sexta-feira, 17 de julho de 2015

CONTOS CORRENTES

Pouco sei da Maris Ester, mas sei que é escritora, ativista cultural, tendo presidido algumas vezes entidades literárias que congregam escritores independentes de Ribeirão Preto.
Sei ainda que graduou-se em Letras e desenvolveu um belo trabalho pedagógico em uma prisão feminina de sua cidade. Atualmente dedica-se ao magistério.
O conto que me enviou segue abaixo.




INSPIRAÇÃO


Era uma rua sem movimento, toda de paralelepípedos como todas as ruas deveriam ser, dizia meu avô quando em vida!  Na verdade a Rua Luis Feliciano Cardoso era o sonho de muitos pintores e escritores...


Parecia um quadro pintado por Deus diante da alegria de sua criação e entregue ao homem para que este a ornamentasse como desejasse.
E assim foi feito, depois da arte do pintor Maior, Deus entregou ao homem sua obra que, diante de seus olhos, a via como bela! E usando o pincel o homem foi dando cores à nova criação...
A igreja foi construída de costas para o canal, o sino que tocava a cada seis horas avisava aos moradores a hora de acordar, a hora da missa das 6h e das 18h, durante a madrugada dava descanso a si mesmo e aos moradores.
Durante a semana nos horários de lazer a criançada deixava o zelo de lado, meninas abdicavam de suas bonecas, garotos de suas bolas e corriam para o canal a fim de extravasarem o calor que era forte.
Infelizmente na água da lagoa ainda não dava para entrar... Praia de pescadores... A água estava sendo tratada pela rede de esgoto local, a fim de que, pudesse novamente ser habitável como fora um dia quando entregue por Deus ao homem.
Diante de minha casa, duas quadras e uma praça, pequena, mas confortável para abrigar turistas e jovens enamorados que sentavam nos bancos como ter ali um refúgio para beijos alardeados de muitas primeiras vezes...
Durante os anos que estive ali assisti a tantos encontros e desencontros, mas um marcou-me muito... Uma jovem que todos os dias sentava-se na praia e ficava observando o pôr-do-sol...
Trazia sempre consigo: uma boneca, um pequeno coelhinho azul, uma vela vermelha acesa e um espelho... parecia fazer uma prece ao acender a vela e ajoelhar-se diante da imensidão das águas... muitas vezes tinha medo que ela se jogasse nas águas da Praia do Siqueira...
Às vezes sentia uma enorme vontade de ir até ela, mas em eu me controlava sempre, parecia impedido por algo maior... Tinha cabelos loiros, longos, brincos grandes e dourados... era esguia... havia naquela menina uma beleza anônima, mas que me contagiava diante do prazer de apenas observar...
Ela era uma peça digna de ser pintada e escrita, não resisti e escrevi um poema para aquela inspiração que me fazia marcar ponto todos os dias diante da minha janela. Eu, um escritor que estava sem usar à caneta tanto tempo... Vi-me fazendo poemas para aquela moça-menina que dava vida a minha caneta e ao meu pincel...
Eu, que fora criado naquele bairro, filho de pescadores havia relegado ao destino de jogar a rede todos os dias e resolvi abrir mão dos peixes que foram prato principal da minha família por muito tempo. Tornei-me pintor e escritor... Diziam meus pais que a arte estava na família desde meus ancestrais...
Resolvi dar um presente a minha musa: comprei-lhe um Kit com uma escova de pentear os cabelos, uma caixinha de música com uma bailarina e um lindo estojo de pó de arroz com um espelho, embora achasse que ela não precisava, mas havia nela tanta meninice que quis dar-lhe sonhos de toda jovem: um Kit de beleza... Não tinha coragem de me achegar até ela, então lhe deixei uma cesta toda ornamentada com os pequenos mimos e assinei: um admirador...
Da minha janela observei quando ela chegou e viu o pacote para: linda menina da praia que me faz escrever todos os dias... Ainda não sei como, mas ela olhou para a janela e seus olhos buscaram aos meus, senti naquele momento que não era o único a ser observado...
No dia seguinte um menino bateu a minha porta e disse-me que uma moça havia pedido para que me entregasse um embrulho... Dei ao garoto uma moeda e abri o pacote... estarrecido precisei sentar por alguns minutos:em minhas mãos uma cópia da igreja da nossa vila feita de madeira e dentro dela Nossa Senhora e o sino que marcava sempre 18horas, hora em que ela sempre aparecia...o mais estranho era que Nossa Senhora era a imagem daquela jovem...ao deixar cair o embrulho das minhas mãos é que percebi que neste havia um quadro idêntico ao que eu havia pintado quando à via! Por minutos fiz uma prece, pois meu quadro retratava a praia com seus barcos, a igreja, a quadra, o canal, a praça e ao fundo uma jovem com uma vela nas mãos... mas observei no meu presente havia um acréscimo: um jovem na janela e era óbvio que ele observava uma jovem... mais abaixo a assinatura de:Maria  datado século XV.
Nunca mais a vi, mas assim como aquele presente me chegou numa manhã de domingo retornou-me também a inspiração, e em agradecimento, em prece, agradeci à Maria que se tornou objeto de minha inspiração!


Cabo Frio-RJ, Praia do Siqueira, 2009. 

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