
Regina Baptista nasceu em São Joaquim da Barra-SP, mas vive
em Bonfim Paulista. É associada à UBE – União Brasileira de Escritores.
Publicou “CÁRCERE PRIVADO” (2007); “MUNDO SUSPENSO” (2009), "ATO
PENITENCIAL” (2011); e “REVISTA MASCULINA: O HOMEM EXPOSTO” (2012). Agora em 2015, lança o romance FÓRUM VIRTUAL.
PENITENCIAL” (2011); e “REVISTA MASCULINA: O HOMEM EXPOSTO” (2012). Agora em 2015, lança o romance FÓRUM VIRTUAL.
O BAILE DEBUTANTE
Meu
irmão e eu estávamos de passagem por aquele lugar e paramos numa hospedagem
para passar alguns dias. Logo percebi uma estranheza nas pessoas da casa; não
gostei delas mas também não gostei de mim naquilo que até então eu conhecia mas
estava sem uso: a suspeita. Como se fosse uma autoridade, coloquei aquelas
pessoas sob a minha desconfiança, de uma forma tão dura que eu mesma não
suportava.
O
pequeno hotel, que tinha um ar familiar, era dividido em duas alas. Num prédio
morava a família de proprietários e também era a hospedagem feminina; o prédio
vizinho era reservado aos hóspedes masculinos.
Era portanto um ambiente que queria transmitir uma imagem respeitosa,
uma casa de família. Os proprietários, no entanto, desde o princípio não me
convenceram com as aparências. Cada pessoa, cada palavra gentil, cada gesto de
simpatia me despertava a suspeita de que ali não se estava seguro ou de que
tudo isso só existia justamente para camuflar o que não podia ser percebido.
Foi então que certa vez tudo começou a se confirmar. A filha mais nova da
família, uma jovem prestes a completar quinze anos de idade, estava muito
doente. Minhas suspeitas aumentaram porque, sem querer, me tornei vigilante com
o caso e isto visivelmente incomodava a família; mas ela não chegava a se
irritar, apenas observava com cautela minha interferência e na medida do
possível tentava me deter. O pai da moça chegava a ser gentil comigo como se
quisesse agradecer pela minha preocupação, mas por razões que eu desconhecia,
se recusava a levar a garota ao médico como eu recomendava, e apresentava, para
justificar a resistência, as desculpas mais esfarrapadas que encontrava. Algo
parecido vinha das mulheres da família: uma velha que devia ser a avó da moça,
algumas tias e algumas jovens que eram suas irmãs e primas. Na minha presença
todos pareciam cuidadosos com a menina, lamentavam seu estado, aplicavam-lhe
tratamentos, sopas, chás, repouso... Mas nada os convencia a chamar um médico,
nem as convulsões causadas pela febre, nem a palidez da face. Se por um lado
essa negligência me intrigava, por outro, eu me sentia livre do mal-estar que
antes me corroia quando eu achava que a minha desconfiança tinha origem no meu
próprio olhar, no meu próprio interior e não nas coisas que estavam à minha
volta. Finalmente aquela necessidade de vigilância que nascera e crescera desde
que cheguei à casa, perdia sua aura de
impiedade e me dava o gosto suave da justiça.
Embora
mais leve, eu estava aflita e queria dividir aquela estranha história com meu
irmão, mas eu não conseguia me comunicar com ele porque, pelas regras da casa,
não eram permitidos contatos entre os hóspedes femininos e masculinos. Isso
valia inclusive para irmãos. Assim, eu não podia entrar na ala masculina sob
pena de sermos expulsos do hotel.
Porém,
à medida que a doença da garota evoluía e a indiferença daquela gente
permanecia, eu me apavorava. Um dia anunciei à família que eu mesma ia chamar
um médico. Tomei a liberdade de vasculhar uma agenda de telefones da família e
descobrir quem era seu médico de confiança. Talvez a atitude de comunicar minha
decisão não tenha sido muito inteligente, mas é que eu estava tão habituada a
respeitar aquelas pessoas e além disso eu tinha tanta vontade de declarar que
elas não estavam conseguindo me enganar, que acabei me delatando. De qualquer
forma, mesmo que eu o fizesse em confidência, acabaria me surpreendendo com a
notícia que recebi ao falar com o médico. Ele disse que já estava cuidando do
caso e que os parentes da paciente já estavam aplicando o tratamento que ele
recomendara e que não havia mais nada a fazer a não ser esperar pelo resultado.
Eu encerrei a ligação, enfurecida e envergonhada por suspeitar novamente que a
dimensão do problema talvez fosse bem maior do que eu pensava. O medo me rondou
mas quando olhei para o estado da enferma, com seus olhos manchados, o rosto
suado, criei coragem de enfrentar minha covardia e a própria família do hotel.
_
Por que não me contaram que já tinham falado com um médico? De alguma forma
vocês sabiam sobre mim e minhas intenções. Preveniram-se contra mim, talvez,
quem sabe, até fizeram ameaças ao médico para obrigá-lo a me dizer que ele já
fez os exames necessários... Enfim, ajeitaram as coisas de modo que eu ficasse
sem ação.
Ditas
essas palavras e portanto revelando-me por inteiro perante meus suspeitos e
minha protegida, saí da presença de todos, sabendo que me arrependeria por ter
sido tão transparente com pessoas que não me temiam. Antes de sair, porém, tive
a grata sensação do reconhecimento da enferma que, mesmo no delírio da febre,
testemunhou meu empenho em salvá-la e quis me falar. Aproximei-me dela
atendendo seu pedido feito com um gesto trêmulo e fraco. Alguém da família
ainda me alertou: “não chegue muito perto, pode ser contagioso”. Ignorei o
alerta, colei o ouvido à boca da menina para ouvir sua voz fraca:
_
Fui envenenada! – me disse ela.
Então
chegou o dia do aniversário da garota, que ainda não tinha se restabelecido
mas, ao contrário, piorava a cada dia. Mesmo assim os hóspedes decidiram dar
uma festa e, para que o som da música não chegasse ao quarto da aniversariante
enferma, todos se concentraram na ala masculina do hotel. Era a ocasião,
portanto, em que homens e mulheres puderam se misturar e eu aproveitei para
procurar meu irmão. Vasculhei cada quarto, cada sala, cada canto do prédio mas
não encontrei sequer pistas do que teria acontecido com ele. Da direção do
hotel recebi a informação de que ele tinha ido embora. Eu não podia acreditar,
claro, mas a estranheza dos acontecimentos me fazia perceber o quanto era
perigoso o terreno em que eu pisava e eu achei melhor contrariar meus impulsos
pelo menos enquanto não me fosse oferecida uma razão óbvia para acreditar na
minha superioridade sobre os que me ameaçavam.
Já
não havia mais ânimo para continuar na festa; todos os participantes me
pareciam uma legião de cúmplices de alguma trama medonha. Por todo lado eu só
enxergava conspiração, embora não entendesse o fundamento daquilo tudo. Concluí
que para chegar a tal fundamento eu teria que passar o resto da vida ali,
convivendo com aquela trama até me envolver profundamente e assumir uma posição
definitiva nela. Arrasada e com uma sensação de perda para a qual eu já havia
me preparado inconscientemente, – pois sabia que estávamos, meu irmão e eu,
correndo perigo desde que chegamos – eu só queria chegar até meu quarto onde eu
pretendia arrumar as malas e ir embora. Mas no caminho presenciei um pequeno
tumulto na sala principal. A adolescente enferma havia recuperado alguma força
e decidira sair do repouso. Tinha se maquiado para esconder os sinais da doença
e lutava contra os que queriam mantê-la na cama.
_ A
festa é em minha homenagem. – dizia se livrando das mãos que tentavam detê-la.
– Eu tenho que estar presente.
Seu
restabelecimento me animou um pouco embora nada sufocasse a infelicidade pelo
desaparecimento de meu irmão. Mas logo vi, quando a menina se aproximou de mim,
que o que parecia ser uma recuperação não era mais do que a força de um ódio
enlouquecedor que agora guiava aquele coração, pois ela própria fez um breve
balançar de cabeça em sinal negativo quando forcei um sorriso para
cumprimentá-la. Comovida, desisti de arrumar as malas e a segui. Vi quando
entrou pela ala masculina, fez uma saudação a todos e depois de caminhar quase
sem forças por entre os convidados e hóspedes como se procurasse por alguém,
finalmente parou diante de uma de suas parentas. Era uma das mulheres que
deviam ser suas tias. Num lapso de segundos a menina se lançou sobre ela:
_
Assassina! – gritava, enquanto tentava enforcá-la.
Ao
mesmo tempo em que a música foi desligada, todos se concentraram no local da
cena. Dois ou três homens agarraram a moça e controlaram sua fúria. A mulher
agredida não poupou palavras de insultos contra a sobrinha:
_ Sua menina mimada, mal
agradecida! Nós nos preocupamos com a sua saúde, fazemos de tudo pela sua
recuperação, até lhe damos uma festa e é assim que você agradece!
Constrangida pelos olhares
curiosos dos convidados, a mulher conteve-se e recomendou a retomada do baile.
A
debutante foi deixada sozinha numa poltrona enquanto a música voltava a tocar e
as pessoas se dispersavam pelo salão. Cheguei àquela criatura debilitada pela
doença e pelo ódio, com a intenção de convencê-la a voltar para o repouso mas
ela reagiu:
_
Não saio desta festa antes que ela acabe ou antes que eu morra.
_Você
parece bem melhor. – tentei encorajá-la. – Talvez viva mais do que a maioria
dos que estão dançando agora.
_
Você é muito otimista. – brincou ela.
_
Eu não sou otimista. – corrigi. – Apenas tento ver vitórias onde estou
colocando minha crença.
Ela
se irritou:
_
Eu soube que seu irmão desapareceu. Você ainda aposta na minha recuperação?
_
Vou buscar uma bebida para mim. Você quer alguma coisa?
_
Uma bebida para mim também.
_
No seu estado... Vou lhe trazer um suco.
_
Não. Eu quero vinho.
E
ia negar mas não consegui. Dei-lhe vinho e juntas bebemos o resto da noite.
Durante o tempo todo fomos tentadas pelos festeiros que dançavam incansáveis à
nossa volta, como se aquele fosse seu último baile. Mas resistimos apesar dos
efeitos do vinho. Também resistimos a muitas palavras que teriam que ser
gritadas para serem ouvidas. A música estava alta como de propósito, como se
nada pudesse ser dito naquela noite. Aos acenos dos convidados a debutante
correspondia com sorrisos e olhares de agradecimentos. De vez em quando me
falava ao pé do ouvido qualquer coisa relacionada à experiência dos quinze
anos.
_É
como acreditar em todas as possibilidades. – me contou. – Todas as imagens do
mundo vêm à mente como se fossem feitas só para mim. Nada me assusta.
Ainda
era cedo para eu entender aquilo embora eu tivesse o dobro da idade daquela
mestra; ou, com certeza, justamente por eu já ter vivido sua idade sem perceber
a morte à espreita. Fui confiscada da minha perfeição e jogada numa ala de
aleijados. Fiquei imóvel, muda, o vinho parado na garganta.

_
Eu pretendo ir embora assim que o baile terminar. – contei-lhe.
_
As consequências desta noite não vão deixar você se afastar daqui por muito
tempo. Você não percebe que está aqui do meu lado, não para me fazer companhia,
mas porque você... você é que está sozinha. Mas já foi um bom começo: chegar
aqui à ala masculina, sentar-se à mesa com uma virgem bêbada e moribunda! Só me
espanta que você não se deixou seduzir por um dos rapazes.
_
Minha situação aqui é delicada. – expliquei. – Depois do sumiço de meu irmão,
não ousarei mais nada; não haverá vinho que me tire desse estado de cautela,
por mais que isso me aborreça.
_
Eu lamento por isso.
_
Pelo que aconteceu com meu irmão?
_
Pelo que eu lhe causei. Foi por minha causa que você ficou assim medrosa.
_
Eu sempre fui medrosa. Mesmo quando enfrentei sua família eu estava insegura e
já sabia que sofreria consequências duras demais para mim. Mas ao menos eu vi
uma causa e me pus a defendê-la, o que, acho, deveria ser louvável. De que
adianta passar o tempo todo acreditando em aparências?
A
debutante desviou o olhar. Disse alguma coisa em voz baixa, ou talvez fosse em
tom normal, mas o som da música a sufocou. Eu pedi que repetisse em voz alta.
Ela se aproximou de novo do meu ouvido e disse:
_
Eu pareço saudável?
_
Parece estar melhor do que dias atrás.
_
Eu me sinto melhor. – revelou. - Talvez você tenha razão. Talvez eu viva mais
do que muitos que estão aqui.
Dito
isso a menina se levantou, firme e segura, como se nunca estivesse enferma nem
bêbada. Passou por uma mesa onde um jovem a aguardava com a mão estendida. Ao
se darem as mãos o rapaz se levantou e conduziu a debutante a um dos quartos do hotel.
Eu
permaneci onde estava até o fim do baile. Só quando todos se foram e os
hóspedes se recolheram, foi que me dei conta de que já não havia o que esperar
do hotel.
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