A morte do florista
(Patrícia Cicarelli*)
A manhã estava fria e abafada ao
mesmo tempo. Percebia que nesse ano, São Paulo havia resgatado seu cenário
antigo de cidade da garoa, um ar londrino, comentavam. A névoa tornava os
caminhos difusos. Naquela manhã, além da atmosfera nostálgica, havia um cheiro
diferente, um perfume doce, muito forte, como se tivesse todo ele abandonado as
flores, especialmente as rosas.
Encontrei a primeira
jogada, desfalecida no passeio. Tinha certeza, a flor denunciava algo. O
caminho estava mais silencioso que de costume, um silêncio sólido, sem gosto.
Fui encontrando um rastro de rosas de todas as cores: o perfume no ar, a flor abandonada
do seu cheiro no chão.
Meu coração palpitava diferente, eram
muitas as rosas aniquiladas pelo caminho. Angustiava-me a possibilidade de não
encontrar mais nenhuma na floricultura para que fosse encaminhada à minha amada
como todos os dias. Era sempre um botão graúdo, nem de todo fechado, que não
pudesse revelar a exuberância das pétalas, nem aberto demais para que a flor
não perdesse sua elegância e se perdesse no exagero da beleza fácil.
Assim era a mulher que amava: rosa
única a perder de vista num jardim. Aquela que se destaca sem pretensão de ser
exclusiva; sua presença nunca sobra, nunca é demais. Ela também não falta. Está
lá, ao alcance, com o seu melhor.
O florista sabia escolher a flor a
ser enviada a ela, diariamente. Colhia-a dos vasos, dos maços, das braçadas que
preenchiam sua loja, a única, a escolhida, digna de ser oferecida à minha
destinatária.
Apressei meus passos, temendo um
acontecimento inesperado que impedisse o envio da rosa. Ao dobrar a última
esquina, meu coração nublou; meus olhos e o movimento das pessoas na porta da
floricultura confirmavam o presságio. Policiais! Sim, uma tragédia se revelava.
Teria sido assalto, vandalismo,
atentado? aquelas rosas espalhadas no passeio... não tinha certeza se deveria
me aproximar, temia confirmar o que se denunciava, talvez fosse melhor partir
imediatamente à procura de um outro florista. No entanto, fui levado a desvendar
o que se escondia naquela cena. Avancei, as pessoas abriram espaço e mesmo antes
de entrar na loja, vi um par de pés jazendo ao lado da prateleira das rosas
mais caras, de onde ele colhia a escolhida flor do dia. O policial me bloqueou,
eu avancei resistindo, ele me deixou passar.
O florista tinha sofrido um mau
súbito. Acreditava o garoto, entregador de flores, porque ele havia gritado por
socorro e, em seguida, desabou. Eu permaneci mudo, não sabia o que mais me
perturbava: se o florista morto ou o fato de minha amada não receber a rosa naquela
manhã. Respondi ao policial que era apenas um cliente antigo quando quis saber
se acaso era parente do florista.
Fiquei imobilizado por algum tempo...
como conseguiria a rosa? Começou a chover forte, fechei a capa e ajeitei o
chapéu, voltei-me para a rua, tinha de me apressar, pensar numa solução. Ao
cruzar a porta, atordoado, o garoto chamou-me: moço, devo levar a rosa agora? O
falecido disse para eu avisar o senhor que não precisa pagar a rosa de hoje, é
um presente dele. Já posso levar?
*Patrícia Cicarelli - É contista e cronista. Jornalista, pós-graduada em Jornalismo Literário, escreve perfis, ensaios e memórias.

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