sexta-feira, 12 de junho de 2015

CONTOS CORRENTES

Vanessa Maranha

Experiência em jornalismo diário , ensino de idiomas e Psicologia (psicoterapia, perícia e avaliação psicológica, RH). Exerce, paralelamente, atividades literárias.

Currículo Literário, Publicações e Premiações:
-Venceu o Prêmio Barueri de Literatura 2013/2014, com o livro de contos “Oitocentos e Sete Dias”, Editora Multifoco.
-Venceu o Prêmio Ufes de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo
2013/2014, com o livro de contos “Quando não somos mais”.
- Foi uma das vencedoras do Prêmio OFF FLIP 2012 na categoria contos.
-Recebeu menção honrosa pelo conto “Ceias” no Prêmio Escriba de Literatura 2013
-Foi selecionada e participou da Oficina Literária da FLIP 2011, com o tema Crítica Literária.
-Foi selecionada e participou da Oficina Literária da FLIP 2010, com o tema Jornalismo Literário.
 (Fonte Linked in)



Tua carne


            É que muito cedo as coisas cedem. Muito rápido elas se dissolvem e oxidam, a idade avança e eu hoje nervosa como uma adolescente pelo desnorteio das horas, esperando um telefonema dele. Coisa breve, dar notícia, nenhuma resolução, me chamar, lembrar, ao menos. Ele tem trinta e nove anos e eu, um tanto mais, não digo.
Com alguma generosidade me darão bem menos anos do que tenho, talvez uns... melhor calar. Eu viúva, remediada sem grandes esplendores de viço, nem materiais, porque num dado ponto da vida, uma dessas interseções traiçoeiras, como nessa que pressinto estar agora, bem, num ponto anterior, perdi tudo, até a dignidade. Ele, firmeza de músculos, moreneza de pele, cabelos já grisalhando, uma beleza de homem. Pobre. Casado. Esposa de trinta e dois  anos, desleixadamente obesa, cinco filhos, e é a mim que ele procura, é comigo que ele se perde, e se encontra, e desvaira, para de novo se reencontrar, e me fazer achar qualquer coisa que há muito perdi também. Aqui ele vem todo e demora, mas demora tanto a ressurgir.
             Acontece que ela não sabe e eu não digo, porque me perfura a carne fazê-la sofrer, deixá-la saber. E sair como por aí, de mãos dadas? Com esse jeito de mãe e filho? Separar-me de que maneira, cinco meninos pequenos, nem ao menos dela um dinheiro extra para compensar? Nem ao menos uma beleza apresentável na mesa de um bar, para os meus amigos. Os peitos. E ela cobra e cobra fazendo as vezes da patroa que me malassombra em vida na casa já ruindo em que vivemos, a naja. E eu fujo, volto então para ela, quero, depois não quero mais.
             Ele traz flores sem luxo, catadas pelo caminho, vem vestido ralé mesmo, daquele jeito ralo e intenso e eu perco o rumo, a compostura. Digo que não, que o que ele tem mesmo é vergonha da minha idade. Ele responde que imagina!, jamais, que até me acha classuda demais para lhe fazer par. Ele não sabe, mas não me importa mais trajar a personagem. Trinta anos na faculdade, a reitora, ele mecânico, ele o que me resta de bom, de ruim, a pele pedindo mais (será que essa sede nunca se vai?), aqueles olhos que me espelham de certa forma tão bela, me devolvendo tonicidade, vontade, vaidade. Não me iludo, ele poderia tranqüilamente ter outra, outras, várias, mocinhas. Quase sempre de uma incompreensão total ao que digo, quase aéreo. Me iludo sim. No que me segurar? Ainda que ligeiro, mudo, passeia pelos meus adentros, sem saber. Sim, ele me ama. O telefone toca, mas não é ele.
                Um vestígio de traição no meu carro e a mulher encontrou. Eu a traio e não temo que ela saiba. Não pode nunca é saber com quem. Vai me gozar até a morte, me atormentar, fofocar por aí, falar para os meninos que dei agora para gostar de velha, capaz de nem ciúme sentir, a caninana. E a outra, cheiro de flores de ontem, o rosto encovado enquanto dorme, a morte correndo mais rápida nas veias. Mas quente. E uma tristeza sem jeito no modo como às vezes ela olha vago para as coisas, um olhar que me comove, me move, uma paciência, um toque mais certeiro, certeiras as sensações das coisas matinais, e ela, toda manhã, quando, cronologicamente, seria noite. Carência gulosa do que vive: ligo, sim.
             Ele chega e vai, não sei se volta, se gosta, se quis mesmo. Não me olha nos olhos, você nunca me olha nos olhos que é para eu não ver o fundo irisado intransponível que te habita, ou o que de fato não há – nenhum sinal, nada, signo, símbolo, aceno, uma chama? Eu fico, não vou, não te amarro nem te encaro. Não diz. Você não diz nem que sim, nem que não. Pode ser? No que você nos fez, transformou, jogou? Que coisa informe sou eu agora?
              Corre dentro de mim sangue duro e ácido, sem crença, só nisso perene e exato. Queria muito, eu sempre quis muito, tudo, de tudo, de todos, sobretudo aquilo que nem você sabe. Sou de soslaio, e se bobear eu te pego e não solto, mastigo e engulo, não alivio não, cravo dentes unhas.                                                                                                                                            
          Tua carne dura – bétula jacarandá tília. Tua carne narcose – é você me mostrando a treva em mim. Só queria isso: perder a memória dos meus muitos passados e viver presente.






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