sexta-feira, 19 de outubro de 2018

CONTOS CORRENTES

PEGUE NA MINHA MÃO

(Hugo Rodrigues)

- O primeiro filho da puta que colocar a mão sobre esse tanque vai levar chumbo!
De pé na caçamba da pick-up da empresa, revólver em punho, Ovídio ameaçava os mecânicos da empreiteira contratada da concorrente para instalar seus equipamentos, que haviam sido remetidos para o sítio do freguês, onde este último pretendia instalar um Posto. Local privilegiado, de grande potencial de vendas, à margem de rodovia federal, distando cerca de 3 km de povoado em franco desenvolvimento, mas cujo perímetro urbano da sede do município ficava a 23 km, enquadrando-se , perfeitamente, nos postulados da nova Portaria do Conselho Nacional do Petróleo como exceção, podendo funcionar 24 horas ininterruptamente, revendendo produtos, razão do proprietário do terreno ter procurado mais de uma distribuidora, certo do grande interesse que tal ponto despertaria entre elas, dado o novo horário de funcionamento/fechamento dos Postos, estabelecido pelo Governo.
Por isso lá estavam Hélio e Ovídio, acompanhando a instalação dos equipamentos da sua empresa, de há muito remetidos, quando chegaram caminhões trazendo os tanques, bombas , letreiros e pessoal da concorrente e um seu representante metido a valente que, após longa discussão, ordenou sua empreiteira a retirar os tanques já colocados nas respectivas cavas, para substituí-los pelos seus. Diante daquela atitude destemida de Ovídio, caminhões, equipamentos e homens acovardados retiraram-se do espaço físico do sítio, sob o olhar assustado do futuro cliente, indo buscar local seguro no povoado próximo. Guardada a arma na cabine da camionete, Ovídio falou com o cliente.
- Que sacanagem é esta, bicho? Está fazendo leilão?

Acabrunhado e ainda temeroso de alguma conseqüência extra do que acabara de presenciar, o cliente explicou que falara com mais de uma distribuidora para ficar com a primeira que chegasse com os equipamentos.
- Pois é, nós chegamos primeiro. Assine aqui estas vias de contrato. Ovídio passou 6 folhas de contrato-padrão para o cliente, apoiando-as sobre o pára-lama da camionete, indicando com a caneta o local da assinatura.
- Por que tantas vias?
- È a burocracia da empresa. É via para a pasta do cliente, para a Secção de Bens Patrimoniais, para o Financeiro, para a Manutenção, para o Jurídico e, depois de preenchido e registrado, uma via para você. Vamos, assine logo.
- E o financiamento acertado?
- Está confirmado. A minuta da escritura com garantia hipotecária está sendo providenciada e, oportunamente, será levada a Cartório para o procurador da empresa, você e sua senhora, assinarem. O dinheiro será liberado de conformidade com o cronograma da obra. Não é mesmo, chefe?
Hélio anuiu com a cabeça, estendeu a mão para o cliente, despedindo-se, ansioso para se afastar o mais rápido possível daquela situação de constrangimento que não podia disfarçar. Ovídio orientou o prosseguimento dos serviços de instalação.
Dentro da camionete, de volta para a rodovia, seguindo viagem para visitar outros clientes, não sem antes passarem na Base  para trocar de carro, Hélio repreendia Ovídio por aquele procedimento tão estranho quanto desonesto.
- Os negócios da empresa têm que ser transparentes. As vinculações contratuais são negociadas com  os clientes, conscientes de que estão fazendo, de fato, um negócio bom para ambas as partes.
- Para cliente filho da puta, a gente tem que ser filho da puta e meio!
- Para que tantas vias de contrato?
- Deixa de ser bobo, chefe. São duas de cada. Como são contratos-padrão, do mesmo formato, letra miudinha que ninguém lê, mas de conteúdo diferente, é só colocar uns cobre os outros e mandar assinar. Peguei o de comodato, o de compra e venda mercantil, mais o de locação/sub-locação. Depois é só preencher com o prazo que quiser.
- Você ainda vai levar um tiro na cara, bicho!
- Pior é eu perder o meu emprego por causa de um puto desses. Quem iria pagar as despesas de transporte e instalação de equipamentos devolvidos?
De volta à Base, no extremo sul do Estado, onde deixaram o veículo de operações e pegaram o Fusca, carro-frota de vendas, seguiram rumo Oeste, sempre na direção do pôr-do-sol, objetivando concluir o levantamento de mercado, visitando cidades interioranas que não dispunham de Postos de gasolina para implantação de pontos de revenda pioneiros, ônus social que a empresa, por ser estatal, arcava, independentemente de possíveis lucros, política esta desprezada pelas distribuidoras estrangeiras, cujas representações estão presentes nos grandes centros populacionais ou rodovias de intenso movimento de largo e garantido consumo de combustíveis.
Depois de horas de cansativa viagem por estradas vicinais, poeirentas e esburacadas, entraram numa vila e se dirigiram até o centro da praça principal, buscando atravessa-la e, ao mesmo tempo, procurando a saída para Santa Maria, onde pretendiam pernoitar.
- Boa tarde, meu irmão. Onde é a saída da cidade?
Ovídio perguntava ao soldado de Polícia, com o dólmã aberto, deixando ver sua enorme barriga, sentado na porta da Delegacia e fumando um charuto regalia de balaio.
- É por aquele lado - apontava o soldado, que ao ver a logomarca da empresa pintada na porta do carro e curioso por distinguir aquela gente de fora da cidade, perguntou:
- O que é que os senhores estão fazendo por estes lados?
- Um levantamento.
- E onde está o corpo?
- Que corpo, meu? É levantamento de mercado e não cadavérico!
- Estão procurando petróleo?
- É mais ou menos isso aí. Por que você apontou para aquela cancela? A saída é por dentro daquela fazenda?
- Exatamente.
Aberta a cancela por Hélio, que viajava ao lado do Ovídio na direção, o Fusca, arrastando de quando em vez o papo, seguiu por aquela trilha estreita com profundo sulcos escavados pelas rodas dos pesados caminhões boiadeiros que por ali viajavam, ora sob mata fechada, ora em descampados pastos, mas sempre entre duas cercas de estacas e arame farpado, que separavam fazendas de diferentes criadores. Depois de alguns minutos daquela fatigante e desconfortável viagem, depararam-se com uma boiada, tangida em sentido contrário, e que tomava literalmente toda a estreita estrada.
- Pare o carro que eles passarão pelos lados.
- Olha lá... bem na frente!
- Um vaqueiro montado?
- Não, porra. Uma vaca careta!
Com uma máscara de couro que lhe impedia ver em frente, amarrada nos chifres e na focinheira, recurso adotado pelos vaqueiros para conduzir boi brabo no meio da boiada, a vaca veio no trote direto para cima do carro. Tropeçando nos pára-choques do pequeno veículo, o animal, de pernas dianteiras dobradas, subiu na tampa da mala, amassando-a completamente, depois de quebrar os faróis e lanternas e a cabeça quase entrando pelo pára-brisa, impedida apenas pelos chifres que se chocaram com o teto.
- Senti o bafo do bicho bem na minha cara! Encolhido ainda no banco do carona, Hélio respirou aliviado, depois do grande susto.
- Vou pegar aquele filho da puta.
Dito isso, Ovídio patinava sobre a lama, correndo atrás do vaqueiro, empunhando a sua arma.Diálogo rápido e rasteiro, o vaqueiro indicou a casa sede da fazenda, bem ao lado onde o carro havia parado e para lá Ovídio foi para discutir a indenização dos prejuízos causados ao carro. O dono da fazenda prontificou-se a pagar o conserto do veículo, dando o seu cartão e mandando procurar a oficina autorizada de Santa Maria em seu nome. Porque chovia Hélio ficou esperando no carro.
Ao tentar dar partida o carro patinava sem sair do lugar, enganchado na lama de barro e estrume, com o papo colado no chão viscoso.
- Vá lá no fundo e tente suspende-lo pelo pára-choque. Ele desgruda e eu arranco na marcha de força. Ovídio na sua experiência de estrada, pedia a Hélio para sair do carro.
- Vá você, que já está todo sujo de merda, com a carreira que deu atrás do vaqueiro. E onde já se viu chefe empurrar carro?
Diante de tal argumento irretorquível, Ovídio tirou toda a roupa, colocando-a no banco traseiro do Fusca e, vestindo apenas cueca, foi para trás do veículo, com lama pelas canelas.
- Quando eu gritar: VAI, pise fundo no acelerador, sem pena, e tire o pé de vez da embreagem.
Assim fez Hélio e o carrinho, antes de pular do atoleiro, com as rodas traseiras girando à toda força por alguns segundos no mesmo lugar, metralhou Ovídio, da cabeça aos pés, com a lama pútrida e fétida. Hélio parou o carro adiante esperando Ovídio.
- Como é que você vai entrar no carro fedendo desse jeito? Além do mais vai sujar o banco.
- Não se preocupe. As costas e a bunda estão limpinhas. Quanto ao fedor, tem gente da cidade que paga para sentir este cheirinho de curral, mas não quer, nem de longe, sentir cheiro de humanidade. Você já viajou num caminhão de pau-de-arara?
Chegaram à barranca do rio. Na outra margem Santa Maria. Para atravessar o rio, à guisa de balsa, duas pequenas canoas, amarradas lateralmente e sobre elas pranchões de madeira, presos por cordas, formando um estrado, onde se acomodou o Fusca com Hélio dentro, enquanto dois barqueiros puxavam um cabo estendido de um lado para o outro do rio. Dentro d´água, banhando-se, Ovídio ia agarrado na popa de uma das canoas.
Ovídio nos seus 30 anos, 1,80 de altura, porte atlético, embora as moças do escritório o chamassem de fofinho, farejava longe um bom negócio e abiscoitava todos os prêmios das campanhas promocionais que a empresa, periodicamente, lançava, mas toda a premiação recebida detonava com mulheres e bebidas. Em cada Praça visitada uma namorada, uma noiva, uma amásia. Antes de cada viagem ia à Baixa dos Sapateiros e de lá voltava sobraçando pacotes contendo cortes de tecidos baratos, caixas de sabonetes, de talco, embalados com esmero em papéis de presente e arrumados com carinho no Fusca da empresa, não sem antes por em dia a burocracia da área de trabalho sob sua responsabilidade.
- Não sei como você pode conciliar essa vida de putaria com os objetivos de vendas da companhia!  Hélio, seu supervisor, sempre se admirava com as virações do colega.
- O negócio é gozar a vida enquanto se pode, chefe.
- Você precisa casar, rapaz.
- Tá louco?
- Arranjar uma moça bacana, que goste de você e formar família.
- Quando me imagino, voltando para casa, jornal de dia na mão, vara de pão debaixo do sovaco, mulher fedendo à graxa de cozinha me esperando e uma porrada de meninos fazendo zoada, querendo uma coisa e outra, brigando, numa confusão retada, como na casa de meu irmão, o jeito que tenho é mandar você se arrombar com seu conselho chefe.
- Um dia você cansa e vai precisar justamente do mesmo tipo de vida de seu irmão.
- Depois dos sessenta, talvez... Esquece esse assunto chefe, e me dá logo a nova tabela de preços e condições e cuide de mandar faturar logo estes pedidos, que estou a fim de botar a mão numa grana segura este mês. Com esta inflação alucinada, seria uma boa se nós continuássemos ganhando o mesmo percentual de anos atrás. À medida que os preços dos produtos sobem, a Diretoria dá um jeito de baixar nossos salários. Ganha-se hoje mais em números absolutos, mas cada vez menos em termos percentuais.  É a velha história, né chefe? O homem é o lobo do homem.
- Onde você leu isso?
- Sei lá... Só sei que isto me obriga a cada dia baixar também a qualidade dos presentes para as menininhas. Até caixa de grampos para cabelos já estou dando! Imagine! Enquanto dava a sua explicação Ovídio pegou uma mecha de seus cabelos lisos, puxou para a testa, fazendo um "pega-rapaz".
- Saia daqui com seu esporretetê e me deixa trabalhar, rapaz, pois estou com a mesa entulhada de papéis.  Hélio empurrava levemente Ovídio para a porta de seu gabinete. Antes de sair Ovídio indagou:
- A propósito, quando é que você vai supervisionar de novo a minha zona?
                                                                                                                                     
Sentado ao lado de Ovídio que dirigia, Hélio entretia-se com o bucolismo da paisagem em direção à Maracás. Era uma gostosura deixar as quatro paredes do escritório e ganhar espaços abertos, ar puro, dormindo um dia aqui em Hotel com apartamento de luxo, outro dia ali em pensão com banho da lata e cuia. Prato feito sucedendo restaurante à la carte. Pararam no Posto de gasolina na entrada da cidade de Itiruçú, meio caminho entre a Rio- Bahia e a localidade de destino e pernoite.
Movimento enorme na rua principal da cidade, com pessoas agitadas, comentando umas com as outras, as estripulias que um jumento novo fazia, despertou imediatamente o interesse de Ovídio.
- Que é que há, meu irmão? - Ovídio perguntou ao bombeiro que abria o  cofre do motor para verificar o nível de óleo do Carter.
- De manhãzinha inté agora, aquele jegue já deu seis ferroadas na jega da fateira, invadindo casa, quebrando móveis, cerca, a peste. E a jega não quer mais nada, porque já deve estar toda ardida - explicou com detalhes o bombeiro, fazendo trejeitos para imitar o animal.
- Olhe aqui, meu irmão, você tem $100,00 para arranjar um cabresto, pegar a jega onde ela estiver e trazer aqui para o Posto. - Ovídio com o dinheiro na mão tentava o outro.
- Fico aqui lhe esperando.  Vá logo, pois quando você chegar aqui com a jega tem outros $100,00.
Passados não mais que dez minutos, sentado na calçada do Posto, Ovídio segurando pelo cabresto a jumenta, gritava para que Hélio se afastasse do caminho do jegue, que assim completava o sétimo serviço, à vista dos circunstantes perplexos, diante da insólita cena.  
- Legal, hein, chefe?
- Você é libidinoso ao extremo! Ninguém poderia supor que um cara como você pudesse chegar a tal ponto! Hélio cheio de indignação e escrúpulos, admoestava Ovídio enquanto, já dentro do carro, seguiam viagem - O salário do pecado é a morte - sentenciou Hélio.
- Você está parecendo minha mãe.  Para tudo ela tinha uma citação bíblica.
Em Maracás, após as visitas aos clientes da pequena e fria cidade do planalto baiano, vendendo à Cooperativa Agrícola, Prefeitura e ao maior revendedor local, foram para o Hotel. À mesa, enquanto jantavam, a inquietação de Ovídio era observada por Hélio, que inquiriu sobre a razão de tanta pressa para não ter depois para onde ir, senão à missa das 20:00h.
- Vá lá você, meu irmão, e reze por mim, porque eu vou é mandar brasa com a Raimunda. Ela já comeu um dinheiro lascado com dois abortos e eu preciso desforrar.
- Aborto???
- É moça incubada. Os pais não sabem. Eu a  levei duas vezes para Jequié, onde uma fazedora de anjos ajeitou a coisa.
- Sinceramente lhe digo, rapaz - Hélio fez pequena pausa ao passar o guardanapo na boca - Não sei como um cara de princípios morais e religiosos como eu pode admirar um filho-da-puta como você! É... de fato você precisa de muita reza mesmo e eu vou logo para a Igreja, pois olhando para você me lembrei de uma quadrinha que decorei quando menino.
- De quem é a quadrinha chefe?
- Não sei quem é o autor. É de domínio popular. Ela diz assim:
"As almas de muita gente / São como um rio profundo / A face tão transparente / Mas quanto lodo no fundo"
- Ei,  chefe, veja se assim não fica melhor:
"A cama de certa dama / É de uma doçura profunda / Mesmo chafurdando na lama / Ainda fico com a Raimunda".
- Já notei, por diversas vezes, que quando o assunto é mulher, os sinais que caracterizam o "fácies erótico" sobressaem em você. Hélio queria continuar, mas foi interrompido por Ovídio.
- Que é isso agora, chefe? Dando uma de doutor para cima de mim. Eu também fui vendedor de laboratório e já li muita revista médica - Ovídio gozava com o modo grave com que Hélio lhe falava.
- É isso mesmo. Suas pupilas se dilatam, há maior atividade das glândulas lacrimais e isto propícia aos seus olhos um brilho característico. Você é sexo da cabeça aos pés!!!

- Chefe, tenho uma boa notícia para você. Vou-me casar.
- O que???
- O útero de Raimunda já está tão fino que a parteira desaconselhou raspar. Eu não entendo destas coisas, mas se o menino nascer, vou ter que assumir.
- Quero ser o padrinho - Hélio eufórico, pulou da cadeira e abraçou o colega, balbuciando, meio sem jeito - isto é ... quer dizer... se você quiser batizo o menino. E quando vai ser o casório?                                
- Ainda não sei, chefe. Depois destes cinco anos de trabalho não estou agüentando viajar. A cada 100 km tenho que descer do carro e me esticar no acostamento da estrada. Tenho uma dor desgraçada nas costas que me dá cãibra em todo o corpo. Acho que é bico de papagaio ou hérnia de disco. Até para trepar incomoda..
- Isto é o de menos, meu chapa. Com a aposentadoria do Chefe de Vendas, eu fui recomendado para a vaga e, em conseqüência, para a minha indico você e pronto... está tudo arranjado.
- O que?  Ficar sentado o dia todo em cima do rabo, latindo para a rapaziada trabalhar? Esta não, muito obrigado, chefe.
- Cuidado, rapaz, você está me chamando de cachorro - Hélio já sentado em sua cadeira com rodinhas nos pés, afastou-se da mesa com um leve empurrão, apertou um pouco o laço da gravata e, com certa pose que os anos de trabalho lhe deram, continuou: - Vida de viajante é para gente nova e você, quer queira quer não já é coroa e não está agüentando o repuxo. Está inclusive relaxando na cobrança, a ponto de ser notado pelo Gerente.  Ainda outro dia, examinando o Boletim de Contas a Receber, ele me pediu para "apertar" você mais um pouco, a fim de diminuir os atrasados de sua zona.
- Aquele puto não entende de nada - a ira repentina de Ovídio assustou Hélio - Ele é completamente oco. Se você o olhar pelo cu, vê os dentes dele lá na frente. É um incompetente jactancioso, vaidoso e só está no cargo porque é puxa-saco do General. Lembra político, salvador da pátria, que esculhamba com todo mundo, não faz nada e só pensa em aparecer com o trabalho da gente.
- Hei, caga-raiva, por que essa irritação toda?
Rindo, Ovídio descontrai-se mais um pouco cruzou as pernas e acendeu um cigarro, soprou forte a baforada sobre a chama do fósforo e começou, lentamente a explicar.
- Desculpe, chefe, é que  ando meio preocupado. O médico do INAMPS resolveu, após uma série de exames que não deu em nada, fazer uma punção na medula. Ovídio parou um instante pensativo, depois continuou: O desgraçado mencionou tanto nome bonito de doença que a gente poderia até batizar o menino com um deles - sponselastrose - escoliose - hiperlordose - hipercifose e outros.

Hélio, impaciente, nervoso, sem querer esperar o elevador, subia de dois em dois os degraus para o 3º andar do Hospital Português, dirigindo-se para o apartamento em que se encontrava Ovídio. No corredor encontrou o irmão de Ovídio, cuja esposa, ao seu lado, procurava disfarçar a angústia que lhe enchia os olhos de lágrimas.
Sufocado pela subida rápida da escadaria, fora de forma, Hélio de boca aberta, respirava em grandes haustos e, por fim, perguntou ao irmão de Ovídio.
- Como é que é? Como está ele ? O que disse o médico ?
Amparando-se no parapeito da janela, por onde jogou a baga do cigarro, o irmão de Ovídio confidenciou:
- Não há remédio. É um carcinoma gigantesco que apavorou o próprio médico. Vai do cóccix até a base do crânio. O médico quebrou vértebras em todos os segmentos da coluna: na cervical, dorsal, lombar e sacro. E cada vértebra quebrado o bicho estufava. Segundo ele essa doença tem mais de dez anos se formando. Estamos apenas aguardando a hora.
Hélio encostou-se na parede. Com mãos trêmulas procurava os cigarros e fósforos nos bolsos internos do paletó. Acendeu um. Deu outro para o irmão de Ovídio. Uma tragada funda, depois outra e mais outra, jogou o cigarro aceso no chão, esmagando-o com o salto do sapato. Ato contínuo entrou no apartamento.
- Fala bicho - Hélio sorria, saudando o amigo estendido, imóvel, no leito, tomando soro.
- Estou lenhado, chefe.
- Que nada, rapaz. Você ainda vai comer muita menininha - Hélio mentia.
- Chefe, só estou movendo os olhos e nada mais. Me lembrei até da piada que o Juca Chaves contou da Wilza Carla, em cima do amante magrinho.
Helio sorria e chorava. Furtivamente, fora das vistas do paciente, uma enfermeira injetava morfina no soro.
- Chefe, pegue na minha mão.
- Estou agarrado nela, desde que entrei, meu irmão - Hélio já não se controlava mais e chorava convulsivamente.
- Calma chefe, porque eu quero dois favores seus. O primeiro é me explicar como é a coisa do outro lado do vale das sombras - novamente minha mãe - e a outra...
- Sim, sim, qual é a outro? - Hélio bebia cada palavra de Ovídio, encostando o ouvido à sua boca.
- Tome conta do meu filho...
Hélio saiu à toda em busca do Padre do Hospital para ministrar a Unção dos Enfermos.
Quando retornou ao apartamento seu colega estava morto.

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