![]() |
Tulio De Mauro
|
Pág. 190 - "Torna-se necessário, porém, elaborar um conceito de (p.191) comunicação com uma extensão e uma intensão diferentes das que lhe atribuem, por exemplo, Buyssens e Prieto. Com efeito, para estes e outros autores, o fenómeno da comunicação só ocorre quando um emissor produz voluntária e intencionalmente sinais, com o objetivo de influenciar de qualquer modo um receptor. Nesta perspectiva, a intencionalidade do emissor e a utilização por este de sinais convencionais representam marcas específicas do acto comunicativo. Esta concepção voluntarista, intencionalista, psicologista e individualista da comunicação adequa-se apenas a uma das espécies de actos comunicativos discrimináveis no âmbito total do fenómeno da comunicação e impede a compreensão e a análise de numerosos e relevantes processos semiótico-comunicativos.
Efectivamente, ocorrem múltiplos fenómenos de semiose em que não existe voluntariedade e intencionalidade por parte do emissor, em que o emissor pode mesmo não se identificar com um organismo humano ou, mais latamente, com um organismo biológico, nos quais se produzem sinais não convencionais, isto é, sinais icónicos e indiciais, e que se integram em processos de comunicação, porque um receptor capta esses fenómenos de semiose e decodifica adequadamente as mensagens neles geradas, em função de determinadas regras sintácticas, semânticas e pragmáticas instituídas e aprendidas ao longo de mais ou menos complexos processos de socialização e culturalização.
(p. 192) Poder-se-á contra-argumentar que tal conceito não restritivo de comunicação debilita excessivamente, se não anula, a bipolaridade emissor/receptor, característica de qualquer acto comunicativo. Este contra-argumento, todavia, não apresenta consistência, porque, na verdade, não se põe em causa necessariamente a existência do emissor, apenas se confutando um certo conceito racionalista, voluntarista e, digamos, antropocêntrico, de emissor. Por isso mesmo, atendendo à heterogeneidade dos possíveis emissores num processo semiótico, talvez seja aconselhável, em certos casos, o uso do conceito e da designação de fonte de informação - ou apenas fonte -, propostos pela teoria matemática da comunicação, em vez do conceito e da designação de emissor.
Por outro lado, esta concepção mais lata do fenómeno comunicativo potencia e torna mais complexas as funções do receptor, que assim se configura como o pólo mais relevante na dinâmica do processo comunicativo (não é fortuito o interesse suscitado, nestes últimos anos, pela chamada estética da recepção).
Como veremos, este conceito mais abrangente de comunicação reveste-se de grande importância na análise da comunicação literária.
(CONTINUA)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
http://twitter.com/Menalton_Braff
http://menalton.com.br
http://www.facebook.com/menalton.braff
http://www.facebook.com/menalton.braff.escritor
http://www.facebook.com/menalton.para.crianças