Conto publicado no livro "À sombra do cipreste", editado em 1.999 pela Palavra Mágica e vencedor do Prêmio Jabuti 2.000 daquele ano. A edição atual é da Global Editora.
Paisagem do
pequeno rei
Mastigando ainda restos do desjejum, sem pensamento nenhum em sua cabeça,
Juninho levantou-se da mesa e grudou a testa no vitrô fechado: seu modo de
espiar aquele mundo que se mantinha escondido por trás das paredes. Pela boca
aberta em cilindro, divertiu-se algum tempo expelindo o bafo quente com que
embaçou pequeno círculo na vidraça transparente. E meio que riu, satisfeito com
tal poder, o de cobrir a parte que quisesse do terreiro com sua cerração,
aquele bafo que lhe subia do peito. Para além da janela, no fundo, a inundação
de azul de um céu despenhadeiro: uma vertigem. Bem ao fundo, a inundação de
azul, onde um rebanho de alvos cirros se deixava singrar por alguns pontos
pretos movediços - pequenos e trágicos pontos finais - que, uns atrás dos
outros, desenhavam largos e lentos
círculos. Alheio ao significado do que ultrapassava os muros de seu terreiro, o
menino desenhou, com a ponta do dedo, um grande jota arredondado: exercício
necessário da própria afirmação. No gancho da letra, seus olhos enquadraram, no
recanto mais afastado do terreiro, o imenso flamboiã de tronco rugoso, já meio
decrépito, no exato momento em que um bando de maritacas marulhentas alçou vôo
e mergulhou no céu, deixando a árvore, com seus galhos retorcidos, inteiramente
desfolhada.
Grupo remanescente de andorinhas sobrevoou o terreiro - as claras penas
do peito quase roçando os galhos mais altos da árvore praticamente nua. Talvez
uma despedida, véspera da grande viagem. O menino olhou as andorinhas, o
flamboiã, olhou as maritacas, distante e indiferente. Ele olhava com a boca
aberta, olhava com as mãos espalmadas na vidraça, com os olhos, olhava com o
corpo todo, mas nada entendia, porque tinha o olhar bronco de quem ainda não
aprendera a possuir as coisas a distância.
Só ao ver o passarinho pular do nada para o meio da galharia é que se
agitou um pouco mais. Como um chumaço de algodão embebido em mercúrio cromo,
saltitando com vivacidade de um galho a outro, ágil, certeiro, encheu os olhos
do menino, que, deslumbrado, apressou-se a limpar com as duas mãos a vidraça
embaçada. Mas o que era aquilo, aquela pequenina bola púrpura, tão cheia de
vida e de vontade própria? Gritou com estridência, chamando o irmão, para que
viesse ver o que nunca tinham visto nem sabiam que em algum lugar existisse. O
irmão terminava calmamente de tomar seu café com leite e não se moveu na cadeira.
Juninho insistiu, aflito, parecendo-lhe aquela uma oportunidade única na vida,
primeira e última. O pensamento foi-se, então, formando devagar, um grande círculo,
como um remanso do ar em volta do terreiro, das árvores, um remanso lento, mas
irreprimível. Um espetáculo que era seu, tão-somente seu. Além do irmão, a mais
ninguém permitiria seu desfrute. Mas aquilo não chegava a ser um pensamento,
porque ele apenas o sentia, embora com o corpo todo.
- Mas onde?!
Dois vidros acima, o irmão, impaciente, nada via além do que sempre ali
estivera: as árvores, a pequena horta, um galpão coberto com folhas de zinco,
uma gangorra e alguns trastes inumeráveis
e invisíveis, de tão fixos na paisagem.
O menino gritou que no flamboiã, cada vez mais aflito, porque agora ele
também nada via e relampejou-lhe a sensação quase insuportável da perda mesmo
antes da posse. E sacudia as mãozinhas gordas preparando o choro.
Como se o mundo, de repente, estivesse a se apagar, o menino pensou com
urgência.
- Lá!
Ele gritou com o dedo teso, quase furando a vidraça. Tinha acabado de
rever, fascinado, a pequena bola vermelha a saltitar. Então, em pânico,
vislumbrou o perigo: o passarinho não estava preso dentro daquela cena, que, de
um momento para outro, poderia dissolver-se. -
Eu que vi primeiro. Ele é meu!
O irmão não percebeu logo o sentido daquelas palavras proferidas com
tamanha veemência e confirmou que sim, que era dele, e que ninguém, por
enquanto, ameaçava privá-lo do que era seu. Ele não sabia que o pequeno jamais
aprenderia a dispor de tudo com todos, pois era do tipo que só consegue sentir
que é seu quando possui sozinho, sem partilhar com mais ninguém. E por não
conhecer o próprio irmão é que tentou ainda por algum tempo mostrar-lhe o
quanto é de todos aquilo que, a princípio, parece de ninguém.
Mas não é isso, foi a resposta exasperada que o som estrepitoso do
sapateado abafou. O cabelo empastado na testa suarenta era sua irritação com a
conhecida conversa de enganar, que já adivinhava: depois ele esquece. Não é
isso. Meu é o que minha mão segura, seus membros agitados como em espasmo, por
causa do medo.
Só aos poucos a compreensão
foi-lhe penetrando venenosa. Suas propostas não demoviam o menino, cujo torvo
olhar ameaçava sorver a paisagem toda: meu é na minha mão. Nem o canarinho da
terra, estralando na gaiola, nem o hamster acrobata, que tanto o encantava.
Nada. Quase certo que já os considerava seus. Necessidade nenhuma de barganha.
Meu é na minha mão. E esperneava barulhento.
O corpo tenso ligeiramente inclinado para a janela, estúpido e
esperançoso, Juninho acompanhou o imergir de seu irmão na loira claridade do
terreiro. A expectativa machucava-lhe os músculos, mas a dor não o distraía.
Sentia-se ligeiramente compensado das aflições ainda há pouco vividas, ao
enquadrar na mesma cena o passarinho vermelho, nos galhos do flamboiã, e seu
irmão, gestos atávicos de caçador, esgueirando-se rente ao muro, corpo em arco,
longas esperas de cócoras - o estilingue preso pelas extremidades. Compensado,
mas temeroso, ainda, com a possibilidade de uma fuga repentina, definitiva. O
suor, por isso, porejava-lhe no buço, na testa, empastava-lhe o cabelo da nuca.
Meu é na minha mão, sentia cansado mais do que pensava. Mas é meu, parecia responder seu olhar vitorioso,
logo depois, ao olhar acusador do irmão, quando este, assomando à porta da
cozinha, entregou-lhe nas mãos o passarinho. É meu. E reparou, enquanto lhe
assoprava as penas, que visto de perto era ainda mais belo do que de longe,
apesar da flacidez do pescoço de onde pendia inerme uma cabecinha inútil.
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