quinta-feira, 16 de julho de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (147)

Malatesta
Prosseguimos acompanhando a trajetória dos gêneros através da história.

"A doutrina dos géneros literários advogada pela poética do classicismo renascentista e do classicismo francês não se impôs de modo unânime  e, tanto no século XVI como no século XVII, multiplicaram-se as polémicas em torno dos problemas da existência e da natureza dos géneros literários. Tais polémicas foram provocadas em geral por autores que hoje são considerados maneiristas, pré-barrocos e barrocos e envolveram não só o problema dos géneros stricto sensu, mas também o problema das regras, uma vez que estes dois problemas estéticos são indissociáveis. Enquanto a poética do classicismo concebia o género como uma entidade inalterável, rigorosamente delimitada e caracterizada, regida por modelos e preceitos de acentuado teor impositivo, excluindo ou marginalizando como acanónicos todos os géneros refractários a tal estatuto - boa parte dos géneros literários cultivados e largamernte difundidos no Renascimento foi abrangida por esta desqualificação, sendo remetida para a periferia do sistema literário pela metalinguagem dominante neste mesmo sistema -, a poética do maneirismo e, sobretudo, a poética do barroco entendiam o género literário como uma entidade histórica, admitindo a possibilidade da criação de géneros novos e do desenvolvimento inédito de géneros já existentes, advogando a legitimidade e o valor intrínseco dos géneros mistos  ou híbridos, ao mesmo tempo que, em nome da liberdade criadora, corroíam ou atacavam abertamente o princípio classicista da indispensabilidade e da fecundidade das regras.



Estas polémicas desenvolveram-se sobretudo em Itália e em torno de algumas obras que, pelo seu carácter inovador, se mostravam rebeldes aos preceitos e às classificações de Aristóteles, Horácio e outros teorizadores. Iniciava-se assim o tempestuoso e multiforme debate entre antigos e modernos: os antigos consideravam  as obras literárias greco-latinas como modelos ideais e inultrapassáveis e negavam a possibilidade de criar novos géneros literários ou de estabelecer novas regras para os géneros tradicionais; os modernos, reconhecendo a existência de uma evolução nos costumes, nas crenças religiosas, na organização social, etc., defendiam a legitimidade de novas formas literárias, diferentes das dos gregos e latinos, admitiam que os géneros canónicos, como o poema épico, pudessem assumir características novas e chegaram mesmo a afirmar a superioridade das literaturas modernas em relação às letras greco-latinas. Para os modernos, as regras formuladas por Aristóteles e por Horácio não representavam preceitos válidos intemporalmente, pois constituíam um corpo de normas indissoluvelmente ligado a uma determinada época histórica e a uma concreta experiência literária. Nos modernos, com efeito, era muito vigoroso o sentido da historicidade do homem e dos seus valores, razão por que Malatesta, um críticvo italiano do século XVI, escreve que 'dizer que nada está bem feito, excepto o que fizeram os antigos, equivale a impor que tornemos a comer por gosto bolotas e castanhas, como faziam os nossos primeiros antepassados.'"

(CONTINUA)

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