Já está disponível na internet a entrevista concedida por Menalton Braff ao Jornal Rascunho e publicada na edição de fevereiro.
Exibimos, a seguir, as 26 perguntas e respostas.
A fé na
diversidade
Em 2000, Menalton Braff surpreendeu o meio literário ao
ganhar o prêmio Jabuti de Livro do Ano com os contos de À sombra do cipreste.
Pela primeira vez seu nome aparecia na capa de um livro. Antes, publicara duas
obras sob o pseudônimo de Salvador dos Passos. “Menalton Braff parecia nome de
autor estrangeiro”, disse à época. Era o início da longa e consistente carreira
deste escritor nascido em Taquara (RS), em 1938, e que há muitos anos vive na
pequena Serrana, interior paulista. Sua obra é composta por romances, contos e
literatura infantojuvenil. Destacam-se A muralha de Adriano (2008), A coleira
no pescoço (2006), Que enchente me carrega? (2003). Seu livro mais recente é O
peso da gravata (Primavera Editorial).
• Quando se deu conta
de que queria ser escritor?
Meu pai tinha em sua biblioteca o Tratado de versificação,
de Olavo Bilac e Guimarães Passos. Mal tinha aprendido a ler, comecei a tentar
a decifração do que significava métrica, rima, estrofe. Gostava
de encher páginas de meus cadernos com pequenos poemas, alguns que eu copiava, outros que escrevia. Era uma brincadeira que me dava prazer. Logo depois de ter passado pelo Monteiro Lobato, comecei a ler romances, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, um pouco depois o Machado de Assis. Só no Ensino Médio me deparei com gente muito parecida comigo em romances do Erico Verissimo, então fui mordido pela prosa, pensando que era preciso botar no papel muita coisa vivida.
de encher páginas de meus cadernos com pequenos poemas, alguns que eu copiava, outros que escrevia. Era uma brincadeira que me dava prazer. Logo depois de ter passado pelo Monteiro Lobato, comecei a ler romances, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, um pouco depois o Machado de Assis. Só no Ensino Médio me deparei com gente muito parecida comigo em romances do Erico Verissimo, então fui mordido pela prosa, pensando que era preciso botar no papel muita coisa vivida.
• Quais são suas
manias e obsessões literárias?
A busca permanente da adequação entre os planos da expressão
e do conteúdo. O modo de estruturação de um texto, a linguagem empregada, a
escolha da técnica narrativa mais apropriada.
• Que leitura é
imprescindível no seu dia a dia?
Textos literários e eventualmente textos metaliterários. A
leitura sobretudo dos clássicos, mas também dos contemporâneos, principalmente
dos escritores mais representativos de nossa época.
• Se pudesse
recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
Recomendaria a leitura do Hamlet: ser ou não ser, eis a
questão.
Silêncio no entorno, temperatura amena, os elementos
externos; os internos, o sentimento de que as próximas cinquenta horas poderão ser
dedicadas à escrita, sem qualquer preocupação com assuntos domésticos.
• Quais são as
circunstâncias ideais de leitura?
Uma boa iluminação. O restante não pesa. Ruído, conversa ao
lado, movimento, nada disso me incomoda.
• O que considera um
dia de trabalho produtivo?
Ultimamente, tenho trabalhado quase só com romance. E no
caso do romance, considero um dia de trabalho produtivo aquele em que progrido
cerca de quinhentas palavras. Às vezes, no dia seguinte descubro que o
progresso não foi o que esperava e mando tudo para o lixo. Mas isso não
importa, o exercício da escrita não se perde.
• O que lhe dá mais
prazer no processo de escrita?
Uma construção inusitada, uma combinação inesperada, ou
seja, qualquer coisa que eu sinta como invenção, dizer o que nunca foi dito
(impossível?) de um modo que nunca foi antes utilizado.
• Qual o maior
inimigo de um escritor?
A zona de conforto. O escritor que descobre um modo de se
expressar e não sai mais do lugar, entrou na ratoeira, está morrendo sem
sentir. Conheço escritor também que lê muito pouco, alegando que não quer
sofrer influência. Tem muita gente inventando a roda e se satisfaz com isso. E
geralmente já existe roda mais bem construída.
• O que mais lhe
incomoda no meio literário?
O que me incomoda, principalmente, é a falsa consciência da
maioria dos grupos de que só o que sai do grupo é literatura. Há uma tendência
muito grande ao corporativismo, recusando qualquer coisa que não seja espelho.
Ora, acredito na diversidade, e apesar de um modo um tanto ingênuo, a Geração
de 22 implodiu a ideia de Escola, de estética comum, ou estética de época.
Claro que existe o zeitgeist penetrando o modo de cada um ver o mundo, nem por
isso homogeneizando a produção de uma época. Felizmente, porque isso nos
enriquece.
• Um autor em quem se
deveria prestar mais atenção.
Pra citar um mais antigo, cito o Domício da Gama, mas esta
história de cânone é muito complicada: público leitor, crítica universitária,
resenhistas de periódicos, instituições governamentais, materiais didáticos,
enfim, por que alguém sobrevive e outros devem morrer não chega a ser um
mistério, mas é difícil de se descobrir. Outro autor é o Geraldo Ferraz, com
sua literatura extremamente moderna.
• Um livro
imprescindível e um descartável.
Imprescindível é o Ulisses, de James Joyce, por seu grau de
invenção tanto no micro quanto no macro; descartáveis são os livros de
autoajuda.
• Que defeito é capaz
de destruir ou comprometer um livro?
Dizer tudo, sem deixar brechas por onde o leitor possa
penetrar sozinho, me parece um defeito que compromete um livro. É preciso que o
leitor colabore na formação do sentido do texto.
• Que assunto nunca
entraria em sua literatura?
Prefiro o plural: racismo, intolerância de qualquer natureza
(religiosa, política, genérica, etc.). Não acredito em neutralidade e a palavra
sempre diz alguma coisa, mas é preciso evitar que o texto literário extrapole
sua função estética, mesmo sabendo-se que o mundo não é cor-de-rosa.
• Qual foi o canto
mais inusitado de onde tirou inspiração?
Uma notícia de jornal. Um bêbado subiu em um poste e lá de
cima gritou que iria voar. Jogou-se no ar e quebrou-se na calçada. A história
me impressionou muito e passei alguns dias incomodado com aquilo, tentando
imaginar o que poderia levar um homem a buscar seu fim daquela maneira.
• Quando a inspiração
não vem…
Não interrompo os exercícios. Fico sentado olhando para o
computador e ele olhando pra mim. E isso por algum tempo, até descobrir que
nossas ligações estão momentaneamente interrompidas. Então desisto e vou ler ou
cuidar de outros assuntos.
• Qual escritor —
vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
O Moacyr Scliar, por sua elegância, seu cavalheirismo e
generosidade. Tenho certeza de que teríamos assunto para passar uma manhã
inteira à mesa.
• O que é um bom
leitor?
É aquele que completa as lacunas deixadas de propósito no
texto, percebe as intenções, mesmo as mais sutis, que o autor apenas sugere. O
bom leitor, ainda, aceita mais de um significado do que lê e não se fecha na
impressão causada pela leitura.
• O que te dá medo?
Que o Fukuyama tenha razão e a humanidade tenha perdido a
noção de utopia e per secula seculorum nada
mudará, e seremos todos infelizes para sempre.
• O que te faz feliz?
Cenas de bondade explícita, como afirmação de que a
humanidade é viável, e que nem tudo está perdido.
• Qual dúvida ou
certeza guiam seu trabalho?
Certeza nenhuma. E as dúvidas são muitas. Minhas concepções
estéticas são corretas? Meu pensamento, minha visão de mundo podem ser
proclamados?
• Qual a sua maior
preocupação ao escrever?
Minha maior preocupação é com a linguagem. Geralmente quando
me ponho a escrever, o assunto, a história estão mais ou menos desenvolvidos na
mente. Transformar isso em linguagem é que preocupa.
• A literatura tem
alguma obrigação?
Não acredito em obrigação. A literatura não é para, ela é.
Mas também não aceito que ela seja só entretenimento. Ela tem um papel na
sociedade, que não é uma obrigação, mas é muito importante: a literatura é
gerada no campo social, apesar do ponto de vista individual do escritor. A
literatura ajuda a formar a identidade de um povo.
• Qual o limite da
ficção?
Não há limites para a ficção. Mas ela não é tão livre como
possa parecer. Quando se lança mão de elementos existentes, empíricos, não se
deve afirmar dados errados. Se falo, como o Gabo, em um velho muito velho de
cabelos e barba brancos que vem voando pelo espaço, isso pode ter uma coerência
interna, é verossímil. Se o velho vai pousar na cidade de Curitiba, às margens
do rio Amazonas, então a ficção ultrapassa os limites em que deveria manter-se.
• Se um ET aparecesse
na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Isso me lembra um verso do Bertolt Brecht: Triste do povo
que precisa de líderes. Eu tenho a impressão de que não preciso mais.
• O que você espera
da eternidade?
Aí já se entra pela metafísica. A eternidade não é uma coisa
além de nosso pensamento. Portanto não espero nada dela, pois ela é tão
múltipla como a humanidade.

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