quinta-feira, 16 de agosto de 2018

ORELHA

Esta coluna reúne apresentações de livros escritas por Menalton Braff  e publicadas como orelhas dos respectivos livros.

O registro de nosso tempo


Finalmente o livro do Marcos Zeri. Há bastante tempo militando na imprensa de Ribeirão Preto, na qualidade de cronista, eis que nos brinda agora com este volume com cerca de 80 crônicas, que deverão fazer as delícias dos amantes de uma leitura ao mesmo tempo agradável e profunda.

O gênero crônica tem sua origem nos cronicões medievais em que se registravam os principais acontecimentos de uma casa senhorial. Tinham tanto interesse quanto um livro de registros contábeis. Além disso, deformavam a realidade a ponto de não serem confiáveis como documentos históricos.

Quem inaugura entre nós, falantes da língua portuguesa, a crônica história, de linguagem mais flexível, mais doce, é Fernão Lopes, o genial cronista de D. Duarte, nos albores do Humanismo português. Além de seu compromisso com a verdade

Nem entendais que certificamos cousa, salvo de muitos 
aprovada e per escrituras vestidas de fé; doutra guisa, 
ante nos calariamos que escrever cousas falsas.

sua prosa é rica e colorida, suas narrativas históricas atualizam ações ossificadas pelo tempo, pondo perante o leitor o cenário de acontecimentos relevantes. Era o nascimento da crônica moderna. Mas o percurso ainda foi longo e ziguezagueante.


Quase cinco séculos depois de Fernão Lopes, Machado de Assis transforma em peças de literatura textos que normalmente se destinavam ao desfrute de mulheres ociosas e elegantes do Rio de Janeiro de seu tempo. Seu humor, a fina ironia, a leveza da linguagem, o comentário meio irresponsável e personalíssimo de acontecimentos do dia, quando não de valores e costumes de certa sociedade em certa época ou do ser humano de todos os tempos. Foi com tais ingredientes que o Bruxo do Cosme Velho fixou entre nós a crônica, assim como ela nos chega aos dias atuais.

O Marcos é um dos herdeiros dessa tradição. Arguto observador do mundo, verdadeiro voyeur da sociedade contemporânea, com um texto que é muito bem cuidado sem deixar de ser preciso e profundo sem abandonar a poeticidade.

Quando estou frente a frente com uma cachoeira, não 
resisto. Deixo que ela cumpra suas inúmeras tarefas. 
Estes lugares são santuários diante dos quais o homem 
pode purificar-se. Banhar e equilibrar o campo magnético 
que o circunda e impregna. Entregar-se à força
de um volume forte de água, nas costas e na cabeça,
mesmo sem nenhum credo, é se deixar batizar
pela natureza, descarregar os fluídos inconvenientes que
se instalam no corpo, tirando a harmonia interior."
                                                                (A borboleta azul)

"Aos poucos o furação das águas se desfez em mim. Me
chamou atenção uma concha, seu rajado de cores laranja e 
salmão, mesclado de um cinza esbranquiçado, cheia de
suavidade, harmonia e beleza. Senti a necessidade de tocá-la, 
possuí-la. Ao avesso, estaria pronta para pinçar meus segredos."
                                                                                             (A concha)

Amor apaixonado pela natureza e investigação atenta da alma humana, é assim que podemos caracterizar o cronista Marcos Zeri. Os elementos da materialidade colorida por mãos de artista ou os movimentos mais sutis da alma. Dessas matérias são tecidas suas crônicas, que ora nos são apresentadas neste excelente livro com que o autor marca sua presença entre os cultores do eterno descoberto no efêmero, aqueles que fazem do tempo seu território de reflexão.


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