era circular e não deixava
ninguém de fora. Até o gerente, eles diziam. Até o gerente. Então dera o
dinheiro mas recusara-se a escolher um número. Uma bobagem, isso. Não acredito.
Depois a festa, as brincadeiras, aquela tontura da cerveja e o medo de acabarem
descobrindo que era sua primeira vez.
Me paga uma cerveja, a voz da Ruiva borrada de rímel. E a
bateria no aparelho de som como se quisesse ensurdecê-lo. Buscou socorro nos
colegas, qualquer orientação - se aquilo fazia parte do acordo. Eles rodavam
pelo salão dançando, muito ocupados. Ergueu as sobrancelhas, o queixo apontado
para a Ruiva, como é que é? E ela repetiu o pedido gritando em seu ouvido,
impossível continuar fingindo que não ouvira. E os dois rodando no meio do
salão, uma cerveja?, e eles não olhavam e o garçom já vinha trazendo uma
garrafa de cerveja e a Ruiva pegara em seu queixo agradecida. Não dava mais
para recusar.
Sente o suor brotando de seu corpo e não se mexe, como se na
imobilidade encontrasse uma solução. O teto oscila suave: um embalo. Fecha os
olhos e o mundo aderna. Precisa abri-los novamente para saber que não está
caindo. Boceja ruidosamente antes de se apagar inteiro.
É um círculo muito grande de homens, alguns deles com
gravatas tremulando ao vento. Eles batem palmas e batem os pés na grama,
sorrindo e cantando alguma coisa que não se pode saber o que é. Os mais altos
são também os mais barulhentos. Os rostos risonhos e agressivos transformam-se
em focinhos de cães sem pararem de cantar. Humberto tenta escapar, mas o
círculo é muito fechado e, à medida em que o ritmo das palmas se intensifica,
mais estreito vai ficando o círculo. Até que sente os focinhos roçando em seu
rosto, como um barulho áspero e acorda apavorado, erguendo bruscamente o corpo.
A porta está aberta e a Ruiva despede-se de alguém que segue pelo corredor.
A porta fechada, ela se aproxima por trás do sorriso carmim,
com olheiras cansadas e roxas, e quer saber. Como, ainda vestido? Humberto,
intimidado por sua presença e sua voz tão desconhecida, mas indeciso entre a
raiva pela espera tamanha e o alívio com seu fim, ergue os ombros e consegue
arrancar do peito alguma coisa como sabe, é minha primeira vez. A Ruiva assume
ares maternais, com os lábios em bico de beijo e, estralando a língua, começa a
abrir a camisa de Humberto, diligente e lenta, enquanto diz palavras carinhosas
com meloso jeito infantil. Importância nenhuma, isso, de primeira vez: amor sem
treinamento.
Humberto se entrega, tenso, primeiro, depois, e aos poucos,
sentindo-se relaxar e, finalmente, com um tesão que o imobiliza, como se a vida
toda estivesse concentrada ali, em seu inábil aparelho reprodutor. Fecha os
olhos pudicos quando sente a cueca escorregando pernas a baixo, uma vertigem.
Nunca sentira um rosto de mulher assim tão próximo que pudesse respirar seu
hálito, nem fora jamais tocado por mãos assim femininas, feitas de um tecido
macio como pedaços de um sonho colorido. Ao primeiro toque dos lábios em seu pênis
enristado, ejacula pensando que finalmente conhece as fímbrias da morte, sua
dor e seu gozo: um desmaio. Seu coração está entregue, inteiro e virgem, às
mãos astutas da Ruiva.
Depois de um curto repouso e algumas carícias, Humberto está
novamente pronto para o desempenho masculino, que se agrava agora com a visão
do corpo inteiramente nu da mulher. Meu Deus, ele pensa cheio de remorsos pelo
fato de ter esperado tanto por sua primeira vez. E joga-se desajeitado por cima
da Ruiva, que acaba de se deitar. Cheia de paciência, ela o guia por caminhos
desconhecidos, e ele deixa-se guiar sem resistência.
Quando está para morrer pela segunda vez, movido então pelos
urros em que a Ruiva se desmancha, abre-se a porta com violência e o quarto se
vê invadido por um cordão carnavalesco recém-formado no salão. Suas gargalhadas
abafam os gemidos da Ruiva, que, entretanto, parece indiferente àquelas
presenças hediondas. Humberto, acuado, tenta cair de cima da Ruiva para enrolar-se no edredom verde com flores
vermelhas e amarelas. Todos cantam e gargalham, dançando sem parar, porque não podem conter tanta
alegria. Tenta, mas com as pernas trançadas em seu dorso ela o retém. Não,
ainda não, que acabaram de abrir-se as janelas do paraíso.
Os foliões retiram-se em silêncio respeitoso ao perceberem a
consumação. Estirados sobre a cama, transformados em dois corpos que se
conhecem, o homem e a mulher ressonam,
exaustos, sonhando o mesmo sonho.
Quando o sol atravessa a cortina vermelha de flores verdes e
amarelas, anunciando o dia com suas claridades, Humberto veste-se triste como
quem tem de partir. Na porta, à sua espera, entretanto, encontra a Ruiva com
sua reduzida mala na mão.

Lindo e de uma delicadeza...
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