Esta coluna reúne análises lietrárias elaboradas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site: www.menalton.com.br
Farsa
de Inês Pereira
Autor: Gil Vicente
A Obra
A Farsa de Inês Pereira deve ser entendida como uma peça
narrativa, com início meio e fim, em que uma ação desencadeia a ação seguinte,
até seu final. As personagens estão todas envolvidas na mesma seqüência de ações,
disputando espaço todas entre si. E isso a diferencia da maioria dos autos, tão
comuns no teatro de Gil Vicente, de ação fragmentária, com mera justaposição de
sketches sem conexão dramática.
Pode-se começar por qualquer um deles ou omitir algum sem
grande prejuízo da peça. Eram colares onde desfilavam os tipos sociais mais
diversos como contas. Neste último tipo de peças, as personagens são quase
sempre alegorias (representação de uma entidade abstrata - o verão, a ambição, vícios,
virtudes, etc. - ou de grupos sociais - camponeses inocentes, fidalgos
orgulhosos, etc. - ou de profissionais - sapateiros ambiciosos, juízes
corruptos, etc.).
Ao contrário, na Farsa de Inês Pereira, a personagem central
(In ês), tem desenvolvimento psicológico bem nítido, faz parte de um enredo,
encaminhando-se, desde o início, para um final cômico, como personagem
evolutiva. A peça foi escrita para rebater a suspeita de pessoas da corte que
suspeitavam da autoria vicentina de peças anteriores. Julgavam-no incapaz, sem
escola, para tanto. Gil Vicente propõe-lhes que lhe dêem um mote e a peça é seu
Desenvolvimento. Mais quero asno que me carregue do que cavalo que me derrube é
o tema proposto.
Personagens
Inês Pereira:
moça casadoira, leviana, pensando apenas em enfeitar-se e divertir-se.
A mãe: mulher
comum, com algumas posses, pensamento típico da Idade Média. Sensata,
religiosa, tipo bem popular.
Lianor Vaz:
alcoviteira, tipo muito comum no teatro de Gil Vicente e na sociedade de seu
tempo.
Pero Marques: o
parvo, primeiro pretendente de Inês, inicialmente rejeitado, com quem Inês casa
depois de enviuvar. Ele é o burro que me carregue.
Brás da Mata:
escudeiro fanfarrão, mentiroso a respeito de seu estado (pobreza), bem falante,
bem cantante, é escolhido para marido por Inês. É o cavalo que me derrube.
Latão e Vidal:
dois judeus casamenteiros. São os dois que localizam Brás de Mata e o trazem
até Inês.
Ermitão: antigo
enamorado de Inês, que vai tornar-se seu amante.
Local
Quase na totalidade da ação, esta se passa na casa de Inês
Pereira e sua mãe. No final, Inês Pereira e Pero Marques estão na estrada, atravessando
um rio, a caminho da ermida, onde Inês terá um encontro amoroso com o Ermitão.
Deve-se observar que a passagem do primeiro espaço para o segundo se dá de
maneira ilógica, sem interrupção de um diálogo iniciado em casa.
Tempo
O tempo histórico (ou externo) é a contemporaneidade de Gil
Vicente, ou seja, fins da Idade Média. O tempo narrativo, a exemplo do espaço,
não é mimético, não copia a realidade, pois se passam três meses, por exemplo, sem
que se perceba esta passagem. Ações que demandariam dias ou semanas, acontecem
sem interrupção de uma mesma cena.
Observação: Gil Vicente desconhece ou, pelo menos, despreza as
três unidades clássicas estabelecidas por Aristóteles em sua poética e norma rígida
na tragédia clássica. O tempo não pode sofrer solução de continuidade - um dia
de duração (não da peça, que dura pouco mais ou menos uma hora, mas daquela
fatia de vida que ela representa). O espaço não pode ter diversidade (o palco,
em geral, representava o patamar de uma escadaria em frente a um palácio). A
ação tem que ser una, girando em torno do desenvolvimento de um único conflito,
uma única célula dramática).
A ação
Ó diabo que o eu dou, Que tão mao é d'aturar!
(...)
E assi hei-de estar cativa em poder de desfiados? - costura
em travesseiros
Está colocada aí a problemática do casamento. Difícil, em
Portugal da época, com os homens pelos mares nunca dantes navegados. Mas Inês precisa
fugir da prisão.
Chegando da missa, a mãe, e a repreende por não estar
trabalhando:
Mãe - Acaba esse travesseiro!
Hui! Naceo-te algum unheiro?
Ou cuidas que é dia santo?
Aqui, nesta segunda cena, já se pode perceber a diferença de
linguagem (característica de Gil Vicente = adequação da linguagem ao
tipo humano ou social) entre a Mãe e Lianor Vaz, mulheres mais velhas, que
falam através de estereótipos lingüísticos, típicos do pensamento popular medieval
(ditados, frases feitas) e Inês, de linguagem desabrida, quase sempre irônica e
debochada.
Mãe - Cal'te, que poderá ser,
que "ante a Páscoa vem os Ramos".
Não te apresses tu, Inês
"Maior é o ano que o mês:"
Neste momento entra Lianor Vaz, a alcoviteira, e trás uma
carta de Pero Marques. Mas antes, esconjura-se com o que lhe aconteceu: Na
estrada, foi atacada por um clérigo que a queria seduzir. Momento cômico, com emprego
de ironia, tematiza a corrupção do clero.
Lianor - Diz que havia de saber se era eu fêmea se macho.
(...)
- Irmã, eu t'assolverei
c'o breviario de Braga. (novo trocadilho = braguilha)
(...)
Quando vio revolta a voda (voda, pode ser o mesmo que bodas,
mas também pode ser troca da consoante inicial por uma homorgânica)
foi e esfarrapou-me toda
o cabeção da camisa.
Já se pode observar, a esta altura, que a peça toda é
escrita em redondilhos maiores. Um pouco a frente, novo calembur de efeito humorístico:
Lianor - Mas queria-me conhecer!
(no sentido bíblico, "conhecer" pode ser
"possuir")
Logo abaixo, Lianor diz "...que amiga e bom amigo/mais
aquenta que o
bom
lenho.", empregando um ditado popular, como acima ficou
dito.
Durante a leitura da carta de Pero Marques (o parvo),
percebe-se o linguajar debochado de Inês.
Inês - Na voda de seu avô,
ou onde me viu ora ele?
Inês não se agrada do pretendente pelos absurdos que diz,
mas a mãe, sabedoria poupular, pés no chão, insiste:
Queres casar a prazer/no tempo d'agora, Inês?/Antes casa em
que te
pês,/que não é tempo
d'escolher."
Encerra-se a terceira cena para a entrada de Pero Marques.
Cheio de palavras sem sentido, de parvoíces como sentar-se de costas para as mulheres
e outras asneiras. As mulheres afastam-se e, vendo-se a sós com Inês, alega que
está ficando noite e não pode ficar sozinho com uma donzela. Ela se revolta com
a matutice e enxota-o de sua casa. As mulheres voltam e se espantam com o fato
de que ele já se fora. Em seguida entram os judeus casamenteiros, com notícia
de que haviam encontrado um escudeiro como Inês havia encomendado: discreto,
que fale com espírito, que tanja a viola, etc.
Entra o Escudeiro. Seu Moço entra renegando a vida miserável
que leva, quase pondo a perder o projeto do Escudeiro. Vencida a resistência da
Mãe, Inês e o Escudeiro se casam. Em seguida ele se põe a pregar as janelas, a
fazer suas proibições, que são várias. Inês não deve responder-lhe nunca, não
pode ficar à janela, não pode ir a missa, não pode conversar com homem ou
mulher. Terminadas as proibições, declara que parte para o Marrocos, "me
vou fazer cavaleiro.", e deixa seu moço tomando conta de Inês. Logo depois
chega uma carta dizendo que Brás da Mata fora morto por um camponês mouro
(sozinho). Liberta, Inês despede o Moço, e pede a Lianor Vaz que lhe traga
novamente Pero Marques. Depois do casamento, aparece um ermitão pedindo esmola,
falando castelhano O bilingüismo é outra das características de Gil Vicente).
Ermitão - Señores, por caridad
dad limosna al dolorido,
ermitaño de Cupido
para siempre em soledad.
Ao descobrir no Ermitão um admirador enamorado, Inês
promete-lhe visitá-lo na ermida, o que faz em seguida, cavalgando seu marido, enquanto
canta uma cantiga em que ridiculariza Pero, que, a cada estrofe, estribilha:
Pois assi se fazem as cousas". Inês canta: Marido cuco
(corno) me
levades (...) Bem sabedes vós, marido,/ quanto vos
amo:/sempre fostes
percebido/pera gamo. (corno) E é assim que termina a peça.
Considerações finais: "Entendendo que a sociedade de
seu tempo era corrupta, guiada por interesses materiais e desprovida de
sinceridade nos propósitos, o autor procura mostrar a história de um
aprendizado. Inês Pereira, ao passar pela experiência conjugal, aprende uma
lição que marca para sempre: o mundo é dos espertos, dos mais adaptados ao jogo
do ser/parecer." (Álvaro Cardoso Gomes)
O autor
Poeta dos maiores, do Humanismo português, Gil Vicente
passou à história, principalmente, como o pai do teatro português, como seu fundador.
Foi o primeiro dramaturgo português a fixar um texto para a representação. Dos
momos e entremezes, dos mistérios, milagres e das moralidades, formas do teatro
medieval, nada nos resta. Um teatro despojado, sem cenários especiais ou
guarda-roupa brilhante, de gestos muitas vezes improvisados, mas com o texto
(redondilhos rimados) bem definido.
Isso foi o que nos ficou. Um homem de seu tempo, um pé na tradição
medieval, outro na modernidade, na observação do que ocorria a seu redor, eis
Gil Vicente.
O Autor Bem pouco se sabe sobre a vida de Gil Vicente. Presume-se
que tenha nascido por volta do ano de 1465, segundo alguns, em Guimarães. Não existem
documentos que o comprovem. Em 1485, aos vinte anos, provavelmente, casa-se com
Branca Bezerra. Ingressa no palácio real na qualidade de ourives, mais tarde
Guarda-Mor das Jóias da Coroa, cargo que acumula com as funções de organizador
e animador de festas e outros eventos no palácio do rei.
Em 1502, mercê de sua familiaridade com o palácio, entra na
câmara da rainha, Dona Maria, que permanece de cama, para saudar a chegada do
príncipe herdeiro, futuro Dom João III. É sua estréia como autor e ator, representando
o Auto da Visitação (também conhecido como Monólogo do Vaqueiro). Instado pela
Rainha Velha, Dona Leonor, a repetir no Natal o Monólogo, Gil Vicente, contudo prepara
sua segunda peça ( Auto Pastoril Castelhano) para a ocasião.
Os aplausos o entusiasmam, os pedidos de outras peças o
acompanhariam pelo resto da vida. Provavelmente tenha morrido em 1537, pois sua
última peça (Floresta de Enganos) foi encenada em 1536.
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