Abundância de estrelas no céu
Seus duros pés fincados na plataforma cresciam dormentes de espera.
Envolto pela multidão, era quase impossível mover-se do lugar. O reflexo do Sol
a meio céu borrava com esplendores, para olhos cansados de ver como eram os
seus, o letreiro dos ônibus ─ o destino que prometiam. Ao lado, de mochila às
costas, o menino exibia as habilidades recém-adquiridas, gritando para a mãe o
nome de bairros próximos e distantes. Sem exagero de gratidão, porque era
inconsciente, Noé valia-se daquela ajuda enquanto se esforçava para mudar a
posição dos pés enraizados e presos dentro de botas secas.
O menino gritou Paraíso como um alívio alegre, e a mãe sorriu. Antes que
o ônibus parasse, corpos suados disputaram o espaço à beira da plataforma.
Entre eles, a mãe com o filho preso pela mão. Noé reparou que ela usava uma
saia fina e florida, diminuindo seu peso, então resolveu sentir calor. Com os
braços em cruz no peito, pegou a blusa pela borda inferior e a retirou por cima
da cabeça. Agora sim, ele respirou, agora seu corpo estava muito melhor. Mas o
ônibus já partia e ele começou a sentir saudade do menino que sabia ler e de
sua mãe que usava uma saia fina e florida.
Com menos gente na plataforma, Noé começou a observar. Não para
distrair-se na espera, que não podia medir, mas porque o mundo se abre ante olhos
abertos. Notou que havia uma imensidão de sapatos, quase todos parados na
extremidade de pernas ligeiramente abertas. Os mais agitados, ele concluiu
surpreso, são os menores e de cores mais alegres. Alguns, como suas botas,
pareciam plantados na dureza do cimento: totalmente imóveis. A maioria dos
sapatos estavam ou sujos ou foscos, descoloridos. Apenas uns poucos brilhavam
como estrelas.
Mais um ônibus estacionou rangendo suas ferragens, para alegria de
algumas pessoas, que passaram à condição de passageiros. A plataforma ficou
ainda mais aliviada, e, olhando para a direita, Noé descobriu que, ao lado da
rodoviária, havia uma praça. Não muito grande, ele percebeu quase frustrado,
mas dominada por imensa figueira cuja sombra cobria todos os bancos e algumas
das pequenas aléias de saibro que a cruzavam. Além da praça, os prédios
escondiam o horizonte; acima dela, um céu imaculado, azul como um vidro. Estar
lá, à sombra, foi um pensamento que lhe ocorreu para sentir-se mais alegre. Mas
como descobrir, daquela distância, o destino de cada ônibus? Resolveu então
voltar àquela neutralidade entre a alegria e a tristeza, um estado cinzento com
que costumava esperar suas conduções.
Envolvido com a praça e a sombra de sua figueira, muito mais atento aos
fluxos internos, sutis pensamentos, Noé assustou-se ao ver estacionando mais um
ônibus. Enquanto devaneava, o mundo acontecia? Teve de afastar-se rapidamente
do lugar onde estava para ler o letreiro à testa do coletivo. Suspirou
aliviado: não, também este não lhe servia. Com os braços da blusa cingindo-lhe
a cintura, Noé voltava para a mesma posição que ocupara todo esse tempo, mas
descobriu, num surto de alegria, que, em alguns dos bancos junto à parede,
havia lugares vagos. Meus pés, ele pensou de imediato e sem querer, não
precisam continuar crescendo. Já havia pouca gente na plataforma, e a brisa
atravessou aquele espaço farejando alguma coisa como numa caçada. Noé esfregou
os braços nus com as duas mãos. Esfregou com força e aspereza até sentir que o
calor voltava.
Só então, com o corpo largado na tábua lisa do banco, foi que Noé
lembrou-se de enfiar os dedos na barba branca. Era seu gesto preferido de
meditação. Desde que chegara, muitos ônibus haviam chegado e partido. Nenhum
deles, entretanto, com um destino aceitável. Tristeza, Floresta, Penha,
Paraíso, Campo Grande, uma lista sem fim, mas nenhum que lhe servisse. Estava
no seu direito, portanto, de sentir-se irritado. E isso, apesar de agora gozar
as delícias de um assento, sem a necessidade de sentir os pés crescendo
desmedidamente.
Quando apontava a soberba frontaria de um ônibus qualquer, Noé
levantava-se cheio de esperança e, na beira da plataforma, ficava atento até
descobrir que não era aquele o caminho que pretendia. Na segunda ou terceira
vez em que isso aconteceu, Noé notou que os reflexos do sol, tão incômodos
algumas horas antes, haviam-se extinguido, e ele conseguia ler com facilidade
uns nomes que nada lhe diziam. Voltava para o banco coçando os braços, vítimas
inocentes de sua irritação.
Da copa da figueira, toda ela uma sombra fresca, então, escorria
crepitante a algazarra dos pardais, em que cada pipilo continha uma urgência de
registro muito agudo. Como não se visse nem se ouvisse ônibus nenhum desde que
o Sol, esbraseado, sumira num incêndio por trás de uns edifícios escuros, Noé
pôde dedicar-se por inteiro à escuta do alvoroço com que os pardais
ajeitavam-se para esperar a noite. Foi assim que, tendo os olhos desocupados,
olhou para o céu, onde surgiam as primeiras estrelas. Naquele momento,
observando bem o azul ainda claro, Noé descobriu como é o infinito. E apesar do
cansaço, da irritação, ele conseguiu um sorriso satisfeito, pois era uma
descoberta feita de inopino, totalmente casual.
Finalmente apareceu mais um ônibus. E esse já vinha todo iluminado. Do
banco, onde há bastante tempo estava sentado, Noé pôde ler o letreiro, que
indicava um lugar qualquer, de que ele nunca tivera notícia. Não foi preciso
levantar-se para decidir que era mais uma decepção. O ônibus parou, abriu a porta
com um gemido e iluminou a plataforma. Algumas pessoas embarcaram com seus
suores no rosto e nas axilas, além da certeza de que eram esperadas em seus
destinos.
Noé, sentado em seu banco, dois operários encharcando-se de cerveja e
cachaça no bar da rodoviária e o balconista, eram os últimos semoventes da
estação. Noé sentiu um frio que era muito parecido com uma solidão, por isso
tratou de vestir a blusa. Sentindo-se um pouco mais confortável, resolveu
pensar em todos os acertos que viera fazendo nos últimos tempos, o modo como se
despedira dos seres e das coisas, até chegar ali, consciente de que não havia
mais caminho de volta.
Os dois operários atravessaram a plataforma e sumiram noite a dentro,
abraçados e cantando com incongruência suas vidas ralas. Foi um vulto só, o que
Noé viu, mas eram duas as vozes roucas, deterioradas. A porta do bar desceu com
um estrondo e o balconista seguiu as pisadas de seus fregueses.
Com os braços cruzados no peito, Noé ainda gastou os olhos perscrutando a
boca da avenida por onde poderia chegar algum ônibus. Esperou muito tempo. A
plataforma era um espaço inútil, vazio, preparada para sua espera de toda a
noite. Os pardais já dormiam silenciosos. Apenas de raro em raro podia-se ouvir
um pipilo perdido, de quem ainda não se acomodou direito. As estrelas, bem mais
nítidas agora, desenhavam navios e castelos na planura do céu.
Noé tossiu um pouco, mas apenas para se distrair. Com a mão direita
tateou a extensão do banco, encolheu as pernas e deitou-se.
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