Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, Whisner Fraga muda-se de cidade constantemente.
"Ao dez anos me tornei devoto de Machado de Assis, de José de Alencar e de José Lins do Rego. Mais tarde, minhas leituras, sem orientação, aleatórias, tiveram uma queda de qualidade, quando li a coleção Vagalume inteira. Nada que Guimarães Rosa não tivesse resolvido poucos anos depois, com seu Sagarana. Assim, prestei o Vestibulinho para ter acesso à segunda parte do ensino fundamental, que consistia da quinta a oitava série do primeiro grau.
Era uma escola pública polivalente, que oferecia cursos que são conhecidos hoje como integrados. À grade tradicional somavam-se disciplinas de caráter profissional, como marcenaria, horticultura e educação para o lar. Fiquei ali até o primeiro ano do segundo grau, quando me transferiram para um colégio de padres. Tive aulas de teologia com um exorcista, aprendi fundamentos de latim, francês e música e comecei a gostar de cerveja.
Nessa época eu andava na caçamba de uma pick up quando meu pai bateu em outro carro. Pode ser que minha mãe estivesse também no carro na hora em que eu caí pelo assoalho, dando risadas, como se fosse a grande aventura da minha vida. Com a mesma pick up íamos para as chácaras de parentes, onde eu passava o dia escutando pássaros, olhando os bois ruminarem e comendo murici.
Como eu não sabia o que fazer da vida, resolvi cursar Engenharia. Escolhi Mecânica e me graduei alguns anos mais tarde. A indústria e o estresse de um chão de fábrica não eram para mim, de modo que só havia uma solução: a carreira acadêmica. Cursei Mestrado na mesma Universidade Federal de Uberlândia e doutorado na USP. Doutorei-me em 2003 e prestei um concurso para a docência e desde então venho lecionando para jovens e adultos.”
Conversão é seu conto que hoje publicamos.
Conversão
Whisner Fraga
Morrer
é março, Fabrícia, numa madrugada de Hoje-feira,
inesperada, rondante, arrastada e ressentida, mas atravessávamos um outubro
límpido, desses arrogantes de tão incontestáveis, o mês queimando os telhados
de nosso sobrado, quando ele se entregou e eu não compreendi. Finalmente deve
perguntar por mim e ser informado pelos que chamam de anjos. Anjo é um delicado
frenesi de proteções, um absurdo alado. Morrer é plateia e heranças. A dor, uma
delicada penumbra navegando no sangue, arranhando, com uma mansa unha de medos,
um tempo que tricota o fim. E depois chorar.
Morrer é enfrentar remorsos de pulos e de correrias. Beijos no rosto, tapinhas nas costas, apertos de mão e pêsames, abraços e abandonar, subitamente. Mamãe deve me procurar ainda em terrenos alheios, mas não roubarei mais romãs. Em nome do pai. Lembram-se da tarde em que o vermelho nos seduz, como se o doce de uma fruta fosse um mundo em decomposição dentro de nossas bocas? Morrer é março e outubro e faço um nó com meus braços. Quando alcançava seu pescoço e, inocente, reivindicava alturas para aproximar-me daquela sua orelha penugenta, abandonando os tempos num esquecimento negligente e algo impreciso, quando calhava essa proximidade, Fabrícia, havia a confiança, pois ele não me deixaria cair. Meu pai era a verdade. Era esse confronto que nunca aconteceu, ele me devolvia ao chão e a desculpa era que assim arranharia a pátina da minha pele com as lâminas da sua barba. Se encontrá-lo um dia, farei como se deve, darei minha mão e iremos, porque já serei crescido. Iremos.
Morrer é enfrentar remorsos de pulos e de correrias. Beijos no rosto, tapinhas nas costas, apertos de mão e pêsames, abraços e abandonar, subitamente. Mamãe deve me procurar ainda em terrenos alheios, mas não roubarei mais romãs. Em nome do pai. Lembram-se da tarde em que o vermelho nos seduz, como se o doce de uma fruta fosse um mundo em decomposição dentro de nossas bocas? Morrer é março e outubro e faço um nó com meus braços. Quando alcançava seu pescoço e, inocente, reivindicava alturas para aproximar-me daquela sua orelha penugenta, abandonando os tempos num esquecimento negligente e algo impreciso, quando calhava essa proximidade, Fabrícia, havia a confiança, pois ele não me deixaria cair. Meu pai era a verdade. Era esse confronto que nunca aconteceu, ele me devolvia ao chão e a desculpa era que assim arranharia a pátina da minha pele com as lâminas da sua barba. Se encontrá-lo um dia, farei como se deve, darei minha mão e iremos, porque já serei crescido. Iremos.
Precisávamos
sair dali, daquela combustão de dissoluções, da escorregadia franqueza de
remorsos. Então escolho o abrigo, Fabrícia, porque eu preciso daquela palma em
minha testa, daquele repouso, fingido e imprudente, nas abas de minha orelha.
Eu queria o ninho. Embora eu já a considere crescida para suas próprias
predileções, você corre comigo. O peito envaidecido de coragem. Aquele quarto,
um pesadelo a nos tragar. É assim que se cresce. Embora crescer, Fabrícia, não
seja uma opção. Nosso pai é março e definhar em profundezas.
Então
resistiríamos uma ou duas temporadas com os avós.
Podia ser
perigoso o que representava a casa dos outros para o nosso apetite por perdas.
(Mamãe precisa descansar, mamãe precisa descansar). E havia sido lá também que
vi a cabeça de meu tio rodopiando no forno. Às vezes tenho preocupação com a
morte. E com março e de outubro.
Estamos
encolhidos, Fabrícia, e a noite é uma só: desolada e pendente. Pretendo me
render ao que não entendo. Desde que relei a mão naqueles pés frios, incenso de
hospital e de decadências. Estranhos aqueles dentes fugindo do sorriso. Por
isso tivemos de escapar, porque havia um ranço de anormalidade nos rostos
graves dos que vieram para o velório. Não quero nunca mais ver um cadáver na
copa. Algumas pessoas cochichavam quando pensei em abraçá-lo e imaginei que
caçoavam de mim e resisti. Você, um nada tremendo ao pé de mamãe. E já me
arrependia. De repente aqueles garçons rondando, com uma gravidade profissional,
a ironia do corpo. Eu temia que papai não seguisse para o céu e que se
levantasse dali, procurando por nós, para que trouxéssemos um chinelo ou para
localizar um controle remoto. Eu não sei o que mais ele poderia fazer se
acordasse.
E isso me
assustava.
O
que acontecerá agora com a horta, com o pé de mamão-macho, se
não fizemos cursos de adubagem, de
plantio? Não sei o que foi deles. Então você
falou, Fabrícia, e discerni a palavra “fome” naquela fatia de voz que me
açoitava a covardia. “Fome”, você repetiu. Eu sabia que não era hora para você
se entregar à chantagem do estômago, toda a lógica da humanidade me apresentava
um pai coberto por flores e as narinas vedadas por um grotesco chumaço e
queixas insensatas. Que atitude tomar diante da veemência daquela verdade,
urgente e desarrazoada? Pairava no seu pedido um tremor de desconhecimentos,
uma insistência de dúvidas numa agonia sussurrada, uma severidade que não me
deixava escolhas:
Eu devia
atravessar a amplidão da copa e voltar com algo que comer, ao mesmo tempo em
que antevia o seu desespero se coagulando ao se perceber sozinha e aqueles
móveis acossando a incompreensão do que você tentava ser aos sete anos,
Fabrícia, e eu já me tornava o novo homem da família. É doído tornar-se um
homem em tão poucos minutos.
Levantei-me,
abri a porta, contemplei outra vez o seu choro miúdo camuflado nos braços
cruzados e saí.

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