sexta-feira, 14 de agosto de 2015

CONTOS CORRENTES



Verdes águas

Laura: irmã e fã. Com uma diferença de dois anos, pode-se dizer que os dois cresceram juntos. A veneração pelo irmão nasceu com as primeiras palavras, entre as quais aprendeu a dizer Alindo, pois o erre era ainda uma barreira para a perfeita articulação das consoantes.
Arlindo fazia coisas impossíveis para receber os aplausos de Laura, cuja admiração pelo irmão, com o passar do tempo, tornava-se cada vez maior, atingindo, mesmo, o paroxismo de um amor incontrolável. Com cinco anos de idade, Laura pediu o irmão em casamento, e foi muito difícil fazê-la entender que irmãos, por questões sociais, biológicas e até religiosas, não casam entre si. A menina sofreu por alguns dias com seus pensamentos tão rechonchudos quanto suas pernas cheias de sulcos profundos.  Se o papai pôde casar com a mamãe, ela perguntava, por que eu não posso casar com o Arlindo. Sua elocução das palavras fazia belos progressos.


Chegou aos dez anos, a Laura, convencida de que não precisava casar com seu irmão, mas de venerá-lo quase doentiamente, disso ninguém a podia proibir. Ciente do estatuto de entidade venerada, Arlindo usava sua imaginação para inventar frases bonitas, movimentos extravagantes, testes de resistência. Foi assim que inventou “A pedra do quintal sonhou com a Laura”. Bater simultaneamente com os dois pés na parede, com a sola dos pés, na primeira vez rendeu-lhe o desconforto de uma queda de costas no piso, mas continuou treinando até conseguir a proeza para apresentá-la à Laura. Uma vez quase morreu, assim ele disse, com a cabeça enterrada num balde cheio de água. Só porque você se pôs a gritar, repreendeu a irmã. Poderia ficar sem respiração por muito mais tempo, talvez horas. Mas aquilo assustou Laura, que pediu-lhe para escolher outros testes.  
E realmente os testes mudaram, assim como as demonstrações de inteligência e de competência física.
No primeiro domingo de janeiro, os cinco percorreram um pouco mais de duzentos quilômetros para chegar à praia. Ao mar de verdes águas. Na frente, ao lado do irmão, ia Laura, que não se cansava de virar-se para trás, onde sentavam as três amigas convidadas, apenas para comentar as competências de Arlindo. Ninguém com menos de dezessete nem mais de dezenove.
Ao escolher as três mais belas de suas amigas, Laura pretendia ofertá-las ao irmão. Por vocação, Arlindo escolheria as três: um harém. Mas apenas por vocação. Desde o início da semana, quando Laura começou a organizar a excursão e revelou quais eram suas convidadas, Arlindo sabia de sobra que em nosso meio os haréns são todos clandestinos, situação que não poderia atraí-lo.
Já na descida da serra, e mesmo antes, nos muitos quilômetros percorridos, o jovem não perdia oportunidade para demonstrar sua capacidade ao volante. Teria de escolher uma das três, mas agradava-lhe bastante a ideia de ser escolhido por todas. Por isso, fez uma ultrapassagem que as deixou com o coração batendo dentro da boca. Em várias curvas, fez desapiedadamente os pneus cantarem o hino ao nosso herói, um que aprendera com o avô e lhes ensinara de batuta em punho.
Ao descerem do carro, na praia, as três garotas tinham a pele da cor da areia. Mas felizes por estarem vivas.
Laura, durante todo percurso, repetia, Vocês viram como o Arlindo faz coisas incríveis? Sem alento para uma resposta oral, as três sacudiam a cabeça concordando. Os olhos maiores do que o próprio rosto. Felizes por estarem vivas.
Arlindo foi o primeiro a jogar sua roupa para dentro do carro e então exuberou para as meninas seu corpo viril de atleta modelado em uma academia de sua cidade. Deu um salto mortal perfeito, bateu no peito, um tarzã urbano, e soltou um urro que fez todos os banhistas daquela praia se voltarem tentando descobrir de que garganta selvagem tal som havia saído.
Deu alguns saltos porque ainda não estava na hora de salgar o corpo. Seu corpo em plena exibição. As amigas de sua irmã, muito constrangidas, começaram a tirar a roupa, restando sobre a pele apenas as finas tiras de seus biquínis. Era a hora que esperava para observar e escolher. Amanda, de cabelos longos, lábios grossos e úmidos, tinha promessas no olhar e na voz capazes de enlouquecer qualquer um. Suas pernas, de canelas finas  e roliças, terminavam em duas coxas como troncos de palmeiras imperiais. Não se vexou de ficar olhando fixamente para Amanda, cujo nome já lhe parecia o gerúndio feminino do verbo amar. Brena, em seguida, mostrou-se no esplendor de suas formas. A pele rosada, os peitos ameaçando explodir, o cabelo curto e aloirado e uma voz de cascata borbulhante, límpida e musical, tudo isso fez Arlindo mudar de opinião. Mas restava ainda Carolina, que se mostrou com certa timidez, pois era a primeira vez que expunha assim o corpo com que fora presenteada pela natureza e que tinha jurado, dois anos antes, mostrar apenas ao homem que a escolhesse para esposa.
Num furor de indecisão, Arlindo jogou-se nas águas verdes e deu fortes braçadas afastando-se da areia. Venceria aquela que demonstrasse com maior empenho havê-lo escolhido. Enquanto isso, as quatro garotas apenas o observavam, de pé na praia. As ondas vinham rolando desde o estômago do mar-oceano, espumavam e morriam na areia. De cerca de cinquenta metros, Arlindo erguia um braço e soltava seu ohô! poderoso como se quisesse acordar alguém na Europa. As quatro amigas se encorajaram e deram corridas com gritinhos até molharem os pés.
Laura ficou parada de frente para o mar e chamou as três para que observassem com ela. Arlindo subia em uma onda, gritava de braço erguido, sumia novamente atrás de outra onda mais próxima. Ele faz coisas incríveis, repetia Laura. E elas quase deixavam de respirar tolhidas pela admiração.
O arroubo de campeão foi que fez com que Arlindo se afastasse cada vez mais da praia, prometendo a si mesmo um feito para registrar sua competência física e deslumbrar as três amigas de sua irmã. Iria além do quebra-mar e arrostaria o oceano aberto, Quem é que manda aqui.
Outros banhistas foram-se juntando às quatro amigas na observação daquele jovem temerário.
− Meu irmão faz coisas incríveis −, Laura repetia com imenso orgulho.
Pessoas mais velhas receberam nuvens no semblante. Um senhor idoso, cabelos brancos e pele queimada de muitos e muitos sóis advertiu que o jovem estava cometendo um ato de extrema imprudência. Outros banhistas vieram juntar-se ao grupo.
Aos poucos, os gritos de Arlindo não eram mais ouvidos. Nem sua pequena cabeça era vista.
Só no dia seguinte, depois de ter sido vomitado na areia pelo oceano, seu corpo foi encontrado por um pescador a cinco quilômetros ao sul de onde tinha entrado na água.  


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