JOANA D’ARC
Regina Baptista
Agora
as ideias começavam a clarear e era possível entender o que tinha acontecido
naquela noite. Mas o caminho até ali exigiu um exame não só da noite mas de bem
antes. Muitos anos antes daquela noite, a vida vinha se tornando uma sequência
de equívocos, dúvidas e negligências. Se essa consciência já tivesse se
manifestado antes, talvez aquela noite não tivesse acontecido. Mas ela
aconteceu.
Estamos falando
de uma noite de terror, violência e de ameaça de morte. Por pouco o desfecho
poderia ter sido outro, possivelmente a morte. Agora está tudo sob controle,
Joana D’arc já fora atendido no pronto socorro, seus amigos foram avisados
sobre o que lhe acontecera e correram para o hospital a prestar-lhe ajuda.
Depois de receber alta, Joana D’arc foi levado para casa pelos amigos, que
ainda se ofereceram para passar a madrugada ao lado dele. Mas ele disse que
queria ficar só. Agradeceu o apoio, chorando. Disse que pela primeira vez
percebia seus verdadeiros amigos; nunca tinha dado o valor justo àqueles que
estão sempre por perto... Os amigos se foram depois de deixar recomendações:
“qualquer coisa, é só ligar pra gente!”.
Joana D’arc não ligaria. Precisava muito ficar só e pensar. Ele pensou:
“O que
aconteceu, afinal? Por que o filho da puta me causou tanto desespero? Me fez
queimaduras nas pernas, braços, costas, me queimou todo, o filho da puta... E
ainda tinha o riso na cara; se divertiu às custas do meu terror, o filho da
puta.”. Pensando muito, Joana D’arc concluiu que as coisas aconteceram mais ou
menos por sua própria culpa. Talvez se não tivesse contado ao cliente sádico
que seu nome de guerra era Joana D’arc... talvez o filho da puta não tivesse
tido aquelas ideias de brincar com fogo. Mas enfim, como Joana D’arc poderia
imaginar que seu apelido iria servir de “inspiração” para o sádico. E é aí que
se encaixa a reflexão ao ponto antes, bem antes daquela noite. A vida de Joana
D’arc tinha percorrido as ruas do submundo. Perdera a mãe quando tinha pouca
idade, o pai era desconhecido, a avó quase esclerosada tomou para si a tarefa
de cuidar do menino condenado. Na adolescência, fora da vigilância da avó
doente, saía com os meninos um pouco mais velhos, que insinuavam... Tais
insinuações falavam de fim de inocência e início da promiscuidade. O garoto
desamparado, órfão e bastardo, precisava aprender a andar com as próprias
pernas. Desprezou muita coisa que lhe veio aos olhos, em nome da emergência de
sobreviver. Passou por cima de muitos nomes, números, dados valorosos para uma
vida... Fora guiado por pessoas que já estavam no submundo havia muito tempo e
que lhe deram todas as coordenadas: “Quando um cliente para o carro e te chama,
você joga um charminho, vai devagar, sem pressa, abre a porta do carro e entra
sem olhar no rosto dele; depois de se instalar, você olha pra ele, mas não pros
olhos, olha pra cara dele e se apresenta, diz o seu apelido e volta a olhar pra
frente, faz de conta que já conhece o cara...”. Assim foi que Joana D’arc fez
com todos eles, inclusive com aquele que o machucara. Identificou-se como Joana
D’arc e olhou para frente como se não se importasse com o cliente; só precisava
dele para manter-se na quitinete em que morava e para comer marmitex todo santo
dia.
_ Sou Joana
D’arc... Do que cê gosta, lindinho? Quem entra? Você ou eu? Se quiser meter
tranqueira dentro de mim, é um pouquinho mais caro. Às vezes dá trabalho pra
curar, entendeu?
Parecia uma
noite como todas as outras. Mas não era. O cara era um sádico, gostava de ver
coisas diferentes de vez em
quando. Sim , só de vez em quando. Talvez por
isso não levou seu sadismo ao extremo. Tratou de controlar-se, porque não
costumava chegar a nenhum extremo. Não queria matar ninguém mesmo porque não
vale a pena perder anos na prisão por causa do nada... Só que aconteceu de seu
extremo ser atingido logo naquele dia, no dia em que precisava matar alguém
ainda que fosse um não-matar, ainda que fosse um matar pequenininho. Certamente
o cara estava com um problema e precisava fazer alguma coisa pra se libertar. E
pensou que trepando com um travesti e divertindo-se com o corpo dele – sem ter
que matá-lo – já seria o suficiente. Mas Joana D’arc não sabia disso quando
entrou no carro do estranho e nem quando se submeteu aos caprichos dele, o
cliente. Apenas tratou de fazer as coisas como convinha ao cliente e esperou
que a coisa não exigisse demais de si.
Mas as coisas
começaram a ficar estranhas quando o cliente começou a fazer perguntas
estranhas. Ele já tinha fodido Joana D’arc; por que fazer aquelas perguntas?
_ Como é mesmo
seu nome?
_ Joana D’arc.
_ Joana D’arc.
– repetiu ele pausadamente – Joana D’arc, de onde você tirou esse nome:
_ Sei lá...
acho que era uma atriz francesa.
_ Fala sério,
bicha!
_ Eu não sei
direito. Quando tive que escolher um apelido, pensei em Madonna ou Shakira, mas
percebi que já tinha muita Madonna e Shakira por aí. Aí um dia, eu entrei num
videoclube, vi um DVD de um filme... vi o nome Joana D’arc na capa, não aluguei
o filme pra saber do que se tratava, mas gostei do nome e adotei.
_ Você não leu
a sinopse?
_ Se eu li o
quê?
_ A sinopse, bicha. Cê
sabe o que é isso? – disse ele meio nervoso. – Sinopse é o resumo do filme,
palerma!
_ Não. Por
quê?
_ Se você
tivesse pelo menos lido a sinopse, teria visto que Joana D’arc não era o nome
da atriz, palerma, era o nome do filme. Era a história de uma garota esquisita.
Joana D’arc foi uma...
_ Ai, que
coisa! Deixa pra lá... Eu não tô ligando pra quem foi essa Joana D’arc...
_ Pois deveria
ligar, bicha.
_ Por quê?
_ Porque ela
morreu de um jeito muito doido!
_ Como é que
é?
_ Ah, se
interessou, né! Pois é, Joana D’arc, a mocinha que te emprestou o nome, morreu
naquela França, daqueles tempos de... E tem mais, bicha, você nunca mais me
interrompe quando eu estiver falando, entendeu? Que negócio é esse de “não tô
ligando pra quem foi essa Joana D’arc”? Se você não liga pra ela, por que pegou
o nome dela? Tá achando que a moça tava no lixo, vagabundo? Essa francesa não
tava no lixo, não, seu sem-vergonha. Ela tomou a frente de uma guerra,
entendeu?
_ Quê?
_ Joana D’arc
não é qualquer uma não, palerma. Que aconteceu? Você fugiu da escola?
_ Eu estudei
até a sétima serie, mas não me lembro de ter escutado falar nessa moça...
_ Você é um
bosta. – disse o cliente com convicção. - Além de não prestar atenção na aula
de História, ainda não tem a capacidade de ler a sinopse de um DVD que te cai
na mão, seu bosta.
Aquele era o instante
em que Joana D ’arc
começava a se sentir realmente um bosta, apesar de sempre sentir-se um, cada
vez que se preparava para atrair a atenção de um carro. Mas é que aquela era a
primeira vez em que realmente sentia o peso do nome de guerra nos seus ombros.
Tentava se lembrar do que vira na capa do DVD de onde tirara o nome. Não se
lembrava. E mais. Culpava-se por ter sido tão idiota a ponto de nem reparar se
Joana D’arc era o nome da atriz ou da personagem do filme. E caso fosse a
personagem, qual era a sua história.
Mas então era
tarde. Aquele cliente agora vinha tocar no assunto que sempre parecera sem
importância. E além disso, vinha com insultos: obrigava Joana D’arc a viajar ao
passado, na idade escolar e relembrar coisas que nunca lhe interessaram, aulas
de História... se algum professor naquele tempo citara o nome da tal
francesinha... que importância tinha agora?
Pois bem. Essa
recordação, para o cliente, tinha uma certa importância. Ele estava pagando
para se divertir e não para instruir o veado que lhe servia. Não queria citar a
história em nome de nenhuma causa social, estava citando a história apenas para
explicar ao veado que sua escolha fora infeliz. A escolha tinha sido um erro.
Porque agora, seu cliente, ciente de quem fora Joana D’arc, tinha ideias
perversas. Queria avançar no seu projeto de perversão, queria divertir-se com a
bicha que estava pagando. O sadismo era sua fonte de prazer algumas vezes e era
preciso aproveitar o argumento de um nome para se dar bem.
Foi a merda
para Joana D’arc.
O cliente teve
a ideia de brincar com fogo. Amarrou o outro na cama, amarrou-lhe a boca de
modo que não conseguisse gritar e aplicou-lhe uma toalha em chamas em várias
partes do corpo, pernas, braços, costas, barriga, bunda... – “Morre queimada, bruxa
vagabunda!” – tudo com cuidado para não matar a vítima. Ninguém corre o risco
de ser condenado por nada. Tudo que
importava era divertir-se com o veado, ver os olhos de terror na cara dele. Ver
como ele reagia à própria ignorância, pois se não tivesse irritado o cliente
com sua ignorância... ou se não tivesse demonstrado tanto menosprezo com a dona
do nome que ele adotara... ou se pelo menos tivesse mostrado que conhecia a
história de Joana D’arc mas revelasse alguma opinião plausível sobre a personalidade
dela... Mas não. O travesti não demonstrara nada disso. Tudo que havia era a
necessidade de adotar um nome falso, não havia a menor consideração ou caridade
para com a donzela de Orleans. Isto era condenável!
Joana D’arc,
só agora, no silêncio, na cama, com dores pelo corpo, é que pensa. E também se
lembra de ter ouvido sim qualquer coisa sobre a francesa de que quem tomara o
nome. Sim, em algum momento pela vida ouviu falar numa mocinha que escutava
vozes, comandou uma guerra e depois foi condenada à morte na fogueira, por
bruxaria. Mas esses fragmentos só lhe vinham à reflexão agora. Antes, jamais
esses dados lhe avisaram alguma coisa. Ainda que tarde demais, agora vinha o
aviso de que não se deve aprofundar em questões de nomes, quando não se tem certeza
das suas origens.

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