AOS MEUS OLHOS... E AOS TEUS?
Krishnamurti
Góes dos Anjos (*)
Conto do livro ' Doze Contos e meio Poema' – 2011 – Casa Editora A LUVA
Em
uma fotografia em preto e branco, um tanto quanto amarelada pelo tempo, vejo
uma mulher. Está sentada em um cenário que parece ser uma varanda. Na poltrona
onde está, com as pernas cruzadas (posição que talvez lhe tenha permitido
melhor apoio para o livro que tem entre as mãos), chama a atenção o pé que lhe
ficou suspenso no ar. A pender displicentemente dele, um chinelinho de pano.
Atrás de si, uma janela com um vaso
de flores no peitoril deixa passar uma
luz mortiça, o que sugere estar amanhecendo ou ocorrendo o crepúsculo de um dia
qualquer. O primeiro impulso que esta imagem de mulher me causa é de querer
chamá-la, acenar-lhe, sinalizar que também sou daquela “religião” de leitores.
Ela, cuja face esqueci, cujas roupas mal notei, precisamente que idade tinha,
não sei dizer, se aproxima de mim, pelo mero ato de ler. Mas o que estaria
lendo? Será possível adivinhar a natureza de seu livro? Um romance de capa e
espada com páginas recheadas de amores, damas perseguidas a desmaiar em
florestas sombrias, perturbações do coração, juramentos, soluços, lágrimas?
E se descobríssemos que, na verdade,
o livro era o Madame Bovary, aquele
romance escandaloso de Flaubert? Ou, na mesma linha, a mulher fotografada
estivesse se deliciando com as peripécias da personagem Luísa de O Primo Basílio. Ou ainda, quem sabe,
imaginando os “olhos de ressaca” da Capitu de Machado de Assis? Não. A foto não
é tão antiga assim... Talvez tenha entre as mãos o Mrs. Dalloway, de Virgínia
Wolff, ou, mais surpreendente ainda, recebendo naquele instante do flash da
máquina, o impacto da estrofe de Floberla Espanca: “Quem me dera encontrar o
verso puro, / O verso altivo e forte, estranho e duro, / Que dissesse a chorar isto
que sinto!”?
Nada! Acho mesmo que era uma
coletânea “anos 80”. Seria? Talvez uma coletânea reunindo Sônia Coutinho,
Helena Parente Cunha, Lya Luft, Marina Colassanti, Lygia Fagundes Teles e a
grande Clarice! Mas, oh meu Deus! Não há
como saber qual teria sido o livro. Numa
última olhada à foto, percebo que... Sim. É isto.
***
Ela interrompe a leitura por um
momento, olha para outro ponto do livro onde está encartada uma correspondência
que há pouco lhe fora entregue e que não tivera nenhum ânimo para ler. Desvia
lentamente o olhar para um pouco mais além, porque nesse exato momento um raio
de sol coou pela fenda envidraçada da
janela e foi incidir precisamente no seu pé suspenso. O morno calor da luz
solar daquele fim de tarde – é fim de tarde, agora imaginamos - incidindo no
chinelo de cetim rosa, casou-lhe um reflexo nervoso que a fez encolher os
dedinhos. E, enfim, o chinelinho escapuliu-lhe no rumo certo do chão da
varanda.
***
“Naquele dia eu me aborreci tanto
como ele. Estávamos os dois em uma cadeira no quarto do hotel. Ele me puxara
para si e me pôs sentada em seu colo. Fiquei amuada fingindo não dar
atenção às suas explicações. Estive olhando fixamente para meus pés pendentes,
fingindo brincar de equilibrar o chinelinho de cetim que se sustinha apenas nos
dedos do meu pé nu. Naquela época, como eu era boba! Não sabia que podia ter
controlado a situação. Podia mesmo ter dado as regras, armar a cena, distribuir
os papéis. Seria, se quisesse, ter sido a sua amante, já que ele era casado. Seria
a diabólica e não a santa. Por que não? Pelo menos o teria para mim. Mas não,
ele se recusou a me amar de verdade. Por que será que o amei tanto assim? Por
que esse sentimento? Ele chegou e eu não sabia de onde vinha, ou como
explicá-lo. Naquela época e até mesmo agora, não encontro explicações. Não há
mais nenhuma necessidade de explicações. Ah, aquela primeira tarde que passamos
juntos... Quem me dera poder revivê-la novamente... O deleite úmido daquela
tarde. As palavras doces que ele me dizia ao ouvido, os beijos na minha orelha
me deixavam tonta, minha vontade dele estava à flor da pele e aquela inquietude
sexual se instalando em mim. A princípio eu não consentia, mas deixei que
acreditasse que queria. A áspera ternura de sua barba no meu pescoço foi me
enlouquecendo e ele não parava de mordiscar-me o pescoço... Se deitando sobre o
meu corpo. Ah, um furacão de desejos me arremessou a sensações que nem mesmo eu
sabia que existiam. Um arrepio esquisito me fez abrir as coxas gentilmente,
queria tê-lo dentro de mim para que saboreasse todo o prazer que minhas
entranhas poderiam lhe dar, um atrito tão gostoso escorregando dentro de mim, e
eu fui sentindo uma vontade quase irresistível de gritar. Gritar e pedir
mais...e pedir mais... A intensa alegria de se estar viva naquele instante. Um
orgasmo perfeito como nunca mais senti em toda a minha vida. Nunca mais, nem
mesmo quando, anos depois, me casei. Um casamento de pura conveniência
financeira. Virei a puta de um homem só. A fêmea comida e caçada há milênios. Pois é. Tudo
isso terminou por criar em torno de mim um escudo inexpugnável. Jurei não amar
mais ninguém. Tive que sublimar a ferro e a fogo aquela coisa que em mim ardia
por ele. Quantas e quantas noites passei em claro, pensando nas palavras que
ele me havia dito... Não. Daquela forma eu não conseguiria tê-lo. Jurei e
consegui que ele jamais me tocaria novamente. Nunca mais. Privei-me e não
deixei, que ironia, de passar pelas abjeções de um casamento de
conveniência: trabalhos domésticos,
roupinhas de marido a cuidar, comidinhas a fazer e meus sonhos distantes... As
promessas da minha juventude, expectativas caídas na lama como pássaros
feridos. E por quê? Para quê? Para hoje estar aqui sentada com uma conta
bancária gordíssima, e ainda por cima, viúva, sem filhos, sem ninguém. E ele,
coitado, continuou casado, não teve filhos, e foi viver no Rio Grande do Sul...
Se não fosse o Ernesto que, casualmente, em uma de suas viagens, não o tivesse
encontrado, eu não saberia nem se ainda está vivo ou não... O que será que o
Ernesto me conta nesta carta?
***
Prezada amiga,
Escrevo-te mais uma vez para dar-te
notícias de nosso amigo. Infelizmente, ele não tem apresentado muitos
progressos com a paralisia. Entretanto, a saúde geral é boa. Esforço-me o
quanto posso para que não percebam de onde provêm as doações à casa de saúde
onde ele está. Graças ao teu dinheiro, minha amiga, tornei-me bom samaritano.
Mas o que eu não faria por ti?
Um beijo desse seu criado,
Ernesto.
P.S. Anexos vão
os comprovantes bancários das últimas doações que fizemos. Vai também anexa a
nota fiscal de uma cadeira de rodas que fiz chegar até ele. Ficou muito feliz.
Depois te conto detalhes. Aos meus olhos parece que fiz bem. E aos teus?
***
E então, a minha personagem Anita –
eis afinal seu nome - que por enquanto só a mim pertence, descruzou as pernas
em busca do calor do velho chinelinho de cetim cor-de-rosa.
(*) Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor e Pesquisador. Autor de: Il Crime dei
Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século
– Contos, Embriagado
Intelecto e outros contos e Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 22 Coletâneas e
antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados
em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e
Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro
do rebanho –Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso
Internacional – Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores
UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
http://twitter.com/Menalton_Braff
http://menalton.com.br
http://www.facebook.com/menalton.braff
http://www.facebook.com/menalton.braff.escritor
http://www.facebook.com/menalton.para.crianças