Verdes águas
Laura: irmã e fã. Com uma
diferença de dois anos, pode-se dizer que os dois cresceram juntos. A veneração
pelo irmão nasceu com as primeiras palavras, entre as quais aprendeu a dizer Alindo,
pois o erre era ainda uma barreira para a perfeita articulação das consoantes.
Arlindo fazia coisas impossíveis
para receber os aplausos de Laura, cuja admiração pelo irmão, com o passar do
tempo, tornava-se cada vez maior, atingindo, mesmo, o paroxismo de um amor
incontrolável. Com cinco anos de idade, Laura pediu o irmão em casamento, e foi
muito difícil fazê-la entender que irmãos, por questões sociais, biológicas e
até religiosas, não casam entre si. A menina sofreu por alguns dias com seus
pensamentos tão rechonchudos quanto suas pernas cheias de sulcos
profundos. Se o papai pôde casar com a
mamãe, ela perguntava, por que eu não posso casar com o Arlindo. Sua elocução
das palavras fazia belos progressos.
Chegou aos dez anos, a Laura,
convencida de que não precisava casar com seu irmão, mas de venerá-lo quase
doentiamente, disso ninguém a podia proibir. Ciente do estatuto de entidade
venerada, Arlindo usava sua imaginação para inventar frases bonitas, movimentos
extravagantes, testes de resistência. Foi assim que inventou “A pedra do
quintal sonhou com a Laura”. Bater simultaneamente com os dois pés na parede,
com a sola dos pés, na primeira vez rendeu-lhe o desconforto de uma queda de
costas no piso, mas continuou treinando até conseguir a proeza para
apresentá-la à Laura. Uma vez quase morreu, assim ele disse, com a cabeça
enterrada num balde cheio de água. Só porque você se pôs a gritar, repreendeu a
irmã. Poderia ficar sem respiração por muito mais tempo, talvez horas. Mas
aquilo assustou Laura, que pediu-lhe para escolher outros testes.
E realmente os testes mudaram,
assim como as demonstrações de inteligência e de competência física.
No primeiro domingo de janeiro, os
cinco percorreram um pouco mais de duzentos quilômetros para chegar à praia. Ao
mar de verdes águas. Na frente, ao lado do irmão, ia Laura, que não se cansava
de virar-se para trás, onde sentavam as três amigas convidadas, apenas para
comentar as competências de Arlindo. Ninguém com menos de dezessete nem mais de
dezenove.
Ao escolher as três mais belas de
suas amigas, Laura pretendia ofertá-las ao irmão. Por vocação, Arlindo
escolheria as três: um harém. Mas apenas por vocação. Desde o início da semana,
quando Laura começou a organizar a excursão e revelou quais eram suas
convidadas, Arlindo sabia de sobra que em nosso meio os haréns são todos clandestinos,
situação que não poderia atraí-lo.
Já na descida da serra, e mesmo
antes, nos muitos quilômetros percorridos, o jovem não perdia oportunidade para
demonstrar sua capacidade ao volante. Teria de escolher uma das três, mas
agradava-lhe bastante a ideia de ser escolhido por todas. Por isso, fez uma
ultrapassagem que as deixou com o coração batendo dentro da boca. Em várias
curvas, fez desapiedadamente os pneus cantarem o hino ao nosso herói, um que
aprendera com o avô e lhes ensinara de batuta em punho.
Ao descerem do carro, na praia, as
três garotas tinham a pele da cor da areia. Mas felizes por estarem vivas.
Laura, durante todo percurso,
repetia, Vocês viram como o Arlindo faz coisas incríveis? Sem alento para uma
resposta oral, as três sacudiam a cabeça concordando. Os olhos maiores do que o
próprio rosto. Felizes por estarem vivas.
Arlindo foi o primeiro a jogar sua
roupa para dentro do carro e então exuberou para as meninas seu corpo viril de
atleta modelado em uma academia de sua cidade. Deu um salto mortal perfeito,
bateu no peito, um tarzã urbano, e soltou um urro que fez todos os banhistas
daquela praia se voltarem tentando descobrir de que garganta selvagem tal som
havia saído.
Deu alguns saltos porque ainda não
estava na hora de salgar o corpo. Seu corpo em plena exibição. As amigas de sua
irmã, muito constrangidas, começaram a tirar a roupa, restando sobre a pele
apenas as finas tiras de seus biquínis. Era a hora que esperava para observar e
escolher. Amanda, de cabelos longos, lábios grossos e úmidos, tinha promessas
no olhar e na voz capazes de enlouquecer qualquer um. Suas pernas, de canelas
finas e roliças, terminavam em duas
coxas como troncos de palmeiras imperiais. Não se vexou de ficar olhando
fixamente para Amanda, cujo nome já lhe parecia o gerúndio feminino do verbo
amar. Brena, em seguida, mostrou-se no esplendor de suas formas. A pele rosada,
os peitos ameaçando explodir, o cabelo curto e aloirado e uma voz de cascata
borbulhante, límpida e musical, tudo isso fez Arlindo mudar de opinião. Mas
restava ainda Carolina, que se mostrou com certa timidez, pois era a primeira
vez que expunha assim o corpo com que fora presenteada pela natureza e que
tinha jurado, dois anos antes, mostrar apenas ao homem que a escolhesse para
esposa.
Num furor de indecisão, Arlindo
jogou-se nas águas verdes e deu fortes braçadas afastando-se da areia. Venceria
aquela que demonstrasse com maior empenho havê-lo escolhido. Enquanto isso, as
quatro garotas apenas o observavam, de pé na praia. As ondas vinham rolando
desde o estômago do mar-oceano, espumavam e morriam na areia. De cerca de
cinquenta metros, Arlindo erguia um braço e soltava seu ohô! poderoso como se
quisesse acordar alguém na Europa. As quatro amigas se encorajaram e deram corridas
com gritinhos até molharem os pés.
Laura ficou parada de frente para
o mar e chamou as três para que observassem com ela. Arlindo subia em uma onda,
gritava de braço erguido, sumia novamente atrás de outra onda mais próxima. Ele
faz coisas incríveis, repetia Laura. E elas quase deixavam de respirar tolhidas
pela admiração.
O arroubo de campeão foi que fez
com que Arlindo se afastasse cada vez mais da praia, prometendo a si mesmo um
feito para registrar sua competência física e deslumbrar as três amigas de sua
irmã. Iria além do quebra-mar e arrostaria o oceano aberto, Quem é que manda
aqui.
Outros banhistas foram-se juntando
às quatro amigas na observação daquele jovem temerário.
− Meu irmão faz coisas incríveis
−, Laura repetia com imenso orgulho.
Pessoas mais velhas receberam
nuvens no semblante. Um senhor idoso, cabelos brancos e pele queimada de muitos
e muitos sóis advertiu que o jovem estava cometendo um ato de extrema
imprudência. Outros banhistas vieram juntar-se ao grupo.
Aos poucos, os gritos de Arlindo
não eram mais ouvidos. Nem sua pequena cabeça era vista.
Só no dia seguinte, depois de ter
sido vomitado na areia pelo oceano, seu corpo foi encontrado por um pescador a
cinco quilômetros ao sul de onde tinha entrado na água.
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