Vanessa Maranha
Experiência em
jornalismo diário , ensino de idiomas e Psicologia (psicoterapia, perícia e
avaliação psicológica, RH). Exerce, paralelamente, atividades literárias.
Currículo Literário,
Publicações e Premiações:
-Venceu o Prêmio
Barueri de Literatura 2013/2014, com o livro de contos “Oitocentos e Sete
Dias”, Editora Multifoco.
-Venceu o Prêmio
Ufes de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo 2013/2014, com o livro de contos “Quando não somos mais”.
- Foi uma das vencedoras do Prêmio OFF FLIP 2012 na categoria contos.
-Recebeu menção honrosa pelo conto “Ceias” no Prêmio Escriba de Literatura 2013
-Foi selecionada e participou da Oficina Literária da FLIP 2011, com o tema Crítica Literária.
-Foi selecionada e participou da Oficina Literária da FLIP 2010, com o tema Jornalismo Literário.
(Fonte Linked in)
Tua carne
É que
muito cedo as coisas cedem. Muito rápido elas se dissolvem e oxidam, a idade
avança e eu hoje nervosa como uma adolescente pelo desnorteio das horas,
esperando um telefonema dele. Coisa breve, dar notícia, nenhuma resolução, me
chamar, lembrar, ao menos. Ele tem trinta e nove anos e eu, um tanto mais, não
digo.
Com alguma generosidade me darão bem menos anos do que tenho, talvez uns... melhor calar. Eu viúva, remediada sem grandes esplendores de viço, nem materiais, porque num dado ponto da vida, uma dessas interseções traiçoeiras, como nessa que pressinto estar agora, bem, num ponto anterior, perdi tudo, até a dignidade. Ele, firmeza de músculos, moreneza de pele, cabelos já grisalhando, uma beleza de homem. Pobre. Casado. Esposa de trinta e dois anos, desleixadamente obesa, cinco filhos, e é a mim que ele procura, é comigo que ele se perde, e se encontra, e desvaira, para de novo se reencontrar, e me fazer achar qualquer coisa que há muito perdi também. Aqui ele vem todo e demora, mas demora tanto a ressurgir.
Com alguma generosidade me darão bem menos anos do que tenho, talvez uns... melhor calar. Eu viúva, remediada sem grandes esplendores de viço, nem materiais, porque num dado ponto da vida, uma dessas interseções traiçoeiras, como nessa que pressinto estar agora, bem, num ponto anterior, perdi tudo, até a dignidade. Ele, firmeza de músculos, moreneza de pele, cabelos já grisalhando, uma beleza de homem. Pobre. Casado. Esposa de trinta e dois anos, desleixadamente obesa, cinco filhos, e é a mim que ele procura, é comigo que ele se perde, e se encontra, e desvaira, para de novo se reencontrar, e me fazer achar qualquer coisa que há muito perdi também. Aqui ele vem todo e demora, mas demora tanto a ressurgir.
Acontece
que ela não sabe e eu não digo, porque me perfura a carne fazê-la sofrer,
deixá-la saber. E sair como por aí, de mãos dadas? Com esse jeito de mãe e
filho? Separar-me de que maneira, cinco meninos pequenos, nem ao menos dela um
dinheiro extra para compensar? Nem ao menos uma beleza apresentável na mesa de
um bar, para os meus amigos. Os peitos. E ela cobra e cobra fazendo as vezes da
patroa que me malassombra em vida na casa já ruindo em que vivemos, a naja. E
eu fujo, volto então para ela, quero, depois não quero mais.
Ele traz
flores sem luxo, catadas pelo caminho, vem vestido ralé mesmo, daquele jeito
ralo e intenso e eu perco o rumo, a compostura. Digo que não, que o que ele tem
mesmo é vergonha da minha idade. Ele responde que imagina!, jamais, que até me
acha classuda demais para lhe fazer par. Ele não sabe, mas não me importa mais
trajar a personagem. Trinta anos na faculdade, a reitora, ele mecânico, ele o
que me resta de bom, de ruim, a pele pedindo mais (será que essa sede nunca se
vai?), aqueles olhos que me espelham de certa forma tão bela, me devolvendo
tonicidade, vontade, vaidade. Não me iludo, ele poderia tranqüilamente ter
outra, outras, várias, mocinhas. Quase sempre de uma incompreensão total ao que
digo, quase aéreo. Me iludo sim. No que me segurar? Ainda que ligeiro, mudo,
passeia pelos meus adentros, sem saber. Sim, ele me ama. O telefone toca, mas
não é ele.
Um
vestígio de traição no meu carro e a mulher encontrou. Eu a traio e não temo
que ela saiba. Não pode nunca é saber com quem. Vai me gozar até a morte, me
atormentar, fofocar por aí, falar para os meninos que dei agora para gostar de
velha, capaz de nem ciúme sentir, a caninana. E a outra, cheiro de flores de
ontem, o rosto encovado enquanto dorme, a morte correndo mais rápida nas veias.
Mas quente. E uma tristeza sem jeito no modo como às vezes ela olha vago para
as coisas, um olhar que me comove, me move, uma paciência, um toque mais
certeiro, certeiras as sensações das coisas matinais, e ela, toda manhã,
quando, cronologicamente, seria noite. Carência gulosa do que vive: ligo, sim.
Ele chega
e vai, não sei se volta, se gosta, se quis mesmo. Não me olha nos olhos, você
nunca me olha nos olhos que é para eu não ver o fundo irisado intransponível
que te habita, ou o que de fato não há – nenhum sinal, nada, signo, símbolo,
aceno, uma chama? Eu fico, não vou, não te amarro nem te encaro. Não diz. Você
não diz nem que sim, nem que não. Pode ser? No que você nos fez, transformou,
jogou? Que coisa informe sou eu agora?
Corre
dentro de mim sangue duro e ácido, sem crença, só nisso perene e exato. Queria
muito, eu sempre quis muito, tudo, de tudo, de todos, sobretudo aquilo que nem
você sabe. Sou de soslaio, e se bobear eu te pego e não solto, mastigo e
engulo, não alivio não, cravo dentes unhas.
Tua carne
dura – bétula jacarandá tília. Tua carne narcose – é você me mostrando a treva
em mim. Só queria isso: perder a memória dos meus muitos passados e viver
presente.
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