O romance "Pouso do Sossego" é o segundo volume da Trilogia "Tempus Fugit", iniciada com "Tapete de Silêncio" e será lançado no próximo dia 19, na Livraria Martins Fontes, em São Paulo.
POUSO DO
SOSSEGO
O romance do Menalton Braff
se desenrola numa cidadezinha do interior, construído entre uma oligarquia que
nunca se vergou aos ares republicanos.
A instabilidade permanente
envolve os atores com a mesma normose que enverniza os sintomas posmodernos. A
voz narrativa é da Lúcia, única filha do Dr. Madeira. Esta foge com um
malabarista de circo. Envergonha os pais, choca os costumes da comunidade, é
mandada para o exterior. Após três anos retorna. A honra da família é remendada
pelo selo do eterno num casamento arranjado.
A contradição sustenta a
ambivalência da personagem que foge por duas vezes do autoritarismo paterno e
acaba se rendendo a força do regionalismo, de uma estrutura costurada com fios
de aço. O texto, entre um flash e outro segue a cartilha dos grandes
latifúndios do subdesenvolvimento latino americano. A decisão dos destinos de
uma família é tomada pela figura fictícia de um coronel que dispõe das suas
vidas a seu gosto e interesses.
Em todo desenrolar a história
chega perto de outro portal, mas, não permite que o pensamento surreal assuma o
controle. Ao sair à rua com a mãe, após três anos de ausência, Lúcia sente um
lampejo de felicidade que ilumina de forma intensa o ambiente externo da praça:
“Dentro de mim, no meu peito ressoam cânticos angelicais e o sol com seus raios
frescos arranca faíscas de asas claras e imensas. Me sinto subitamente leve,
transparente e só não flutuo por estar presa à minha mãe”. E ainda ela: “Saio
tonta da experiência espiritual (e sei que foi uma experiência espiritual) para
cair pesada na lagoa escura dos olhares”.
É como se a
personagem principal, por mais ficcional seja a sua criação, não deixasse de
transparecer de forma velada a influência do autor em não perder o domínio na
reflexão da voz narrativa, trazendo-a ao chão: “tudo isso, entretanto,
procurando um nome e seu endereço, sem que eu encontre a rede de relações em
que estão situados.
A consciência da protagonista
quando ameaçada pela intensidade que a ultrapassa, vira acaso: “Mas o que é
minha vida, senão um sonho em que quase tudo acontece fora do meu controle?
Quanto desta vida acontece por deliberação minha? Quanto escolho, quanto sou
escolhida? O acaso sim me arrasta por caminhos fáceis margeados de flores ou
estreitas veredas entre urtigas e espinhais sem que eu possa mudar a direção da
viagem”. A narradora transforma esse sabor transcendente numa metáfora poética
impedindo que penetrem numa região fronteiriça.
Em Pouso do Sossego, Menalton
faz valer uma vez mais o talento e a competência de um grande escritor. O
texto, entre outras nuances realça a força de ser do Brasil rural: “o orgasmo
forte e atrevido, a saúde camponesa, a fome de animal solto no pasto”, a
anunciação da desonra encorpando o gesto violento. A trama não perde a pulsação
madura de um drama universal. Amâncio, o marido encomendado; a solução quase
perfeita para restaurar os tecidos rasgados de um imbróglio que se torna
trágico nas mentes repletas de teias de aranha, de um rincão distante de
costumes próprios.
Na festa de
inauguração do supermercado, cansado do mexerico invejoso dos amigos e dos
rumores que circulavam na cidade, ele perde a cabeça e num gesto tresloucado se
vinga da insolência ferina do Hipólito, que o insultava em alta voz: “Todo
mundo sabe que você foi comprado pra carregar o par de chifres”. Enfia-lhe uma
faca no ventre: Aquele dá um grito que sobe do estômago: “uma sororoca rouca,
animal, um gorgolejo subindo lá do fundo do seu corpo”. Perplexo, o leitor tem
diante de si um final aberto. Cada um possa digerir ao seu prazer, o acaso que
encontra alento no colo dos predestinados.
Marcos Zeri
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