sexta-feira, 25 de março de 2016

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Divinão amigo fiel
                                             

Dor que dói dolorida, sem outra por comparação, é a dor que sofre Sinval. Ah, meu caro, ter paixão tamanha pela própria sua mulher sem dela ser dono total, a esquiva, e viver no rebaixo se arrastando, implorando um risinho de olhar manhoso, quando um quer, mesmo sabendo que o regateado e tanto pedido é distribuído a quanto pilantra pasteja pelo bairro, só não mata se não querendo, mas que aleija é fato de comprovado sucedimento.
Besta dele, dele se pensava, que sendo inteiro e sem deformação tinha caído no feitiço de Nanci. Bem que não precisava, com os milhões de mulheres sobrando no mundo. Mas coisa feita, uma vez pegando, não larga na maciota, e Sinval estava crente de ser vítima do aque ninguém sabia nem dava explicação. Só isso poderia ser. Doutro jeito não alcançava entendimento.

Casado de terno azul, de azul-marinho, e ela de branco todinha, assim como é da etiqueta, sonhando naquele tempo ser um dia capitão, quem sabe coronel, pra depois vir de manso caindo, escorregando, até perder a vergonha e o brio, é coisa das bem comuns, e, para quem não sabe, é bom avisar que neste mundo acontece muito, porque sonhar sonho alto demais, sonho solto, é próprio de recém-casado quando a paixão é muito grande pela própria sua mulher e o que de dar a ela é reduzido.
Dois anos do juramento na frente do padre – com promessa de fiel até a morte – permanecia cabo de soldo curto. Não é dizer que não desse o ganho para o frugal e alguns desnecessários a mais. Isso não. Mas o mínimo de que Nanci precisava era ser esposa de coronel pra ter sua empregada, roupa nova só querendo, perfume francês no toucador e joia cara cobrindo-lhe o corpo. O mínimo, porque o sonho dele, nele vago, nela tinha virado ambição grudada em todas as vontades. Então, pra não chegar lá desprevenida é que ela ia treinando em vadiação e no esbanjamento muito grande cada vez maior.
Coçando a barba com as unhas do tédio, Divinão se inteirava daquilo tudo, sabido e ressabido, pois era freguês de caderno da formosa de Sinval. Porém, ficava sem jeito de negar ouvido ao desabafo de um companheiro que, em momento de dor, pagava cerveja em troca de companhia. Não vendo era de não crer que um homem falasse de sua ferida, nela escarafunchando e pra quem quisesse ver mostrando, sem um resto nenhum de orgulho, nas últimas da decadência. Por dentro sentia era engulhos de ver tanta nojeira, e só por obrigação arranjava a cara em feitio de solidariedade.
Tanto dinheiro ganhar não ganhava Sinval que pudesse manter os caprichos da esposa e por isso da vida já andava arrenegado. Briguinha de tostão qualquer casal sempre tem e, pra não se enjoarem um do outro, até que funciona muito bem. O caso é que entre eles a coisa enfeiava de um jeito medonho ao ponto de até em delegacia darem comparecimento. Ela, a Nanci, acabava sempre vencendo, sabendo como ela sabia o tanto quanto era gostada. Assim, de uma em uma, uma enfiada de vezes trouxeram o costume do rastejamento. Mas a humilhação não adiantava porque o soldo continuava minguado. Já se viu coisa tão triste?
Quem fora o primeiro? Ninguém, afora ela mesma, poderia saber. Se é que sabia. Mesmo porque saber a cronologia da traição é de pouca relevância. Depois de um, viera o outro, e muitos foram os que vieram. Matar matava, naquele tempo descobrisse. Entretanto diz o povo e com razão que o corno do marido é o último a ficar sabendo. Muitas voltas de ponteiro até uma das comadres de Nanci fazer gracejo sobre os chifres seus que despontavam robustos. Todo mundo via, mas por temor de sangue ninguém falava. Isso ainda não era nada, pois silêncio dos outros em mantença de paz, compreender qualquer um compreende. Pior de tudo era o besta com as provas debaixo do nariz sem as ver: quem sabe com medo de ver. E não era? Cada trem um horror de carestia, ali mal entrando em casa podia notar. Aquilo, nem dando cria o soldo magro teria poder de aquisição. Pior de tudo é não ver com medo de ver.
Ah, sim, vingança o engodo carecia. Não com a mimosa formosa, um ai-jesus cristo de coisa tão linda tão doce e descabeçada de vaidade. Não com ela que sendo tão linda usava o direito de sem-vergonhice, pois não tinha culpa da divisa minguada no braço do homem que de cabo casando prometia dar de presente um coronel logo enseguidinha. Com ela não, que fora sempre o seu não-me-toque da vida inteira, até mesmo beira-beirando as últimas da decadência. Quem precisava receber a paga pela maldade cometida eram os homens seus dela, em covarde aproveitamento da falta de miolo de uma que tanto desejo tinha de possuir coisas bonitas assim que nem ela.
Arma branca ou de fogo não lhe faltavam, por ser do ofício andar armado. Na noite aquela depois da piada da comadre e da confirmação de Nanci, saiu de casa com a certeza na mentalidade de só voltar criminoso de morte, honra lavada com sangue derramado da maneira como aprendera do povo mais velho do lugar de onde desarribara.
Ah, meu compadre, matar homem no quente da briga, decara a cara, qualquer um mata porque tem apego à vida própria que não quer ver desperdiçada. Difícil é encontrar o vivente muito de seu velejando tranquilo na calmaria e, no de repente, fazer o furo por onde vaza o fôlego que leva a alma pro céu. Aí, então, se o cristão nasceu de boa índole, sonhador de ninho amoroso crivado de filhos, pensando e pensando todos os minutos em uma alguém, aí, então, esse tal nascido pra boa paz precisa de gole que aumenta a coragem e apaga o juízo. Só desse jeito é que pode praticar o crime exigido pela vergonha ou pela raiva tão grande maior do que qualquer dor. Depois, no esfriamento, é que a dor cresce e domina, pois com a descoberta ainda futricando no ouvido é só raiva que aperta o peito. Raiva que pede vingança.
O primeiro trago esquentou; o segundo botou coragem e o terceiro tirou o juízo. Uns quantos no caminho longo e um último que derrubou. Bem assim como estou dizendo. Noite adentro, como agora, a morte só no desejo do crime não praticado. De manhã Nanci recebeu o medo no coração. Isso a cara dela dizia. Medo de morrer, de perder o amante? Isso ela não disse. Nem disse nada no tanque esfregando roupa. Só depois do almoço, de curiosidade atravessada na garganta, ela quis saber.
− Matou?
Vontade de responder que sim, pois matar ainda queria. Terminar o serviço não feito. Como agora. Cerveja é bom por causa do calor, mas também porque dá coragem. Queria desgraçar a vida? Não. Desgraçada ela já estava. Queria mesmo era olhar cara a cara nos olhos da mulher sua, fazendo os olhos dela se abaixarem de vergonha e arrependimento. Bem como agora. Mais cerveja? Vamos lá.
Muito tiro andou dando e até ferimento em homem fez. De leve, porque a mão bêbada tremeu. Mas com isso melhorou um tanto do muito perdido. A Nanci? Ela ameaçou se mandar, fazer a trouxa, se mandar. Qualquer briguinha sem-vergonha e ela repete isso. Pra ficar em casa, que é o lugar dela, impõe condições. Ainda mais depois, com a expulsão da Força Pública. Manda e desmanda na casa.
O trânsito esmoreceu. Um carro passou iluminando a rua e sumiu-se com aus iluminação. No retardo, poucos passos na calçada. O bar sem mais ninguém; além do proprietário morrendo de sono atrás do balcão, só eles dois. A luz amarelada, que o bico de quarenta velas mantinha a custo de muito esforço, tornava noturna a conversa de Sinval.
Com o primeiro ônibus quase vazio passando na direção do centro, Sinval pagou a conta sem conferência. Era a hhora de saber, instante amargo e de medo. Mas sem o esclarecimento do assunto, como continuar existindo? O silêncio do casario adormecido escutou bocejando a voz pastosa de Sinval.
− Divinão, você é meu amigo?
− Ué, e não?!
− Se você é mesmo, então responde a verdade pra mim: Todo mundo comenta que você anda saindo com a Nanci. É verdade?
A claridade azul da madrugada disfarçou o sorriso escarninho de Divinão. Contar poderia tudo, pois medo desconhecia. Mas, quem pergunta nem sempre quer saber, não é mesmo, meu compadre?
− Conversa de quem não tem outra ocupação, Sinval.
− Jura?
− Pela luz que me alumeia.
− Brigado, Divinão meu amigo irmão. Muito obrigado. Você não sabe como é duro ficar desconfiando até de amigo. Mas você é meu amigo fiel. Eu tinha quase certeza disso. Se o boato fosse verdadeiro, eu ficava na obrigação de matar você. Já pensou?
Dor que dói dolorida, sem outra por comparação, é a dor que sofre Sinval, preferindo sua verdade rota para prosseguir desadormecendo estrelas com o passo incerto na calçada companheira. Dos sonhos de Nanci não quer mais notícia. Resta-lhe a certeza de manhãs mornas, restos de calor, quando sua cabeça inventa impérios para sua princesa mimosa formosa, com ele só os dois reinando.
*


Do meu “Caderno de aprendiz”, Na força de mulher. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

http://twitter.com/Menalton_Braff
http://menalton.com.br
http://www.facebook.com/menalton.braff
http://www.facebook.com/menalton.braff.escritor
http://www.facebook.com/menalton.para.crianças