Esta coluna reúne crônicas inéditas de Menalton Braff.
Antes tarde do que nunca
Eram exatamente oito horas da noite quando estacionei o carro. Meu primo, vendo tudo meio fechado, ainda me perguntou: “Mas será que é aqui mesmo?” Eu também não tinha certeza, por isso tirei o convite e conferi. Estávamos diante da casa certa e na hora aprazada. Apertei a campainha e esperei. O silêncio e a demora eram de casa abandonada.
A gente estava para desistir quando a porta rangeu, e no oco escuro da sala apareceu, meio de esguelha, protegendo-se com a porta para esconder o traje sumário, o próprio aniversariante, meu amigo Adamastor. Com um sorriso amarelíssimo e um olhar de reprovação ele perguntou: “Então, gente, eu nem me aprontei ainda. Vocês não estão um pouco adiantados?”
Fiquei um pouco vexado, não por mim, casca grossa que nunca saiu do Brasil a não ser em giros muito curtos, destes que não deixam nem a gente se acostumar com os estranjas. Fiquei vexado foi por causa de meu primo, que chegou há duas semanas do Canadá, onde passou vários anos estudando. Ele, que não se lembrava mais de nossos costumes, me olhou interrogativo.
Resolvi a situação embaraçosa dizendo ao Adamastor que iríamos até o clube tomar uma cerveja. Ficasse sossegado. E realmente fomos. E tomamos uma, duas, perdi a conta de quanta cerveja tomamos. As cervejas que deveríamos tomar em homenagem a meu amigo Adamastor, naturalizado brasileiro e aniversariante.
A visão que meu primo trazia da vida era um pouco diferente, por certo, daquela que daqui ele tinha levado. Não posso dizer que concorde com ele em tudo o que me disse, mas há um ponto em que fui obrigado, eu, nacionalista roxo, a concordar: A sociedade humana é fruto de um pacto entre os
cidadãos, um acordo tácito que todos devem aceitar. E um dos itens fundamentais desse pacto é o respeito mútuo.
Eu que já andei lendo mesmo que superficialmente meu Montesquieu, me lembrei imediatamente dos Trogloditas. Cada um faz o que quer, sem se importar com o outro. Ele que se dane. Se eu estou bem, o mundo que se foda. Até o momento em que o mundo fodido começa a se voltar contra mim também. Eram reflexões que fazia em silêncio enquanto meu primo discursava lá com seu sotaque.
Chegando novamente à casa agora iluminada e barulhenta do Adamastor, meu primo, que nunca foi muito bom de bebida, segurava meu braço, muito sério, e dizia que pontualidade, primo velho, pontualidade é sinal de respeito pelos semelhantes.
O Adamastor nos recebeu com olhar de surpresa e exclamou: “Mas isso são horas, minha gente! Pensei que vocês não viessem mais!”

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