Esta coluna reúne análises literárias escritas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site.
O Amanuense Belmiro
O Amanuense Belmiro
Autor: Cyro dos Anjos
A Obra
O Amanuense Belmiro é a história de uma vida falhada por
falta de rumo. Escrito em primeira pessoa (narrador protagonista) são os
relatos diários de Belmiro muito mais de suas recordações e o modo como
relaciona-se com elas, do que propriamente de acontecimentos. Publicado em
1937, é um romance intimista que foge ao tipo predominante da época, ou seja,
ao romance regionalista de denúncia social.
Elementos da
narrativa:
Personagens
Belmiro Borba é o narrador/protagonista. Descendente
de uma família de homens afeitos às durezas da vida rústica da fazenda, e sua
"moleza" obriga-o a refugiar-se na cidade. Faz Direito e encosta-se
em uma função pública (amanuense). Vive com duas irmãs velhas: louca uma e
rabugenta a outra. Participa de uma roda de amigos com veleidades literárias e
intelectuais. Já chegou aos 38 anos de idade e, olhando para trás, percebe que nada
de importante realizou na vida. É um homem infeliz, que, por excesso de
reflexão, sucumbe na inação.
Emília e Francisquinha são as duas velhas irmãs de
Belmiro e com quem ele vive. Servem de ponte entre o protagonista e a família,
as tradições, o passado.
Glicério é um jovem elegante, amigo de senador, que
trabalha na mesma repartição de Belmiro, de quem torna-se amigo.
Silviano - está sempre filosofando, discutindo,
escrevendo. É professor universitário e uma das figuras mais interessantes do
grupo. Muda o nome dos amigos. Sua fixação é o problema fáustico.
Jandira é a musa do grupo. Simpatizante comunista,
moça independente, vive com uma tia. Todos do grupo tentam seduzi-la sem
sucesso. A atração física que Belmiro sente por ela é uma de suas obsessões.
Redelvim - integrante do grupo, mais ligado a Jandira
por afinidades políticas. Envolve-se na Intentona de 35, afasta-se para uma
fazenda.
Florêncio é de todos o mais apagado. Algumas vezes
envolve-se em discussões com Silviano, que o despreza, chamando-o de primário.
Carmélia é o mito, a donzela Arabela. Do início ao
fim do romance, o narrador idealiza Carmélia, que viu muito poucas vezes e de
longe, sem que jamais se tivesse aproximado dela. Na mente de Belmiro, Carmélia
substitui namorada da juventude, substitui a lembrança idealizada da namorada
da adolescência na Vila Caraíbas. É sua principal obsessão.
Espaço
O lugar é Belo Horizonte, onde, à mesa de bares, os amigos
se encontram. É o centro a cidade.
Belmiro mora na rua Erê, num bairro de classe média. Algumas cenas ocorrem na
Seção de Fomento, onde, além de Belmiro, trabalha Glicério, seu amigo.
Além disso, Vila Caraíbas, lugar de onde provém, é constante
em suas memórias. O presente é interrompido freqüentemente para mergulhos no
passado de Vila Caraíbas: suas personagens que já não existem mais, seus
costumes.
Tempo
O tempo em que transcorrem as ações, isto é, a época
retratada pela narrativa, perfeitamente delimitado: o período que vai do Natal
de 1934 ao Natal de 1935. Mas a narrativa não é linear, assim como o romance
não pertence ao tipo de enredo. A matéria narrada são episódios da vida das
personagens (restritos ao período de um ano citado), mas evocados alinearmente
no "diário" do narrador. É muito mais um tempo psicológico, de maneira
impressionista, pelo modo como as cenas se sucedem.
Narrador
Tudo é narrado segundo o ponto de vista de Belmiro,
narrador/protagonista, funcionário público com fumaças literárias, que durante
um ano vai anotando em um diário os fatos que considera relevantes. Tem
parentesco bem próximo com seu antecessor, aquele também solteirão carioca de
nome Brás Cubas.
Estilo
O estilo "diário" foi o escolhido, o que permite
devaneios, reflexões a respeito dos fatos que ocorrem, até mesmo os
aparentemente mais banais.
Cyro dos Anjos constitui-se, sem dúvida, no melhor herdeiro
de Machado de Assis. Sua prosa de correção clássica flui pontilhada de ironias
e humor, com inúmeras reflexões metalingüísticas e algumas interlocuções, à
maneira do Mestre. Certo ceticismo superior, sem rasgos emocionais, intensifica
os vestígios de sua filiação machadiana.
Ação
Muito mais de reflexão, de pesquisa da mente humana, do que
romance de ação. Uma sucessão de pequenos acontecimentos diários vão sendo
anotados. A visão de certa moça em um baile de carnaval vai preencher sua vida
vazia. Passa a sonhar com Carmélia, a confundi-la com a namorada perdida na
quase infância. Ronda sua casa com o objetivo de vê-la à janela, procura
Glicério apenas com o objetivo de ouvir falar dela. Carmélia é a amante
idealizada, diva, perfeita. Um primo da moça chega de São Paulo para
estabelecerse como médico em Belo Horizonte. Belmiro antecipa (adivinha) o que
deverá ocorrer daí por diante. Tornam-se noivos e casam, indo passar a
lua-de-mel na Europa.
Os amigos reúnem-se ao redor de copos de chope. Discussões
filosóficas, teológicas e políticas acaloram tais encontros. Tal é o pano de
fundo ante o qual transcorrem os amores de Belmiro: o amor por Carmélia e o
desejo de Jandira. Aos poucos a vida afasta-os uns dos outros e, ao cabo de um
ano, Belmiro está só, sem os amigos e sem a amada.
Opiniões de Críticos
"... o escritor mineiro narra, em primeira pessoa,
menos a vida que as suas ressonâncias na alma de homens voltados para si
mesmos, refratários à ação, flutuantes entre o desejo e a inércia, entre o
projeto veleitário e a melancolia da impotência. O diário é a estrutura latente
desse tipo de narração. E o enredo tende a perder os contornos, as divisões
nítidas, e a diluir-se no fluxo da memória que vai evocando os
acontecimentos." (Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira)
"A obra de estréia de Cyro dos Anjos como romancista, O
Amanuense Belmiro, foi saudada no lançamento como o mais legítimo reflexo da
influência de Machado de Assis nas letras brasileiras: o mesmo desgosto dos
ornatos e dos excessos de palavras, a mesma tendência introspectiva e à análise
psicológica, idêntico processo literário e análoga técnica de composição e
linguagem, com até os capítulos curtos e os títulos parecidos." (Afrânio
Coutinho (org.), A Literatura no Brasil)
"O romance de C. dos A. nasce de uma personalidade
artística cujas notas dominantes são a memória, a introspecção e o sentimento
de caduquice da vida humana. Temos assim, primeiramente, o evocador discreto de
ambientes, cenas e tipos da vida urbana em uma cidade brasileira a um tempo
provinciana e moderna. Essa camada do real social explica a atmosfera e a
mentalidade dos tipos humanos "médios" que comparecem em seus dois
primeiros romances e de certo modo se padronizam em Montanha. C. dos A. é,
porém, mais do que um anotador ou mesmo um criados de atmosferas. É um
ficcionista analítico, introspectivo, que não só contempla, mas contempla-se.
(...) O tom reflexivo-sentimental, oscilando entre a melancolia e o humor,
levou a crítica a aproximá-lo de Machado de Assis, aproximação favorecida
também pela compostura de linguagem do ficcionista mineiro." (Massaud Moisés e José Paulo Paes (org.),
Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira)
"A impressão de acabamento, de segurança, de
equilíbrio, de realização quase perfeita, revelam o artista profundamente
consciente das técnicas e dos meios do seu ofício, possuidor de uma visão
pessoal das coisas, lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de
meditação e de estudo. Porque esse romance (O Amanuense Belmiro) é o livro de um
homem culto. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leituras, ecos de
Bergson, de Proust, de Amiel, de autores cuidadosamente lidos ou
harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. Por isso é que ele ressoa de
modo tão diferente no nosso meio, com um som de coisa definitiva e
necessária..." (Antonio Candido) (in: Raimundo de Menezes, Dicionário
Literário Brasileiro)
O Autor:
Cyro dos Anjos, nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em
1906. Com dezessete anos transferiu-se para Belo Horizonte com o fito de
estudar Humanidades e preparar-se para o curso de Direito. Enquanto estudante,
exerceu as funções de funcionário público e de jornalista. Em 1932, de posse do
diploma, retornou à cidade natal para exercer a advocacia, mas permaneceu no
interior menos de um ano. Voltou a Belo Horizonte, onde desempenhou funções
públicas de relevo, como a de diretor da Imprensa Oficial.
Aos 40 anos transferiu-se para o Rio de Janeiro, então
Capital da República. A convite do Itamarati, em 1952 foi morar no México, onde
regeu a cadeira de Estudos Brasileiros na Universidade do México. Mais tarde,
com o mesmo objetivo, foi para Lisboa.
No governo de Kubitschek Cyro dos Anjos foi morar em
Brasília, tendo aí exercido as funções de conselheiro do Tribunal de Contas e
de professor da Universidade de Brasília. Em 1969 foi eleito para a Academia
Brasileira de Letras.
Aposentado em 1976, fixou residência no Rio de Janeiro, sem
abandonar as atividades do magistério, como professor na faculdade de Letras da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
É representante da corrente intimista da geração de 30,
tendo sido amigo de Carlos Drummond de Andrade e de outros escritores da época.

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